Ao chegarem na casa de Yuki, a garota o convida para entrar, sua voz um sussurro de folhas ao vento. Caleb, com um coração que batia como tambores distantes, hesitou na soleira da porta. “E Sakura?”, ele perguntou, a imagem de sua irmã mais velha pairando como uma sombra em sua mente. “Ela não está”, Yuki respondeu, um rubor de pétalas de cerejeira tingindo suas bochechas. “Só nós.” Com um passo que parecia cruzar um abismo, Caleb entrou, cada batida de seu coração ecoando em seus ouvidos. A ansiedade era uma maré crescente, inundando seus sentidos. Yuki, com a inocência de um céu sem nuvens, não via sombras na proposta de estarem a sós. “Vamos subir?”, ela perguntou, e ele, como um náufrago à deriva, aceitou. No quarto, sentados na cama, Yuki falava de trabalhos e tarefas escolares, mas Caleb estava perdido em um mar mais profundo. Ele a observava, cada detalhe dela era um farol, o cheiro dela o atraia, a pele branca, a forma como a luz dançava em seus cabelos. E como seus olhos castanhos brilhavam. Ele viu seu olhar descer para seu corpo. Enquanto ela discorria sobre equações e ensaios, Caleb navegava por águas de desejo e excitação, cada palavra dela uma onda que quebrava distante em sua praia de pensamentos. “Caleb?” Yuki percebe que seu namorado parece estar distante, ou pelo menos nem presta atenção no que ela está falando. “O-oi.” Ele responde de forma apressada, seu rosto corando. “Você ouviu o que eu disse?” Ela o olha com um olhar confuso.
“E-eu estava distraído” Ele admite desviando o olhar, ele engole a saliva seca em sua garganta e continua “Yuki…vo-você me ama?” Caleb pergunta constrangido. “Claro que sim, seu bobo” Yuki responde com um sorriso no rosto. Caleb parece sério agora, porém constrangido. “Eu não quero falar sobre escola, Yuki.” Caleb se inclina em direção a Yuki e os lábios deles se tocam, um beijo que começa tímido, mas logo vai se aprofundando cada vez mais. Ele consegue sentir o cheiro dela, e isso está mexendo com todos os sentidos do seu corpo. Ele sobe em cima dela na cama, e a beija no pescoço, começando a lamber sua pele macia. Algo novo desperta dentro dele. O gosto de Yuki…o cheiro… por que… ela parece…tão…saborosa? Ele sente a vontade de morder o pescoço dela subir cada vez mais. “Caleb..” Yuki murmura. “N-não podemos fazer isso agora… Minha irmã vai chegar a qualquer momento” Yuki diz com um gemido baixo. Ouvi-la gemer mexe com todos os sentidos do corpo de Caleb, que a responde com a voz baixa “Não vamos demorar, eu prometo”. Caleb passa suas mãos lentamente nos seios de Yuki. Ela fecha seus olhos tomada pela vergonha e pelo desejo. “Ah…Caleb”. Ela geme. E ele afunda seu rosto mais em sua pele. Ele continua a lamber ela. Uma descarga de adrenalina passa pelo corpo de Yuki ao sentir a língua gelada de Caleb passando em seu pescoço.
Agora, ele está lutando contra o desejo de fazer algo que não gostaria. O cheiro da Yuki, seu corpo quente, seu gosto embriagante, tudo estava tornando mais difícil de manter o controle. Ele abre a boca lentamente, ele quer tanto morder ela agora. A sua pequena coelhinha, a sua pequena e deliciosa presa. Ele sente desejo de mordê-la com tanta força agora. Mas, ao perceber o que ele está prestes a fazer, ele se solta dela e se afasta rapidamente. Correndo para a janela para respirar um pouco de ar puro. Ele tenta se acalmar. Ele quase fez isso mesmo? Ele quase mordeu Yuki? Caleb enfia a cabeça para fora da janela, tentando desesperadamente respirar fundo e buscar um pouco de ar puro para seus pulmões. Sua vontade de fazer o impensável estava enorme. “Caleb?” A voz doce e meiga de Yuki parece trazê-lo de volta à realidade. “O que foi, Caleb?” Ela pergunta preocupada. “Você está tremendo”
“Yuki…eu…quase fiz algo horrível.” Caleb admite. Mas o olhar da garota parece confuso. “Como assim?” Ela pergunta sem entender, se aproximando dele devagar, ele recua como um animal ferido. “F-fica longe de mim”. Ele a adverte. “Por que?” Ela pergunta aflita. “E–eu estou me sentindo…fora de controle agora…” Caleb responde com sinceridade. Mas, Yuki fica sem entender o porquê ele está agindo dessa maneira. “O que foi Caleb?” Ela se aproxima mais dele. Até que ela está bem próxima do seu corpo. Caleb está suando frio. “Não precisa ficar com medo, vamos fazer isso juntos”. Yuki acaricia os cabelos lisos de Caleb. Ele está tendo alguma reação estranha. Seus desejos primitivos se misturando com sua excitação e confundindo tudo em sua cabeça. Yuki desce suas mãos para tocá-lo. E como um estímulo primitivo e selvagem, Caleb morde o braço de Yuki. “Ai” Yuki grita e geme de dor. O sangue começa a pingar no chão do seu quarto e Caleb rosna igual um animal selvagem. Ele agarra Yuki e sua mordida aprofunda ainda mais em seu braço. Yuki cai de joelhos no chão ao sentir a dor aguda da mordida. “Caleb para! isso doi!” Yuki chora.
Caleb parece recuperar a consciência no momento em que ele vê as lágrimas de Yuki. Ele a solta imediatamente, e se afasta ainda mais. E ela segura o braço chorando de dor. “Y-yuki…me perdoa…eu…eu não sei o que me deu… eu… eu senti um desejo estranho de morder você...” “O que foi isso Caleb? Por que você fez isso?” Yuki perguntou chorando, suas palavras atropeladas enquanto segurava firme o braço ferido, tremendo de medo. “E..eu não sei… eu … só… é difícil controlar meus sentimentos e desejos quando estou perto de você… e a… a besta que dorme dentro do meu corpo… às vezes quer acordar… e eu não sei se eu quero beijar… tocar você… amar você… ou se eu quero te devorar…” Caleb admite tremendo, sua expressão é de terror e pânico. Ele não acredita que machucou Yuki. “Me perdoa…me perdoa Yuki…” Caleb fala desesperado. Yuki parece relutante em desculpar seu namorado. “Como assim, a besta…? Você…você não estava curado?” Ela perguntou sem entender nada. Caleb está tão confuso quanto ela.
“Eu estou…eu…eu estava…? É difícil explicar… desde que… começamos a ficar mais íntimos…eu não estou conseguindo segurar minhas emoções… meus sentimentos… meus desejos… tudo está mexendo comigo…” Caleb tem uma expressão de profunda angústia no rosto agora, ele parece estar sentindo muita culpa e remorso. Ele corre até o banheiro e volta rapidamente trazendo um pouco de papel higiênico e pressionando na mordida. “Me desculpa…me desculpa”. Ele não parava de repetir. “Eu sinto muito… eu não teria machucado você se eu não fosse… essa…essa aberração…” A voz de Caleb agora é amarga e triste. A expressão de Yuki é de compreensão e carinho. “E..eu…eu… tudo bem…eu sou sua namorada… eu aguento…” Ela responde se acalmando aos poucos, tentando digerir o que acabou de acontecer. Yuki sabe da natureza de Caleb. Ela sabe que ele é um lobisomem, e ela sabe que ele está sofrendo agora. “Eu …não quero que você tenha que aguentar nada…Eu…eu preciso me controlar…eu…eu não posso simplesmente me entregar aos meus desejos estranhos…eu…eu não espero que você aguente isso… ou…ou que queira continuar a namorar comigo… Eu… eu vou entender se você nunca mais quiser falar comigo de novo!” A voz de Caleb saiu rouca e trêmula, quase um lamento de aborrecimento. Ele abaixa a cabeça, parece envergonhado.
“Não!” Yuki respondeu convicta. “Não é assim que um relacionamento funciona… a gente… tem que conversar…” “Eu..eu sei..eu…eu não posso te machucar…” Caleb parece apavorado agora. “Eu posso te perguntar uma coisa?” Yuki o encara nos olhos. Ele apenas faz que sim com a cabeça em sinal positivo. “Você estava pensando coisas pervertidas para fazer comigo…quando…você subiu em cima de mim…na cama agora a pouco? Yuki perguntou, sentindo seu rosto ficar mais vermelho. “Eu…eu preciso falar para você…quando… quando eu me sinto excitado…eu… eu fico com uns desejos estranhos… eu… eu não posso me deixar levar por sentimentos fortes… se eu fico com raiva.. com dor.. com… te..tesão…eu acabo… me perdendo em minha mente… é difícil explicar… é como se isso acordasse a besta que está dormindo dentro de mim…” Caleb admite constrangido. “Eu … eu …só queria um momento íntimo com você…eu… eu não queria te machucar…” Yuki estava prestes a responder Caleb, mas, de repente, a porta da frente se abriu e Sakura, a irmã mais velha de Yuki, entrou em casa. "Yuki, cheguei," ela gritou do andar de baixo. Yuki e Caleb, que estavam lá em cima, paralisaram ao ouvir a voz de Sakura. Eles estavam esperando a volta dela, mas a chegada repentina os pegaram desprevenidos. Yuki trocou um rápido olhar com Caleb, um entendimento silencioso passando entre eles. Sabiam que precisavam se recompor rapidamente antes que Sakura subisse.
Sakura chamou por Yuki novamente, e como não obteve resposta da irmã mais nova. Subiu em direção ao seu quarto. Ao abrir a porta, Sakura se deparou com uma cena inesperada: Caleb, o filho do seu amigo Taishou, estava sentado na cama de Yuki sua irmãzinha. A presença de Caleb no quarto da irmã era estranha, e Sakura não pôde deixar de sentir uma pontada de apreensão. "Caleb?" perguntou Sakura, sua voz carregada de surpresa. "O que faz aqui em cima sozinho com a Yuki?" Caleb e Yuki coraram rapidamente, suas bochechas ficando da cor de tomates. O silêncio tomou conta do quarto, carregado de um suspense quase palpável. Mas os olhos de Sakura, perspicazes como sempre, foram parar nas mãos de Yuki, que estavam escondidas atrás de seu corpo. Ao forçá-la a mostrar as mãos, Sakura se deparou com uma marca avermelhada no pulso de sua irmã, uma marca inconfundível de mordida. O instinto protetor e materno de Sakura se acendeu como um vulcão em erupção. Ela correu em direção à irmã, seus olhos cheios de preocupação. "Yuki, o que aconteceu?" ela perguntou, sua voz carregada de urgência. "Quem te mordeu?" Caleb, que até então permanecia em silêncio, gelou até a alma. Ele não sabia o que dizer, nem como explicar a situação. Yuki, sentindo o peso da situação, decidiu mentir para proteger Caleb.
"Foi só um cachorro, maninha," ela disse, com a voz trêmula. "Eu estava brincando com ele na rua e ele me mordeu. Por isso, o Caleb estava aqui, ele me ajudou." Sakura olhou para Caleb e Yuki, seus olhos perscrutadores buscando a verdade em seus rostos. Uma dúvida pairava no ar, e ela sabia que algo não estava certo. "Yuki," ela disse, sua voz firme, "eu te conheço muito bem. Você está mentindo para mim. Me diga a verdade, o que aconteceu?" Yuki, pressionada pela irmã e com o peso da culpa em seus ombros, finalmente confessou. Ela contou a Sakura sobre o encontro secreto com Caleb, sobre seus sentimentos por ele e sobre o beijo que os levou àquela marca na sua mão. Sakura ficou chocada com a revelação. Ela não sabia que sua irmã mais nova estava se envolvendo tão intimamente com Caleb, e menos ainda que eles se envolveriam em algo até chegar a esse ponto. Sua mente se inundou de preocupações e questionamentos. "Yuki," ela disse, sua voz séria, "eu preciso conversar com você seriamente sobre isso. Sakura olhou para Caleb, “Vai embora, Caleb, você precisa ir para a casa agora" “P-por favor, me perdoe…eu não queria machucar a Yuki…eu…Sakura…você sabe que eu amo a Yuki…eu…apenas não consegui me controlar…eu…” Caleb gaguejava buscando explicação para o que ele tinha feito, mas nenhuma desculpa parecia boa o bastante. “Vai pra casa, Caleb!” Sakura repetiu com um tom mais duro. Caleb saiu do quarto cabisbaixo, o peso da situação pairando sobre ele. Sakura, por sua vez, ficou sozinha com Yuki. Seus pensamentos borbulhando em um mar de confusões. Tentando entender o que havia acontecido e buscando soluções para proteger sua irmã e lidar com a situação delicada que se apresentava.
Quando Taishou chegou em casa, a porta rangeu suavemente ao abrir. O silêncio da sala era interrompido apenas pelo tique-taque do relógio e o suspiro pesado de Akane, que aguardava ansiosa no sofá. A luz fraca da lâmpada refletia em seu rosto, revelando uma preocupação que Taishou conhecia bem. Ele se aproximou, depositando um beijo em sua testa, tentando decifrar o enigma por trás de seus olhos aflitos. “O que aconteceu, Akane? Por que essa expressão?” perguntou Taishou, mantendo a voz serena, mas sua mente já antecipava tempestades.
Akane hesitou, medindo suas palavras como quem escolhe cuidadosamente as peças de um jogo de xadrez. “Em uma escala de zero a dez, quão tranquilo você está agora?” Taishou riu baixinho, um som que mais parecia um rosnado contido. “Cem,” ele respondeu, “Estou sempre calmo, você sabe o porquê.” Ela suspirou, um prelúdio de más notícias. “Não sei se vai continuar assim depois do que tenho para te contar.” Ele se sentou ao seu lado, desfazendo o nó da gravata com movimentos lentos, quase rituais. “Fale,” disse ele, a voz ainda um mar de calmaria. “Sakura ligou hoje…” Akane começou, e então, como um raio cortando o céu noturno, a notícia caiu. “Caleb mordeu a Yuki.” O mundo de Taishou estremeceu, a calma antes inabalável agora era um vaso prestes a se quebrar. Seus olhos, por um instante, incendiaram-se em vermelho, uma fera despertada pela urgência do sangue. “Ele fez O QUÊ!?” A pergunta saiu mais como um rugido, e ele se levantou, cada passo uma promessa de tempestade em direção ao quarto do filho. Akane, rapidamente, interceptou-o, segurando-o com as mãos que tremiam. “Tai, por favor! Ele já está se sentindo péssimo. Não seja duro com ele!”
Taishou inspirou profundamente, buscando nas profundezas de sua alma a calma que jurara manter. “Tá, eu vou tentar. Mas isso é uma conversa de lobo para lobo.” E assim, com o peso do mundo nos ombros, Taishou caminhou para enfrentar não apenas seu filho, mas também a própria besta que habitava dentro de si. Quando Taishou entrou no quarto, foi como se mergulhasse em um abismo sem estrelas. A escuridão o envolveu, as luzes apagadas e as cortinas seladas contra o mundo exterior. Caleb, seu filho, havia se refugiado em um universo particular, isolado pelo silêncio e pela sombra. Com um movimento suave, Taishou fechou a porta, rompendo o pacto com a penumbra ao acender as luzes. Seus olhos se ajustaram e encontraram Caleb deitado na cama, fones de ouvido como escudos contra o ruído do mundo, o volume tão alto que parecia querer afogar não só a música, mas também os próprios pensamentos. O rosto de Caleb era um mapa de emoções turbulentas, marcado por lágrimas já secas e olhos edemaciados de choro antigo. Era evidente que ele havia navegado por um oceano de tristeza muito antes de seu pai chegar. Com passos medidos, Taishou aproximou-se, a paciência como sua bússola, e sentou-se ao lado do filho na cama retirando seus fones delicadamente. Caleb levantou o olhar para o pai, mas suas palavras se perderam no caminho.
Taishou inalou profundamente, buscando nas profundezas de seu ser a calma que precisava. “Que merda aconteceu?” A pergunta escapou, tingida de irritação, mas ele lutava para manter a tempestade interna sob controle. Caleb, com uma franqueza cortante, confessou: “Eu mordi a Yuki, eu não consegui me segurar, eu sou um idiota!” As palavras, carregadas de pesar e culpa, pairavam no ar, um testemunho da luta interna que Caleb enfrentava. Por quê?” Taishou pressionou, sua voz um fio tenso de contenção. Caleb, com um olhar que misturava desafio e desespero, ergueu-se na cama. “Não há uma razão profunda, exceto… sou um lobisomem. Perdi o controle, simples assim. Um momento estava tudo bem, no outro, o sangue dela estava em minha boca.” A frustração em sua voz era palpável, como se cada palavra fosse uma pedra em seu estômago. Taishou exalou um suspiro que carregava o peso do mundo. “A besta se fortalece com emoções intensas, com sentimentos que você não domina.” A curiosidade tingia sua pergunta seguinte. “O que vocês estavam fazendo?” Caleb respondeu com um riso amargo. “Eu tentava ter um momento íntimo com minha namorada, até que meu lado selvagem decidiu aparecer.” Ele pausou, a ironia cedendo lugar à dor. “Yuki, sempre compreensiva, tentou me consolar. Mesmo eu pedindo para ela se afastar… E então… aconteceu.” “Você provou sangue humano novamente…” Taishou murmurou, mais uma constatação do que uma pergunta. “Eu vou perder o controle de novo?” Caleb perguntou assustado. Ele temia que aqueles dias de sua infância voltassem novamente para assombrá-lo. O descontrole, o desejo incontrolável de carne e sangue humano. A besta gritando dentro de sua cabeça.
“Não” Taishou respondeu calmamente. “Eu tive que beber muito sangue para conseguir ativar minha forma lupina novamente” Taishou admitiu com um encolher de ombros que não escondia sua turbulência interna. “Eu não acho que você vá perder o controle só por causa de um pouco de sangue da Yuki…mas…talvez isso comece a mexer com você”. Taishou finalizou seus pensamentos. “Como eu posso namorar uma humana se eu luto constantemente entre o desejo sombrio e a excitação?” Caleb perguntou. “É tão difícil saber se o que eu sinto por ela é amor, ou se eu só quero arrancar a pele de seus ossos…” Admitiu, revelando um desejo sombrio que estava guardado dentro de si. “Não brinque comigo, garoto. Eu implorei para que se controlasse.” A repreensão de Taishou veio imediatamente, era firme, mas não sem preocupação. “Você não pode deixar a besta retornar!” Ele disse irritado. Caleb enfrentou o pai com um olhar acusador. “E você??? Com que direito o senhor tem de me julgar?? Olhe para você! Cheio de prata na pele para manter a besta controlada QUE VOCÊ DECIDIU ACORDAR ! E você fala para mim que eu não devo deixar a minha acordar? Que moral você tem para falar isso pra mim, papai? Caleb encarou seu pai, os dois rosnavam um para o outro. O clima estava tenso subindo no quarto.
“Não é porque eu fiz uma escolha tola, que você precisa seguir meus passos.” Taishou disse com a voz firme. Caleb apenas completou: “Filho de peixe, peixinho é”. Taishou desviou o olhar do filho. Ele estava certo. Mas Caleb continuou. “A minha pelo menos, eu deixei adormecida. Eu tento controlar ela todos os dias! Mas e você? Por que você trouxe essa maldição de volta para você? Você não tem medo de machucar a mamãe?” Caleb continuou a destilar sua frustração ao pai. “Eu sou um adulto e posso tomar minhas próprias decisões imbecis e arcar com elas, você é um adolescente que nem entende direito o próprio corpo!” Taishou respondeu friamente. “Fodas, papai!” Caleb respondeu irritado. “Olha a boca, garoto.” Taishou o repreendeu. Mas Caleb continuou, levantando a voz e ameaçando chegar mais perto de um ataque de fúria. Ele levantou-se da cama e caminhou em círculos pelo quarto frustrado. “Por que eu tinha que nascer com isso?” Sua voz era um misto de raiva e angústia. “Eu não podia ser só um garoto normal??” Ele continuou. “Eu odeio isso. Odeio ter ferido a Yuki!!” Enquanto falava, os olhos de Caleb brilhavam com um vermelho intenso, reflexo de sua luta interna, um sinal de que a besta dentro dele clamava por espaço. Caleb derramou lágrimas. A dor e a frustração tomando conta de cada célula do seu corpo. Taishou observava, o coração pesado, enquanto seu filho batalhava com sua natureza mais sombria.
Com um gesto quase cerimonial, Taishou retirou um cordão de prata do próprio pescoço, e deslizou sobre a cabeça de Caleb. “Você vai precisar da prata para se manter firme,” disse ele, depositando o peso frio do metal sobre o filho. Caleb olhou para o cordão com uma mistura de frustração, irritação e confusão. “Não é justo. Por que isso voltou? E a poção de cura que mamãe preparou?” Taishou balançou a cabeça, seus pensamentos em uma tempestade silenciosa. “Voltou para mim porque fui um tolo, egoísta e imprudente,” admitiu com uma honestidade crua. “E para você, porque está enfrentando algo novo e desafiador. Sua besta está tentando te proteger.” Caleb soltou uma risada amarga, um som que não carregava humor, apenas cinismo. “Me proteger? Isso não faz sentido nenhum. Você também não sabe, não é?”. Você não sabe por que essa merda voltou. A pergunta era um desafio, um convite para a verdade. Taishou suspirou, o som pesado no ar carregado de tensão. “Eu sempre soube que não havia ‘cura’ para nossa condição… apenas algo para nos ajudar a resistir à transformação nas noites de lua cheia. Mas a besta… ela sempre esteve aqui, dentro de nós. Ela é parte de nós, a parte sombria de nossa alma. Não existe nem nunca vai existir uma forma de apagá-la.” O silêncio se estendeu entre eles, densos como a prata que agora repousava sobre Caleb. Era um lembrete tangível de sua herança, da luta eterna entre o homem e a fera, entre o controle e a selvageria. E enquanto Taishou observava seu filho, ele sabia que a verdadeira batalha não era contra a besta, mas sim, contra as fortes emoções dos sentimentos humanos.
“Eu nunca vou conseguir ter um momento íntimo com a Yuki sem querer feri-la, não é?” A voz de Caleb era resignada, aceitando um destino cruel. Taishou, no entanto, não estava pronto para deixar o filho se render à desesperança. “Claro que vai,” ele insistiu, a voz firme com uma promessa de esperança. “Você só precisa aprender a manter seus sentimentos sob controle para não perder o controle da besta dentro de você.” Caleb soltou uma risada amarga, o som carregado de cinismo. “É mais fácil falar do que fazer,” ele retrucou, a realidade da situação pesando sobre seus ombros como uma maldição ancestral. Taishou se aproximou, colocando uma mão no ombro de Caleb, o abraçando. “Eu sei que não é fácil. Eu mesmo, após anos de experiência, ainda sim, às vezes, eu perco o controle das minhas emoções. Mas não é impossível. “Você não está sozinho nessa luta.” A determinação em suas palavras era inabalável, um farol na tempestade que Caleb enfrentava. “Eu me sinto sozinho” Caleb encarou Taishou com uma intensidade que refletia a turbulência de sua alma. “Pai, nós somos os únicos que restaram? Existem mais… como nós por aí?” Sua voz tremia ligeiramente, revelando a profundidade de sua necessidade de não estar sozinho em sua maldição.
Taishou olhou para o filho, seus olhos carregados de uma sinceridade que não precisava de palavras. “Eu não sei, Caleb,” ele começou, a voz baixa e firme. “Não sinto o cheiro de outros lobisomens em Hinode. Mas isso não significa que não existam. O mundo é vasto e antigo, e nossa espécie… nós somos resilientes.” Taishou olhou para Caleb, uma lembrança dolorosa do seu passado ressurgiu para assombrá-lo, uma tapeçaria de memórias e medos. “Você se lembra do dia em que sua mãe morreu?” A pergunta era retórica, um prelúdio para a história que ele estava prestes a contar. Caleb suspirou, um som carregado de dor e lembrança. “Como eu poderia esquecer? Fomos forçados a fugir, a nos esconder como sombras entre as fendas do mundo. A igreja… eles não pouparam ninguém da nossa alcateia.” As palavras de Caleb eram como folhas secas, sopradas pelo vento de um outono eterno. Taishou assentiu, os olhos fixos no vazio. “Você tinha apenas cinco anos na época…Em 1347, na Pomerânia, na antiga cidade de Greifswald, houve um massacre. Lobisomens como nós foram caçados, perseguidos até o último suspiro.” Sua voz era baixa, mas cada palavra carregava o peso de séculos de segredos e sobrevivência. “Nem todos foram mortos…” Caleb suspirou. “Eu…você…Demétrio…” Nós sobrevivemos”.
“Demétrio, o ALFA da nossa alcateia, conseguiu sobreviver durante esses 700 anos após o massacre e a morte aos lobisomens” Taishou confirmou. “Mesmo que eu tenha sido forçado a tirar sua vida para realizar a poção de cura, a possibilidade de outros lobisomens existirem por aí permanece. Mas encontrá-los… não é uma tarefa fácil.” Taishou suspirou, a realidade da situação pesando sobre seus ombros largos. “Deveríamos tentar” Caleb insistiu com um olhar determinado. “Você é o novo ALFA agora… não é seu dever procurar por nossos irmãos perdidos?” “Quem carrega essa condição geralmente se isola, escondendo-se do mundo e dos caçadores que anseiam por nosso fim.” Taishou olhou para Caleb, seu olhar transmitindo uma mistura de tristeza e determinação. “Eu não acho que seja possível encontrar mais ninguém”.
“Mas não devemos perder a esperança. Nossa jornada é solitária, mas talvez não precisemos caminhar sozinhos para sempre.” Respondeu Caleb. “Talvez, se encontrarmos nossos irmãos perdidos, conseguimos lidar melhor com a besta, e talvez, eles tenham respostas que ainda não temos.” A conversa entre pai e filho era um rio de confissões e consolações, fluindo através do vale escuro de sua existência compartilhada. “Eu quero encontrar mais seres como nós…” Caleb disse, como um sussurro” Taishou encarou seu filho com determinação, ele sabia que a busca por seus irmãos perdidos era mais do que uma missão — era um chamado ancestral, um eco de sua própria essência selvagem. Taishou deixou o quarto de Caleb, cada passo ecoando o tumulto de seus pensamentos. A conversa que deveria ter sido um sermão transformou-se em algo mais profundo e urgente: uma busca por outros lobisomens, por aqueles que poderiam compartilhar suas experiências e sabedoria para ajudá-los a controlar a besta que rugia em seus corações. Ao retornar ao seu próprio quarto, encontrou Akane, sua esposa, sentada pacientemente na cama, uma silhueta de serenidade na penumbra. Seus olhos encontraram os dele, cheios de perguntas não ditas.
A conversa que tiveram foi um mosaico de confissões e preocupações. Eles falaram sobre o descontrole da besta, sobre a poção de cura que estava perdendo seu efeito e sobre os motivos que levaram Taishou a reativar sua besta e Caleb a atacar Yuki. “Eu pensei que tínhamos encontrado uma solução no passado,” Akane disse, suas palavras tingidas de tristeza. A incerteza em sua voz era um reflexo de sua alma, que se debatia com a impotência de não saber como ajudar seu filho e seu marido. As informações deixadas por Catarine, que outrora pareciam ser a chave para a paz, agora não eram suficientes. O que mais poderia ser? Taishou sentou-se ao lado dela, o peso dos séculos em seu suspiro. “Caleb quer buscar por outros como nós,” ele revelou em um sussurro. “Ele quer encontrar outros lobisomens.” Akane absorveu as palavras, seu olhar refletindo compreensão e um amor inabalável. “Encontrar outros como vocês dois?” A preocupação em sua voz era palpável. “Você se lembra do que aconteceu quando encontrou Demétrio? O lobo alfa? Como você acha que será um encontro se encontrarmos mais seres como vocês dois? Isso não é perigoso?” Taishou exalou um suspiro profundo, as sombras de um passado indesejado se agarrando a ele. “O encontro com Demétrio terminou da pior maneira possível,” ele admitiu, a dor clara em seu rosto. “Mas naquela época, fomos forçados à hostilidade. Eu bebi do sangue de Demétrio, Akane.” Ele hesitou, as próximas palavras pesando em sua língua. “Eu sou o novo lobo alfa agora. Não te contei, mas Demétrio tem me assombrado em meus pensamentos.” Akane, com os olhos arregalados pela surpresa, murmurou, “O pai de Kenji?” As conversas que Taishou parecia ter sozinho agora faziam sentido.
“Não estou sozinho desde que reativei a besta. Demétrio tem consumido meus pensamentos, me fazendo pensar em coisas terríveis,” Taishou confessou, a confirmação pesada em seu coração.
A revelação pairava entre eles, um espectro do passado entrelaçado com o presente, ameaçando o futuro que buscavam construir juntos. “Eu não quero acreditar que somos os últimos,” Taishou continuou, a esperança colorindo suas palavras. “Talvez haja outros, escondidos nas sombras, vivendo em segredo como nós.” Akane considerou a possibilidade, encontrando um conforto amargo na ideia de que não estavam sozinhos. “Então… vocês dois querem procurar conforto e sabedoria de outros como vocês?” Ela perguntou, mais para si mesma do que para Taishou. Ele assentiu, sua mão oferecendo um toque reconfortante no ombro de Akane. “Você não precisa fazer parte dessa busca. Eu já fiz você sofrer demais durante muitos anos,” Taishou disse, sua voz carregada de um amor e um remorso profundos. Akane olhou para Taishou, seus olhos refletindo a complexidade de sentimentos que apenas uma vida compartilhada poderia trazer. “Eu estive ao seu lado em cada passo desta jornada tortuosa,” ela disse suavemente. “E estarei com vocês nesta busca também. Não porque eu deva, mas porque é onde meu coração me leva.” Taishou sentiu uma onda de gratidão, misturada com uma pontada de culpa por tudo que Akane havia suportado. “Você sempre foi a luz que guiou meu caminho na escuridão,” ele respondeu, sua voz embargada pela emoção.