O jantar havia chegado ao fim, mas a tensão ainda pairava no ar. Taishou, com um olhar sério e inquisitivo, fixava o olhar em Caleb, que se encolhia na cadeira, os olhos transbordando tristeza. "Me diga o que realmente aconteceu", Taishou exigiu, sua voz grave e autoritária. "Por que você fugiu?" Caleb, com os olhos voltados para a mesa, murmurou: "Eu perdi o controle." Taishou se inclinou para frente, seus olhos penetrantes buscando a verdade nos olhos do filho. "Controle de quê?", ele questionou, a voz agora baixa e tensa. "Da besta", Caleb respondeu, sua voz quase inaudível. "Eu quase ataquei Sakura e os outros. Eu... eu tive que fugir."
Um gosto amargo se instalou na boca de Taishou. "Você comeu quantas pessoas?", ele perguntou, a voz carregada de raiva e frustração. Caleb o olhou com espanto, a incompreensão evidente em seu rosto. "Do que você está falando, papai?", indagou, os olhos arregalados. "Eu não matei ninguém." A irritação de Taishou aumentou. "Não brinque comigo, Caleb!", ele gritou. "Quantos humanos você matou?" Akane, percebendo a tensão crescente, interveio. Colocou a mão sobre o ombro de Taishou e o puxou para trás. "Calma, querido", disse ela, com um tom suave e tranquilizador. "Deixe Caleb se explicar." Virando-se para ele, acrescentou: "Caleb, meu amor, você precisa nos contar o que aconteceu. Você atacou alguém?" Caleb balançou a cabeça negativamente, lágrimas se acumulando em seus olhos. "Eu não fiz nada", declarou, a voz firme e convicta. "Fiquei na floresta a noite toda, lutando contra meus instintos. Desmaiei de exaustão." Akane e Taishou trocaram olhares confusos e intrigados. As palavras de Caleb pareciam sinceras, mas a realidade do massacre era inegável. Como isso poderia ser possível? Duas hipóteses se apresentavam: ou Caleb estava mentindo — o que era difícil de acreditar — ou havia uma nova ameaça, um novo lobisomem à solta na pequena cidade de Hinode.
A casa de chá da Haru era um refúgio aconchegante na cidade. Ao final da tarde, o aroma de chá verde e flores permeava o ar, enquanto amigos se reuniam ao redor da mesa redonda, os rostos iluminados pela luz suave das lanternas. Hinata, com um sorriso gentil, servia doces e café para seus amigos. Desde que terminou a escola, começou a trabalhar como garçonete no restaurante da mãe, colocando todo seu carinho em cada xícara e prato. Kenji, sempre impulsivo e direto, foi o primeiro a expressar seu espanto diante da revelação de Taishou. "Como assim, não foi o pirralhinho que fez o massacre? Vocês acreditam mesmo nisso?" Akane, com os olhos calmos, porém tristes, tomou um gole de café. "Eu confio em Caleb", afirmou, sua voz firme e convicta. "Ele não mentiria sobre isso." Sakura, com um olhar preocupado, mordiscava um pedaço de bolo enquanto observava a tensão no ar.
Ela mexia a torta com aflição: "Mas... se não foi Caleb... então isso significa que..." Os cinco amigos se entreolharam, e a frase ecoou em uníssono: "Tem outro lobisomem à solta." O silêncio que se seguiu era ensurdecedor. A revelação pairava no ar como uma nuvem negra, carregada de medo e incerteza. Taishou, perdido em pensamentos, ponderava sobre as implicações dessa nova realidade. "Se há outro lobisomem", disse ele, sua voz grave e preocupada, "então a cidade está em perigo." Hinata, sempre a mais otimista do grupo, tentou amenizar a tensão. "Nós vamos descobrir quem é", disse ela, sua voz tímida e esperançosa. "E vamos proteger a cidade." Kenji, com o punho cerrado, concordou. "Ninguém vai machucar nossos amigos", declarou, a determinação evidente em sua voz.
A noite caía sobre Hinode, e os amigos selaram um pacto de proteção e amizade. A ameaça de um novo lobisomem pairava sobre a cidade, mas a esperança e a força da amizade os guiavam em direção à luz, prontos para enfrentar os desafios que os aguardavam. Kenji, com um olhar sério e preocupado, chamou Taishou para um canto da casa de chá, longe dos ouvidos das meninas. "Você realmente acredita que existe outro ser como você rondando pela cidade?", perguntou, a voz baixa e tensa. Taishou suspirou, os olhos carregados de tristeza e incerteza. "Eu senti verdade nos olhos do Caleb", murmurou, hesitante. "E por mais que essa realidade me assombre, não pode ser totalmente descartada." Kenji assentiu, ciente da gravidade da situação. "Se for verdade...", começou, a voz se tornando um sussurro, "então a cidade está em perigo." Um silêncio momentâneo se instalou entre os dois amigos, enquanto ponderavam sobre as implicações dessa nova realidade.
Finalmente, Kenji quebrou o silêncio, a voz firme e resoluta. "Eu preciso te entregar algumas coisas", disse. "Venha comigo para minha casa." Taishou olhou para ele, surpreso e apreensivo. "Que tipo de coisas?", questionou, curioso. Kenji ergueu uma sobrancelha, um olhar de determinação nos olhos. "Armas", respondeu simplesmente. "E balas de prata. Venho fabricando-as nos últimos meses, e agora podem ser necessárias." Taishou engoliu em seco, a adrenalina começando a correr em suas veias. "Você acha que vamos precisar lutar?", perguntou, a voz tensa. Kenji não respondeu diretamente. Em vez disso, fixou o olhar em Taishou, seus olhos transmitindo uma mensagem clara e inabalável. "Se essa ameaça for real", disse, a voz grave e sombria, "ela precisa ser eliminada. Antes que a culpa recaia sobre Caleb ou sobre você." "Antes que algo machuque Akane ou Sakura." Taishou assentiu, concordando com a lógica implacável de Kenji. Ele sabia que a situação era perigosa, e que medidas drásticas precisavam ser tomadas. "Vamos", disse, sua voz firme e determinada. "Eu vou."
Taishou e Kenji se despediram das meninas, os semblantes sérios e determinados. Akane, com um olhar preocupado, questionou o noivo sobre o destino da dupla. "Onde vocês vão?", perguntou, a voz suave, mas firme. Taishou limitou-se a dizer que precisavam conversar a sós, sem dar mais detalhes. Observando a determinação nos olhos de Kenji, Akane assentiu compreensivamente. "Certo", disse, resignada. "Tenha cuidado e me ligue mais tarde." Taishou deu um beijo rápido em sua amada, seus lábios transmitindo uma mensagem de amor e segurança. Kenji desviou o olhar, visivelmente irritado. Em seguida, ele se juntou ao amigo, e os dois partiram em direção à casa de Kenji. Caminhando lado a lado em silêncio, a tensão pairava no ar. Em um momento de ousadia, Taishou decidiu questionar Kenji sobre seus sentimentos por Akane. "Você ainda a ama?", perguntou, a voz hesitante. Kenji permaneceu em silêncio por alguns instantes, os olhos fixos no chão. Finalmente, ergueu a cabeça e encarou Taishou com um olhar sincero e intenso. "Eu sempre vou amar Akane", declarou, a voz firme e convicta. "Eu a conheço desde os sete anos, a vi crescer e se tornar a mulher incrível que ela é hoje.
Eu a amo com todas as minhas forças, e esse amor jamais se apagará." Uma onda de ciúmes e insegurança tomou conta de Taishou. A antiga rivalidade entre os amigos ressurgiu, um fantasma do passado que ameaçava a paz do presente. "Mas você sabe que eu e Akane estamos noivos", retrucou Taishou, a voz tensa e carregada de emoção. "Ela me escolheu, e eu farei de tudo para fazê-la feliz." Kenji assentiu, reconhecendo a verdade nas palavras do amigo. No entanto, não podia negar seus próprios sentimentos. "Eu sei", disse, a voz triste e resignada. "Mas isso não significa que eu deixei de amá-la. O amor não é algo que se controla; ele simplesmente existe." Taishou, ainda incomodado com a confissão de Kenji, esforçou-se para manter a calma. "Você precisa superar isso", insistiu, a voz firme e autoritária. "Akane me ama, e eu a protegeria com todas as minhas forças." Kenji, compreendendo a angústia do amigo, se acalmou e abaixou o olhar. "Não precisa se preocupar, esquisitão...", disse, a voz sincera e arrependida. "Ela é a mulher que eu amo, e só quero que ela seja feliz." Um silêncio momentâneo se instalou entre os amigos, enquanto cada um ponderava sobre seus próprios sentimentos e a complexa teia de relações que os unia. Kenji, com um sorriso melancólico, quebrou o silêncio.
"Eu respeito a relação de vocês," disse ele, sua voz suave e amável. "Mas estarei sempre de olho, Taishou. Não me esqueci da promessa que fiz a você: você nunca pode ferir o coração da Akane." Taishou, reconhecendo a sinceridade do amigo, assentiu em concordância. "Jamais faria isso," respondeu, com firmeza. "Amo Akane com todo meu coração e vou dedicar minha vida a fazê-la feliz." Os dois amigos, unidos por um passado em comum e um amor compartilhado, seguiram em frente, prontos para enfrentar os desafios que os aguardavam. A amizade, a lealdade e o amor seriam testados, enquanto a sombra da ameaça pairava sobre a cidade de Hinode. A casa de Kenji refletia sua personalidade complexa: uma mistura de modernidade e ostentação, contrastando com a simplicidade que ele sempre pregou. A fachada imponente, com linhas retas e grandes janelas de vidro, revelava um interior luxuoso, decorado com móveis de designers famosos e obras de arte abstratas. Ao entrar, Taishou se sentiu desconfortável com a opulência do ambiente. Tudo era excessivo, desde os lustres de cristal até os tapetes persas, como se Kenji estivesse tentando compensar algo com sua riqueza material. Kenji, guiando o amigo pelo corredor, parecia completamente à vontade em meio ao luxo. Com um sorriso enigmático, ele girou a chave na fechadura do quarto, que era ainda mais impressionante do que a casa. As paredes, revestidas de madeira escura, destacavam uma cama king-size com dossel de veludo e um closet do tamanho de um apartamento. Tudo estava impecável e meticulosamente organizado.
Kenji se aproximou de um cofre embutido na parede e digitou a combinação com destreza. Ao abrir a porta de metal, revelou um arsenal de armas de fogo, facas e outros objetos que fariam inveja a qualquer militar. Com um gesto teatral, Kenji pegou uma pistola Taurus PT 938 e a entregou a Taishou. "Sabe atirar, esquisitão?" perguntou, um sorriso zombeteiro nos lábios. Taishou olhou para a arma com uma mistura de repulsa e fascinação, lembrando-se de uma vida passada, onde a violência era a única lei. "Sei," declarou friamente, sua voz carregada de determinação.
"Ótimo," respondeu Kenji, abrindo uma gaveta do cofre para revelar várias balas feitas de prata. Ele cuidadosamente as colocou em uma caixa de madeira e a entregou a Taishou. Este pegou a caixa com as mãos trêmulas. A sensação da prata contra sua pele causou um arrepio que percorreu toda a sua espinha. "Não vai amarelar, esquisitão," Kenji provocou com um sorriso brincalhão. Taishou retribuiu o sorriso, mas seus olhos estavam sérios. Sabia que a situação era grave e que precisaria usar todas as suas habilidades para proteger sua família e amigos. O coração de Taishou batia acelerado enquanto Kenji o guiava de volta para a saída. A casa, antes um refúgio seguro, agora se tornava um local de tensão e medo. Um movimento furtivo na sala chamou a atenção de Taishou. Ele girou o corpo rapidamente e se deparou com uma figura imponente que se aproximava lentamente. Era um homem alto e musculoso, com ombros largos e postura ereta. Seus olhos azuis brilhantes revelavam inteligência e perspicácia, um olhar penetrante que poderia ser intenso e observador, mas também caloroso e gentil. Os cabelos pretos como a noite, cortados curtos e penteados para trás, tinham alguns fios grisalhos nas têmporas, um sinal de sua maturidade e experiência. Usava um roupão vermelho, uma obra de arte em si mesmo, feito de seda pura. A cor vibrante emanava poder e sofisticação, enquanto detalhes dourados luxuosos adornavam o tecido. Um dragão estilizado, símbolo de força e fortuna, era bordado em dourado na parte de trás, e os punhos e a gola eram decorados com finas linhas douradas.
Em suas mãos, ele segurava uma taça de vinho fino, balançando o líquido vermelho como sangue enquanto se aproximava de Taishou. Seus olhos, penetrantes e frios, fixaram-se nele com uma intensidade que o fez gelar por dentro. "É um pouco tarde para receber visitas, não, filho?" A voz grave do homem ecoou pela sala, carregada de autoridade e desconfiança. Taishou arregalou os olhos, o sangue congelando em suas veias. O olhar daquele homem, tão familiar e ao mesmo tempo tão estranho, o transportava para um passado longínquo, para uma vida que ele pensava ter deixado para trás. Quando os olhos do homem se encontraram com os de Taishou, um sorriso sinistro se formou em seus lábios. "Olha só, que surpresa agradável," disse, sua voz rouca e gélida. Kenji, alheio à tensão mortal que pairava no ar, se aproximou do pai e do amigo, tentando amenizar a situação. "Desculpe, pai," disse, nervoso. "Estávamos de saída, não queríamos acordá-lo. Taishou só veio aqui buscar algumas armas e balas." O homem, ignorando a explicação do filho, dirigiu-se a Taishou com um sorriso malicioso. "Não vai me apresentar seu amigo, Kenji?" perguntou, sua voz carregada de ironia. Kenji, sem perceber a hostilidade implícita na pergunta, apresentou os dois. "Claro, pai. Este é Taishou Seiji, o esquisitão que comentei."
Taishou, paralisado, encarou a mão estendida de Akira, incapaz de se mover ou pronunciar uma palavra. Kenji, observando a tensão no ar, perguntou, confuso: "Vocês já se conhecem?" Akira, com um olhar gélido fixado em Taishou, respondeu de forma áspera: "Não, meu filho. Isso é impossível, a não ser que seja de outra vida." Taishou encarou Akira com uma mistura de medo e incredulidade, seus olhos vasculhando o rosto do homem em busca de alguma pista, alguma lembrança que confirmasse sua suspeita. Ao se cumprimentarem, seus dedos se entrelaçaram em uma breve, mas intensa demonstração de força. Taishou não piscava, seus músculos rígidos como cordas de violão. A cada segundo que passava, a certeza se tornava mais forte: Akira era ninguém menos que Demétrio, seu melhor amigo de uma longa vida passada, o homem que considerava um irmão.
O homem que lhe transferiu a maldição da besta. O lobo alfa. O passado, como um fantasma ressuscitado, voltava para assombrá-lo. As memórias de uma vida que pensou ter deixado para trás irromperam em sua mente com força total. Demétrio, o guerreiro implacável, agora era Akira, um homem com um passado obscuro e um olhar carregado de segredos. Taishou mal podia acreditar no que via. Sua mente, confusa e atordoada, lutava para processar a avalanche de informações que se abatia sobre ele. Como era possível? Demétrio estava vivo? E como ele se tornara Akira? E por que justo o padrasto de Kenji? Tantas perguntas rodeavam sua mente, e era engraçado como o fio do destino tinha sua própria maneira cruel de se desenrolar. Um turbilhão de perguntas girava em sua cabeça enquanto tentava encontrar uma explicação para a cena surreal que se desenrolava diante de seus olhos. Kenji, observando a troca de olhares carregados de significado entre os dois homens, sentiu que algo importante estava acontecendo. Uma intuição o levou a questionar Taishou: "O que está acontecendo, Taishou? Vocês se conhecem?" Taishou, ainda em choque, hesitou por um momento antes de responder. As palavras se formaram em sua garganta com dificuldade, carregadas de uma emoção que não conseguia conter. "Sim," disse, sua voz baixa e hesitante. "Nós nos conhecemos. De outra vida." Kenji, confuso e intrigado, olhou para os dois homens, esperando uma explicação. Akira, com a tranquilidade de um predador experiente, pediu ao filho que trouxesse uma garrafa de vinho. "Essa conversa," disse com um sorriso malicioso, "será deveras interessante." Kenji, sempre obediente ao pai, curvou-se em respeito e se retirou da sala, deixando os dois homens a sós.
O silêncio era ensurdecedor, carregado de uma eletricidade que percorria o ar. Taishou, com a voz baixa e hesitante, sussurrou: "Demétrio... você está vivo." Akira encarou Christian com seus olhos penetrantes, um brilho sinistro refletindo em seu olhar. "Olá, Christian", disse ele, sua voz calma e controlada. "É bom ver um velho amigo." Um tremor percorreu o corpo de Taishou. A voz de Demétrio, tão familiar e ao mesmo tempo estranha, o transportava para um passado que acreditava ter deixado para trás. "Sente-se", Akira convidou, gesticulando para o sofá de couro na sala. "Vamos beber." Taishou obedeceu, sentindo-se como um rato hipnotizado por uma cobra, a tensão em seus músculos evidente e os nervos à flor da pele. Kenji retornou à sala com a garrafa de vinho favorita de seu pai. Ele serviu os dois homens generosamente, a curiosidade estampada em seu rosto. "Então, vocês dois vão me contar o que está acontecendo?", exclamou Kenji, sentando-se ao lado de Taishou. Akira deu um gole de vinho, fixando os olhos em Taishou. "Esta é uma história longa, meu filho", disse, sua voz carregada de mistério. "Uma história que começou em outra vida, em um mundo muito diferente do que vivemos hoje." Taishou assentiu, seus olhos ainda fixos em Akira.
O homem, com um sorriso enigmático, balançava suavemente sua taça de vinho antes de tomar um gole. "Achei engraçado", começou, "quando meu filho, Kenji, me pediu ajuda para fabricar balas de prata. Desde o incidente do festival da lua, eu me pergunto quantos de nós ainda estão perdidos por aí." Ele sorriu. "Mas encontrá-lo, Christian, foi uma surpresa muito agradável." "Demétrio..." Taishou rosnou, cerrando os punhos. As palavras de Akira atingiram-no como um raio, e ele olhou fixo nos olhos de Kenji, a traição corroendo seu corpo. "Você sabia!", questionou, sua voz carregada de raiva e decepção. Kenji, confuso e atordoado, não entendia o tom ríspido do amigo. "Sabia do quê, Taishou? Do que vocês dois estão falando, pai?" Akira, com uma voz calma, mas imponente, interveio: "Não seja tão duro com meu filho, Christian." Um sorriso macabro se formou em seus lábios. "Christian? Demétrio?" Kenji olhou para Taishou, os olhos arregalados de surpresa. "O que significam esses nomes?" Ignorando a confusão do filho, Akira continuou: "Ele ainda não sabe dos detalhes mais sombrios sobre seu velho padrasto." Taishou, agora com a voz firme e determinada, fixou seus olhos em Akira. "Seu padrasto é um lobisomem, Kenji."
Kenji ficou boquiaberto, com o sangue gelado nas veias. "O quê? Isso é impossível! É verdade isso, pai?" Akira assentiu, um brilho sinistro nos olhos. "Sim, meu filho. Eu sou um lobisomem, e não sou um vira-lata comum como seu amigo; eu sou um alfa!" Kenji se recusava a acreditar no que estava ouvindo. Seu pai, o homem que sempre admirou e respeitou, era um monstro? "Mas... por quê?", perguntou, a voz trêmula. "Por que você nunca me disse?" Akira suspirou, a tristeza em seus olhos contrastando com a frieza de sua voz. "Tive meus motivos, Kenji. Motivos que eu explicarei em breve. Mas agora, precisamos nos concentrar em seu amigo." Ele se virou para Taishou, os olhos penetrantes fixos nos dele. "Christian", disse, "temos muito a conversar." Taishou, irritado, questionou: "Conversar? Você foi o responsável pelas mortes do massacre há três dias, não foi?" "Você não mudou nada, Demétrio." Kenji, incapaz de suportar o peso da verdade, virou o vinho de seu copo de uma vez. Um sentimento de traição, angústia e tristeza tomou conta de seu corpo. Ele jogou a taça no chão, manchando o carpete caro, e correu para seu quarto, lágrimas nos olhos. Akira balançou a cabeça, estalando os lábios em desaprovação. "Olha o que você fez, Christian. Feriu os sentimentos do meu filho e ainda manchou meu carpete caro. São duas coisas imperdoáveis." Em seguida, abriu a boca em um sorriso macabro, revelando presas afiadas e caninos pontudos, os olhos azuis brilhando lentamente com uma chama intensa. "Me irrita que você esteja comendo minhas presas. Só há espaço para um alfa nessa pequena cidade." Taishou fechou os olhos, o rosto firme em um desafio. Deu um gole no vinho e olhou para seu velho amigo. "Primeiramente, Demétrio, eu nunca pedi para você me passar essa maldição horrível. Você não sabe quantas vezes desejei dar fim a esse sofrimento quase eterno.
E segundo, mas não menos importante, eu não devoro humanos. Já superei esse ritual de fraqueza da nossa espécie." Akira, irritado, inclinou-se para trás na poltrona. "Que áspero, velho amigo. Eu quis lhe dar um presente: a vida quase eterna, a força. Eu lhe dei a besta. E é assim que você me agradece?" Ele rosna. "Se não é você, ao caçar em minha área, quem é?" Taishou respondeu com calma: "Meu filho. Ele é o lobo que atacou a cidade na noite do festival da lua cheia." "Seu filho? Uma criança? Patético. Não tente me enganar." Taishou insistiu: "É verdade. Caleb tem tanto poder quanto eu, até mais, mesmo sendo tão jovem." "Escute, Demétrio, eu não desejo brigar por território. Na realidade, ver você me deixa muito feliz." Akira arqueou a sobrancelha. "Feliz? Prossiga."
Taishou tentou explicar: "Eu conheci uma garota neste tempo moderno. Seu nome é Akane Hiromi. Ela é a reencarnação da mulher que amei por muito tempo, Catarine Sastre, com quem tive meus dois filhos, Caleb Sastre e Derik Sastre." Ele suspirou, tentando afastar a dor de uma história que o atormentava. "Derik foi esquartejado em praça pública, e Catarine foi atiçada ao fogo, condenada a arder na fogueira. Eu demorei 700 anos para encontrá-la de novo. Agora, em Akane. Eu só desejo viver com ela e meu filho Caleb. Não quero mais a besta." Akira olhou-o com ceticismo: "Você acha mesmo que pode se livrar tão facilmente assim da besta?" Taishou o interrompeu: "Catarine acreditava em uma poção de cura, uma que só consigo fazer com um ingrediente que eu acreditava ser impossível: seu sangue. O sangue do lobo alfa." Akira arqueou as sobrancelhas, mas não interrompeu o amigo. "Por favor, Demétrio. Me dê um pouco do seu sangue. Assim, poderei viver feliz com Akane e meu filho Caleb. Poderei viver minha vida em paz, e você não terá competição em seu território. É um acordo justo, não acha?" Akira deu uma gargalhada, antes de finalmente encarar Taishou de forma séria. "Você não tem a menor noção do peso do seu pedido." Taishou insistiu: "Sei que é muito, mas imploro. Akane me faz sentir vivo novamente. Ela é a minha chance de redenção. Preciso dessa poção para me livrar da besta e viver uma vida normal com ela." Akira se levantou da poltrona, caminhando pela sala com passos pesados.
A tensão no ar era palpável. "Eu te dei a besta, Christian", disse, sua voz grave e sombria. "E a besta faz parte de você. Não pode simplesmente se livrar dela. É como tentar arrancar sua própria alma." Taishou se ajoelhou aos pés de Akira, implorando: "Por favor, Demétrio. Imploro. Me dê uma chance de ser feliz. Me dê uma chance de viver uma vida normal com a mulher que amo." Akira se deteve, fitando Taishou com olhos penetrantes. Um longo silêncio se instalou na sala, enquanto os dois homens se encaravam, perdidos em seus próprios pensamentos. Finalmente, Akira se pronunciou: "Levante-se, Christian", disse, sua voz agora mais suave. "Olhe para trás." Taishou se levantou lentamente, o coração batendo forte no peito. A cena que contemplou partiu seu coração em dois. Kenji, de volta à sala, empunhava sua pistola .357 Magnum com mãos trêmulas. Seus olhos verdes, antes cheios de admiração e respeito, agora transbordavam ódio visceral. A arma estava apontada diretamente para Taishou, o dedo de Kenji hesitante no gatilho.
Akira, com um sorriso cruel nos lábios, pronuncia as palavras que selam o destino dos três homens: "Eu até poderia ceder um pouco do meu sangue, Christian, mas esse ritual só funcionaria se você matasse o lobo alfa, não apenas pegasse seu sangue de bom grado. Você deve merecer. Se você quer meu sangue, Christian, venha e pegue." Taishou fita Kenji, implorando com o olhar: "Abaixa a arma, Kenji." Ignorando a súplica, Akira continua a tecer sua teia de mentiras e manipulações: "É curioso como você aparece, e em menos de quatro anos destrói a vida do meu menino. A mulher que você alega amar tanto, Kenji, já era amada por ele muito antes de você pensar em conhecê-la." Taishou encara Akira nos olhos, a raiva e a frustração crescendo dentro de si. Volta sua atenção para Kenji, que segura a arma com mãos trêmulas, o suor escorrendo pela testa. Um "click" metálico ecoa pela sala, o som da arma sendo destravada. "Você vai me trair, Kenji?", pergunta Taishou, com a voz carregada de medo e angústia. Akira gargalha, um som gutural e sinistro que gela o sangue de Taishou: "Atire nesse lobo insignificante, Kenji. Depois, podemos matar o filho dele. E eu finalmente poderei voltar a ser o último da nossa espécie, o primeiro e único alfa." Taishou olha nos olhos do amigo, buscando um resquício da pessoa que conhecia e confiava: "Não faça isso, Kenji..."
Kenji, com a voz embargada pela emoção, grita: "Cala a boca!" Suas mãos tremem ainda mais, o dedo pressionando o gatilho. "Eu amo a Akane... você sabe disso. Você sempre soube." Akira ri ainda mais alto, a sala vibrando com sua malevolência.
A tragédia está prestes a se consumar. Taishou se afasta devagar, enquanto Kenji se aproxima com a arma em punho, o dedo cada vez mais próximo do gatilho. "Era tudo um plano seu, no final das contas?", pergunta Taishou, com a voz fraca, a decepção e a dor estampadas em seu rosto. Kenji, com lágrimas nos olhos, responde: "Era tudo perfeito antes de você aparecer. Eu ia conquistá-la, mas você surgiu em nossas vidas, com seu ar de bad boy, todo cheio de si. Você tirou Akane de mim!" Taishou balança a cabeça, incapaz de acreditar nas palavras do amigo. "Kenji..." Kenji o interrompe: "E se... eu matasse você agora... talvez ela chore por alguns dias, meses... ou anos, mas eu posso ser paciente, eu posso esperar para conquistá-la novamente. Eu... mais do que nunca, desejo viver com Akane para sempre." Taishou balança a cabeça, incrédulo. Ele não consegue acreditar que Kenji o trairia assim tão facilmente. Ele olha de canto de olho para a caixa de madeira com a arma e as balas de prata que Kenji lhe deu, repousando suavemente ao lado das taças de vinho. Akira, já prevendo o movimento dos olhos de Taishou, diz com uma risada maligna: "Nem pense em pegar a arma que Kenji lhe deu, meu velho amigo. Primeiro, a arma é falsa; segundo, eu te acertaria antes mesmo que você tivesse a oportunidade de puxar o gatilho." Ele ri, saboreando o gosto da vitória. Taishou estava preso em uma armadilha.
Kenji, com as mãos trêmulas e os dedos roçando o gatilho, grita: "Levante as mãos, seu esquisitão!" Taishou obedece, já pensando que este poderia ser seu fim. Akira diz: "Atire no coração, filho. Para se matar um lobisomem, o tiro deve atravessar seu coração." Taishou encara seu amigo, e uma fina lágrima de decepção escorre pelo seu rosto. Com a voz baixa e vacilante, diz para Kenji: "Espero que você faça Akane feliz." Ele fecha os olhos e levanta as mãos, expondo seu corpo. Akira grita: "Atira!" O som do disparo ecoa pela casa. Taishou espera o impacto da bala, mas nada acontece. Ele abre os olhos lentamente, confuso, e vê Kenji apontando a arma para seu pai, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Taishou olha para Akira, que, com uma expressão de completo espanto, encara os olhos do filho. O sangue se mistura rapidamente com seu roupão vermelho, pingando no chão e sujando o carpete. Akira cai de joelhos. "Seu... seu desgraçado", murmura para o próprio filho. "Você... errou de propósito." Ele percebe que o tiro não havia atingido seu coração, mas sim algum lugar próximo do pulmão. "Eu mesmo ensinei você a atirar... você não erraria um alvo tão fácil assim..." Akira se curva, voltando sua atenção para Kenji. "Por que você não me matou?" "Por que, seu imbecil? Por que você fez isso?" Kenji, com a voz embargada pela emoção, caminha lentamente até seu pai e diz: "Porque eu amo a Akane, e deixar você vivo representaria um perigo real para ela." Akira tosse, sangue escorrendo de sua boca. "Seu imbecil..." "Você não acertou meu coração... você... não me finalizou..." Akira geme, sua visão se embaçando. Kenji se aproxima de Taishou e entrega a Magnum a ele. Os dois trocam olhares de confiança. Taishou pega a arma das mãos de Kenji, tremendo. "Não, pai... eu errei de propósito, como o senhor disse. Não sou eu quem tem que tirar sua vida, e sim Taishou."
Para que ele possa acabar com isso e finalmente fazer Akane feliz. Taishou olha para Kenji com uma mistura de agradecimento e redenção. "Kenji..." Akira, no chão, agoniza e começa a gargalhar. "Meu Deus, Kenji, como você é patético. Não é à toa que você não é meu filho de sangue... seu merdinha inútil." Taishou caminha em direção ao amigo. Ele se ajoelha e olha em seus olhos. "Demétrio, eu quero que saiba que você sempre foi meu melhor amigo." Akira olha para Taishou. "Christian..." Ele se aproxima de Akira e o abraça, sentindo a Magnum em seu peito. Akira murmura suas últimas palavras com dificuldade: "Eu... eu deveria ser o alfa..." Taishou, com uma expressão sombria nos olhos, diz: "Não mais." O som do tiro põe fim ao sofrimento e à agonia de Akira. O ar na sala é preenchido com o cheiro de pólvora, sangue e medo. Taishou, com as mãos ainda tremendo, observa o corpo de Akira, seu melhor amigo, agora sem vida no chão.
As lágrimas continuam a escorrer pelo rosto de Kenji enquanto ele se aproxima de Taishou. Colocando uma mão no ombro do amigo, oferece um apoio silencioso. Taishou olha para ele com um brilho de confiança nos olhos. "Eu realmente achei que você fosse me matar", diz Taishou, a voz embargada e o corpo tremendo. Kenji ajoelha ao seu lado. "Tá brincando, esquisitão? A Akane te ama... ela nunca iria me perdoar se eu deixasse que algo acontecesse com você..." Kenji força um sorriso, lágrimas amargas caindo de seus olhos enquanto observa com tristeza o corpo de seu pai. Com voz rouca, diz: "Ele era meu pai, mas ele me manipulou para machucar você desde o início." Taishou olha para o corpo de Akira, lembrando-se dos anos de amizade e das batalhas que enfrentaram juntos. Kenji chora copiosamente, à beira do colapso emocional. Taishou o abraça. "Nós não tínhamos escolha, Kenji. Akira mudou, ficou mais violento. Ele já havia atacado pessoas inocentes." "Ele deixou que a besta dentro de si dominasse seu corpo." Ele aperta o cabo da Magnum, sentindo o peso da decisão que tomaram juntos naquela noite. "Eu sei", murmura Kenji. "Mas ainda assim… é difícil aceitar." Enquanto os dois amigos permanecem ali, o corpo de Akira começa a se transformar. Pelos escuros surgem em sua pele, e suas feições se contorcem. Taishou e Kenji assistem, horrorizados, enquanto Akira se transforma completamente em um lobo. "Kenji, por favor, me perdoe, mas eu preciso fazer uma coisa", diz Taishou, afastando-se do amigo e agarrando o corpo de Akira. Inclinando-se sobre ele, Taishou crava suas presas no pescoço de Akira. O sangue quente e viscoso jorra da ferida, formando uma poça escura no chão. Taishou bebe avidamente, seus olhos brilhando com uma luz sobrenatural.
Com o estômago revirado, Kenji assiste, horrorizado, enquanto Taishou bebe o sangue do pai morto. Akira parece murchar, sua pele se tornando ainda mais pálida a cada gole que Taishou toma, sentindo-se mais forte e mais rápido. Com cada gota, ele sente o poder percorrer seu corpo, seus músculos se contraindo, inchando visivelmente. Algo nele mudava; estava se tornando mais próximo do lobisomem que Akira fora. A transformação se completava, e agora Taishou era o novo alfa da matilha. Kenji recua, sem acreditar. “O que você fez?” Taishou sorri, os dentes afiados reluzindo. “Bebi o sangue do alfa. Agora, eu sou o líder da nossa matilha.” Kenji olha para o corpo sem vida do pai, que lentamente começa a se desfazer em cinzas. Taishou se levanta, limpando o sangue do queixo com a manga da camisa, assumindo o peso de sua nova posição. “O que faremos agora?” Kenji pergunta, sua voz trêmula, ainda olhando para as cinzas que restam de Akira, imaginando o que isso significará para eles. “E Akane… como vamos contar isso a ela?” Taishou estende a mão para Kenji, ajudando-o a levantar-se. “Nós cuidaremos de Akane,” responde ele com firmeza. Kenji respira fundo. “E quanto a você, Taishou? O que vai fazer agora que é o alfa?” Taishou abre um sorriso, mas seus olhos não refletem nenhuma alegria. “Continuarei protegendo aqueles que amo.” Ele encara Kenji com convicção. “Vou criar uma cura para a licantropia e buscar minha mortalidade.”