O final do dia de treinamento de Caleb foi marcado por uma frustração profunda. A cada tentativa de se conectar com seu lobo branco interior, a besta negra o atacava implacavelmente, lançando-o de volta à escuridão. Era um reflexo das lutas internas que assolavam o coração de Caleb, questões mal resolvidas que o prendiam em um ciclo de dor e sofrimento. Caspian, observando a angústia do jovem, suspirou pesarosamente. Aproximando-se de Caleb, ele pousou sua mão carinhosamente em sua cabeça, transmitindo um calor reconfortante. "Vá descansar, Caleb", ele disse com voz suave e reconfortante. "Podemos tentar novamente amanhã." Caleb, com um olhar vazio e frio, assentiu em concordância. Levantando-se lentamente, ele se preparou para retornar ao chalé, buscando refúgio em sua solidão. No entanto, seu caminho foi interrompido por Taishou, seu pai, que o chamou para uma conversa particular na floresta. Caleb, intrigado, hesitou por um momento antes de seguir seu pai, seus passos pesados carregando o peso da frustração e da incerteza. O que Taishou desejava discutir? Seria este o momento para finalmente desvendar os segredos do passado e encontrar a paz interior que tanto buscava? Kenji observava Taishou e Caleb se afastarem para uma conversa particular, um misto de desaprovação e frustração se manifestando em seu rosto. Caspian, percebendo a situação, se aproxima e senta ao seu lado, com um sorriso gentil no rosto.
"Desculpe a intromissão, Kenji", Caspian começa, sua voz suave quebrando o silêncio desconfortável. Kenji se vira para ele, um pouco surpreso por sua iniciativa. "Ah, Sensei, tudo bem, sem problemas. Só estava pensando em algumas coisas", ele responde, tentando disfarçar sua inquietação. Caspian assente e observa Taishou e Caleb à distância, um sorriso enigmático se formando em seus lábios. "Sabe, Kenji, por um tempo eu acreditei que você e Christian estivessem em um relacionamento", ele confessa, seus olhos perspicazes capturando a verdade que Kenji tentava esconder. Kenji suspira profundamente, seus ombros caindo em rendição. "Sim, Caspian, você está certo. Você tem bons olhos", ele admite, sua voz carregada de um tom amargo. Caspian solta uma risada leve, confirmando sua intuição. "Então, meu palpite estava correto?", ele pergunta, abrindo um sorriso amistoso. "Em cheio", Kenji responde, ainda emburrado pela revelação de seus sentimentos. Caspian se inclina para frente, seu olhar fixo em Kenji com uma mistura de compreensão e curiosidade. "Ser um bom Marechal exige que você esteja sempre atento aos seus guerreiros", ele explica, sua voz séria mas gentil. "E, devo dizer, vocês não foram exatamente discretos. Encontrar vocês sem camisa no chalé aquele dia, discutindo algo com tanta intensidade, entregou muito." Kenji não consegue conter um riso sem graça, reconhecendo a verdade nas palavras de Caspian. "É...", ele murmura, sem saber o que mais dizer.
Caspian observa Kenji por alguns instantes, seu sorriso se suavizando. "Mas me diga, Kenji", ele pergunta com gentileza, "o que aconteceu? Se você quiser discutir o caso comigo, claro, estou aqui para ouvir." Kenji suspira ainda mais fundo, seus olhos se encontrando com os de Caspian. "É verdade que eu e Taishou nos envolvemos...", ele começa, sua voz baixa e hesitante. "Mas essa... essa bagunça acabou. A esposa dele está de volta, e eu voltei a ser apenas o amigo leal." As palavras de Kenji pairam no ar, carregadas de tristeza e resignação. Caspian o observa em silêncio, absorvendo a dor em seu olhar. Ele sabe que Kenji está sofrendo, dividido entre seus sentimentos por Taishou e a lealdade ao amigo. "Kenji", Caspian começa, sua voz suave e reconfortante, "o amor é um sentimento complexo, que nem sempre segue as regras da lógica ou da convenção. O que importa é que você seja honesto consigo mesmo e com aqueles que te cercam." Kenji assente, seus olhos marejados de lágrimas. "Eu sei, Sensei", ele responde, sua voz embargada pela emoção. Kenji, com a voz firme e carregada de emoção, confessa a Caspian que não está pronto para desistir de Taishou. "Eu sei que é complicado, Sensei", ele diz, "mas meu coração ainda pertence a ele." Caspian o observa com atenção, seus olhos perspicazes capturando a intensidade dos sentimentos de Kenji. "Você já conversou sobre isso com Christian?", ele pergunta com delicadeza. Kenji nega com a cabeça. "Ainda não", ele admite. "Mas dei um ultimato a ele. Ele precisa conversar com sua esposa o mais rápido possível. Não podemos continuar fingindo que nada está acontecendo, nos encontrando em segredo pelas costas de Akane."
Caspian assente em compreensão. "Você está certo, Kenji", ele diz. "A situação precisa ser resolvida com honestidade e transparência. Akane merece saber a verdade, e você e Christian precisam tomar uma decisão sobre o futuro de vocês." Kenji suspira profundamente, o peso da situação se fazendo sentir em seu peito. "Eu sei", ele diz. "Mas estou com medo, Sensei. Medo de perder Taishou, medo de machucar Akane, medo do futuro incerto." Caspian coloca uma mão reconfortante no ombro de Kenji. "O medo é natural, Kenji", ele diz. "Mas você não pode deixar que ele te paralise. Enfrente seus medos com coragem e honestidade, e você encontrará o caminho certo." Kenji se levanta e olha para Caspian com determinação nos olhos. "Eu sei..eu deveria conversar com Akane…", ele diz. "Suas palavras me dão força." Caspian sorri para Kenji, um sorriso de encorajamento e apoio. "Lembre-se, Kenji", ele diz, "você não está sozinho nesta jornada. Eu estarei aqui para te apoiar a cada passo do caminho." Kenji olha para Caspian, seus olhos cheios de gratidão. "Obrigado, Sensei", ele diz, sua voz carregada de emoção. "Suas palavras me trazem conforto." Caspian sorri para Kenji, um sorriso caloroso e sincero. "Sempre que precisar de alguém para ouvir, Kenji, estou aqui para você", ele diz. "Lembre-se, você não está sozinho." Kenji se levanta e abraça Caspian com força. O abraço é longo e silencioso, transmitindo uma mensagem de apoio e compreensão que transcende as palavras. Ao se afastarem, Kenji se sente um pouco mais leve, como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros. Kenji se despede de Caspian e se dirige em direção ao chalé de Taishou.
Enquanto isso, Caleb e Taishou continuam a conversar sozinhos. Ao adentrar a floresta, a luz do sol se filtrava por entre as folhas das árvores, criando um jogo de sombras que dançavam ao redor deles. O ar era úmido e frio, o barulho da neve batendo em seus pés a cada passo. Caleb se manteve em silêncio, seus olhos fixos no chão, enquanto Taishou caminhava ao seu lado, sua expressão serena e impenetrável. Chegando a uma clareira aberta, Taishou se virou para Caleb, seus olhos penetrantes encontrando os do filho. "Caleb", ele começou, sua voz grave e firme, "hoje você enfrentou seus medos e fraquezas com bravura. Mas a jornada para a verdadeira força interior ainda não chegou ao fim." Caleb ergueu a cabeça, seus olhos encontrando os de Taishou com uma mistura de incerteza e esperança. "O que você quer dizer, pai?", ele perguntou, sua voz hesitante. Taishou sorriu levemente, um sorriso que transmitia sabedoria e compreensão. "O lobo branco e a besta negra dentro de você representam as diferentes facetas de sua personalidade", ele explicou. "Para encontrar a paz e a harmonia, você precisa aprender a aceitá-las e integrá-las em um todo." As palavras de Taishou ecoaram na mente de Caleb, trazendo consigo uma nova perspectiva. Ele nunca havia considerado seus lados conflitantes como algo a ser integrado, mas sim como inimigos a serem combatidos. "Mas como fazer isso, pai?", Caleb perguntou, sua voz carregada de dúvida. "Como posso controlar a besta negra dentro de mim?"
Taishou se aproximou de Caleb, colocando uma mão em seu ombro. "A chave está na compreensão", ele disse. "Você precisa entender as raízes de seu medo e raiva, as experiências que moldaram sua besta negra. Somente assim você poderá dominá-la e transformá-la em força." Caleb olhou para seu pai, seus olhos cheios de determinação. "Eu vou tentar, pai", ele prometeu. "Vou encontrar a paz e a harmonia dentro de mim." Taishou sorriu com aprovação. "Eu acredito em você, Caleb", ele disse. "Você tem a força e a coragem necessárias para superar qualquer obstáculo." Com um novo senso de esperança e propósito, Caleb pede para conversar mais com seu pai. “Claro.” Taishou concorda. “O que você quer conversar?” Caleb apenas diz que tem coisas que ele quer conversar com o pai, mas que prefere que eles se afastem mais. Taishou concorda e começa a caminhar para se afastar mais do Chalé e da alcateia. A noite cai sobre a floresta gélida, envolvendo Taishou e Caleb em um manto de escuridão. O dia de treinamento árduo e sem sucesso havia deixado marcas em ambos, mas agora, caminhando lado a lado entre as árvores, buscavam consolo na companhia um do outro, tudo parecia mais tranquilo. O silêncio pairava no ar, carregado de emoções complexas. Taishou, com seu olhar penetrante, observava o filho em busca de pistas sobre o que se passava em seu interior. Caleb, por outro lado, parecia perdido em seus próprios pensamentos, lutando contra um conflito interno. Finalmente, Taishou quebrou o silêncio, sua voz profunda cortando a quietude da floresta. "Eu tive muito medo de te perder", confessou ele, abrindo seu coração para o filho. “Eu sei.. eu sinto muito por tudo que eu fiz você e minha mãe passar… mas…” Caleb se calou por um momento. Taishou perguntou. “Você perdeu o controle porque a Sakura quis separar você da Yuki, não é?”
Caleb, ainda preso em seus pensamentos, não respondeu de imediato. Seus olhos vagavam pelas sombras da floresta, como se buscassem respostas em meio à escuridão. Um momento se passou em silêncio, até que Caleb finalmente se virou para o pai, seus olhos marejados de emoção. "Eu sinto falta da Yuki...", disse ele em voz baixa, quase um sussurro. Taishou se aproximou do filho e o envolveu em um abraço caloroso. "Eu sei, meu filho", disse ele com voz suave. Caleb se aconchegou nos braços do pai, buscando conforto em seu calor. "Eu queria voltar para Hinode", confessou ele, sua voz carregada de raiva e tristeza. "Queria matar todos aqueles que me machucaram, só para tê-la de volta." Taishou se afastou um pouco, olhando para o filho com seriedade. "Não faça isso, Caleb", disse ele com firmeza. "A vingança não é a resposta para você e para Yuki ficarem juntos, e só te colocará em um caminho de destruição. Você não quer cometer o mesmo erro que sua mãe, não é? Sucumbir à besta dentro de você e colocar em risco toda a sua alcateia." Caleb suspirou profundamente, seus olhos baixos. Ele sabia que o pai estava certo, mas a dor da saudade de Yuki era quase insuportável. "Eu sinto falta dos toques dela", disse ele em voz baixa, quase um sussurro.
Taishou observou o filho com um sorriso compreensivo. "Toques?", perguntou ele com gentileza. Caleb hesitou por um momento, constrangido com a pergunta do pai. "Sim...", disse ele finalmente. "Eu... bom... nós..." Sua voz falhou, incapaz de completar a frase. Taishou finalmente perguntou o que ele tanto queria saber: "Vocês tiveram a primeira vez?". Caleb corou profundamente, seus olhos cheios de vergonha. "Sim", ele finalmente admitiu. "Foi... foi bom." E Taishou com a preocupação de um pai perguntou “Você foi respeitoso?” Caleb respondeu: “Claro que eu fui…” Taishou abafou um sorriso de orgulho, mas continuou a perguntar “Usou preservativo?” Caleb agora parecia bem mais tímido e com vergonha. “Pai.. pelo amor de Deus…claro…que sim…” Taishou assentiu com a cabeça rindo. "É natural sentir saudade dos toques dela, Caleb", disse ele com compaixão. "Mas você precisa ser forte e se concentrar em você agora. Se a Yuki realmente ama você, ela vai esperar por você, e vocês vão poder se encontrar novamente…” Caleb assentiu em silêncio, absorvendo as palavras do pai. Ele sabia que Taishou estava certo, mas ainda era difícil seguir em frente sem a mulher que amava. “Mesmo assim, sinto vontade de voltar lá e acabar com todos…” Caleb admitiu mais uma vez. A tensão era palpável no ar quando Taishou, o Alfa da alcateia, confrontou seu filho Caleb. Ele estava preocupado com a segurança de Yuki. “Eu sei que você quer ver a Yuki de novo, mas antes, você precisa aprender a controlar seus sentimentos, para não machucar ela.” Taishou advertiu Caleb, dizendo que ele não poderia encontrar Yuki até que aprendesse a controlar a besta dentro de si, temendo que ele pudesse se perder em si mesmo. Caleb, no entanto, ficou irritado. Ele retrucou, alegando que nem todos na alcateia tinham seus sentimentos bem resolvidos e sob controle. Taishou olhou para ele, confuso, e perguntou: “O que você quer dizer com isso?” Caleb desviou o olhar, seus olhos brilhando em um vermelho intenso. “Eu vi…”, ele começou, deixando a frase no ar. “Viu o que?”, Taishou perguntou, a curiosidade tingindo sua voz. Caleb então encarou o pai com raiva. “Eu vi você e o Kenji se beijando ontem à noite.”
As palavras atingiram Taishou como um soco no estômago, a dor reverberando através dele como ondas de choque. Ele sentiu como se sua alma estivesse sendo arrancada do corpo, deixando-o nu e vulnerável. Uma mistura de vergonha e medo o consumia, cada respiração se tornando um esforço árduo. Caleb, ainda queimando com a fúria que o consumia, lançou perguntas como flechas afiadas, cada uma perfurando o coração de Taishou. "Que nojo... o que você é... você é gay?", ele exigiu saber, a voz carregada de desprezo. Taishou, lutando para manter a compostura, negou veementemente. "Eu... não...", ele gaguejou, as palavras falhando em sair com clareza. Mas Caleb não se contentou com a resposta simples. "Então, o que diabos eu vi ontem à noite?", ele pressionou, a raiva em seus olhos ardendo como brasas. "Você está traindo a Akane com ele? Você ainda ama a mamãe?" Taishou suspirou, implorando a Caleb que não contasse nada à Akane. Ele sabia que isso a machucaria profundamente, e ele não podia suportar a ideia de causar mais dor à mulher que tanto amava.
"Eu não vou contar", Caleb respondeu friamente, sua voz desprovida de qualquer empatia. "Isso é problema de vocês dois." Taishou, ainda abalado pela vergonha, tentou se explicar. "É complicado... mas... não... eu não sou gay. Eu amava sua mãe Catarine, e amo sua madrasta Akane... Eu sempre gostei de mulheres, toda a minha vida. Mas... o Kenji. Ele me faz sentir coisas que eu nunca senti antes. Eu ainda estou descobrindo o que estou sentindo..." Caleb, ainda furioso, questionou o futuro do casamento de Taishou. "E o que vai acontecer com o casamento de vocês?", ele perguntou, a voz carregada de condenação. Taishou, admitindo com uma honestidade dolorosa, disse: "Eu não sei ainda...". Caleb, fervendo de raiva, olhou para o pai com desdém. "Você não tem direito de me pedir para controlar minhas emoções", ele disse, a voz tremendo de fúria, "quando você mesmo não tem controle nenhum!" As palavras saíram como um rugido, enchendo o ar com a tensão palpável de sua ira. Taishou, atordoado pela explosão de Caleb, ficou em silêncio, incapaz de responder. A verdade brutal das palavras de Caleb pesava sobre ele como uma lápide, a culpa o consumindo. As acusações de Caleb eram como um soco no estômago de Taishou, deixando-o sem fôlego. Ele olhou para o filho, vendo a raiva e a confusão nos olhos dele. Ele sabia que Caleb estava certo. Ele havia lutado para controlar suas próprias emoções e agora estava sendo chamado para responder por isso.
"Você está certo, Caleb", ele disse finalmente, sua voz baixa e carregada de pesar. "Eu não tenho controle total sobre minhas emoções. Eu cometi erros... e eu sinto muito por isso." Ele fez uma pausa, olhando para Caleb com uma expressão de tristeza. "Eu estou tentando entender meus sentimentos, assim como você. E eu prometo que vou fazer o meu melhor para ser um exemplo melhor para você." As palavras de Taishou soaram genuínas, carregadas de arrependimento e um desejo sincero de mudança. Caleb, ainda processando tudo o que havia acontecido, observou o pai em silêncio. Será que Taishou conseguiria manter sua promessa? Só o tempo diria. A raiva ainda fervilhava nas veias de Caleb enquanto ele olhava para o pai, Taishou. A revelação sobre a atração de Taishou por Kenji havia abalado Caleb profundamente, gerando um turbilhão de emoções dentro dele. Com a voz carregada de convicção, Caleb se aproximou de Taishou, seus olhos fixos nos do pai. "Pai," ele começou, a voz firme apesar da agitação interna, "você precisa contar a verdade para Akane." As palavras de Caleb ecoaram no ar, carregadas de uma mistura de preocupação e urgência. Ele sabia que esconder a verdade de Akane só causaria mais dor e sofrimento no futuro. Era hora de Taishou ser honesto, por mais difícil que fosse.
Taishou desviou o olhar, evitando o contato visual com o filho. A culpa pesava sobre ele como um manto, e ele sabia que Caleb estava certo. Akane merecia saber a verdade, por mais que ele temesse a reação dela. "Eu sei," ele murmurou, a voz baixa e hesitante. "Eu sei que preciso contar a ela." Caleb assentiu, um lampejo de tristeza cruzando seus olhos. Ele podia sentir a dor que Taishou estava enfrentando, mas sabia que era necessário. "Ela vai ficar magoada, é claro," Caleb disse, com a voz gentil, "mas é melhor que ela saiba a verdade agora do que mais tarde." Taishou suspirou profundamente, a angústia apertando seu peito. Ele sabia que Caleb estava certo. Akane era uma mulher forte e inteligente, e ela merecia saber a verdade, por mais difícil que fosse para ela aceitar. "Eu vou contar para ela," Taishou disse finalmente, a voz firme apesar da tremedeira interna. "Eu prometo." Caleb sorriu fracamente, um lampejo de esperança aparecendo em seus olhos. “Era isso que você queria conversar comigo?” Taishou perguntou, sua voz mais calma e compreensível. Caleb fez um sinal positivo com a cabeça. “Era uma das coisas que me incomodavam…” Taishou sorri para o filho, e o puxa para um abraço apertado. “Você precisa conversar comigo sobre tudo que incomoda você, meu filho, faz parte do processo de cura que você tem que passar para conseguir controlar a besta negra.” Caleb assentiu. “Sim…mas por hora… só o que conversamos hoje, está bom.” Taishou olha para o filho, ele sabia que não seria fácil Caleb conversar sobre todos os seus traumas, mas ele confiava que seu filho iria conseguir superar esse desafio. "Eu acredito em você, Caleb," Caleb respondeu, colocando a mão em volta da cintura do pai, e o abraçando. "Eu te amo, sabia?"
Taishou olhou para o filho, seus olhos marejados de lágrimas. A gratidão o invadiu por ter Caleb em sua vida. Ele sabia que, apesar das dificuldades, ele não estava sozinho. Depois de caminharem juntos pela floresta, Caleb e Taishou voltaram para casa, com a promessa de que Taishou contaria a verdade para Akane. Na cidade de Inverness, um chalé isolado se erguia em meio à penumbra da madrugada. A neve caía em flocos silenciosos, cobrindo a paisagem com um manto branco e frio. O vento soprava entre as árvores desnudas, uivando como um lobo solitário. Dentro do chalé, Caleb se contorcia em seu sono, preso nas garras de mais um pesadelo. Seu rosto estava contorcido em uma máscara de angústia, seus músculos tensionados como cordas de violão. Sussurros ininteligíveis escapavam de seus lábios, revelando fragmentos de memórias fragmentadas e emoções reprimidas. A neve caía cada vez mais forte, como se estivesse chorando junto com ele. Caleb acordou com um sobressalto, o coração batendo descompassado no peito. A penumbra da madrugada o envolvia como um cobertor úmido e frio. Ele se sentou na cama, respirando fundo para acalmar o ritmo acelerado da respiração. Seus olhos se moveram pela escuridão do quarto, buscando algum ponto de familiaridade, mas tudo o que via era a sombra das próprias mãos.
Um sentimento de solidão o invadiu, como um vazio gelado que se espalhava por seu interior. Desde que ele havia deixado Hinode para trás, nada mais parecia ser o mesmo. A lembrança de Yuki e da vida que ele havia abandonado o assombrava constantemente, alimentando os pesadelos que o atormentavam noite após noite. Levantando-se da cama, Caleb se aproximou da janela. Observou a neve caindo sobre a paisagem desolada, imaginando Yuki em algum lugar distante, vivendo uma vida que ele não podia mais fazer parte. Um aperto no peito o dominou, e ele fechou os olhos com força, tentando conter as lágrimas que ameaçavam cair. O frio da madrugada se infiltrava pelos ossos de Caleb, como um lembrete constante da solidão que o cercava. Caleb se sente perdido, sem esperança e sem vontade de viver. A culpa por ter matado pessoas inocentes começa a consumi-lo. Caleb tem medo de si mesmo, e medo do lobo negro que sussura e ri mais alto em seus ouvidos. Ninguém consegue ajudá-lo agora. Nem mesmo seus pais, nem mesmo Caspian. Tudo parece perdido. Em meio a madrugada, ele salta para fora da janela do chalé, e caminha sozinho em meio a neve que cai timidamente. Atormentado pela culpa e pelo desespero, vagava pela neve que caía incessantemente, cada floco branco um lembrete cruel de sua solidão e sofrimento. O ar gélido cortava seus pulmões, arrancando-lhe tosses e gemidos de dor. A neve se acumulava em seus pés, dificultando seus passos, mas ele seguia em frente, movido por uma força que não conseguia compreender. Em sua mente, o lobo negro uivava cada vez mais alto, seus sussurros venenosos envenenando seus pensamentos. A culpa por ter tirado a vida de inocentes o consumia, corroendo sua alma e o deixando sem esperança. O medo o dominava, medo de si mesmo, de seus próprios demônios internos e da criatura das sombras que o assombrava.
Em meio à vastidão gelada da noite, ele buscava refúgio, um lugar onde pudesse se esconder de seus próprios pensamentos e da criatura que o atormentava. Finalmente, após horas de caminhada árdua, encontrou um lugar afastado, um pequeno bosque coberto por uma manta de neve fresca. Exausto e com o corpo trêmulo, Caleb se sentou sob a proteção de uma árvore centenária. A neve caía sobre ele, cobrindo-o com um manto branco e frio. Ele fechou os olhos, tentando bloquear o uivo do lobo negro e os sussurros que o atormentavam. Mas a dor emocional era profunda demais. Lágrimas gélidas escorriam pelas suas bochechas, misturando-se com os flocos de neve que caíam sobre ele. Em sua mente, imagens fragmentadas do passado surgiam, memórias de um tempo em que ele era feliz, antes que a escuridão o consumisse. Mas essas memórias eram apenas ecos distantes, cada vez mais fracos e inatingíveis. Em um ato desesperado, para tentar afastar um pouco sua dor emocional, Caleb retira um canivete do bolso, seu rosto pálido e frio começa a refletir a lâmina. Ele respira fundo, e finalmente o faz. Ele encosta a lâmina em sua pele, cortando seu pulso. Ele abre uma ferida em si mesmo na tentativa desesperada de substituir a dor emocional pela física. Uma dor que ele pode controlar, uma dor que ele pode entender. Gotas de sangue mancham a neve branca sob seus pés. E Caleb consegue um alívio momentâneo de sua dor.
Ele se sente como se estivesse em um oceano tempestuoso de emoções, sendo jogado de um lado para o outro pelas ondas de tristeza, solidão e desespero. A dor física, por outro lado, é como um farol no meio da tempestade. É algo tangível, algo real. Ele pode sentir a dor, pode vê-la, pode tocá-la. É uma distração, uma fuga da tormenta emocional que está acontecendo dentro dele. O lobo negrou satisfeito em ver sangue, ri e se afasta. Ele deixa os pensamentos de Caleb, pelo menos, por hora. Caleb está ciente do ciclo destrutivo em que se encontra. Ele sabe que a dor física é apenas um paliativo temporário, que não vai curar a dor emocional que ele sente. Ele está em conflito consigo mesmo, lutando entre o desejo de alívio imediato e a compreensão de que essa não é a solução. Mas ele não se importa muito com isso agora. O pensamento de sua mãe Catarine e de seu irmão Derik sendo brutalmente assassinados, invade sua mente. E ele precisa de outro corte no braço para aliviar essa dor. Ele respira fundo ofegante e chora baixinho. Suas mãos trêmulas.
Dentro de Caleb, o lobo negro cresce, alimentando-se de sua dor e desespero. Rindo de Caleb, e pedindo por mais sangue. A cada corte, a cada gota de sangue, a cada lágrima que Caleb derrama, o lobo negro se fortalece. Ele se deleita na escuridão, cresce com ela, torna-se mais poderoso a cada momento que Caleb sucumbe à dor. Agora, Caleb se senta sozinho, envolto em escuridão, pensando em Yuki. Ela era a única luz em sua vida, a única pessoa que o amou pelo que ele era, não pelo que a besta o fazia parecer. Yuki, com seu sorriso caloroso e olhos gentis, sempre estendeu a mão para ele, mesmo quando ele estava no fundo do poço. Mas agora, Yuki estava longe. Eles foram separados, proibidos de se verem. A ausência dela é como um buraco negro em seu coração, sugando toda a luz e alegria de sua vida. Ele sente falta dela, mais do que as palavras podem expressar. Ele sente falta de seu sorriso, de sua risada, do jeito que ela o fazia se sentir amado e valorizado. A dor emocional volta, mais forte do que nunca. É como uma onda gigante, engolindo-o, puxando-o para baixo. Ele se sente afogado em sua própria tristeza, perdido em um mar de desespero. Ele precisa de um corte mais forte, e mais profundo agora. Caleb geme de dor. Suas mãos tremem tanto que ele solta o canivete. E se debruça, permitindo-se chorar. As lágrimas caem como uma chuva torrencial, cada uma delas um testemunho de sua dor, de sua perda. Ele chora por Yuki, chora por si mesmo, chora pela vida que eles poderiam ter tido juntos. Chora pelo passado que o assombra, pela dor da culpa, pela dor do medo. Mas mesmo em meio à escuridão, Caleb se agarra à esperança. Ele se lembra das palavras de Yuki, de sua promessa de que eles sempre estariam juntos, não importa o quê. Ele se agarra a essa promessa, permitindo que ela seja sua luz na escuridão, seu farol na tempestade. Esse pensamento, faz o lobo branco retornar, tímido e machucado. Mancando e ferido. O lobo branco deita-se no chão, seu pelo brilhante manchado de vermelho. Ele está ferido, mas não derrotado. Seus olhos, uma vez brilhantes com determinação, agora estão nublados de dor. Cada respiração que ele toma é um esforço, cada movimento um desafio.
Ele levanta a cabeça, seus olhos encontrando os de Caleb. Há uma tristeza lá, uma tristeza que fala de batalhas perdidas e promessas quebradas. Mas há também uma centelha, uma centelha de esperança que se recusa a ser extinta. O lobo branco está ferido, mas ele não está quebrado. Ele se recusa a desistir, a se render à escuridão que o lobo negro representa. Ele vai lutar, mesmo que cada passo seja uma agonia, mesmo que cada respiração seja uma tortura. Porque o lobo branco sabe que ele é mais do que suas feridas. Ele é resiliência, ele é esperança, ele é força. E enquanto ele tiver isso, ele nunca será verdadeiramente derrotado. O lobo negro, por outro lado, é astuto, manipulador. Ele sussurra em seu ouvido, dizendo a Caleb que a dor física é a única maneira de acalmar a tempestade emocional dentro dele. Mas Caleb sabe, no fundo de seu coração, que isso não é verdade. Ele sabe que está alimentando o lobo, permitindo que ele cresça mais forte. O lobo branco espera pacientemente, ele é força, ele é resiliência. Ele espera o momento certo para lutar, para desafiar o lobo negro pela supremacia. Será uma luta difícil, pois o lobo branco ainda está fraco. E as ações de Caleb não melhoram a condição do lobo branco dentro de si. O lobo branco chora vocalizando baixinho, deitando-se nos pés de Caleb. Ferido e sangrando. Caleb retorna ao chalé em silêncio, a dor pulsando em seu braço a cada passo que dá. Ele se move como uma sombra, deslizando pela janela pela qual saiu mais cedo. O chalé está escuro, a única luz vem da lua que brilha lá fora. Ele vê Kenji, dormindo pacificamente ao seu lado, completamente alheio à luta interna de Caleb. Há uma pontada de inveja no coração de Caleb, mas ele a ignora, concentrando-se em manter seus movimentos silenciosos e controlados. Seu rosto é uma máscara de dor, os olhos apertados enquanto ele segura firmemente o braço ferido. Ele caminha até o banheiro do chalé, seus passos ecoando silenciosamente no chão de madeira.
No banheiro, ele limpa a ferida com cuidado, cada toque enviando ondas de dor através de seu corpo. Mas ele persiste, sabendo que a ferida precisa ser limpa. Ele olha para o seu reflexo no espelho, vendo o lobo branco em seus olhos. Ele sabe que a batalha ainda não acabou. E ele está pronto para lutar. Caleb pega uma faixa limpa de tecido, seus dedos tremendo ligeiramente com a dor. Ele enrola a faixa em torno de seu braço, cobrindo a ferida. Cada movimento é cuidadoso, deliberado. Ele não quer causar mais dor do que já está sentindo. Ele aperta a faixa, sentindo a pressão contra sua pele. A dor é intensa, mas é um alívio saber que a ferida está protegida. Ele prende a faixa no lugar, garantindo que ela não se solte. Caleb olha para o curativo, uma sensação estranha de satisfação preenchendo-o. Ele conseguiu esconder sua dor, pelo menos por enquanto. Mas ele sabe que a verdadeira batalha ainda está por vir. Ele se levanta, seu corpo cansado e dolorido. Mas há uma determinação em seus olhos, uma promessa silenciosa para o lobo branco dentro dele. Ele não vai desistir. Ele vai lutar. E ele vai vencer. Caleb se vira lentamente, seus olhos fixos no curativo em seu braço. Ele dá um passo em direção à cama, cada movimento medido para minimizar a dor. Ele se move como um fantasma, sua presença quase imperceptível no quarto escuro.
Ele se aproxima da cama, o colchão parecendo incrivelmente convidativo após o esforço físico e emocional. Ele se abaixa lentamente, sentindo o tecido macio contra sua pele. Ele se ajeita, encontrando uma posição que não pressiona muito seu braço ferido. Caleb fecha os olhos, o silêncio do quarto envolvendo-o como um cobertor. Ele ouve a respiração suave de Kenji, o som trazendo uma sensação de normalidade à situação. Ele permite que a exaustão o leve, seu corpo relaxando enquanto ele se entrega ao sono. A dor ainda está lá, uma lembrança constante da batalha que ele está lutando. Mas por agora, ele descansa. Porque ele sabe que amanhã é outro dia, e a batalha continua. E ele estará pronto. O sol tímido da manhã se espreguiça por entre os telhados da cidade congelada, lançando um brilho gélido sobre as ruas cobertas de neve. No interior de uma casa aconchegante, a quietude reina, quebrada apenas pelo crepitar da lenha na lareira e pelo suave cantarolar de Akane na cozinha. Caleb emerge do quarto, seus passos silenciosos como a neve caindo. Seus olhos, ainda pesados pelo sono, observam a cena familiar: Akane, com um sorriso radiante, mexendo o café na cafeteira. O aroma quente e convidativo preenche o ar, prometendo um dia aconchegante, em contraste com a frieza do mundo lá fora. Com movimentos lentos e cautelosos, Caleb segue para o banheiro. A água gelada corta sua pele, mas ele a suporta em silêncio, limpando o curativo antigo com cuidado. O machucado no braço pulsa, um lembrete da sua agonia e tristeza manifestada fisicamente. Ele mente para Akane sobre a origem do ferimento, mas a mãe experiente não é enganada. Seus olhos, cheios de preocupação materna, pousam no machucado, e ela sabe que há mais do que aparenta.
Caleb volta à cozinha, sentando-se à mesa como uma sombra. Akane coloca uma xícara de café fumegante diante dele, seus olhos ainda fixos no filho. Ela não diz nada, mas seu silêncio é eloquente. É um silêncio de compreensão, de amor incondicional, de um coração de mãe que sabe que algo está errado, mas respeita o espaço do filho. Caleb toma um gole do café, o líquido quente aquecendo seu corpo e acalmando seus nervos. Ele agradece à mãe em um sussurro, e Akane apenas acena com a cabeça, um sorriso triste nos lábios. Ela sabe que Caleb precisa de tempo, e ela estará lá para ele quando ele estiver pronto para se abrir. Na quietude da cozinha, mãe e filho se sentam em companhia, cada um perdido em seus pensamentos. O silêncio paira entre eles, mas não é um silêncio desconfortável. É um silêncio carregado de amor, compreensão e a promessa de que, juntos, eles superarão qualquer obstáculo. A manhã gelada da cidade congelada contrasta com o calor aconchegante da casa, um reflexo do amor inabalável entre mãe e filho.