Semanas antes da viagem para a Inglaterra, Kenji e Taishou se reuniam todos os dias em um bar local, envolvidos em um mapa antigo desdobrado sobre a mesa. A luz fraca da lâmpada pendurada no teto lançava sombras dançantes sobre seus rostos sérios. Era uma missão quase impossível, uma busca por um homem misterioso chamado Caspian. Enquanto Kenji traçava linhas imaginárias com o dedo indicador, Taishou vasculhava registros na internet, os dedos voando sobre o teclado do laptop. A busca por Caspian era crucial para sua família e para todos diretamente envolvidos com ele. No entanto, a missão não estava isenta de complicações. A namorada de Kenji, Sakura, se recusava a aceitar a ideia da viagem com Taishou. Brigas acaloradas ecoavam pela casa do casal, com Sakura lançando palavras carregadas de desconfiança e ciúme. A situação ameaçava a estabilidade do relacionamento, lançando uma sombra de incerteza sobre a missão.
Do outro lado da cidade, Akane, a esposa de Taishou, também carregava o peso da preocupação. Apesar de compreender a importância da missão, ela ansiava pela companhia do marido, especialmente em uma jornada tão arriscada. A busca por um lobisomem, um velho conhecido de Taishou, despertava um misto de medo e insegurança em Akane. Caleb, o filho de Taishou, observava com os olhos arregalados enquanto seu pai se preparava para a viagem à Inglaterra. A emoção da aventura era palpável no ar, misturada com um toque de apreensão. Caleb ansiava por se juntar aos dois amigos em sua missão. "Mas papai," Caleb implorou, a voz carregada de entusiasmo juvenil, "eu posso ser útil! Sou forte e corajoso, e posso ajudar a rastrear o cheiro de Caspian! Taishou concordou, ele não tinha dúvidas do poder de seu filho, no entanto, ele não queria submeter sua família a mais riscos desnecessários. "Eu sei que você é um rapaz forte e corajoso, Caleb," ele disse com voz suave e calma, "mas esta missão pode demorar muito tempo. Eu preciso que você fique aqui e cuide da sua mãe. Ela precisa de você agora mais do que nunca." Caleb abaixou a cabeça, desanimado. Ele sabia que seu pai estava certo, mas ainda assim, desejava poder acompanhar os dois amigos em sua jornada. Apesar dos desafios pessoais, Kenji e Taishou se mantiveram firmes em seu compromisso. A amizade entre eles era inabalável, construída ao longo de anos de aventuras e perigos compartilhados. Juntos, eles se preparavam para enfrentar o desconhecido, guiados por um senso de dever e a busca pela verdade. A cada dia que passava, a tensão aumentava. As brigas entre Kenji e Sakura se intensificavam, enquanto Akane tentava esconder sua tristeza com um sorriso forçado para Taishou. A missão para a Inglaterra se aproximava, e com ela, a incerteza sobre o futuro dos dois casais.
Na véspera da viagem para a Inglaterra, a casa de Kenji era tomada por um clima pesado e silencioso. Sakura, sua namorada, se encontrava sentada no sofá, seus olhos vermelhos e inchados testemunhando a dor que a consumia. A decisão que ela havia tomado a torturava, mas ela sabia que era a única saída. Kenji, com o coração partido, observava Sakura em silêncio. Ele entendia sua frustração e medo, mas não podia desistir da missão. A busca por Caspian era crucial para ajudar Taishou, e ele não podia trair seu amigo. "Sakura," ele começou, sua voz carregada de tristeza, "eu sei que você não concorda com a minha viagem, mas eu preciso fazer isso. É importante para mim também" Sakura o interrompeu, suas palavras cortantes como lâminas. "Importante para você?? O que os problemas de Taishou tem haver com você??? Ela questionou com amargura. "E quanto a mim? Quanto ao nosso relacionamento?" Kenji abaixou a cabeça, incapaz de contestar a dor em seus olhos. "Eu te amo, Sakura," ele disse com sinceridade, "e nunca faria nada para te machucar. Mas essa missão é algo que eu preciso fazer. Não é só “problema do Taishou”, é problema meu também. Parte do tormento dele, é culpa do meu pai."
Sakura se levantou abruptamente, seus olhos marejados de lágrimas. A missão iminente de Kenji era a gota d'água em um relacionamento já desgastado pelo ciúme e pela falta de comunicação. "Eu não posso acreditar que vai mesmo fazer isso!” Sakura cuspiu as palavras, sua voz carregada de sarcasmo ácido. "Colocar uma missão ridícula acima do nosso relacionamento? Você é cego, Kenji, ou apenas um idiota?" Kenji tentou se defender, explicando a importância da missão para manter Akane, ela e todos os seus amigos seguros e bem. Ajudar Taishou, significava ajudar a todos da cidade de Hinode! Uma responsabilidade que ele carregava desde a morte do seu pai. Mas suas palavras caíram em ouvidos surdos. Sakura o interrompia com risadas debochadas, ridicularizando sua devoção ao legado imbecil do pai, questionando sua capacidade de amar.
"Amor?" ela zombou, seus lábios se curvando em um sorriso cruel. "O que você sabe sobre amor? Você só se importa com seus 'amigos'. Você sempre se importou mais com Akane e Taishou do que comigo!” Eu não sou nada para você, Kenji, apenas um obstáculo no seu caminho." As palavras de Sakura cortam como facas no coração de Kenji. Ele se sentiu humilhado e diminuído, questionando sua própria sanidade por ter se dedicado tanto a um relacionamento que agora parecia tão frágil e sem valor. "Se é assim que você se sente," ele disse com a voz embargada pela dor, "então talvez seja melhor terminarmos mesmo." Sakura assentiu com um aceno de cabeça frio e indiferente. "Sim, acho que é," ela disse com um sorriso irônico. "Espero que você encontre o que procura em suas aventuras, Kenji. Mas duvido que encontre algo que se compare ao amor que você jogou fora." Com isso, ela se levantou e saiu da sala, deixando Kenji sozinho com seus pensamentos e com o amargo sabor da derrota. A missão que o aguardava agora parecia ainda mais sombria e sem esperança, carregada pelo peso da perda e da decepção.
Naquela noite, Kenji não conseguiu dormir. As lembranças de Sakura o assombravam, suas palavras cruéis ecoando em sua mente. Ele se questionava se havia feito a coisa certa ao escolher a missão acima do amor, e se algum dia seria capaz de reconstruir seu coração partido. No dia da partida, Caleb se despediu de seu pai com um aperto de mão firme e um olhar cheio de admiração. Ele sabia que Taishou e Kenji estavam embarcando em uma missão perigosa, mas também tinha certeza de que eles voltariam para casa sãos e salvos. Akane se despedia de Taishou. Seus olhos marejados de lágrimas refletiam a mistura de amor, preocupação e apreensão que tomava conta de seu coração. Taishou a envolveu em um abraço apertado, seus braços fortes transmitindo um conforto que ela tanto precisava. "Prometo que vou voltar para você, Akane," ele sussurrou em seu ouvido, sua voz carregada de convicção. "E vou mandar notícias todos os dias, sem falta." Akane assentiu, ainda agarrada ao abraço do marido. "Seja cuidadoso, meu amor," ela implorou, sua voz embargada pela emoção. "Eu te amo mais do que as palavras podem expressar." Taishou se afastou um pouco, encarando seus olhos com ternura. "Eu também te amo, Akane," ele disse com um sorriso reconfortante. "E não se preocupe, vou voltar para casa são e salvo." Eles se despediram com um beijo carinhoso, seus lábios transmitindo um amor que transcendia as palavras. Akane observou Taishou se afastar, sua silhueta se misturando à multidão de passageiros. Uma sensação de vazio a tomou conta, mas ela abraçou Caleb e se agarrou à promessa que Taishou havia feito: ele voltaria para casa.
No saguão do aeroporto, a cena se desenrolava com uma beleza dolorosa para Kenji. Akane, a esposa de Taishou, se despedia do marido com um abraço apertado e cheio de ternura. Seus olhos marejados de lágrimas transmitiam o amor profundo que os unia, um amor que Kenji observava com uma mistura de admiração e inveja. Enquanto Akane sussurrava palavras de amor e encorajamento ao ouvido de Taishou, Kenji sentia um aperto no peito. Ele não tinha um amor como aquele, um amor tão puro e incondicional. Em vez disso, ele carregava o peso do término recente com Sakura, a lembrança amarga de um relacionamento que se desfez em meio a ciúmes e incompreensão. Quando Akane se afastou um pouco para beijar Taishou com paixão, Kenji sentiu uma pontada de dor no coração. A imagem do casal apaixonado era um lembrete cruel daquilo que ele havia perdido, daquilo que ele tanto desejava ter. Em silêncio, ele observava Taishou se despedir de Akane e Caleb. A cena era como um retrato da família perfeita, um lar cheio de amor e união. Kenji se sentia excluído desse mundo, um estranho solitário que não pertencia a lugar nenhum. No saguão do aeroporto, Taishou e Kenji caminhavam lado a lado em direção ao portão de embarque. A agitação dos passageiros e o anúncio do voo para Londres criavam um burburinho ao fundo, mas para os dois amigos, o silêncio era mais eloquente que qualquer palavra.
Kenji observava Taishou de soslaio, seus olhos fixos na figura imponente do amigo. A admiração e o respeito que ele sentia por Taishou eram inabaláveis, mas algo mais profundo borbulhava em seu interior, um sentimento que ele tentava negar e esconder, mas que a cada dia se tornava mais intenso. A imagem de Taishou se despedindo de Akane com um beijo apaixonado ainda assombrava Kenji. A demonstração de amor entre o casal o deixava confuso e desconfortável, despertando em seu coração uma mistura de ciúmes e inveja. Por que ele se sentia tão mal assim? Por que a felicidade de Taishou e Akane o perturbava tanto? A resposta era simples e dolorosa: Kenji sempre foi apaixonado por Akane. Era um sentimento que ele nunca escondeu de ninguém, apenas reprimiu por anos. O amor por Akane havia florescido em seu coração ainda quando eram crianças, e continuou mesmo depois de todos os longos anos de amizade com Taishou. Mas Kenji sabia que nunca poderia agir de acordo com seus sentimentos, pois isso seria uma traição imperdoável à amizade que o unia a Taishou.
Enquanto se sentavam no avião, aguardando a decolagem, Kenji tentava se concentrar na missão que os aguardava na Inglaterra. Mas seus pensamentos insistiam em voltar para Akane, para o sorriso radiante que ela exibia ao lado de Taishou, para a ternura com que ela o beijava. A confusão e o sofrimento tomavam conta de Kenji. Ele se sentia preso em uma armadilha, dividido entre o amor que sentia por Akane e a lealdade que dedicava a Taishou. A missão que o aguardava se tornava ainda mais difícil, carregada pelo peso de seus segredos e pelo tormento de seus sentimentos proibidos. No rugido dos motores do avião que os levava para a Inglaterra, Kenji se via mergulhado em um mar de dúvidas e questionamentos. A confusão que tomava conta de sua mente era um turbilhão de emoções contraditórias, um emaranhado de sentimentos que o deixavam à beira do abismo. Enquanto observava Taishou, seus olhos percorrendo o perfil sereno do amigo, Kenji se questionava: era realmente amor por Akane que o atormentava? Ou algo mais profundo e obscuro se agitava em seu interior? A imagem de Akane se despedindo de Taishou com um beijo apaixonado assombrava seus pensamentos mais uma vez. A demonstração de amor entre o casal despertava nele ciúmes e inveja, sentimentos que ele tentava negar, mas que se tornavam cada vez mais intensos.
Mas será que esses sentimentos eram apenas reflexo do amor que ele nutria por Akane há tanto tempo? Ou havia algo mais? Uma atração por Taishou que ele lutava para reprimir? Kenji se lembrava das conversas descontraídas que tinha com Taishou, das risadas compartilhadas, da cumplicidade que os unia. Eram momentos simples, mas que o faziam sentir uma conexão profunda com o amigo, uma conexão que ia além da amizade. A confusão era tamanha que Kenji se sentia perdido em um labirinto sem saída. Ele não sabia mais o que era real e o que era ilusão, o que era amor e o que era amizade. A mente de Kenji se recusava a aceitar essa possibilidade. Era inimaginável que ele, o melhor amigo de Taishou, estivesse desenvolvendo sentimentos amorosos por ele. Seria uma traição imperdoável à amizade que os unia, um ato de egoísmo que destruiria a vida de todos eles. Com um aperto no peito, Kenji decidiu reprimir esses sentimentos que o atormentavam. Ele se agarrou à memória do amor puro e sincero que sentia por Akane, buscando nela a força para negar qualquer outra possibilidade. No aeroporto, com o coração apertado, Caleb ao lado de sua mãe observou o avião desaparecer no horizonte, levando seu pai e Kenji para uma terra distante. Ele assumiu seu papel de protetor com seriedade, cuidando de sua mãe com carinho e atenção. A cada dia, ele se tornava mais forte e corajoso, pronto para enfrentar qualquer desafio que surgisse em seu caminho.
O suor frio escorria pela testa de Kenji enquanto ele apertava o assento do avião com força. Taishou, seu amigo de longa data, percebeu o aperto no rosto de Kenji e colocou a mão em seu ombro de forma reconfortante. "Calma, Kenji," Taishou murmurou. "Respire fundo. Você parece uma criança!" Kenji assentiu, mas seus olhos arregalados expressavam o medo que o consumia. Era a primeira vez que ele voava, e a imensidão do céu e a sensação de estar suspenso no ar o deixavam em pânico. "Não seja medroso" Taishou continuou, "Os aviões são os meios de transporte mais seguros do mundo. Já voei muitas vezes e nunca tive nenhum problema." Kenji fechou os olhos e tentou seguir o conselho de Taishou. “Eu sei que é seguro, mas meu medo dessa merda cair é maior do que meu bom senso”. Ele inspirou profundamente e segurou o ar por alguns segundos antes de soltar lentamente. A cada respiração, ele sentia seu corpo relaxar um pouco.
Taishou desviou a atenção de Kenji para a paisagem que se desenrolava abaixo deles. As nuvens brancas pareciam flocos de algodão, e as cidades minúsculas se assemelhavam a brinquedos em miniatura. "Olha lá, seu idiota" Taishou disse, apontando para uma cadeia de montanhas cobertas de neve. "O mundo é um lugar incrível, e voar nos permite vê-lo de uma perspectiva única." Kenji abriu os olhos e olhou para a cena. A beleza da natureza o acalmou um pouco. Ele se lembrou de todas as aventuras que ele e Taishou haviam vivido juntos, e a emoção da viagem começou a superar o medo. "Você tem razão," Kenji disse, com a voz mais firme. "Eu vou ficar bem." O restante do voo transcorreu sem maiores intercorrências. Kenji ainda sentia um pouco de nervosismo, mas com o apoio de Taishou e a distração da paisagem, ele conseguiu controlar o medo e aproveitar a viagem. Quando o avião pousou na Inglaterra, Kenji se sentiu uma pessoa diferente. Ele havia superado um grande desafio e aprendido a lidar com seu medo. Ele sorriu para Taishou, grato pela amizade e pelo apoio.
"Obrigado por tudo, Taishou," Kenji disse. "Eu não teria conseguido sem você." Taishou deu um tapinha nas costas de Kenji que o fez corar levemente. "Seu chorão, eu disse que ficaria tudo bem" ele disse com um sorriso. Juntos, eles desembarcaram no novo país, prontos para explorar as maravilhas que a Inglaterra tinha a oferecer. As semanas transcorriam em um ritmo frenético para Kenji e Taishou. Eles pulavam de hotel em hotel, investigando pistas e buscando respostas para o mistério que os cercava. Cada minuto do dia era dedicado à missão, e a cada passo que davam, a amizade entre os dois se fortalecia. Kenji observava Taishou com admiração e respeito. O amigo demonstrava uma força e determinação inabaláveis, sempre pronto para enfrentar qualquer perigo. Mas, por trás da bravura de Taishou, Kenji também percebia um lado mais vulnerável, uma sombra de tristeza que ele tentava esconder. A primeira noite de lua cheia após a partida se aproximava, e a tensão aumentava. Taishou sabia que, sob a luz da lua, sua natureza lupina se manifestaria com mais força, e ele temia machucar Kenji. Com pesar no coração, ele decidiu se isolar em uma floresta próxima, para proteger o amigo de qualquer perigo.
Kenji, por sua vez, tentava esconder sua preocupação. Ele sabia que a decisão de Taishou era necessária, mas ainda assim sentia um vazio imenso com a partida do amigo. Para aliviar a tensão, ele brincava com Taishou, fazendo piadas e contando histórias. "Não se preocupe, Taishou," Kenji dizia com um sorriso travesso. "Eu ainda tenho minha Magnum 357 e minhas balas de prata. Se aquele seu lado de 'cachorrinho gigante' aparecer, vou cuidar dele!" Taishou ria das piadas de Kenji, mas seus olhos ainda carregavam a sombra da tristeza. Ele sabia que Kenji estava apenas tentando animá-lo, mas a verdade era que ele se sentia culpado por colocar o amigo em perigo. As brincadeiras e o humor serviam como um escudo contra a dor e a incerteza. Kenji se agarrava a esses momentos leves com Taishou, buscando neles a força para seguir em frente. Mas, no fundo de seu coração, a confusão sobre seus sentimentos continuava a crescer. A cada dia que passava, Kenji se sentia mais perdido e confuso. Ele não sabia se estava apaixonado por Akane, por Taishou, ou se seus sentimentos eram apenas fruto da solidão do término recente com Sakura.
Os meses se arrastavam como um rio lento e caudaloso, carregando consigo a dor, a incerteza e a confusão que tomavam conta do coração de Kenji. A cada lua cheia, a transformação de Taishou em lobisomem o aproximava cada vez mais do amigo, criando um laço de dependência e lealdade que transcendia os limites da amizade. Nas noites em que a lua banhava a terra com sua luz prateada, Taishou se isolava na floresta, lutando contra a fera interior que clamava por liberdade. Kenji, tomado pela preocupação e pelo medo do desconhecido, o acompanhava à distância, observando em silêncio a agonia do amigo. Em alguns momentos fugazes, durante as transformações, Kenji conseguia conversar com Taishou, que se encontrava em um estado de consciência nebulosa. Nessas conversas fragmentadas, Demétrio, o pai de Kenji, surgia como uma figura fantasmagórica, tecendo palavras cruéis e envenenadas em seus ouvidos. "Você é fraco, Kenji," Demétrio zombava com sua voz grave e rouca. "Assim como Taishou, você deveria sucumbir à bestialidade, abraçar a natureza selvagem que pulsa em seu sangue." As palavras de Demétrio se infiltravam em Kenji como veneno, corroendo sua autoestima e alimentando suas dúvidas. Ele se questionava sobre sua própria força, sobre sua capacidade de resistir à escuridão que o cercava.
Mas, no fundo de seu coração, uma chama de esperança ainda ardia. Kenji se recusava a sucumbir à bestialidade, à crueldade que Demétrio queria para ele. Ele acreditava que havia outro caminho, um caminho de força interior, de compaixão e de amor. A missão que os unia se tornava cada vez mais complexa, exigindo não apenas força física, mas também força mental e espiritual. Taishou precisava encontrar um equilíbrio entre a humanidade e a selvagem que habitava dentro de si, entre a luz e a escuridão que o cercavam. A jornada era árdua e desafiadora, mas Taishou estava determinado a encontrar seu próprio caminho, a escrever sua própria história. Ele sabia que apenas a verdade o libertaria das garras do medo e da dúvida. Com o coração apertado e a mente em ebulição, Kenji e Taishou seguiram em frente, passo a passo, enfrentando os perigos do mundo sobrenatural e os fantasmas de seu próprio passado. Procurando por cada mísera cidade por Caspian. Eles sabiam que a batalha final seria contra si mesmo, contra as vozes que o sussurravam para sucumbir à escuridão.
Seis meses se passaram desde que Kenji e Taishou embarcaram nessa busca árdua e incerta. A jornada os havia levado por diversos cantos da Inglaterra, seguindo pistas fragmentadas e enfrentando perigos inimagináveis. Era uma noite como outra qualquer, após mais um dia de buscas cansativas e sem resultados. Kenji estava deitado na cama, com o olhar fixo no mapa da Inglaterra espalhado pelo chão do quarto. Ele riscava com força os locais já visitados, frustrado com a falta de progresso. Taishou, por sua vez, sentava ao seu lado, exausto tanto fisicamente quanto mentalmente. "Eu sinto muito, Kenji," Taishou suspirou, sua voz carregada de cansaço e culpa. "Mais uma pista falsa." Ele se deitou ao lado do amigo, seus corpos se tocando em um contato casual que fez Kenji corar instantaneamente. As emoções confusas que ele nutria por Taishou se agitavam em seu interior, como uma tempestade em constante ebulição. Com um aperto no peito, Kenji engoliu seus sentimentos e os escondeu em algum abismo profundo de sua alma. Ele precisava ser forte, precisava manter o foco na missão. "Relaxa, cara," ele disse, tentando soar despreocupado. "Eu disse, vamos revirar essa porra de país inteiro, até achar o que precisamos!" Taishou o observou por alguns instantes, seus olhos profundos carregados de admiração e gratidão. "Você é um puta amigo, sabia?" Kenji apenas corou, desviando o olhar sem saber o que responder. A amizade entre os dois era inabalável, um porto seguro em meio à tempestade que os cercava. Mas, no fundo de seu coração, Kenji lutava contra seus próprios demônios. A confusão sobre seus sentimentos por Taishou o atormentava, e as palavras de Demétrio ecoavam em sua mente como um fantasma cruel em todas as noites de lua cheia que ele ficava perto do amigo.
"Você é fraco, Kenji," a voz de seu pai sussurrava em seus ouvidos através da boca do lobo negro em que Taishou se transformava em toda noite de lua cheia. "Deixe que Taishou morda você, e acabe logo com essa missão tola. Vocês dois estão perdendo tempo, estão desperdiçando a chance valiosa que poderiam estar usando para reconstruindo nossa alcateia” Kenji se recusava a sucumbir à bestialidade, à crueldade que Demétrio pregava. Ele acreditava em um caminho diferente, um caminho de amor, compaixão e força interior que ele iria alcançar com Taishou. A noite caía sobre o quarto de hotel, envolvendo Kenji e Taishou em um manto de sombras e silêncio. A exaustão da jornada se refletia em seus rostos, mas a preocupação com a missão que os aguardava os mantinha alertas. Deitados lado a lado na cama estreita, os dois amigos conversavam em voz baixa, seus sussurros quase imperceptíveis no ambiente silencioso. A próxima lua cheia se aproximava, e com ela, a inevitável transformação de Taishou em lobisomem. "Se prepare, Kenji," Taishou murmurou, sua voz carregada de apreensão. "Demétrio está perturbando minha mente mais do que nunca nesta noite." Ele se virou para o amigo, seus olhos negros brilhando com uma intensidade assustadora. Ora negros como a noite, ora vermelhos como sangue. "Não hesite, se for preciso agir, faça!" Taishou continuou, sua voz quase um sussurro. "Ele quer que eu... que eu te morda."
Kenji sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele sabia que a transformação de Taishou era perigosa, mas nunca imaginou que as influências de Demétrio pudessem ser tão fortes. Em um gesto rápido, Taishou retirou uma faca de prata do bolso e a entregou a Kenji. "Dorme com isso essa noite," ele disse, sua voz tensa. "Amanhã, é noite de lua cheia, e eu estou me sentindo completamente perturbado. Demétrio não para de gritar na minha mente para eu te morder!" Kenji apertou a faca em suas mãos, o metal frio contra sua palma transpirada. Ele não sabia o que dizer, o que fazer. O medo e a preocupação se misturavam em seu interior, criando um turbilhão de emoções. "Não se preocupe comigo, Taishou," ele disse finalmente, sua voz firme apesar do tremor que sentia em suas mãos. "Eu já disse, esse cachorrinho preto que habita em você não me assusta!" Amanhã, vamos passar a noite de lua cheia como temos feito todos os meses, bem longe um do outro. Para evitar de você me lanchar. Taishou o encarou, seus olhos cheios de uma mistura de diversão, gratidão e tristeza. "Obrigado, Kenji," ele murmurou. "Eu não sei o que faria sem você."
Um silêncio confortável se instalou entre os dois amigos. Eles sabiam que a missão que os aguardava era árdua e perigosa, mas também sabiam que podiam contar um com o outro. A amizade que os unia era forte, inabalável, e era essa força que os impulsionava a seguir em frente, mesmo diante dos maiores desafios. Naquele quarto de hotel simples, a noite se desenhava como um manto de sombras e silêncio, envolvendo Kenji e Taishou em um abraço quase fraternal. Deitados lado a lado na cama estreita, os amigos conversavam em voz baixa, seus sussurros quase imperceptíveis no ambiente silencioso. A lua cheia se aproximava, lançando sua luz prateada sobre o mundo e anunciando a inevitável transformação de Taishou em lobisomem. Mas, nessa noite, algo diferente pairava no ar, uma tensão que transcendia os perigos da missão que os unia. Em um gesto inesperado, Taishou se virou para Kenji, seus olhos negros carregados de uma tristeza profunda que Kenji nunca havia visto antes. "Eu sinto falta dela, Kenji," ele sussurrou, sua voz rouca pela emoção. "Sinto falta da minha esposa, principalmente... intimamente." As palavras de Taishou atingiram Kenji como um soco no estômago. O ciúme que ele tentava reprimir há tanto tempo explodiu em seu interior, queimando-o com uma fúria incontrolável. Ele apertou os punhos com força, seus músculos tensos sob a pele.
Mas Kenji sabia que não podia demonstrar sua raiva. Ele precisava ser forte, precisava ser o amigo que Taishou precisava. Com um esforço sobre-humano, ele forçou um sorriso sem graça e fez uma piada boba, tentando aliviar a tensão do momento. "Você não deveria falar essas merdas pra mim, deitado tão próximo, ao meu lado" ele disse em tom descontraído. "Não é como se você fosse morrer por falta de sexo, a vida de casado te permitia fazer isso o que? uma, duas vezes no mês, no máximo?" Taishou o observou por alguns instantes, e riu seus olhos cheios de uma mistura de gratidão e tristeza. “Não me enche o saco, filho da puta…” O sexo com a Akane era escasso, mas…ainda sim, bom. Nós sempre aproveitamos as oportunidade em que Caleb não estava em casa”. Taishou fez uma pausa, mas logo continuou: “Desde que eu reativei minha besta, para me controlar, eu tive que me conter na cama com ela, por diversas vezes. Agora, eu confesso que estou sentindo muita falta dela. Estou pensando nos momentos que eu deixei de me satisfazer com ela.”
Um silêncio desconfortável se instalou entre os dois amigos. Kenji podia sentir o peso da culpa em seu peito, por ter inveja da felicidade de Taishou com sua esposa. Ele sabia que seus sentimentos por Taishou iam além da amizade, mas também sabia que não podia agir de acordo com eles. “Olha cara, por que você não liga pra ela, vai lá no banheiro, tocar uma punheta, sei lá! Qualquer coisa nesse sentido!”. Taishou apenas riu da sugestão do amigo. “Akane não gosta dessas coisas. Ela iria me odiar se soubesse que fiz isso, mesmo pensando nela.” Kenji suspirou. “Ah! Mulheres são todas igualmente e bizarramente parecidas...Sakura também não gostava, uma vez, ela quase me bateu quando me pegou no banheiro fazendo isso. Fez um drama! Dizendo que eu não a amava mais…” Em meio a piadas e histórias engraçadas, Kenji e Taishou se lembravam de momentos engraçados de suas companheiras, Sakura e Akane. As lembranças os faziam rir até às lágrimas, aliviando a tensão que pairava sobre eles. Em um dado momento, Taishou se virou para Kenji, seus olhos pretos cheios de curiosidade. "E você, Kenji," ele perguntou em tom brincalhão. "Sente falta da Sakura?"
Kenji ficou em silêncio por alguns segundos, ponderando a pergunta do amigo. Kenji se virou para Taishou, seus olhos verdes carregados de uma sinceridade que o amigo nunca havia visto antes. "Nos primeiros três meses," ele começou a falar, sua voz hesitante, "eu senti muita falta da Sakura. A dor era quase insuportável." Taishou o observou em silêncio, seus olhos cheios de compreensão. Ele sabia o quanto Kenji havia amado Sakura, e o quanto o término com ela o havia machucado. "Mas, depois," Kenji continuou, sua voz ganhando força, "a dor sumiu. Eu me senti... livre. Como se um peso enorme tivesse sido tirado dos meus ombros." Taishou arqueou uma sobrancelha, intrigado. "Livre?" ele perguntou. "Do quê?" Kenji sorriu, um sorriso triste e melancólico. "Livre da Sakura," ele disse. "Livre do amor que eu sentia por ela. Livre do passado." Taishou ficou em silêncio por alguns instantes, processando as palavras do amigo. Ele não sabia o que dizer, o que pensar. Kenji parecia ter mudado, se tornado frio e distante. "E você não vai tentar reatar o namoro?" Taishou finalmente perguntou, sua voz carregada de curiosidade. Kenji o encarou por alguns segundos, seus olhos frios e impiedosos. "Não," ele disse com firmeza. "A Sakura me machucou muito. Eu não posso confiar nela novamente. A verdade é que, já fazia muito tempo que não estávamos satisfeitos um com o outro. Essa viagem só nos ajudou a terminar com a farsa de vez"
Taishou assentiu em concordância, mas ainda sentia uma pontada de tristeza em seu coração. Ele sabia que Kenji estava sofrendo, mas também sabia que o amigo precisava de tempo para se curar. Naquela noite, Kenji e Taishou adormeceram lado a lado, seus pensamentos perdidos em um labirinto de dúvidas e incertezas. Eles sabiam que a jornada que os aguardava seria longa e árdua, e que as chances de voltarem para casa até o final do ano eram pequenas. Mas, mesmo diante da incerteza, a amizade que os unia os mantinha fortes e esperançosos. O amanhecer despontou na Inglaterra, banhando a paisagem em tons de cinza e azul escuro. Um véu de névoa pairava sobre as montanhas, encobrindo os picos nevados e criando uma atmosfera sombria e opressiva. Taishou e Kenji caminhavam lado a lado por entre a neve congelada, seus rostos abatidos e seus passos pesados. A jornada árdua e os perigos constantes da missão pesavam sobre eles como um fardo inabalável.
"Ontem à noite," Taishou começou a falar, sua voz baixa e rouca, "Demétrio estava mais incisivo do que nunca. Ele me atormentava, me dizendo que estamos perto... perto de encontrar o que procuramos." Ele parou por um instante, respirando fundo e encarando Kenji com seus olhos negros carregados de preocupação. "E ele também disse... que talvez hoje à noite, durante a lua cheia, ele me force a machucar você." Kenji o observou em silêncio, seus próprios olhos verdes se estreitando em uma linha fina. Ele podia sentir a tensão emanando de Taishou, o medo que o consumia. "Deixa ele tentar," Kenji disse finalmente, sua voz firme e inabalável, mesmo que por dentro ele também estivesse sentindo medo. Ele deu de ombros, com um gesto casual que contrastava com a gravidade da situação. "Eu sei me defender," ele continuou, dando um tapinha no bolso onde sua inseparável Magnum 357 repousava. Taishou assentiu em concordância, mas a preocupação ainda era visível em seus olhos. Ele sabia que a força de Kenji era inquestionável, mas também sabia que a influência de Demétrio sobre ele era poderosa e perigosa. Eles continuaram a caminhada em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. A neve caía em flocos leves, cobrindo seus rastros e seus segredos. A cada passo que davam, a lua cheia se aproximava, trazendo consigo a promessa de novas revelações e perigos ainda maiores.