O frio da manhã cortava o rosto de Taishou enquanto ele segurava o telefone contra o ouvido, a voz de Akane ecoando do outro lado do oceano. Quase um ano se passou desde que ele partiu, buscando respostas para a maldição da licantropia que o assombrava. Finalmente, em Inverness, Escócia. Ele encontrou todas as respostas que buscava. A saudade apertava seu coração, cada dia longe dela era uma tortura. De repente, o som do telefone celular cortou a calma da madrugada. Com o coração acelerado, Akane atendeu. Quem estava do outro lado da linha era seu amado marido. Taishou Seiji. Sua voz transbordando de alegria e entusiasmo. Ele finalmente havia se libertado das garras de Demétrio, encontrando refúgio em uma alcateia de lobos brancos e benevolentes, onde poderia viver em paz e harmonia com sua natureza selvagem. Akane escutou com atenção a narrativa empolgada do marido. A felicidade dele era contagiante, e ela se alegrava por ele ter encontrado um lugar onde pudesse ser ele mesmo. Porém, no fundo de seu coração, uma inquietação pairava.
A proposta de Taishou era tentadora: viver ao lado dele na floresta gélida em Inverness, cercada pela natureza e livre das amarras da sociedade humana, era um sonho que ela acalentava em segredo há muito tempo. Mas a ideia da maldição da eternidade, de se transformar em um lobisomem, por mais "bonzinho" que fosse, a amedrontava. Horas se passaram desde a ligação, e Akane ainda ponderava suas opções. O amor que sentia por Taishou era inabalável, mas o medo da mudança a consumia. Ela imaginava-se como seria ser uma criatura selvagem, distante da vida que conhecia e das pessoas que amava. E não lhe era atrativa essa ideia. Ela se surpreendeu o quão facilmente seu amigo de infância Kenji Takahashi abdicou de tudo, e simplesmente se juntou à alcateia de Taishou. Horas se passaram desde a ligação, e Akane ainda ponderava suas opções. A solidão a consumia, o desejo de ter Taishou ao seu lado era quase palpável. Mas a ideia de abrir mão de sua humanidade, de seus amigos e família, da cidade aonde ela nasceu e cresceu, para se tornar algo que ela não reconhecia, a paralisava. Levantou-se e caminhou pela sala, seus pés descalços pisando na madeira fria. Akane se aproximou da janela e observou o céu noturno, as estrelas cintilando como diamantes em um pano de veludo.
Fechou os olhos e respirou fundo, o ar fresco da noite invadindo seus pulmões. Em sua mente, a imagem de Taishou sorrindo para ela tomava forma. Ela podia sentir seu calor, sua força, seu amor incondicional. Um aperto no coração a fez abrir os olhos novamente. Ela sabia o que precisava fazer. O amor que sentia por Taishou era real, mas a maldição da eternidade era um preço alto demais para pagar. Ela o amava, mas não o suficiente para se transformar em algo que ela não era. Na manhã seguinte, Akane, após deixar o laboratório, não seguiu para casa. A verdade é que ela estava carregada de frustração. Havia uma miríade de razões para sua infelicidade: Caleb, seu filho adolescente, já não a respeitava; Taishou, seu marido, encontrava-se em uma missão há quase um ano, e lhe lançou um proposta absurda e Sakura e Hinata, suas amigas de infância, que antes eram inseparáveis, agora, se comportavam como se fossem estranhas. Akane não conseguia desvendar o motivo pelo qual sua vida havia desandado tão abruptamente.
Caminhando pelas ruas de Hinode, ela tomou uma decisão inédita: entrar em um bar. Nunca antes Akane havia buscado no álcool um refúgio para seus problemas. Contudo, a necessidade começava a fazer-se presente, insistente. Ao adentrar o estabelecimento, pediu uma dose de gin e se acomodou solitária no canto mais recôndito do local. Enquanto bebia, seus pensamentos mergulhavam na amarga reflexão sobre o caos que se tornara sua vida. O bar era escuro e abafado, o cheiro de cigarro e cerveja impregnava o ar. Akane estava no canto mais isolado, tentando se esquivar dos olhares curiosos dos frequentadores. Ela apertou o copo gelado com força, a condensação escorrendo por seus dedos enquanto observava a bebida âmbar reluzente. Cada gole de gin era como um soco no estômago, mas de alguma forma, a dor física aliviava um pouco a dor emocional que a consumia. Em sua mente, as imagens se desenrolavam como um filme em câmera lenta. A voz insolente de Caleb ecoando em seus ouvidos, a frieza de Taishou, o olhar de decepção de Sakura e Hinata. Cada lembrança era como uma punhalada em seu coração. "Por que?", ela perguntou em voz baixa. "O que eu fiz de errado? Será que eu cometi um erro ao aceitar me casar com Taishou?". As lágrimas ameaçavam cair, mas ela as segurou com força. Não queria se mostrar fraca, nem mesmo para si mesma.
Ela tomou mais um gole de gin, o sabor amargo queimando sua garganta. A bebida não acalmava sua angústia, mas a entorpecia por um tempo. Ela precisava de algo mais, de uma resposta para a sua dor. Akane brincava com a aliança no dedo, um gesto nervoso que demonstrava a inquietação em seu coração. A lembrança do dia do pedido de casamento de Taishou ainda era vívida em sua mente, a emoção da promessa eterna que eles fizeram um ao outro. E mesmo quando eles ainda eram dois adolescentes, essa proposta surgiu. A proposta de se entregar a maldição da licantropia. Akane acreditava que poderia salvar Caleb e Taishou desse destino, mas falhou miseravelmente em todas as suas tentativas. E agora, a realidade era bem diferente. Taishou desejava que Akane se transformasse para viver ao lado dele para sempre, em sua nova alcateia. O que mais a perturbava era a falta de tato de Taishou em não perceber que ela não desejava isso. Na última conversa que tiveram, ele parecia decidido a permanecer em Inverness para sempre, o que gerava um turbilhão de dúvidas e preocupações em Akane. Ela amava Hinode, a pacata cidade que sempre fora seu lar. As ruas calmas, as pessoas acolhedoras, a vida simples e tranquila, tudo isso fazia parte de quem ela era. A ideia de deixar tudo para trás para seguir Taishou era assustadora e absurda.
Akane se questionava sobre o futuro, sobre o que o destino reservava para eles dois. A distância e a falta de comunicação pesavam em seu coração, criando um abismo entre eles que parecia crescer a cada dia. Ao mesmo tempo, ela tentava se agarrar à esperança, à crença de que o amor que os unia seria capaz de superar qualquer obstáculo. As memórias dos momentos felizes que viveram juntos, das risadas compartilhadas e dos sonhos que construíram lado a lado serviam como um bálsamo para sua alma. A angústia de Akane se intensificava com cada gole de gin. A cada dose, a lembrança do distanciamento emocional de Taishou pesava mais em seu coração. A missão que o mantinha longe por tanto tempo se transformava em um fardo, alimentando suas dúvidas e inseguranças. Em sua mente, a briga entre Kenji e Sakura e a decisão de Sakura de terminar o namoro antes da viagem de ambos nunca fez tanto sentido na cabeça de Akane. Naquela altura do campeonato, Sakura já havia superado a dor do término e provavelmente já estava namorando um médico de seu plantão. Enquanto ela permanecia sozinha em Hinode, firme e fiel a Taishou.
Com um sorriso triste no rosto, Akane pegou o telefone e discou o número de Taishou. Mas ele não atendia. A cada tentativa de contato com Taishou, a frustração de Akane crescia. O telefone tocando sem resposta apenas alimentava suas suspeitas de que ele estava escondendo algo. A ideia de que seu marido pudesse ter uma vida dupla com outra mulher era devastadora, um golpe em sua confiança e na imagem que ela tinha do homem que amava. A pergunta que ecoava em sua mente naquele momento era: "Seria possível um homem ficar um ano sem sexo? Por que ele não atende o telefone?". A resposta era incerta, mas a dúvida era suficiente para alimentar o ciúme e a paranoia de Akane. Embora a bebida turvasse sua visão e entorpecesse seus sentimentos, Akane não conseguia se livrar da dor e da incerteza. A cada gole, a realidade se tornava mais difícil de suportar. Em meio à sua tristeza, Akane se questionava sobre o que fazer. Deveria continuar esperando por Taishou, mesmo sem saber se ele voltaria algum dia? Deveria enfrentá-lo e obrigar ele a voltar para casa? Ou deveria aceitar sua nova condição e se juntar a ele em sua alcateia?
Qual decisão iria destruir menos a sua vida e o que restava de seu casamento? Ela pensava que deveria seguir em frente, buscar a própria felicidade sem a presença de Taishou. As perguntas em sua mente a destruíram, e a deixava em um mar silencioso de dúvidas e angústia. A única certeza que ela tinha era que precisava tomar uma decisão, antes que a dor e a incerteza a consumissem por completo. Enquanto isso, paralelo a dor de Akane, no aconchegante chalé, Taishou e Kenji desfrutavam de uma tarde animada, conversando sobre o treinamento da alcateia realizado naquele dia. A energia de Kenji era contagiante, ele vibrava com a evolução dos lobos e a cada conquista se sentia mais confiante em suas habilidades como beta. As risadas e brincadeiras ecoavam pelo local, criando uma atmosfera de leveza e camaradagem. De repente, o clima mudou drasticamente. Taishou, com um olhar sombrio, pegou o celular e verificou as mensagens que Akane havia enviado. As palavras amargas da esposa atingiram-no como um soco no estômago, fazendo com que a alegria que antes o contagiava se esvaísse em segundos.
Kenji, percebendo a mudança drástica no humor do amigo, o questionou sobre a razão daquela súbita seriedade. Taishou, com a voz carregada de tristeza, respondeu apenas: "Akane". A menção do nome foi suficiente para transmitir a Kenji a gravidade da situação. Ele sabia que a distância e a falta de comunicação estavam afetando o relacionamento de Taishou com Akane, e que as mensagens enviadas por ela eram um grito de angústia e desespero. Um silêncio pesado se instalou entre os dois amigos. Kenji, sem saber o que dizer, observava Taishou enquanto ele tentava digerir a dor contida nas palavras de Akane. O peso da situação era palpável, e ambos sabiam que algo precisava ser feito para salvar o relacionamento que estava à beira do abismo. Kenji se sentia impotente em meio àquela situação, mas sabia que precisava apoiar Taishou da melhor maneira possível. Ele ofereceu seu ombro amigo e se colocou à disposição para conversar, ouvir e ajudar no que fosse preciso. Taishou, agradecido pelo apoio do amigo, ponderava sobre o que fazer. Ele precisava encontrar uma maneira de resolver a situação com Akane, de restaurar a confiança e o amor que antes uniam os dois. A missão se tornava cada vez mais pesada, e a saudade da esposa e do lar aumentava a cada dia. Kenji, com a perspicácia que o caracterizava, não deixou a oportunidade passar. Diante da revolta expressa por Akane nas mensagens, ele questionou Taishou sobre a real necessidade de sua permanência ali. Já fazia duas semanas desde que ele havia recuperado o controle da licantropia, tempo mais do que suficiente para retornar ao lar e acalmar as angústias da esposa.
Taishou, sem conseguir sustentar o olhar de Kenji, desviou-o, buscando refúgio em seus próprios pensamentos. A verdade que ele tanto tentava esconder finalmente vinha à tona: ele estava gostando de sua estadia naquele local. A companhia de Kenji e a amizade da alcateia lhe proporcionam um senso de pertencimento que ele nunca havia encontrado em Hinode. Com o coração dividido entre o amor por Akane e o apreço por sua nova vida, Taishou tentou contato com a esposa. Ligou para ela, mas sem sucesso. A frustração o levou a ligar para Caleb, na esperança de obter notícias da sua mulher. A voz sonolenta de Caleb do outro lado da linha evidenciava a diferença de fuso horário que os separava. A comunicação se tornava um desafio, com a madrugada já dominando Hinode enquanto a tarde reinava no local onde Taishou e Kenji se encontravam. Com a voz ainda carregada de sono, Caleb questionou se estava tudo bem com o pai. Taishou, sem rodeios, pediu que ele passasse o telefone para Akane. Caleb, em silêncio, concordou e foi em busca da mãe. Minutos se passaram em um silêncio angustiante. Finalmente, Caleb retornou à linha, mas com uma notícia que deixou Taishou em pânico: Akane não estava em casa. A informação o atingiu como um raio, lançando-o em um abismo de preocupação. Como era possível que sua esposa não estivesse em casa no meio da madrugada? A mente de Taishou se inundou com pensamentos sombrios, imaginando os piores cenários.
A angústia o consumia. Ele precisava saber o que estava acontecendo com Akane, precisava tê-la ao seu lado para acalmar seus próprios medos e restaurar a confiança que estava se esfarelando entre eles. A missão, antes vista como uma oportunidade de solução e encontro da paz, agora se tornava um obstáculo, um fardo que o impedia de estar com quem mais amava. Taishou desligou o telefone, a mente em turbilhão após a notícia devastadora: “Akane não está em casa.” Ele murmurou para Kenji. A incredulidade tomava conta de seu ser enquanto ele olhava para Kenji, buscando em seus olhos alguma resposta para a pergunta que martelava em sua mente: "Como assim?". Kenji, por sua vez, sentiu o peso da situação se abater sobre si. A notícia era preocupante, e ele sabia que as implicações poderiam ser graves. Já passava das duas da manhã em Hinode, e a ausência de Akane em um horário tão avançado da noite era, no mínimo, incomum. A preocupação tomava conta de Taishou, que se via diante de um dilema angustiante. A imagem de Akane sozinha e em perigo assombrava sua mente, alimentando seus medos e incertezas. Ele precisava saber o que havia acontecido com ela, precisava tê-la ao seu lado para acalmar seus próprios tormentos e restaurar a confiança que se esfarelava entre eles.
Em meio à angústia, Taishou tentava analisar as possibilidades, buscando uma explicação lógica para a ausência de Akane. Talvez ela estivesse visitando alguma amiga ou familiar, ou talvez tivesse saído para resolver alguma urgência. Mas a cada pensamento, a lógica se perdia em meio à preocupação, e a imagem de Akane em perigo se tornava cada vez mais vívida. Kenji, observando o amigo tomado pela aflição, tentava oferecer palavras de conforto e apoio. Ele sabia que a situação era difícil, mas também sabia que Taishou precisava manter a calma para poder agir com clareza e racionalidade. "Talvez ela tenha apenas se perdido na hora de voltar para casa.", Kenji sugeriu, tentando amenizar a apreensão do amigo. "Ou talvez ela tenha ido a algum lugar que não te contou." Taishou ouvia as palavras de Kenji, mas elas não eram suficientes para acalmar seu coração. A incerteza o consumia, e a cada segundo que passava, a preocupação se intensificava. Ele precisava saber o que estava acontecendo com Akane, precisava tê-la ao seu lado para lidar com a situação da melhor forma possível.
Tomando uma decisão impulsionada pela angústia, Taishou pegou o celular e discou o número de Hinata, a amiga de Akane. Ele sabia que era tarde, mas a necessidade de obter informações era maior do que qualquer protocolo de horário. "Hinata, preciso falar com você agora!", Taishou disse com a voz tensa, revelando a urgência que o consumia. "Akane não está em casa e estou muito preocupado." A resposta de Hinata foi imediata, carregada de surpresa e apreensão. Ela também não sabia do paradeiro de Akane, e já faziam meses que as amigas enfrentavam discussões e brigas acerca de suas decisões. A frustração e o desespero tomavam conta de Taishou enquanto ele desligava o telefone. Como ele não percebeu que sua decisão estava lentamente destruindo os laços de confiança entre todos os seus antigos amigos? A notícia de que nem Hinata e nem Sakura eram mais amigas de sua esposa o deixou ainda mais perturbado do que antes. O que estava acontecendo durante sua ausência? A mente de Taishou se inundava com pensamentos sombrios, e a dúvida que ele tanto tentava evitar finalmente se instalava: "Será que... ela tá me traindo?".
O olhar de Taishou se fixou em Kenji, buscando em seu amigo alguma resposta, algum conforto para as angústias que o consumiam. Kenji, percebendo a dor e a desesperança nos olhos do amigo, se esforçou para manter a calma e a racionalidade. "Traindo você? Não seja estúpido.", Kenji disse com voz firme, tentando acalmar o amigo. "Akane é loucamente apaixonada por você desde o ensino médio." Embora as palavras de Kenji trouxessem um fio de esperança, Taishou não conseguia se livrar da ideia de traição que assombrava sua mente. A imagem de Akane com outro homem o atormentava, alimentando seus medos e inseguranças. "Mas e se ela estiver com outro homem? Já faz tanto tempo que…", Taishou questionou, a voz carregada de dor e incerteza. "E se ela não aguentou ficar sozinha e me traiu?" Kenji respirou fundo, buscando as palavras certas para confortar o amigo. "Taishou, você e Akane estão juntos há tanto tempo. Ela te ama, e você a ama. É difícil acreditar que ela faria algo assim sem te contar." As palavras de Kenji eram verdadeiras, mas a desconfiança já havia se instalado no coração de Taishou. A saudade da esposa, a distância e a falta de comunicação haviam criado um terreno fértil para a dúvida e o ciúme. "Eu não sei o que pensar, Kenji.", Taishou disse, a voz embargada pela emoção. "Eu só quero saber onde ela está e o que está acontecendo." Kenji, compreendendo a angústia do amigo, colocou a mão em seu ombro em um gesto de apoio. “Você precisa beber comigo” Ele disse.
Do outro lado da cidade de Hinode, Akane despertou com um turbilhão de confusão na mente. A dor de cabeça latejava impiedosamente, intensificada pela ressaca do álcool que consumiu na noite anterior. Seus olhos se abriram lentamente, revelando um quarto estranho e um homem desconhecido dormindo ao seu lado. O pânico a tomou conta quando ela percebeu que estava nua, sem nenhuma lembrança de como havia chegado ali. As imagens da noite anterior se entrelaçavam em sua mente como fragmentos de um sonho obscuro. Lembrava-se de beber sozinha em um bar, de sentir-se amargurada pela distância de Taishou e pela falta de notícias sobre seu retorno. Lembrava-se de encontrar o estranho, de flertar com ele, de rir e dançar. Mas as memórias se apagavam antes da cena crucial, antes do momento em que se entregou ao álcool e à paixão fugaz. A culpa e a vergonha a consumiam enquanto ela se vestia às pressas, cuidando para não despertar o homem ao seu lado. Seus movimentos eram rápidos e silenciosos, impulsionados pela urgência de escapar daquele lugar e esquecer a noite de erro que acabara de cometer. Ao sair da casa do estranho, Akane se deparou com a fria luz da manhã, que parecia intensificar sua dor de cabeça e sua angústia. As ruas da cidade lhe pareciam estranhas e hostis, um reflexo do turbilhão de emoções que a dominava.
Com passos vacilantes e a mente turva, Akane seguiu em direção à sua casa, buscando refúgio no familiar e no aconchego que sempre lhe proporcionou. Mas a cada passo, a culpa e a vergonha a acompanhavam, como sombras que ameaçavam consumir sua alma. A noite de erro havia deixado uma marca profunda em seu coração, um segredo que ela temia revelar a Taishou. O futuro do relacionamento se tornava incerto, nublado pelas dúvidas e pelo peso da traição. Akane se questionava se seria capaz de recuperar a confiança de Taishou, se seria capaz de perdoar a si mesma por ter cedido à tentação em um momento de fragilidade. Akane chegou em casa com o coração apertado, a mente ainda atormentada pelos eventos da noite anterior. A culpa e a vergonha a corroíam por dentro, e a incerteza sobre o futuro a deixava sem ânimo. Ao abrir a porta, deparou-se com uma cena que a deixou ainda mais abalada: Yuki e Caleb, seu filho, estavam sentados no sofá da sala, em um momento íntimo e quente. Os dois estavam quase sem roupas em cima do sofá, se agarrando e se beijando. A imagem era perturbadora, e a falta de reação de Akane diante da cena só aumentava a confusão e a estranheza. Ela não teve moral ou forças para falar nada ou chamar a atenção do filho. A dor da traição se intensificava, agora misturada com a surpresa e a decepção. Ela apenas ignorou os dois e se dirigiu para o seu quarto, fechando a porta com um estrondo que ecoou pela casa.
Yuki e Caleb se assustaram com a chegada repentina de Akane. Caleb, ainda vestindo a blusa às pressas, observou a mãe com estranheza. A atitude fria e distante de Akane era incomum, e a falta de qualquer comentário, bronca ou briga sobre a cena que acabara de presenciar o deixava ainda mais confuso. Yuki, com a voz ainda trêmula, questionou: "Ela... viu a gente?" Caleb, evitando o olhar da namorada, respondeu: "Claro que viu. Ela olhou direto nos meus olhos." A confirmação de seus receios fez com que Yuki se sentisse ainda mais desconfortável. Ela ajeitava a saia, buscando disfarçar a própria vergonha, enquanto seus pensamentos se agitavam em um turbilhão de culpa e arrependimento. "Mas ela não brigou, nem falou nada", Yuki comentou, a voz quase um sussurro. Caleb concordou com a cabeça, confirmando a estranheza da situação. "Eu sei, é estranho... muito estranho." Um silêncio desconfortável se instalou novamente, ambos sem saber como lidar com a situação. Yuki, sentindo-se cada vez mais constrangida, finalmente tomou uma decisão.
"Caleb, eu... vou indo embora. Acho que vocês precisam conversar", ela disse, a voz carregada de timidez. Caleb, ainda sem saber como reagir, apenas assentiu com a cabeça. Ele se aproximou de Yuki e lhe deu um beijo de despedida, um gesto rápido e sem muito afeto, reflexo da própria confusão e desconforto. Yuki se afastou e foi embora, deixando Caleb sozinho com seus pensamentos. A mente do jovem se inundava com perguntas: Por que sua mãe não reagiu à cena que presenciou? Caleb se sentou no sofá, ainda atordoado pelos acontecimentos da noite. A imagem de sua mãe o perturbava, e a incerteza sobre o futuro o deixava ansioso. Ele sabia que precisaria conversar com Akane, mas não sabia como iniciar essa conversa, nem o que esperar dela. Com passos trêmulos, o adolescente foi até o quarto dos seus pais, e bateu na porta. Uma voz fraca ecoou de dentro do quarto. “Eu quero ficar sozinha, Caleb.” Caleb hesitou por um momento, mas a preocupação pelo estado de sua mãe o impulsionou a entrar. O quarto estava mergulhado em sombras e silêncio, apenas interrompido pelo som abafado dos soluços de Akane. Ele se aproximou da cama, sentindo o peso do arrependimento e da confusão que pairava no ar. Sentando-se ao lado dela, ele a abraçou com cuidado, tentando oferecer algum conforto. “Mãe, o que aconteceu?” ele perguntou suavemente, sua voz carregada de preocupação. Akane levantou o rosto, seus olhos vermelhos e inchados de choro. “Eu cometi um erro, Caleb. Eu não sirvo para cuidar dessa família.” ela começou, sua voz trêmula. “E agora, tudo parece tão confuso e doloroso.” Caleb manteve o abraço, oferecendo um silêncio solidário enquanto sua mãe desabafava. “Eu sei que você viu… viu o que aconteceu com Yuki e eu na sala agora a pouco,” ele disse após um momento de constrangimento. “Eu sinto muito, mãe. Eu sei que você e a Sakura pediram para eu ficar longe dela, mas, simplesmente isso é impossível para mim. Eu amo a Yuki e…”
Akane suspirou, uma mistura de tristeza e resignação em seu olhar. Ela interrompeu o filho: “Não é só isso, Caleb. É sobre mim também. Sobre o que eu fiz ontem à noite. Sobre Taishou… e sobre nós.” Caleb sentiu o coração apertar com a lembrança da ligação de seu pai durante a madrugada procurando por ela. Ele se sentiu muito mal consigo mesmo, ele deveria ter saído de casa e procurado por sua mãe. Mas, ao invés disso. Ele ligou para Yuki, e ambos aproveitaram o momento de ausência dos pais para satisfazer suas próprias necessidades. Caleb se sentia um adolescente rebelde e sem um pingo de empatia. “Vocês brigaram?” ele perguntou, sua voz refletindo a tensão que sentia. Akane olhou para o filho, os olhos ainda marejados. “Eu mandei… algumas mensagens bem…pesadas para ele. Eu tinha saído para ir ao bar beber ontem depois do trabalho." A preocupação de Caleb só cresceu. Ele nunca viu a mãe colocando uma gota de álcool na boca. “Aonde você passou a noite?” ele indagou, temendo a resposta. Akane hesitou, a verdade pesando em seus lábios. “Já tem meses que minha mente não está bem…e…eu fiquei bêbada e….,” ela respondeu com um suspiro pesado. ”Eu…acordei… e estava em um lugar que eu não deveria estar,” ela começou, a voz baixa. “Cometi um erro, Caleb. Algo que me arrependo profundamente.”
Caleb, com uma expressão de preocupação e confusão, olhou diretamente nos olhos de Akane. “Mãe, você traiu meu pai?” ele perguntou, sua voz carregada de incerteza e medo da resposta. Akane sentiu o peso da pergunta de seu filho. Ela sabia que a verdade era inevitável e que as consequências de suas ações afetariam não apenas a si mesma, mas também a família que ela tanto amava. Com um suspiro trêmulo, ela encontrou a coragem para enfrentar a realidade de suas escolhas. “Sim, Caleb,” ela admitiu, a voz baixa, mas firme. “Eu traí seu pai.” A honestidade de Akane trouxe uma onda de emoções para Caleb, que lutava para processar a confissão. Caleb estava dividido. Por um lado, ele compreendia a solidão e a necessidade de afeto que poderiam ter levar sua mãe a buscar conforto em outros braços, especialmente após um ano de ausência de seu pai. Por outro lado, a ideia de traição era difícil de aceitar, uma violação do compromisso que ele sempre acreditou ser sagrado entre os dois. Ele tentou se manter lógico, considerando que a distância e o tempo poderiam ter levado seu pai a situações semelhantes. Caleb não queria julgar sua mãe; ele sabia que a complexidade dos sentimentos humanos e das relações muitas vezes escapava à lógica simples do certo e errado. “Vocês dois precisam conversar. Essa viagem já durou tempo demais.” disse Caleb, sua voz firme, mas sem julgamento. Akane, com uma tristeza palpável, concordou: “Eu sei.” Era um momento de reconhecimento mútuo da situação delicada em que se encontravam. “Você acha que seu pai vai me perdoar?” Caleb refletiu sobre a pergunta, consciente da complexidade das emoções e do perdão. “Eu realmente não sei,” ele respondeu com honestidade. “O perdão é uma jornada pessoal e profunda. Dependerá muito do meu pai, de como ele vê o nosso relacionamento familiar e de sua capacidade de perdoar.”
A conversa entre Caleb e Akane foi abruptamente interrompida pelo som insistente do celular de Akane. O visor iluminado mostrava o nome “Taishou”, fazendo com que Caleb olhasse para o aparelho com um misto de temor e expectativa. Akane, percebendo a chamada, sentiu uma onda de ansiedade. “É o seu pai,” ela disse, sua voz quase inaudível. Caleb, com as mãos trêmulas, não disse uma palavra. Ele sabia que aquele momento era crucial e que as palavras trocadas entre seus pais poderiam mudar tudo. Com um aceno silencioso, ele se levantou e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si para dar a privacidade que seus pais precisavam para aquela conversa tão importante. Sozinho no corredor, Caleb respirou fundo, tentando acalmar o turbilhão de emoções que o consumia. Seus olhos brilhavam em vermelho. Sua besta gritando para ele sair dali e se isolar na floresta. Mas ele se conteve. Enquanto isso, Akane atendeu a chamada, preparando-se para enfrentar as consequências de suas ações e as palavras de Taishou. Do outro lado da linha, a voz de Taishou era um borrão alcoólico, suas palavras tropeçando umas nas outras. “Aonde você estava essa madrugada?” ele exigiu saber, a agressividade em sua voz cortando o silêncio da noite. “Por que você me mandou aquelas mensagens horríveis? Eu estou em uma missão importante aqui, eu merecia seu apoio, não seu desdém e desconfiança!”
Akane, com a culpa pesando em seu coração, tentou manter a calma. “Eu sei que está sendo difícil para você, para mim também,” ela começou, sua voz um sussurro trêmulo. “Eu não vim para a Inglaterra para trair você,” Taishou interrompeu, sua voz subindo e descendo como as ondas de um mar tempestuoso. “Eu vim para resolver sobre meu clã, minha alcateia sobre minha… minha vida! Eu vim buscar respostas sobre a licantropia, e em como posso manter isso controlado! Eu vim para dar segurança e conforto para você e seus amigos! Para nossa família!” Akane sentiu uma pontada de dor. “Eu sei… mas… faz tempo já… e eu sinto sua falta,” ela confessou, a saudade transbordando em cada palavra. Taishou soltou uma risada amarga. “Eu também sinto sua falta,” ele disse, e Akane podia ouvir o som da garrafa se chocando ao fundo. “Faz um ano que eu não sei o que é sexo… Mas eu estou me mantendo firme. Fiel a você.” Akane fechou os olhos, um suspiro escapando de seus lábios. “Eu… cometi um erro essa noite,” ela admitiu, a verdade dolorosa finalmente vindo à tona. O silêncio que se seguiu foi carregado de tensão e arrependimento, um prelúdio para a tempestade de emoções que estava por vir. A reação de Taishou foi visceral e carregada de fúria. “Como você pôde?!” ele gritou, sua voz tremendo com raiva. “Enquanto eu estou aqui arriscando minha vida, mantendo-me fiel a você… você estava com outro homem?!” Akane recuou, o ataque verbal a atingindo como uma onda de choque. “Taishou, por favor, tente entender,” ela implorou, mas suas palavras pareciam inúteis contra a tempestade de acusações. “Entender?!” Taishou zombou, o som de algo quebrando ao fundo. “Eu lutei contra meus próprios demônios, lutei pela honra do meu clã, da minha alcateia, eu estou aqui fodido com as costelas quebradas, eu quase morri e você… você me traiu!?” O telefone foi jogado com força, e o som da linha caindo foi o fim abrupto da conversa, deixando Akane sozinha com o eco da raiva de Taishou e o peso esmagador de sua própria culpa.