Sob o manto prateado da lua cheia, Taishou encontrava-se sozinho na floresta, seu olhar perdido nas sombras que dançavam entre as árvores antigas. A atmosfera estava carregada com o poder da noite, cada sussurro do vento e cada folha que caía pareciam falar diretamente à alma atormentada de Taishou. Ele respirava fundo, o ar frio da noite enchendo seus pulmões, enquanto seus olhos se fixavam na pequena cidade de Hinode, que repousava tranquilamente ao pé da montanha. A luta interna de Taishou era palpável, uma batalha silenciosa contra os demônios que Demétrio havia deixado em sua mente. “Você está com vontade de atacar alguém?” A voz de Demétrio zombava, uma presença constante em seus pensamentos, um lembrete da escuridão que agora fazia parte dele. Taishou se recolhia mais na floresta, afastando-se da tentação, da possibilidade de perder o controle. “Não,” ele sussurrava à noite, “eu não vou machucar ninguém. ”Mas as palavras pareciam frágeis diante da força da besta dentro dele. Demétrio, o antigo lobo alfa, assombrava seus pensamentos, uma sombra que se estendia além da morte. Taishou sabia que agora carregava dentro de si a parte mais sombria do seu ser, um legado de poder ancestral e perigo que ele nunca desejou.
A lua cheia testemunhava seu tormento, iluminando o caminho de um homem dividido entre a humanidade e a besta, entre a luz e a escuridão que lutavam pelo domínio de sua alma. A voz de Demétrio era como um trovão na mente de Taishou, cada palavra uma martelada contra a frágil barreira de sua sanidade. “Precisamos de sangue,” insistia a voz, cada vez mais alta, mais exigente. Taishou fechou os olhos, a irritação pulsando em suas têmporas. “Cala a boca,” ele rosnou, mas o som de sua própria voz era abafado pelo riso de Demétrio, um som que era ao mesmo tempo uma provocação e um lembrete de sua maldição. “A meia-noite está próxima…” Demétrio zombava, e Taishou sabia que a escuridão dentro dele ansiava por ser libertada. Sozinho no coração da floresta de Hinode, Taishou caminhava com passos pesados, cada um marcando sua determinação de não se tornar o monstro que Demétrio queria que ele fosse. Ele se acorrentaria a uma árvore se necessário, qualquer coisa para evitar machucar alguém. “Você precisa conseguir sangue… alguma presa…” A voz de Demétrio era sedutora, mas Taishou resistia, respirando fundo, buscando o cheiro de alguma presa que não fosse humana. Seus instintos canídeos afloraram, mais fortes a cada toque da luz da lua em sua pele. Seus olhos brilhavam em um vermelho profundo, um reflexo da besta que lutava para se libertar. Suas presas e garras, agora aparentes, eram a prova física da luta interna que ele enfrentava.
Naquela noite de lua cheia, Taishou estava sozinho, mas não era apenas a solidão da floresta que o cercava; era a solidão de um homem dividido entre dois mundos, lutando para manter a humanidade diante da escuridão que ameaçava engoli-lo. Demétrio, o lobo alfa caído, agora fazia parte dele, a parte mais sombria de seu ser, sempre sussurrando, sempre tentando dominar. Taishou estava determinado a resistir, a não deixar que a besta dentro dele vencesse. Finalmente, era meia noite, e a lua estava centralizada no ponto mais alto do céu. A transformação de Taishou começou sob o manto da lua cheia, uma força antiga e incontrolável que se erguia de dentro dele. A princípio, foi uma sensação de calor que se espalhou por sua espinha, um prelúdio do que estava por vir. Seus músculos se contraíram involuntariamente, e ele caiu de joelhos, as mãos cravadas no solo úmido da floresta. O som de ossos se reorganizando ecoou na noite silenciosa, um coro grotesco de estalos e rangidos. Seu rosto se contorceu em agonia enquanto sua mandíbula se alongava, dentes humanos cedendo lugar a presas afiadas como navalhas. Um gemido escapou de seus lábios, transformando-se em um uivo primal que se misturava com o vento entre as árvores.
A pele de Taishou se estica e rasga, dando lugar a uma pelagem negra e espessa que brotava por todo o seu corpo. Seus olhos, antes de um preto humano, agora ardiam com um vermelho profundo, refletindo a lua como duas brasas acesas na escuridão. Seus dedos se estenderam, transformando-se em garras letais, enquanto suas orelhas se afilavam e se moviam para o topo de sua cabeça, captando cada som da floresta. O corpo de Taishou crescia, os músculos se expandindo e se fortalecendo, até que ele não era mais um homem, mas uma criatura de lendas e pesadelos. Agora, de pé sobre quatro patas poderosas, Taishou ergueu a cabeça para a lua e uivou, um som que falava de liberdade e terror, de poder e fome. O lobo com pelagem negra e olhos vermelhos estava completo, uma besta soberana da noite, pronta para correr pelas sombras da floresta. Na segurança de seu lar, Akane e Caleb compartilhavam um abraço apertado, seus olhares fixos na lua cheia que iluminava o céu noturno. O coração de Akane batia com uma preocupação real com seu marido, enquanto sua mente vagava pela floresta, imaginando Taishou enfrentando seus demônios internos sozinho.
Caleb, ao lado dela, parecia calmo, sua forma lupina contida pela força de vontade e pelo amor que sentia por sua família. Mas ao olhar para a lua, uma onda de calor invadiu seu corpo, provocando suor e tremores que ameaçavam sua compostura. Akane, sentindo a tensão do filho, segurou suas mãos com firmeza, oferecendo-lhe um porto seguro em meio à tempestade de ansiedade que se formava. “Você está bem, Caleb?” Akane perguntava segurando firme as mãos do filho. “E-estou”. Ele murmurou olhando a lua cheia novamente. “Só…minha cabeça dói. Apenas isso. Estou com medo. E também…você ao meu lado, mamãe. Está me fazendo sentir fome.” Akane arregala os olhos quando escuta as palavras de Caleb. Enquanto isso, na vastidão da floresta, Taishou corria livre, sua velocidade impressionante uma prova de seu poder sobrenatural. O cheiro de carne fresca preenchia suas narinas, guiando-o através da escuridão. Não demorou para que um coelho da montanha cruzasse seu caminho, um encontro fatal marcado por uma mordida certeira e silenciosa. A voz de Demétrio era um sussurro venenoso na mente de Taishou, zombando de sua escolha de presa. “Um simples coelho? Isso não será suficiente para te manter quieto,” escarneceu o antigo alfa. “Vá para a cidade, ataque alguém, qualquer um.”
Mas Taishou, mesmo em sua forma bestial, mantinha um fio de controle. “Não,” ele rosnou para a voz em sua cabeça, uma declaração de desafio e autodomínio. “Eu não vou fazer isso.” Erguendo o focinho para o céu noturno, Taishou deixou que os aromas da floresta o guiassem, buscando mais presas que saciassem a fome sem cruzar a linha que ele se recusava a ultrapassar. O vento trouxe o cheiro de cervos nas proximidades, e com um ímpeto renovado, ele se lançou através da floresta, determinado a manter a besta dentro dele saciada e, mais importante, longe dos inocentes. A noite envolvia Taishou com seu manto escuro, mas seus sentidos estavam mais vivos do que nunca. O cheiro do cervo preenchia suas narinas, uma fragrância complexa que falava de musgo e terra úmida, de folhas e da vida pulsante da floresta. Era um aroma que despertava um instinto ancestral, uma chamada selvagem que reverbera em seu ser. Ele se movia com uma graça predatória, cada passo calculado e silencioso. A excitação corria por suas veias como um rio caudaloso, a antecipação da caça aguçando cada fibra de seu corpo. O cheiro do cervo se tornava mais forte, mais convidativo, guiando-o através da escuridão como uma promessa sussurrada pelo vento.
Quando finalmente avistou sua presa, uma onda de adrenalina inundou Taishou. O cervo, majestoso e desavisado, pastava tranquilamente, sua silhueta delineada pela luz prateada da lua. Taishou se abaixou, seus músculos se tensionando para o ataque iminente. E então, com a explosão de energia de um raio cortando o céu, ele atacou. O cervo mal teve tempo de reagir. Taishou o alcançou com uma mordida certeira no pescoço, suas presas afundando na carne macia. O gosto do sangue fresco inundou sua boca, uma sensação que acalmava a besta dentro dele, mesmo que por um momento. A vitória era mais do que a satisfação da fome; era uma afirmação de sua natureza, um momento de conexão pura com a parte mais selvagem de si mesmo. A voz de Demétrio era implacável, uma tempestade negra em sua mente. “É uma presa grande. Mas nada se compara ao sabor do sangue humano,” ele zombava, suas palavras como garras arranhando a consciência de Taishou. “Por que você está evitando isso? Por que você não vai até a cidade procurar por algum desavisado caminhando durante a madrugada? Apenas um. Ninguém precisa saber. Será rápido.”
Taishou, com a carne do cervo entre suas garras, sentia o sabor rico e metálico do sangue selvagem em sua língua. Mas as palavras de Demétrio eram veneno, tentando corromper o último reduto de sua humanidade. Ele rosnava para a noite, um som gutural que vibrava com sua determinação. “Não,” ele se afirmava, rejeitando a sedução da escuridão. Ele levantava a cabeça, seus olhos vermelhos brilhando com uma luz própria contra a escuridão da floresta. “Eu não sou você, Demétrio,” Taishou sussurrava para a lua, como se buscasse nela a força para resistir.
A voz de Demétrio era uma sombra que se entrelaçava com a essência de Taishou, uma união sombria forjada pela maldição e pelo sangue. “É aí que você se engana, você e eu somos a mesma alma agora,” ele zombava, cada palavra um espinho envenenado na mente de Taishou. “Eu estou mandando você ir para a cidade. Agora!” Taishou lutava, suas garras cravando na terra como se buscasse ali a força para resistir. Mas a esperança era uma chama vacilante diante do vendaval que era Demétrio. “Eu quero sangue humano. Agora, Christian!” a voz exigia, um grito tirânico que ressoava em sua cabeça. O cheiro de óleo e metal alcançava suas narinas, um carro solitário na estrada escura capturava sua atenção. Os faróis fracos eram como olhos cansados tentando penetrar o véu da noite. Dentro, um senhor de meia idade, o lenhador, retornava ao lar após um dia de labuta entre as árvores. “Vá, ataque-o,” Demétrio ordenava, mas Taishou se recusava a ceder.
O destino parecia conspirar contra o lenhador naquela noite, quando um som súbito e desagradável cortou o silêncio da estrada escura - o estouro de um pneu. O carro vacilou, uma dança desajeitada de metal e borracha, antes de parar completamente. O lenhador, com um suspiro de resignação, saiu do veículo, a lanterna em sua mão lançando sombras fantasmagóricas enquanto ele avaliava o dano. Na floresta, Taishou observava, a besta dentro dele salivando pela presa inesperada. Demétrio, sempre presente, sempre insistente, gritava em sua mente. “Ataca, ataca!” A voz era um martelo, batendo contra a última barreira da vontade de Taishou. O lenhador, alheio ao perigo que o espreitava, trabalhava para trocar o pneu, sua figura iluminada apenas pelos faróis fracos e pela lanterna que segurava. Taishou sentia a tensão em cada músculo, a luta interna se tornando mais feroz a cada segundo. Mas em algum lugar, no fundo de sua consciência, a voz de Taishou, o homem, o pai, o marido, ainda ecoava. “Não,” ele sussurrava para si mesmo, uma âncora na tempestade que era Demétrio. “Eu não sou um monstro.” “Sim, Christian, você é… você é sim…” Demétrio ria.
De repente, um uivo cortou a calmaria da noite, fazendo o lenhador parar o que estava fazendo. Seus olhos buscaram na escuridão alguma forma ou movimento. Outro uivo, mais próximo desta vez, e então, da sombra das árvores, emergiu Taishou, o lobo negro, os olhos refletindo a luz da lua como duas brasas vivas. O lenhador arregalou os olhos e dominado pelo medo, paralisou no lugar, incapaz de correr ou se defender. O lobo avançou, mostrando seus dentes afiados. Um grito agudo, seguido de silêncio. Taishou havia mordido a garganta do lenhador, e ele ainda agonizava, se debatendo fortemente e segurando a cabeça do lobo negro, na tentativa inútil de se soltar. Sangue saia de sua boca. E ele emitia gritos silenciosos de agonia. Um último suspiro de vida, antes do fim. É uma satisfação que transcende o físico, quase espiritual, Uma união com a natureza selvagem que o rodeia. Cada mordida é um êxtase, cada gole de sangue é uma libertação, E por um momento, Taishou se entregou à selvageria. Mas, como todas as coisas sob a lua, o momento passa. E a criatura se afasta do corpo sem vida do lenhador. Ele era um assassino. Com um rugido de fúria e desafio, ele se afastava do carro, correndo para o coração da floresta, para longe do corpo sem vida do lenhador. Demétrio observa Taishou com um olhar de satisfação, onde o orgulho e a saciedade se misturam. Ele se aproxima do companheiro, cuja respiração ainda é pesada pela caçada recente, e coloca uma mão reconfortante em seu ombro robusto. "Christian, meu irmão de alma selvagem," começa Demétrio, "você alcançou o ápice da nossa natureza ancestral. Parabéns por ter abraçado a essência da bestialidade que nos define, por ter saciado essa fome que arde em nossas veias como o fogo da lua cheia."
A voz de Demétrio é firme, mas carrega uma suavidade que busca acalmar o turbilhão emocional de Taishou. "Você se entregou ao êxtase animal, à pura liberdade que é ser um com a floresta, um com a noite. Sua proeza é digna de admiração, mas vejo a perturbação em seus olhos, a sombra que essa satisfação despertou em seu espírito." Ele pausa, escolhendo suas palavras com cuidado. "Não se deixe consumir pelo remorso, meu amigo. O que fizemos é parte de quem somos.” Taishou está parado, imóvel como uma estátua sob a luz da lua que se infiltra através das copas das árvores. Seus olhos, normalmente um poço de determinação e força, agora refletem uma vulnerabilidade crua. Lágrimas se formam, desafiando a imagem feroz que sua forma lobisomem normalmente projeta. Elas escorrem, traçando caminhos prateados por seu rosto, misturando-se com o vermelho vivo que mancha suas garras. Com um olhar incrédulo, Taishou encara as garras sujas de sangue, onde a vida que ele tirou ainda pulsa em ecos silenciosos. O sabor metálico invade sua boca, um lembrete amargo de um ato primitivo que não pode ser desfeito ou esquecido. As lágrimas caem, cada uma carregando o peso de sua luta interna. Entre o monstro que ele teme se tornar e o homem que ele ainda é. O silêncio da floresta é um contraste gritante com o tumulto em seu coração. Enquanto Taishou confronta a realidade do que suas mãos fizeram.
“Por que…por que você me fez fazer isso?” Ele levanta o rosto para o céu, buscando respostas ou talvez perdão, mas a lua, sua eterna companheira, apenas observa em silêncio. "Taishou, meu irmão sob a lua," Demétrio diz, olhando nos olhos do lobo negro. "Isso é quem você é, a verdadeira essência de seu ser. E sempre será. Não há vergonha em aceitar a natureza que nos foi concedida." O lobo negro, com suas garras ainda tingidas pela caçada, começa a lamber as marcas de sua natureza inescapável. Cada movimento é carregado de uma tristeza profunda, mas também de uma aceitação relutante. Aquele sabor, aquele maldito sabor. O sangue humano. Por que aquilo era tão…bom? "Você é um ser de poder e paixão, um espírito selvagem que vive livre entre as sombras e a luz. Suas lágrimas são tão naturais quanto a chuva que cai sobre a terra, e elas não diminuem sua grandeza." Enquanto Taishou chora, Demétrio permanece ao seu lado, um pilar de força e compreensão. "Chore, meu amigo. Deixe que suas lágrimas lavem a dor e o medo. E quando estiver pronto, levante-se e vamos a caça novamente, pois a floresta e a lua aguardam o retorno de seu guardião." As palavras de Demétrio ecoam na floresta silenciosa, oferecendo não apenas consolo, mas também uma lembrança da imutável verdade de sua existência. Já eram 03:50 am. No hospital de Hinode, suas paredes, que já presenciaram incontáveis histórias, estão imersas em um silêncio quase reverente. Os corredores, iluminados apenas pela luz suave e intermitente das lâmpadas de emergência, estendem-se como rios de sombras, onde os passos dos poucos presentes ecoam com uma calma solene.
A ambulância desliza para o hospital sem alarde, suas sirenes mudas. Um sinal silencioso de respeito pelo peso da vida que se esvaiu. Sakura Fujioka, a médica de plantão, sente a estranheza no ar, uma quietude que fala mais alto que qualquer alarme sonoro. Ela caminha pelos corredores escuros, sua curiosidade guiada pela intuição. Até que a visão dos bombeiros retirando de dentro da ambulância o corpo ensacado lhe revela a triste verdade sem palavras. "Pode descansar, ele já estava morto quando encontramos, doutora," diz o bombeiro. Sakura, com um aceno triste, reconhece a finalidade do momento, mas a médica dentro dela anseia por detalhes. "Acidente de carro?" ela pergunta, esperando uma resposta rotineira, mas o olhar de terror do bombeiro lhe traz uma realidade mais sombria. "Ele foi atacado por algum animal... eu acho que... um lobo. O corpo estava caído na estrada, ao lado do carro, ele estava próximo à floresta." Ele deu uma pausa, mas continuou falando "o pneu do carro estourou, ele tentou trocar, parece muito azar para uma pessoa só” O bombeiro abre o saco preto que guarda o cadáver do homem, revelando uma mordida extensa em seu pescoço. As palavras caem como pedras no silêncio do hospital. E Sakura se estremece ao ver a cena. O coração pesado, observa o corpo inerte do lenhador. A brutalidade do ataque a faz pensar em Taishou na hora. Seria possível que ele tivesse perdido o controle? A lua cheia no céu parece um mau presságio, e um calafrio percorre sua espinha. Ela se afasta da ambulância, o celular tremendo em suas mãos, enquanto a dúvida e o medo tecem uma teia de incertezas em sua mente. Com um olhar perturbado, ela disca o número de Akane, a única pessoa que poderia entender a complexidade da situação.
"Akane, é a Sakura," ela começa, sua voz mal escondendo o pânico. "Eu... eu estou no hospital. Houve um incidente, um homem foi atacado e morto." Ela pausa, olhando novamente para a lua, buscando coragem. "Eles dizem que foi um animal, mas eu não posso deixar de pensar..." Sua voz falha, o nome de Taishou pairando no ar não dito. Akane, do outro lado da linha, sente a urgência na voz de Sakura. "Você acha que foi Taishou?" ela pergunta, já temendo a resposta. Sakura suspira, uma confissão silenciosa de seus temores mais profundos. "Eu não sei, Akane. Eu realmente não sei. Mas precisamos descobrir." A preocupação de Sakura é palpável, e a ligação para Akane é o primeiro passo em busca de respostas que podem mudar para sempre a tranquilidade de Hinode. Do outro lado da linha, Akane sente um calafrio percorrer seu corpo. Ela olha para Caleb, que dorme alheio à tempestade que se forma no coração de sua mãe. A possibilidade de Taishou, seu marido, ter sucumbido à sua natureza mais sombria a enche de um medo gelado. Com a voz trêmula, Akane confessa a Sakura, "Ele saiu sozinho... disse que iria para a floresta, longe da cidade..." As palavras são um sussurro, uma esperança de que a distância fosse suficiente. Sakura, do outro lado, sente o peso da coincidência. "O infeliz que morreu estava naquela direção... que azar..." Sua voz é um eco de desalento, uma aceitação relutante do destino.
Mas Akane, com o coração de quem ama e conhece Taishou além da lenda, se recusa a ceder ao medo, a acreditar que ele poderia ser o responsável. "Não," ela insiste, "Taishou não faria isso, não intencionalmente." A conversa entre elas é um fio tênue de esperança, enquanto a lua cheia observa, testemunha silenciosa da angústia humana. E na quietude da noite, Akane se agarra à fé em seu marido, Contra a sombra da dúvida que ameaça engolir a verdade. “Como está Caleb?” Sakura pergunta tentando distrair a amiga. “Está dormindo.” Akane diz com um fio de alívio. “Ele chegou a dizer que estava com fome, com vontade de sangue, mas não houve transformação, eu lhe dei um chá de beladona, ele acalmou e dormiu.” “Que situação de merda…Akane…” Sakura suspirou do outro lado da linha. Akane concorda em silêncio. A tensão entre Sakura e Akane é palpável, uma mistura de medo, proteção e amizade posta à prova por circunstâncias extraordinárias. Sakura, com a voz carregada de preocupação, revela seu medo a Akane, "Não posso deixar Caleb e Yuki sozinhos novamente. Estou pensando em separá-los." Akane, com um tom de súplica, responde rapidamente, "Por favor, Sakura, não faça isso. Yuki pode ser o que mantém Caleb sob controle." Mas Sakura está irredutível, a irritação clara em sua voz, "Ele tentou fazer coisas obscenas com Yuki. Isso é imperdoável." Akane tenta defender Caleb, acreditando na bondade do filho, "Eles são namorados, Sakura. Caleb jamais faria algo contra a vontade de Yuki." A discussão se intensifica, com Sakura assumindo o papel de irmã super protetora e mãe, "Não quero mais Caleb perto da minha irmã mais nova. Por mais que eu te ame como amiga..." Ela conclui, amargamente, marcando uma linha divisória, "Esse problema de lobisomem é coisa da sua família. Não quero me envolver mais nisso. Por favor, não insista." A conversa é um reflexo das complexidades que surgem quando o sobrenatural toca o cotidiano, desafiando os laços de amizade e família.
A conversa entre Akane e Sakura atinge um ponto crítico, onde o medo e a proteção colidem com o amor e a esperança. Akane, com a voz embargada pela emoção, insiste, "Você acha que Yuki vai ficar feliz com essa decisão? Eles se amam, Sakura." Mas Sakura está resoluta, movida pelo instinto de proteger a todo custo, "Não importa se Yuki ama Caleb ou não. Ele é perigoso." Ela continua, a voz carregada de uma determinação sombria, "Não quero ver Yuki terminar como aquele lenhador. Não suportaria isso." Um silêncio perturbador se forma na linha telefônica entre as duas. "Escuta, Akane," Sakura diz, a amargura tingindo suas palavras, "Yuki é minha única família. Eu só tenho ela. Mesmo que ela me odeie..." Ela conclui, com uma finalidade que não deixa espaço para argumentos, "Ela vai ter que aceitar. Caleb é perigoso. E Taishou também!" Akane, com o coração partido pela firmeza de Sakura, sente a dor de uma amizade sendo testada pelos limites da compreensão e do medo. Ela sabe que argumentos racionais pouco podem contra o instinto de proteção de uma irmã.
Com um suspiro que carrega o peso de sua alma atormentada, Akane responde com uma voz que mal esconde sua tristeza, "Sakura, eu entendo seu medo, e não posso culpá-la por sentir isso." Ela faz uma pausa, lutando para manter a compostura, "Mas separar Caleb e Yuki... isso vai quebrar seus corações." Akane continua, a esperança ainda brilhando em seus olhos, "Por favor, dê-me algum tempo. Vou falar com Taishou, vamos encontrar uma solução." Sakura, no entanto, permanece imóvel em sua decisão, deixando Akane com a difícil tarefa de reconciliar o amor e a segurança de seus amigos. Sakura argumenta que Akane está cega pelo amor. E não enxerga o perigo real que Caleb e Taishou podem representar. "Não somos mais adolescentes. nossas decisões precisam ser lógicas.” Akane sente o peso das palavras de Sakura, uma acusação de que o amor a tornou incapaz de ver a realidade. Ela sabe que Sakura tem razão em parte; o amor pode ofuscar o julgamento. Mas Akane também acredita que o amor é o que dá força para encontrar soluções onde outros só veem problemas. "Eu sei que não somos mais adolescentes, Sakura," Akane responde, sua voz firme. "E eu sei que o amor pode nos cegar. Mas também nos dá clareza em momentos de escuridão." Ela continua, tentando alcançar a lógica por trás do medo de Sakura, "Não estou ignorando os perigos, mas não podemos viver apenas pelo medo." "Vamos encontrar uma maneira de manter todos seguros," Akane insiste, "Sem sacrificar o amor que Caleb e Yuki têm um pelo outro." Sakura ouve, talvez ainda não convencida, mas a determinação de Akane é clara. "Por favor, confie em mim. Vamos resolver isso juntas, com lógica e com coração." Akane está comprometida em proteger sua família e manter a amizade com Sakura, buscando um equilíbrio entre o amor e a lógica nas decisões que afetam a todos.
Sakura, apesar de sua determinação inicial, não pode ignorar completamente a sinceridade na voz de Akane. Ela se vê dividida entre a lógica e o amor, entre a proteção e a possibilidade de um futuro onde todos possam conviver em segurança. "Sua fé no amor é admirável, Akane," Sakura finalmente diz, sua voz suavizando. "Mas não posso ignorar o que eu acabei de ver. Preciso garantir a segurança da minha irmã. Ela faz uma pausa mas logo finaliza. “Sinto muito. É minha decisão final.” Akane permanece em silêncio, o peso da conversa com Sakura ainda ecoando em seus ouvidos. Ela segura o telefone firmemente, sentindo a frieza do aparelho contra a pele de sua mão trêmula. Com um suspiro que ninguém ouve. A madrugada envolve Akane em seu manto silencioso, enquanto ela contempla o abismo de incertezas à sua frente. O telefone, agora mudo, é um testemunho do impasse, e Akane se vê sozinha com seus pensamentos e temores. Sem mais palavras, sem mais argumentos, ela desliga, encerrando a chamada. A decisão de Sakura pesando como uma pedra em seu coração. O silêncio é um companheiro frio, mas Akane o abraça, pois às vezes, é no silêncio que encontramos nossa força. Ela olha para Caleb, o inocente em seu sono tranquilo, e promete, em seu coração, proteger a família que ama.
Taishou desperta na floresta, a luz da aurora banhando sua forma humana recém-retornada. O céu noturno, antes um manto de estrelas, agora cede lugar aos primeiros raios de sol que prometem um novo dia. Mas para Taishou, o amanhecer traz pouco conforto; ele sente o peso esmagador de suas ações noturnas, uma culpa que o sufoca mais do que as correntes de prata em seu pescoço. Ele olha para suas mãos, agora livres das garras bestiais, mas ainda sim, sujas de sangue inocente. Manchas da memória do que ele fez. As correntes, símbolos de uma luta para manter o controle, parecem inúteis agora, incapazes de conter sua natureza mais sombria. Demétrio, a manifestação de seu passado e sua besta interior, observa em silêncio, um espectro de julgamentos não ditos. "Existem mais de nós por aí?" Taishou pergunta, a voz rouca pela dúvida. Demétrio dá de ombros, sarcástico, "O alfa quer regressar à alcateia?" O rosto de Taishou é um turbilhão de agonia e confusão, um sim quase imperceptível, mas carregado de desespero. Demétrio sorri, um brilho malicioso em seus olhos, "Talvez eu conheça alguém. Mas não está mais no Japão." "Ele deve estar escondido na Inglaterra," Demétrio continua, provocando, e Taishou, com um fervor nascido da necessidade, implora por mais. Demétrio, animado pelo jogo, promete mais informações, mas em troca, ele quer mais sangue. E quer um sangue familiar. Ele quer o sangue de Kenji. Um jogo perigoso de gato e rato que apenas começou.