A noite caía, envolta em um manto de sombras, enquanto Taishou observava o ponteiro do relógio se aproximar implacavelmente das 22 horas. Cada segundo que passava era um acúmulo de frustração; cada toque do celular sem resposta, um golpe em sua paciência. A mente de Taishou fervilhava com pensamentos inquietos, questionando o paradeiro de Kenji e os motivos por trás de sua ausência. A promessa feita, o compromisso assumido, tudo se dissolvia em uma névoa de incerteza. O lobo dentro dele começava a despertar, seus instintos aguçados farejando a traição. A fome não era apenas por alimento, mas por respostas, por justiça. Cinco horas se arrastaram como uma eternidade, cada minuto transformando Taishou em um animal enjaulado, pronto para explodir. A raiva pulsava em suas veias, queimando como brasas. Ele apertava os punhos com força, imaginando a cena de Kenji o ignorando, zombando de sua espera. Quando o relógio finalmente marcava 23 horas, a paciência de Taishou se esgotava, e a fúria tomava conta de seu ser. Ele não podia mais ser enganado, humilhado. A noite escura se tornava o palco para sua ira, para a busca de respostas e por vingança. A figura de Taishou se erguia ameaçadora, pronta para enfrentar as consequências de sua fome faminta e perigosa. A noite se transformava em um turbilhão de emoções, onde a amizade se dissolvia em ressentimento e a confiança se convertia em desconfiança. Taishou se tornava um lobo solitário, em busca de justiça em um mundo que o traiu.
As luzes do Uber se aproximavam, cortando a escuridão como um raio de esperança. Taishou, que já havia desistido de esperar, viu o carro parar em frente à casa de Kenji. A porta se abriu, e Kenji saiu, cambaleando como um náufrago em terra firme. Seu rosto estava pálido e suado, a expressão marcada pelo cansaço extremo. Taishou engoliu a raiva que ameaçava explodir como um vulcão. A fúria que o consumia momentos antes agora se transformava em uma mistura de preocupação e confusão. O que havia acontecido com Kenji? "Onde você estava?", Taishou perguntou com a voz tensa, controlando o impulso de gritar. "Fiquei esperando aqui por quase seis horas! E você nem atendia o celular!" Kenji ergueu a cabeça, seus olhos verdes turvos de cansaço. "Desculpa, amigo", ele disse com a voz rouca. "O coronel fez uma punição para todo o meu pelotão. O imbecil do capitão foi pego dormindo na sala de materiais e, como castigo, nos fizeram correr por horas. Eu me sinto quebrado e exausto. Eles também tiraram nossos celulares, por isso não consegui te ligar e avisar do meu atraso." As palavras de Kenji soaram como um bálsamo na alma de Taishou. A raiva que o consumia momentos antes começou a se dissipar, substituída por uma onda de compreensão e compaixão. Ele não podia imaginar o que Kenji e seus companheiros de pelotão haviam passado.
Kenji girou a chave na fechadura, e os dois amigos entraram em casa. O silêncio pairava no ar, carregado de um misto de emoções. Taishou se sentou no velho sofá de couro vermelho e encarou Kenji em silêncio. Ele ainda estava com raiva, mas agora era uma raiva direcionada ao coronel e ao capitão, não ao amigo. A impaciência de Taishou era palpável, um lobo faminto que ansiava por saciar sua necessidade. O acordo feito com o amigo, agora atrasado, alimentava a frustração que crescia dentro dele. O lado do acordo que lhe cabia estava sendo quebrado, e a cada minuto que passava, a fúria se intensificava. Kenji, por outro lado, buscava um refúgio na água quente. Sua pele, antes alva e agora pálida, estava encharcada de suor, exigindo um banho purificador. Taishou, no entanto, o dispensou com um aceno de mão, afirmando que sua necessidade era mais urgente e que carne limpa não era essencial. "Que nojo, Taishou!", Kenji exclamou, tentando conter a seriedade e arrancar um sorriso do amigo. "Parece que seus padrões decaíram drasticamente." A ironia em sua voz era evidente, mas não amenizava a irritação que ele também sentia. Taishou, impassível, apenas o encarou e repetiu com firmeza: "Vem logo aqui."
Kenji suspirou, derrotado. O cansaço físico e mental o dominava, e a única coisa que ele desejava era que tudo acabasse logo para que pudesse finalmente se entregar ao banho relaxante e ao descanso merecido. A discussão era inútil, e a fome de Taishou era inegável. Kenji se dirigiu ao amigo lentamente, resignado ao seu destino. A noite prometia ser intensa, marcada por uma mistura de urgência, tensão e o desejo de saciar uma fome primal que pulsava nas veias dele. Kenji se sentou ao lado de Taishou, buscando um resquício de conversa antes do inevitável. "Como foi sua semana?", ele perguntou, tentando manter um tom casual. Taishou, ainda irritado pelo atraso, respondeu com frieza: "Lenta e torturante. Ansiei por sangue a semana toda." Suas palavras cortaram o ânimo de Kenji, extinguindo qualquer vontade de conversa fiada. Agora, apenas o negócio importava. "Você já pensou em um local para a mordida?", ele perguntou, se encostando no sofá com cansaço.
Levantando a blusa, Kenji revelou as marcas das últimas mordidas em seu ombro, e suas costas, manchadas de vermelho e inflamadas, ainda doíam. Já não cabiam mais marcas de mordida nas costas. Em seguida, ergueu a perna, mostrando a ferida da semana retrasada, e depois a outra marca na panturrilha, da semana anterior, roxa e em lenta cicatrização. Foram as três semanas mais torturosas de sua vida. Ele estava louco para a "última sessão" e terminar logo com isso. "Eu só quero que seja no lugar mais indolor possível", Kenji implorou, olhando para o amigo com um misto de medo e esperança. Taishou assentiu lentamente, compreendendo o pedido do amigo. A dor era inevitável, mas Kenji desejava minimizá-la ao máximo. Usando a blusa para enxugar o suor que escorria pelo corpo, Kenji se preparava para o que estava por vir. A noite havia sido extenuante, marcada pelo atraso, pela frustração e pela tensão crescente. Agora, era hora de seguir em frente, de saciar a fome primal de seu amigo, mesmo que isso significasse dor e sofrimento. Em meio ao silêncio que se instalou, a respiração ofegante de Kenji era o único som audível. Taishou o observava com atenção, seus olhos brilhando com uma mistura de fome e compaixão. A noite apenas começava, e o que se desenrolaria a seguir era um segredo que apenas as sombras conheciam. "Vamos no seu peito dessa vez", Taishou finalmente proferiu, sua voz carregada de uma urgência quase animal.
Kenji se encolheu, a voz do amigo soando como um rugido em seus ouvidos. "Não", ele protestou, "vai doer muito." Taishou permaneceu impassível, seus olhos fixos no amigo com uma determinação inabalável. "Não seja medroso", ele disse. "Se não for no peito, será na sua outra perna." Kenji revirou os olhos, exasperado. "Tá maluco? Eu ainda preciso correr amanhã no batalhão! Não posso mancar por aí; vão achar que estou me fingindo doente!" O cheiro de suor de Kenji era inebriante para Taishou, um aroma que despertava uma sede voraz por sangue. Seus instintos primitivos rugiam em sua mente, transformando-o em um ser quase selvagem. Aproximando-se de Kenji, Taishou podia ouvir com clareza as batidas do seu coração, um ritmo que ecoava em sua própria alma. Seus sentidos aguçados o guiavam, impulsionando-o a agir de acordo com a natureza selvagem que pulsava em suas veias. "Não tenho tempo para suas reclamações", Taishou rosnou, baixando a cabeça. "Fique quieto, e prepare-se. Vai ser no seu peito mesmo. Se você reclamar, eu mordo sua traqueia!"
Kenji fechou os olhos, resignando-se ao inevitável. A dor era iminente, mas ele sabia que não havia outro caminho. Sua confiança em Taishou era inabalável, mesmo diante do medo que o consumia. Num movimento rápido e preciso, Taishou cravou seus dentes na pele macia do peito de Kenji. Um grito abafado escapou da boca do amigo enquanto o sangue quente escorria pelo corpo dele. A fome de Taishou era saciada, mas a fúria ainda ardia em seu interior. O gosto salgado do suor se misturava ao sabor ferroso do sangue na boca de Taishou, intensificando ainda mais seus sentidos. A pulsação do coração de Kenji era quase ensurdecedora, um ritmo frenético que ecoava em seus próprios ouvidos. Como ele conseguia ouvir com tanta clareza os batimentos cardíacos do amigo? A arritmia de Kenji o deixava desconcertado, uma sinfonia caótica que desafiava sua compreensão. As mãos de Taishou, quentes e úmidas, tocavam a pele de Kenji com uma delicadeza surpreendente. Através do contato, ele podia sentir o sangue pulsando pelo peito do amigo, um fluxo vital que o fascinava e o apaziguava. O som da respiração de Kenji, o ar entrando e saindo de seus pulmões, soava como uma melodia suave que o acalmava em meio à agitação de seus próprios sentidos. Em seus mais de dois mil anos com a besta, Taishou nunca havia experimentado tal aguçamento em seus sentidos. Era como se o mundo se abrisse diante dele, revelando detalhes antes imperceptíveis. Cada som, cada cheiro, cada toque era amplificado, transbordando em uma sinfonia de sensações que o deixavam extasiado e confuso ao mesmo tempo.
A mente de Taishou lutava para processar a enxurrada de informações que seus sentidos lhe enviavam. Imagens, sons e cheiros se misturavam em um caleidoscópio vívido, desafiando sua capacidade de compreensão. Era como se estivesse se afogando em um mar de estímulos, incapaz de se manter à tona. Em meio ao turbilhão, uma única certeza se firmava: a conexão profunda que o unia a Kenji. Através do sangue compartilhado, seus corações pulsavam em sincronia, suas almas entrelaçadas em um laço inquebrável. A arritmia de Kenji era um reflexo dessa conexão, um ritmo irregular que revelava a intensidade de suas emoções, a fragilidade de sua humanidade. O mundo ao redor de Taishou se transformou em um turbilhão em câmera lenta. Os movimentos de Kenji, antes rápidos e precisos, agora se arrastavam como se estivessem submersos em um mar de melaço. Cada segundo se estendia em uma eternidade, cada som se tornava uma sinfonia distorcida. O lado bestial dentro de Taishou rugia, exigindo saciedade, implorando para que ele cravasse seus dentes na traqueia de Kenji e pusesse fim àquela tortura. A fome primal pulsava em suas veias, um fogo selvagem que consumia tudo em seu caminho. Mas, em meio ao turbilhão de instintos primitivos, uma voz suave sussurrava em sua mente. Era seu lado humano, confuso e apavorado, questionando a racionalidade de seus atos, implorando por compreensão.
"O que está acontecendo?", ele se perguntava em pânico. "Por que me sinto tão... fora de controle?" A luta interna o consumia, dividindo-o em duas partes distintas. De um lado, a fera faminta, impulsionada por necessidades básicas e desejos selvagens. Do outro, o homem racional, buscando o controle, a lógica e a compaixão. Gritos agudos dilaceravam o ar enquanto Kenji se agarrava ao sofá com força descomunal, buscando refúgio no couro áspero contra a dor dilacerante que o consumia. Taishou, por sua vez, travava uma batalha interna árdua, uma luta épica entre a fera selvagem que pulsava em suas veias e a humanidade que se agarrava com todas as forças à sua essência. A cada segundo que passava, a fúria de Taishou se intensificava, alimentada pelos gritos agonizantes do amigo e pela visão do sangue quente fluindo livremente. A saliva se acumulava em sua boca, um fluxo incontrolável que revelava a fome primal que o dominava. Seus movimentos tornavam-se cada vez mais animalescos, mais próximos da natureza selvagem que habitava seu interior. A língua lambia os lábios, saboreando o gosto metálico do sangue que manchava suas mãos. A mente humana, outrora dominante, se encolhia em um canto, observando tudo em pânico, como se estivesse presa em um corpo alheio.
As garras afiadas brotaram de suas mãos, cravando-se na carne de Kenji com força brutal. O amigo, sem forças para resistir, sucumbia à dor excruciante, entregando-se à inevitável fera que o consumia. O suor frio escorria pela testa de Kenji enquanto ele tentava se livrar da força bruta que o prendia ao sofá. Seus pulmões imploravam por ar, cada respiração se tornando um esforço árduo e doloroso. "Taishou... por favor...", ele implorou, a voz fraca e rouca. "Para com isso, para com essa porra! Você está me machucando! Já chega! Já chega! Me solta! ME SOLTA!" Mas Taishou permaneceu impassível, seus olhos fixos em Kenji com uma frieza glacial. A pressão sobre seu peito aumentava, esmagando seus órgãos internos e roubando-lhe o fôlego. Kenji se contorcia em agonia, seus músculos se contraindo em um desespero inútil. "Quanto mais você resistir, mais vai doer", Taishou disse em um tom calmo e cruel. "Entregue-se à dor e tudo acabará rápido." Kenji olhou para o rosto de seu antigo amigo, buscando algum vestígio da pessoa que ele conhecia. Mas tudo o que viu foi um vazio gélido, desprovido de qualquer compaixão ou humanidade. O terror o dominou completamente. Ele percebeu que Taishou não estava blefando. Ele realmente o mataria ali, sem remorso ou hesitação.
Kenji observava, horrorizado, enquanto Taishou se transformava diante de seus olhos. O que antes era um homem musculoso e imponente agora se contorcia em uma criatura monstruosa. Suas orelhas se alongaram e se eriçaram em pontas afiadas, suas mandíbulas se alargaram, cheias de presas afiadas como navalhas. Seus olhos, antes pretos e profundos, agora brilhavam com um vermelho sinistro, como sangue fresco. Quando a pelagem de Taishou finalmente cobriu seu corpo, Kenji congelou. Ele se lembrava da forma bestial de seu amigo, um lobisomem branco majestoso, símbolo de força e proteção. Mas agora, a pelagem de Taishou era negra como a noite, escura como o abismo mais profundo. Um calafrio percorreu a espinha de Kenji enquanto ele se perguntava o que essa mudança significava. O lobo negro olhou para Kenji com seus olhos vermelhos penetrantes. Um rosnado baixo emanou de sua garganta, carregado de uma fúria selvagem que Kenji nunca havia visto antes. Kenji recuou em terror, seu coração batendo descompassado no peito. O que havia acontecido com Taishou? Por que sua pelagem era negra? E o que ele pretendia fazer com Kenji?
Essas perguntas martelavam na mente de Kenji enquanto se preparava para o que quer que estivesse por vir. Ele sabia que não era páreo para o monstro em que seu amigo se transformara. Mas também sabia que precisava lutar para sobreviver. Tomado pelo desespero, Kenji soltou gritos que ecoaram pela sala. "Taishou! Acorda, Taishou!", ele implorava, mas a criatura que antes era seu amigo agora se mostrava como uma fera selvagem, rosnando e deixando cair baba em seu corpo. Uma voz profunda e gutural reverberou pela sala: "Fique quieto, eu estou sendo muito gentil com você, mais do que você merece." Kenji, ignorando o aviso, tentava desesperadamente alcançar a humanidade que ainda existia em Taishou. "Por que você está com a pelagem negra?", ele questionou, a voz ainda carregada de medo. "Você era um lobo branco!"
Taishou soltou uma risada baixa e sombria, como o som de ossos se quebrando. "O lobo branco era minha forma mais fraca", ele explicou, "uma negação da minha verdadeira essência. Era a forma que se recusava a aceitar a natureza selvagem dentro de mim, que se recusava a beber do sangue humano e a viver sob as regras da natureza." As palavras de Taishou atingiram Kenji como um soco no estômago. Ele se lembrava das histórias que Taishou contava sobre reprimir seus desejos mais ancestrais e se abster de carne humana, o que o tornava um lobo mais fraco. Mais fraco até mesmo que seu filho na época, Caleb, que era apenas uma criança. Mas agora, a criatura poderosa que dominava o corpo de Taishou era alimentada por sangue — o mais puro néctar do pecado. Essa sempre foi sua verdadeira natureza, mas Taishou sempre se recusou a seguir esse caminho, optando por uma vida pacífica ao lado dos humanos idiotas. “Taishou, já chega! Acorda logo! Para com essa gracinha! Eu não estou brincando!” Kenji argumentou, a voz fraca e trêmula. “Você nunca machucou ninguém! Me solta, cara, me solta!” Taishou riu novamente, desta vez com uma amargura corrosiva. "A bondade me tornou fraco", ele declarou. "Ela me impediu de alcançar meu verdadeiro poder. Mas agora, livre dos grilhões da compaixão, sou o que sempre fui destinado a ser: um predador implacável, um lobo negro que domina a noite."
Kenji olhou nos olhos vermelhos de Taishou, que brilhavam com uma fome animalesca. Ele sabia que, naquele momento, não estava lutando contra seu amigo, mas contra a própria natureza selvagem que Taishou havia reprimido por tanto tempo. O lobo negro tentou agarrar Kenji com suas garras, mas ele, rápido, puxou uma faca de caça do cinto e atacou o rosto da criatura, fazendo-a emitir um som horripilante enquanto recuava, o sangue escorrendo lentamente dos pelos negros. Dentro da mente de Taishou, uma batalha épica se desenrolava. O lado humano, a parte que ainda guardava memórias de Kenji e da vida antes da transformação, gritava desesperadamente para o lobo negro parar. Mas seus apelos eram ignorados. A fúria primal do lobo consumia tudo, cegando-o para a dor que estava prestes a causar. Taishou se sentia em pânico. Ele sabia que machucaria Kenji, seu melhor amigo de infância, uma das pessoas que mais amava no mundo. Mas a fome de sangue e a raiva selvagem o dominavam, incontroláveis. De repente, uma mão tocou seu ombro, um toque suave e familiar que o fez se acalmar por um instante. Taishou olhou para cima e seus olhos se arregalaram. Diante dele estava Demétrio, seu outro melhor amigo de infância, o lobo alfa, o padrasto de Kenji — a figura que ele havia matado para se tornar o novo alfa.
Uma onda de choque percorreu o corpo de Taishou. Era uma ilusão? Uma projeção da sua mente torturada? Mas a figura de Demétrio parecia tão real, tão sólida. Seus olhos azuis brilhavam com um sorriso maligno. "Olá, Christian", Demétrio disse, "É bom ver você de novo. Então, você despertou seu poder. Você acordou sua fera. E acordou com o sangue do meu filho? Que interessante..." Taishou se afastou da figura, balançando a cabeça freneticamente. "Não! Você não é real!", ele gritou para si mesmo. "Você está morto! Eu te matei!" Mas Demétrio apenas riu, um som baixo na mente de Taishou. "Eu sou tão real quanto você", ele afirmou. "Eu existo em suas memórias, em seus sentimentos. Eu vivo dentro de você agora. Eu sou... não, nós somos O LOBO ALFA!" As palavras de Demétrio atingiram Taishou como um raio. Ele se viu inundado por uma onda de culpa e arrependimento. As imagens de Kenji, ferido e assustado, o assombravam. Ele não podia machucar seu amigo, não podia traí-lo daquela forma.
“Sai da minha cabeça, Demétrio!” Taishou gritou. Mas Demétrio apenas riu. “Ora, ora, Christian, você não ansiava por isso? Você não queria poder? Por que você não fica quieto e apenas assiste agora? Nós dois estamos prestes a assassinar meu filho.”
Com um rugido de dor e frustração, Taishou se ajoelhou no chão, com as garras cravadas na terra. A fúria dentro dele começou a diminuir, dando lugar à tristeza e ao desespero. Ele não sabia o que fazer, como voltar a ser o Taishou que Kenji conhecia e amava. Do lado de fora de sua mente, Kenji havia empurrado o lobisomem negro para o chão. Com as mãos trêmulas segurando a faca de caça, ele gritava para que Taishou acordasse. “Porra, Taishou! Acorda logo! ACORDA! Seu filho da puta, você tentou me matar! Você chegou bem perto de me matar!” Kenji gritava desesperado enquanto a besta se erguia do chão novamente, encarando-o com olhos famintos. “Você me irrita”, a fera rugiu, a voz estranhamente familiar para Kenji. “Pa… pai?” Kenji ficou confuso e assustado; como aquilo era possível? Como a voz de Akira, seu padrasto, estava dentro de Taishou? Que droga estava acontecendo? Ele ergueu a faca, apontando para a criatura, mas esta, com um movimento rápido, desarmou Kenji. Seu instinto foi correr. Dentro da mente de Taishou, ele tentava gritar para Demétrio desaparecer da sua mente. Mas ele apenas ria. “Isso é impossível, Christian, eu não posso ir embora. Você bebeu a minha essência. Agora, nós somos o mesmo ser.”
“Isso… isso é impossível! Seu desgraçado, sai de perto de mim!” Taishou tentou socar Demétrio, mas ele simplesmente esquivou com facilidade. Do lado de fora da mente de Taishou, na sala, Kenji havia sacado sua arma rapidamente da cintura. Ele apontava a Magnum .357 em direção ao lobo negro, que o olhava enquanto Kenji tremia. Com uma mão segurava a ferida aberta em seu peito, e com a outra, apontava a arma para a criatura. “Você vai atirar? Não, você não vai atirar, você sempre foi um garoto medroso! Se lembra quando se recusou a matar aquele cervo?” A voz perturbadora do seu pai fazia Kenji tremer ainda mais de medo. “Taishou, para com essa merda AGORA!” Kenji gritava para o lobo negro, que marchava lentamente em sua direção, ignorando suas súplicas. “Vai pro caralho, Taishou! Se você não acordar AGORA, eu vou METER UM TIRO NA SUA CARA!” Kenji gritou, enquanto seus dedos tremiam no gatilho. “ACORDA, SEU VIRA-LATA! ACORDA!”
“Fique quieto, minha presa. Eu quero seu sangue”, a voz do lobo negro era uma mistura bizarra da voz de Taishou com a de Akira. Kenji se sentia confuso e assustado. A cada passo que a criatura dava em sua direção, ele dava dois passos para trás. “Presa? Presa é o caralho! Eu sou seu amigo! Se você não acordar e parar com essa merda agora! Eu juro que vou atirar! Eu não estou blefando!” Kenji gritava, enquanto suas mãos tremiam, incapazes de manter uma mira firme. O lobo negro riu, uma gargalhada infernal. “Não, você não vai atirar em mim, você não tem coragem... Você não teve coragem no dia daquele cervo, não teve coragem de me finalizar na noite em que Taishou me matou, e você não tem coragem agora, Kenji. Apenas aceite que você é, e sempre foi, um garotinho fraco!” “VAI PRO CARALHO!” Kenji gritou novamente, sentindo lágrimas escorrerem de seus olhos. “EU TÔ FALANDO SÉRIO, TAISHOU! SE VOCÊ NÃO ACORDAR AGORA E NÃO PARAR COM ESSA MERDA, EU VOU ATIRAR! EU VOU ATIRAR! E A AKANE VAI ME ODIAR PARA SEMPRE POR MATAR VOCÊ! ENTÃO, VÊ SE ACORDA LOGO!” O lado racional e humano de Taishou começou a lutar dentro de sua mente. “A-A-Kane...” O lobo gemeu, sua voz grossa e sinistra. “Eu... Eu não posso perder o controle... E-Eu não posso perder a Akane.” O lobo negro parecia recuar agora.
Dentro da mente de Taishou, Demétrio ri da tentativa patética dele de recuperar o controle. “Você acha que vai conseguir me parar? Que vai conseguir parar a gente, Taishou!” Demétrio dá uma gargalhada sinistra. “Mesmo que você consiga um pouco de controle agora, não preciso me preocupar. Sabe por quê, melhor amigo? A esperança é uma das piores coisas que existem, porque ela te mata lentamente!” Seu sorriso macabro encara Taishou, desafiador. “Cala a boca, Demétrio!” Taishou acerta um soco em Demétrio, que desaparece em uma nuvem de fumaça negra. Ele olha para Kenji. Finalmente, ele está de volta. O lobo negro observa suas próprias garras, o sangue de Kenji agora manchando suas mãos. “K-Kenji…” Taishou rosna pelo amigo. A parte humana de Taishou finalmente recupera o controle. Seu lado selvagem está mais quieto agora. Ele observa Kenji, que está encurralado, chorando e apavorado. Taishou percebe que deveria sentir algo, mas a emoção parece lhe escapar. “Puta... puta merda!” Kenji cai de joelhos aliviado ao ver a figura do lobisomem negro se dissipar, enquanto a forma humana de seu amigo Taishou retorna lentamente diante de seus olhos. Taishou se aproxima em silêncio e ajuda o amigo a se levantar, sua voz fria e calma. “Guarda essa arma, eu vou te ajudar, seu idiota.” Apesar da falta de emoção em sua voz, era inconfundivelmente ele. “Taishou!” Kenji grita aliviado. Ele guarda a Magnum .357 no cinto e se agarra ao amigo, tentando se manter em pé. Taishou o ajuda a caminhar de volta até o sofá, sentando-o delicadamente.
Ele caminha em silêncio até o kit de primeiros socorros e começa a limpar e cuidar de Kenji. A ferida em seu peito é horrível, mas ele vai sobreviver. Kenji ainda está ofegante, tremendo com a adrenalina e a experiência de quase morte. Ele olha para o amigo, que permanece calmo e inabalável. “Taishou, é você mesmo, cara? É você que está aí dentro?” A pergunta vem carregada de desespero, como se Kenji precisasse da confirmação de que seu amigo realmente estava no controle. “Sim, sou eu.” Taishou responde de forma fria. Kenji não parece convencido. “Me diz uma coisa, me fala algo que só o Taishou saberia!” O medo e a incerteza ainda fazem Kenji tremer. “Sou eu, Kenji… o seu amigo… esquisitão.” Taishou responde quase roboticamente. Não consegue evitar abraçar o amigo. “Puta merda, cara! Que droga foi aquela? Você quase me matou! Você… você…” Kenji pergunta, preocupado. “Sim, eu lembro. Eu sei. E peço perdão.” A calma de Taishou contrasta com a expressão vazia e profunda de seus olhos negros. “V-Você voltou a ser você… O cara bizarro, o esquisitão que nunca demonstra sentimentos! Você voltou a ser você mesmo!” Kenji agarra Taishou com mais força. O lobo retribui o abraço e diz em voz baixa, calma. “Eu preciso me manter calmo para controlar minhas emoções e impedir que a besta assuma o controle.”
“Eu sempre odiei esse seu laudo insensível de merda!” Kenji diz frustrado, mas ainda aliviado que Taishou conseguiu recuperar o controle da besta. Mas a que custo? E... o mais importante, até quando? Taishou, com mãos firmes e precisas, cuida do ferimento profundo no peito de Kenji. A cena é sombria e silenciosa, apenas interrompida pelo som ofegante de Kenji e pelo farfalhar da atadura sendo enrolada ao redor de seu corpo. A expressão de Taishou é fria e impassível, como se estivesse realizando uma tarefa mundana. Seus olhos, antes cheios de fúria, agora estão calmos e distantes. Kenji, por outro lado, ainda treme de medo e angústia, a experiência de quase morte fresca em sua mente. Finalmente, Taishou termina de enfaixar o ferimento. Ele se afasta de Kenji e, por um momento, ambos ficam em silêncio. Kenji o observa com cautela, incerto do que esperar. Então, Taishou quebra o silêncio. “Quero agradecer a você,” diz com a voz calma e serena. “Você foi e sempre será um verdadeiro amigo. Por ter me permitido beber seu sangue, por me ajudar a trazer minha besta de volta, por me ajudar a manter o controle.”
Kenji fica surpreso com as palavras de Taishou. Ele não esperava gratidão, muito menos amizade, depois do que aconteceu. “Taishou...” ele gagueja, sem saber o que dizer. “Eu sei o que você está pensando,” Taishou continua, “que eu te traí, que te machuquei. Mas acredite em mim, Kenji, eu nunca quis fazer isso. A fúria do lobo negro me consumiu, me cegou. Mas agora, você não precisa se preocupar, estou no controle novamente.” Kenji o olha nos olhos, buscando qualquer sinal de mentira. Mas tudo o que vê é a verdade nua e crua. Taishou está mesmo ali, e seus sentimentos são genuínos. “Eu te perdoo, Taishou,” diz finalmente, sua voz ainda fraca, mas firme. “Eu sei que você não é um monstro. Você é meu amigo, e eu sempre estarei aqui para você.” Taishou sorri, um sorriso triste e melancólico. “Obrigado, Kenji,” responde. “Isso significa muito para mim.” Os dois amigos se abraçam, inicialmente hesitantes, mas logo se tornando fortes e calorosos. A escuridão que havia tomado Taishou se dissipou, e a luz da amizade retornou. Pelo menos, por hora.
Taishou, com um gesto simples, pega seu celular e desbloqueia a tela. Em seguida, ele digita rapidamente, transferindo uma quantia que deixa Kenji atordoado. “Seus serviços de sangue não são mais necessários,” diz com a voz calma e serena. “E, além da minha gratidão, quero te recompensar por todo o sofrimento que te causei.” Kenji sente o celular vibrar em seu bolso. Com as mãos trêmulas, ele o retira e abre o aplicativo do banco. Ao ver a quantia astronômica que Taishou transferiu, quase perde o fôlego. “Você tem certeza?” Kenji pergunta, sua voz carregada de espanto e apreensão. Taishou assente com a cabeça, seus olhos fixos em Kenji, transbordando um genuíno arrependimento. “Sim, eu tenho certeza. Você não merece passar por mais nada disso. Você me salvou a vida, Kenji, e eu nunca vou esquecer isso.” Kenji fica em silêncio por alguns instantes, processando o que Taishou disse e fez. A quantia é mais do que ele poderia imaginar, suficiente para mudar sua vida completamente. Mas o que mais o toca é o gesto de Taishou, a demonstração sincera de gratidão e arrependimento. “Obrigado, Taishou,” ele diz finalmente, sua voz ainda carregada de emoção. “Isso significa muito para mim.”
Uma inquietação persiste em Kenji. Ele não consegue esquecer a voz que emanou da besta negra em que Taishou se transformou durante a luta. Era a voz de seu pai, Akira Takahashi, ou Demétrio Rodrigues. O nome realmente não importa. O que importa é que era a voz dele ecoando daquela criatura monstruosa. O que isso poderia significar? Com o coração batendo descompassado, Kenji decidiu questionar Taishou sobre o assunto. “Cara, eu sei que o que vou te perguntar é algo... louco... mas...” hesita, buscando as palavras certas. “Você... você sentiu meu pai aqui essa noite? Não digo como um fantasma ou algo assim... mas algo tão real quanto eu e você.” Taishou permanece em silêncio por alguns instantes, seus olhos fixos em Kenji, misturando perplexidade e desconfiança. “Do que você está falando, Kenji?” pergunta, a voz carregada de incredulidade. “Você precisa mesmo descansar. A morte de Demétrio ainda te afeta. Eu sugiro que você pegue o dinheiro que te dei e se mude daqui.” Kenji ignora a sugestão de Taishou, seus olhos fixos no rosto do amigo. “Taishou, eu não estou inventando. Eu ouvi a voz do meu pai, ou pelo menos algo muito parecido. Saindo da sua boca, naquela hora em que você se transformou na besta.” Taishou balança a cabeça com veemência. “Impossível!” exclama. “Seu pai está morto. Ele não pode ter falado com você.” Mas Kenji não se deixava convencer. "Eu sei que ele está morto, Taishou. Mas eu ouvi a voz dele. Ela vinha de dentro de você, enquanto você estava fora de controle."
Taishou se levantou de repente, a frustração estampada em seu rosto. "Chega, Kenji!" ele bradou, a voz reverberando na sala. "Não quero mais discutir isso. Vá descansar, eu preciso voltar para casa agora."
Ele se afastou, saindo da sala sem olhar para trás, deixando Kenji sozinho com seus pensamentos tumultuados e suas dúvidas inquietantes. A mente de Kenji se tornava um labirinto de confusão e medo. Ele lutava para compreender o que havia acontecido, e o que realmente passava pela cabeça de Taishou. Sentia-se perdido e abandonado, como se tivesse sido lançado em um mar profundo, sem bússola ou remos. A morte de Akira ainda o assombrava, e agora a voz fantasmagórica de seu padrasto, somada à presença misteriosa que sentia no local da morte, só aumentava sua angústia. Kenji olhou ao redor da sala vazia, a solidão o envolvia como um manto pesado. Ele não sabia o que fazer, para onde ir ou em quem confiar. A única certeza que tinha era a necessidade de encontrar respostas, uma busca que o levaria a lugares que nunca imaginara existir. Um calafrio percorreu sua espinha enquanto seus olhos se fixavam em um ponto da sala — o exato local onde Akira havia morrido. Medo e curiosidade o dominavam, e ele sabia que precisava desvendar o que estava acontecendo.
Com o coração acelerado, Kenji se aproximou do local onde seu pai havia encontrado o fim. Ajoelhou-se e tocou o chão, exatamente onde o corpo de Akira fora visto pela última vez. Uma sensação estranha o atravessou, como se uma corrente elétrica pulsasse sob seus dedos. Fechando os olhos, Kenji se concentrou nessa sensação. Ele sentia uma presença, uma força que parecia emanar do próprio chão. Seria a presença de Akira? Ou seria apenas sua imaginação, alimentada pelo medo e pela dor da perda? Quando abriu os olhos, a sala estava vazia e silenciosa, mas ele ainda percebia aquela presença, como um sussurro que flutuava no ar. Levantando-se, Kenji decidiu que precisava desvendar o mistério que cercava a voz de seu pai e a aura que sentia vindo de Taishou. Não sabia o que o aguardava, mas sua determinação em descobrir a verdade era inabalável.