A sala de estar da casa de Kenji Takahashi exalava uma mistura de aromas intensos: o cheiro doce e enjoativo da tequila barata se misturava à fumaça acre do cigarro que Kenji segurava entre os dedos, formando uma névoa densa que pairava no ar. A luz fraca de um abajur de mesa tingia a sala com tons âmbar, revelando detalhes que, sob a luz do dia, poderiam passar despercebidos. Kenji, um jovem tenente do exército de vinte e cinco anos, com um porte atlético e magro, jazia deitado no sofá de couro vermelho desgastado, seus olhos verdes fixos no teto. Seus cabelos loiros, lisos e curtos, estavam um pouco despenteados, revelando a marca recente do boné militar que usara durante o dia. Entre seus dedos, o cigarro se consumia lentamente, liberando volutas de fumaça que dançavam no ar como fantasmas. Ao seu lado, em uma poltrona desgastada pelo tempo, estava Taishou Seiji, o melhor amigo de Kenji, observando-o em silêncio. Taishou, também com vinte e cinco anos, era um restaurador de obras de arte no museu da cidade de Hinode. Seu porte físico era atlético e musculoso, em contraste com a magreza de Kenji. Seus cabelos negros, lisos e longos até a cintura, estavam presos em um rabo de cavalo desajeitado, e uma franja bagunçada cobria parcialmente sua testa. Seus olhos pretos, normalmente cheios de vida e humor, agora carregavam um peso inexplicável.
Taishou segurava um copo de tequila na mão, o líquido âmbar reluzindo sob a luz fraca. Seus dedos tamborilavam nervosamente no copo, emitindo um som metálico que ecoava na sala silenciosa. O terno que ele vestia estava amassado e sujo, como se o tivesse usado por dias sem tirar. Uma aura de embriaguez emanava dele, mas seus olhos perspicazes indicavam que sua mente estava sóbria e focada na conversa que se desenrolava entre os dois amigos. A tensão na sala era palpável. Kenji, com o cenho franzido e a mandíbula cerrada, parecia lutar contra um turbilhão de pensamentos. Taishou, por outro lado, mantinha uma expressão serena, mas seus olhos perscrutavam o amigo com preocupação. Era evidente que a conversa que tinham era algo crucial, pesando sobre ambos como um fardo. O silêncio era cortado apenas pelo crepitar do cigarro de Kenji e pelo ocasional gole que Taishou dava em sua tequila. Cada segundo que passava aumentava a expectativa, tornando a atmosfera ainda mais sufocante.
Kenji, com a voz carregada de incredulidade e desaprovação, soltou as palavras que pairavam no ar há tanto tempo. A fumaça do cigarro se dissipou, revelando a expressão tensa em seu rosto. Taishou, com os olhos arregalados e a mandíbula entreaberta, parecia atordoado pela reação do amigo. "Me diz que você não está pensando nessa merda...", Kenji repetiu, enfatizando cada palavra com um tom de voz cada vez mais firme. Taishou, ainda em estado de choque, tentou se defender: "Você não deveria me julgar... eu esperava que você, mais do que ninguém, me entenderia." Kenji, incrédulo, balançou a cabeça com veemência. "Entender você? Você só pode estar brincando comigo", ele rebateu, a voz carregada de sarcasmo. A tensão na sala se intensificou, o silêncio se tornando quase insuportável. Os dois amigos, que antes se consideravam inseparáveis, agora se encaravam como estranhos. As palavras de Kenji ecoaram na sala, lançando dúvidas sobre a lealdade e a amizade que os uniam.
Taishou, com a voz embargada pela emoção, tentou explicar: "Eu sei que parece loucura, mas... eu não posso mais viver assim. Preciso fazer algo para mudar minha vida, para encontrar um novo significado." Kenji, com a voz carregada de raiva e decepção, disparou as palavras como balas contra Taishou. Seus olhos verdes, antes calmos e serenos, agora brilhavam com fúria, enquanto ele segurava o cigarro com força entre os dedos, os nós dos dedos brancos de tanta tensão. "Você é ingrato pra caralho, Taishou", Kenji gritou, as palavras ecoando na sala de estar. "O tanto que a gente sofreu, o tanto que a Akane sofreu pra te libertar da licantropia... e você agora vem e me diz que tá com saudades dessa merda?", ele continuou, sua voz cada vez mais alta e cheia de amargura. Taishou, com o rosto vermelho de vergonha e frustração, tentou se defender: "Eu não sou ingrato, eu sei bem os prejuízos que causei, eu sei bem a porra toda!" Ele levantou as mãos em sinal de rendição, mas Kenji não o escutou.
"Eu tô tentando compreender você, 'esquisitão'", Kenji disse, colocando ênfase nas aspas com ironia. "Mas eu simplesmente não tô conseguindo! Por que você quer voltar a ser a porra de uma aberração?", ele questionou, seus olhos cheios de desdém. Taishou, com a voz baixa e quase inaudível, respondeu: "Eu não quero voltar a ser a mesma pessoa que era antes. Mas... eu sinto falta de algo... de uma parte de mim que eu achei que tinha perdido pra sempre." Kenji o encarou com incredulidade. "Uma parte de você? Que parte? A parte que te transformava em um monstro sanguinário?", ele perguntou, com sarcasmo. Taishou, com a voz firme, disse: "Sim. A parte que me dava força, que me conectava com a natureza de uma forma que eu nunca experimentei antes. A parte que me fazia sentir vivo." O silêncio tomou conta da sala novamente, a tensão pairando no ar como uma névoa densa. Kenji olhou para Taishou, seus olhos cheios de confusão e tristeza. Ele não conseguia entender como o amigo que tanto amava poderia querer voltar a ser a criatura que tanto sofrimento causou a todos.
A fumaça do cigarro de Kenji pairava no ar como uma névoa densa, criando um clima pesado e sufocante na sala de estar. Taishou, com a voz tensa e carregada de angústia, tentava desesperadamente explicar a Kenji a dor que o consumia desde que foi curado da licantropia. "Eu tô tentando te explicar que essa parte de mim, essa parte que me torna quem eu sou de verdade, eu não suporto mais ter perdido!", ele clamou, cada palavra carregada de emoção e sofrimento. "Eu me sinto angustiado todos os dias! Eu já nem sei quem eu sou." Kenji, por outro lado, parecia não acreditar nas palavras do amigo. Uma risada incrédula escapou de seus lábios, revelando sua incompreensão e ceticismo. "Você? Angustiado?", ele questionou com sarcasmo. "Você é o cara mais estoico que eu conheço!" Taishou, com os olhos marejados de lágrimas, rebateu: "Isso é uma máscara que eu uso quando tô em público! Você não sabe o que acontece na minha cabeça! Você não sabe o quanto eu tô sofrendo e atormentado por essa merda!"
Kenji, finalmente silenciado pela intensidade da dor de Taishou, apenas observou-o em silêncio, tragando longas baforadas de seu cigarro. A fumaça espiralava no ar, criando um véu de incerteza sobre o futuro dos dois amigos. "A Akane sabe disso?", Kenji finalmente perguntou, sua voz baixa e hesitante. Taishou balançou a cabeça com tristeza. "Não, ela não faz ideia, e eu nem sei como ela iria reagir se descobrisse!", ele confessou, com medo e culpa pesando em seu coração. Kenji, tomado por um misto de raiva e frustração, levantou-se abruptamente e começou a andar pela sala. "Eu não tô acreditando nessa porra até agora!", ele exclamou, sua voz carregada de incredulidade. "Você quer mesmo reverter a cura da licantropia?" Taishou, com a voz firme e determinada, respondeu: "Sim, em resumo. Sim. Eu quero. Eu sei que a licantropia é uma maldição cruel, e eu sei muito bem o que ela pode fazer comigo. Mas eu não consigo mais viver sem o sentimento de estar verdadeiramente vivo! Eu sinto falta da minha liberdade, eu quero sentir isso de novo!"
Kenji se aproximou de Taishou, seus olhos cheios de preocupação. "Cara, eu sinto vontade de socar a sua cara!", ele disse, sua voz carregada de frustração. "Tem noção do quanto a Akane vai sofrer? E depois? Você já pensou nisso? Você vai correr e se esconder dela toda noite de lua cheia?" Taishou, com a cabeça baixa e os olhos cheios de lágrimas, respondeu: "Eu não sei! Só sei que estou sofrendo pra caralho! Não quero mais ser humano! Essa porra está me agonizando." O silêncio tomou conta da sala novamente, a tensão pairando no ar como uma tempestade prestes a explodir. Taishou e Kenji, dois amigos que já enfrentaram tantas batalhas juntos, agora se encontravam em lados opostos, lutando contra seus próprios demônios internos.
Kenji, profundamente comovido pela determinação de Taishou, perguntou: "E você já sabe como vai conseguir reverter isso?" Ele se aproximou do armário e se serviu de uma dose de tequila. Taishou, com um olhar suplicante, explicou que a cura da licantropia, embora eficaz, não era permanente. A maldição podia retornar, e a única forma de ativá-la era através de um ritual ancestral que exigia o sangue humano. Kenji, ainda atordoado pela revelação de Taishou, fitou-o com uma mistura de perplexidade e apreensão. "Sangue humano?", questionou, a voz carregada de incredulidade. "Você vai matar pessoas inocentes?" Taishou, com firmeza, respondeu: "Não! É por isso que estou aqui hoje. Eu preciso de você, da sua ajuda!" Engolindo em seco, ele foi tomado pela vergonha. "Eu preciso do seu sangue, Kenji. Preciso beber sangue humano para ativar a besta e voltar à minha forma natural." Kenji quase cuspiu a tequila. “Meu sangue? Você está louco? Não vou te dar meu sangue!” Taishou implorou, sua voz transbordando desespero. “Por favor, Kenji! Você é meu melhor amigo! Não quero machucar ninguém para conseguir isso! Eu sei que é estranho, é estranho pra mim também! Mas eu realmente preciso disso! Por favor, me deixe chupar seu sangue!” Kenji o encarou por um longo momento, debatendo-se entre a repulsa e a compaixão. “Isso soa gay em muitos sentidos.” Ele finalmente se sentou ao lado do amigo no sofá.
Taishou hesitou por um instante, mas a necessidade superava seu orgulho. “Eu não estou pedindo pra te beijar! Preciso do seu sangue! Preciso beber uma boa quantidade pelo menos três vezes por semana, durante um mês. Se eu não conseguir isso, não vou conseguir ativar minha licantropia!” Kenji, com um tom irônico, respondeu: “Você quer chupar meu sangue por um mês inteiro e não vai nem me levar pra jantar?” Taishou, desesperado, retrucou: “Vai se foder, cara! Não estou brincando! Eu realmente preciso do seu sangue, porra! É a única maneira de ativar a besta adormecida dentro de mim e voltar à minha forma natural. Eu sei que é estranho, eu sei que é nojento, mas eu imploro, me ajude!” Kenji, com um olhar divertido, respondeu: “Calma, Taishou, não precisa ser dramático. Eu só estava brincando. Mas me diga uma coisa: você acha mesmo que eu vou te dar meu sangue por um mês inteiro? Sem nenhuma garantia de que isso vai funcionar?” Taishou estava com um olhar desesperado, uma súplica em seus olhos. “Eu sei que é um pedido muito grande, Kenji. Mas eu te imploro, confie em mim. Não vou te machucar. E se funcionar, prometo que vou te recompensar de alguma forma.”
Kenji pensou por um momento. “Hmm... Uma recompensa, hein? Que tipo de recompensa você está pensando?” Taishou respondeu: “Eu posso pagar! Tenho muito dinheiro!” Kenji o interrompeu: “Você está subornando um tenente do exército?” A súplica de Taishou ecoou pela sala, carregada de desespero e angústia. Kenji, dividido entre a incredulidade e a compaixão, ponderava a situação inusitada. “Kenji, por favor! Você é meu único amigo, a única pessoa em quem confio! Não posso pedir isso para mais ninguém!” Kenji, hesitante, respondeu: “Tudo bem, Taishou. Eu vou te ajudar. Mas me diga uma coisa: quanto sangue você precisa?” Taishou abaixou a cabeça e disse: “Apenas 100ml por vez. É um número pequeno, Kenji. Você não vai morrer ou ficar debilitado.” Kenji observou o amigo com preocupação. A necessidade de Taishou era evidente, mas a ideia de doar seu próprio sangue para um ritual bizarro era perturbadora. “E depois de beber meu sangue por um mês inteiro, seu poder de licantropia vai voltar?” Taishou olhou para o amigo com esperança nos olhos. “É o que eu espero. Eu preciso disso, Kenji. Sei que se não encontrar uma forma de conseguir esse sangue, vou ficar maluco!” Kenji suspirou, buscando uma solução alternativa. “Por que você não compra sangue, então? Já que tem tanto dinheiro.”
Taishou balançou a cabeça com veemência. “Não é assim que funciona! Eu preciso morder! Preciso tirar da fonte, o sangue precisa estar vivo e quente!” A explicação de Taishou confirmou os piores temores de Kenji. A necessidade do amigo era mais complexa e bizarra do que ele imaginava. “Mais que porra…” disse Kenji, bebendo mais uma dose de tequila. Kenji, com a voz arrastada pelo álcool, lançou um desafio a Taishou: "Você tem sorte de eu estar bêbado!" Em um gesto ousado, ergue a perna e a coloca sobre o colo do amigo, pressionando-o contra o sofá. "Vai lá, faz isso logo!", ele ordena, com um tom de urgência na voz. Taishou hesita, perplexo com a atitude repentina de Kenji. Ele olha para a perna sobre si, sentindo o calor e o peso do corpo do amigo, e desvia o olhar, constrangido. "Preciso saber se você está falando sério!", implora, a voz fraca e incerta. Kenji, ignorando a hesitação de Taishou, responde com firmeza: "Eu já disse que estou!". Ele pega o cigarro entre os dedos e dá mais uma tragada profunda, antes de beber um gole da tequila que está à sua frente. "Como tenente da cidade de Hinode", declara, com a voz carregada de autoridade, "não vou permitir que você machuque ninguém. Se você precisa de sangue, bom, eu vou te ajudar!" Em seguida, gesticula com a mão, encorajando Taishou a prosseguir com o que quer que esteja hesitando em fazer. “Morde logo!”
A cena se transforma em um momento de choque e pânico. Taishou, que até então demonstrava hesitação e constrangimento, toma uma atitude inesperada e chocante: ele morde a perna de Kenji. Kenji, tomado pela dor da mordida repentina, reage com um grito de surpresa e agonia. “Argggggh!” Kenji solta um gemido de dor ao sentir as presas do amigo mordendo sua perna. “Me desculpe, mas eu preciso disso!” Taishou morde ainda mais forte, a pressão da mordida aumentando. A perna mordida pulsa; Kenji grita de novo, sentindo a dor aguda e o sangue escorrendo pela pele. “Ahhh, porra! Isso é pior que mordida de cachorro!” Kenji fecha os olhos com força, enquanto sente o amigo chupando seu sangue. “Por favor, fica calmo, eu também não sou fã dessa merda!” Taishou continua mordendo a perna do amigo, e Kenji sente seu sangue sendo drenado. “Ahhh! Você vai ficar me devendo muito depois disso!” Kenji tentava se controlar com a dor, sua fala era arrastada e entrecortada com gemidos agonizantes. “Eu sei… eu sei… Eu prometo que vou compensar. Tenho muito dinheiro guardado que posso usar pra te pagar, ou comprar aquele jogo que você tanto queria, ou alguma coisa assim… Só, por favor, me deixa fazer isso em paz!” Taishou se sente mais relaxado ao sentir o gosto ferroso de sangue na boca. Ele parece mais feliz.
“Porra…” murmurou Kenji, bebendo de uma vez toda a dose de tequila do seu copo. Ele tentou não olhar para Taishou enquanto ele bebia o sangue da sua perna; a cena era, no mínimo, bizarra. Depois de algum tempo, Taishou começa a se sentir saciado e para de beber. “Já está bom… Você é um cara de mais de 90kg. Vou tirar esse sangue três vezes na semana, mas preciso continuar! Você vai deixar eu me alimentar todas as vezes até o final, não vai? Por favor…” Taishou disse, soltando a perna dele. Kenji, ainda sentindo a dor da mordida, encarou Taishou com fúria nos olhos. Ele se levantou do sofá, cambaleando. “Ahhh! Eu preciso limpar isso! Que porra. Preciso tomar vacina de raiva ou algo assim?”
“Não precisa!”, exclamou Taishou, a tensão no ar quase palpável. “Eu sei que você é durão e não precisa de ajuda, mas só me deixa fazer isso! Estou me sentindo um pouco envergonhado por estar pedindo isso a você... Então, eu preferiria pelo menos limpar a ferida... Sou bom com isso”, Kenji insistiu. Ele suspirou e sentou no sanitário, olhando para a marca da mordida em sua perna. “Ah, cara, você tem sorte de eu ser seu amigo...” “Eu sei... e obrigado, de verdade. Eu não sei o quanto você sabe sobre lobisomens, mas, porra, isso é uma coisa estranha pra caralho. É bom saber que você não tá me julgando e que está de bom humor comigo.” Taishou abriu o armário do banheiro e pegou algodão e água oxigenada, embebendo o líquido no algodão antes de começar a limpar a mordida na perna do amigo, tentando ser o mais gentil possível. O silêncio tomou conta do banheiro enquanto Taishou limpava cuidadosamente a ferida de Kenji. A tensão que antes pairava no ar parecia ter se dissipado, dando lugar a uma quietude quase melancólica.
Kenji quebrou o silêncio: "Você vai precisar fazer isso todo dia?". “Na verdade, o ideal é três vezes na semana, pelo menos até eu conseguir minha forma lupina de volta”, respondeu Taishou, com a voz baixa. Uma pausa carregada de incerteza se seguiu. Buscando amenizar o constrangimento, Taishou disse: "Eu sei que isso é estranho, eu sei que é nojento, e que você poderia ter me mandado se foder ou ter começado a rir de mim... Mas, puta que pariu, eu tô muito feliz que você decidiu me ajudar." Kenji, pensativo, ponderou: "E o que você vai falar para Akane depois?". A pergunta pairou no ar, sem resposta imediata. Taishou sabia que a mordida em Kenji não foi apenas um ato impulsivo, mas o início de uma transformação que traria consequências. Ele precisava encontrar uma forma de explicar o que aconteceu para Akane, a mulher que amava. “Sinceramente, eu não sei, mas preciso contar a verdade a ela. Preciso fazer ela entender...” O clima no banheiro se tornou tenso enquanto Taishou revelava sua intenção de contar a verdade a Akane sobre a mordida. Kenji, com um tom de alerta, tentou dissuadi-lo, alertando-o sobre a dor que a revelação poderia causar à sua amada.
Kenji, apesar da preocupação com o amigo, não perdeu a chance de provocar: “Acho que ela vai te expulsar de casa!”. Taishou olhou preocupado, mas respondeu com confiança: “Ela não vai me expulsar! Ela me ama! Mas você tá certo, ela provavelmente vai ficar furiosa comigo, talvez até decida se separar de mim!” Kenji fumou mais um trago do cigarro e começou a rir: “Sempre estou disponível se ela decidir terminar contigo!” Taishou parou de fazer o curativo e olhou incrédulo para Kenji: “Cala a boca!”. Mas Kenji continuou, de forma irônica e divertida: “O que? Você sabe que eu amo muito a Akane. Só respeito o fato dela preferir um esquisitão como você!”. Taishou retrucou ironicamente: “É da minha mulher que você está falando. Além do mais, você não tá com a Sakura?”. Ele se referia à namorada de Kenji, Sakura.
“Sim, estou”, Kenji respondeu, fumando mais um trago. “Mas meu verdadeiro amor sempre será a Akane!”. Taishou apertou o curativo de Kenji com força, fazendo-o gritar: “Para de falar merda!”. Ele retrucou, visivelmente irritado. A tensão entre os amigos aumentou momentaneamente, mas logo se dissipou, dando lugar a um clima mais sério e reflexivo. Após um breve silêncio, Taishou finalmente terminou o curativo e voltou para a sala em silêncio, claramente incomodado com o que seu amigo havia dito. Kenji voltou mancando para a sala atrás dele. Abatido, com o cenho franzido, Taishou se sentou no sofá e tomou um gole de tequila. A revelação de Kenji sobre seus sentimentos por Akane ecoava em sua mente como um fantasma insistente. Cinco anos depois de sua paixão platônica por ela ter se tornado apenas uma lembrança, Kenji ainda confessava um amor não correspondido. “Não acredito que você ainda não superou essa merda”. Kenji, mancando de volta para a sala após cuidar da mordida de Taishou, deitou-se no sofá e ergueu as pernas, observando o curativo em sua perna. “Não me enche o saco!”, ele exclamou, tentando aliviar a tensão com um tom brincalhão. “Eu vou ser seu banco de sangue particular por um mês inteiro, isso já é o bastante!”.
“Bem, isso é verdade, mas não muda o fato de que você está fazendo piada sobre roubar minha mulher!”, Taishou replicou, sua frustração evidente. Kenji, com um sorriso irônico, respondeu: “Eu não vou roubá-la de você, mas se ela te deixar por causa dessa decisão idiota de querer voltar a ser um lobo peludo, aí não é problema meu!”. A provocação cortante ecoou pela sala, reabrindo feridas antigas na alma de Taishou. “Ela não vai me deixar, ela me ama!”, Taishou protestou, tentando convencer a si mesmo mais do que a Kenji. “Ela nunca me deixaria por causa disso! Esse é um problema meu, não dela!”. A angústia em seus olhos era palpável. Cansado da discussão, Kenji levantou-se e ligou o PS5 na televisão. Pegando dois controles, ele entregou um para Taishou. “Me faz um favor, para de me chatear com seu relacionamento e vem jogar comigo”, sugeriu, tentando mudar o rumo da conversa. Taishou hesitou por um momento, ainda cabisbaixo. “Ok... certo... eu jogo”, finalmente respondeu, reconhecendo que sua melancolia só piorava a situação. “Você tem razão... eu tô enchendo o saco”, admitiu, com um tom de derrota na voz.
A noite terminou com os dois amigos sentados no sofá, imersos no mundo dos videogames, buscando um escape temporário da turbulência em suas vidas. A confissão de Kenji e a mordida de Taishou pairavam no ar como nuvens carregadas, prenunciando tempestades que ainda estavam por vir. O futuro de Taishou e Akane, assim como a amizade entre ele e Kenji, permanecia incerto, à espera do que o destino reservava. Depois de jogarem até tarde, o cansaço começou a cobrar seu preço. Taishou se levantou do sofá, espreguiçou-se e lançou um olhar para o relógio na parede. Já eram 23h30, e a noite avançada o chamava de volta para casa. “Preciso ir embora, já está ficando tarde.” Kenji pegou o celular do bolso e confirmou as horas. “Você está certo. Afinal, você é um homem casado”, respondeu. Taishou se despediu de Kenji e saiu da casa do amigo. Ao entrar em seu carro, ligou o motor e partiu pelas ruas de Hinode. A frustração o acompanhava, misturando-se ao cansaço por tudo o que havia acontecido naquela noite. A revelação de Kenji sobre seus sentimentos por Akane o perturbava, e a lembrança da mordida na perna do amigo o lembrava do lado monstruoso que agora carregava dentro de si.
Enquanto dirigia, seus olhos pesavam e a visão se tornava turva, o álcool consumido durante a noite pesando em seu corpo. Uma culpa o corroía por dirigir sob influência, mas a necessidade de chegar em casa e conversar com Akane sobre tudo o que se passava era maior do que o bom senso. O sangue pulsava em suas veias com mais intensidade do que o normal, um efeito colateral da mordida que ele ainda não compreendia totalmente. Algo havia mudado dentro dele, e a sensação era inquietante. Taishou dirigia em piloto automático, perdido em um turbilhão de dúvidas e incertezas. A noite de Hinode se desenrolava ao seu redor, as luzes da cidade piscando como estrelas em meio à escuridão. Mas, para Taishou, o mundo exterior parecia distante e nebuloso. Ele estava imerso em seus próprios pensamentos, buscando respostas para as perguntas que o assombravam. Como lidaria com essa nova realidade? E como contaria a verdade para Akane, a mulher que amava? Taishou não tinha as respostas, e a angústia o consumia enquanto dirigia pelas ruas da cidade, buscando um caminho de volta para casa e para si mesmo. Finalmente, Taishou chegou em casa. Com um suspiro de alívio, estacionou o Hyundai HB20 preto na garagem e ativou o alarme. Caminhando até a porta da frente, inseriu as chaves na fechadura e girou-as com cuidado, abrindo a porta em silêncio.
Ao entrar, a escuridão o envolveu como um manto pesado. Sem se preocupar em acender as luzes, Taishou avançou com passos hesitantes, permitindo que seus olhos se adaptassem à penumbra. Guiado pela memória, ele caminhou em direção ao quarto, seus passos ecoando no silêncio da casa. Ao abrir a porta do quarto, Taishou acionou o interruptor com um movimento suave. O clarão repentino fez Akane se mexer na cama, seus olhos sonolentos se abrindo lentamente. "Tai?" ela chamou, a voz rouca pelo sono, usando seu apelido carinhoso. "Você chegou? Está tudo bem?" "Sim, tudo certo," Taishou respondeu, esforçando-se para soar casual. "Estava na casa do Kenji jogando um pouco." A resposta era verdadeira, mas não revelava toda a história. Akane, satisfeita com a explicação, virou-se de costas para voltar a dormir. Um alívio profundo percorreu Taishou ao perceber que sua esposa não era ciumenta e não insistiria em mais perguntas. A noite havia sido longa e tensa, e ele ansiava por um descanso tranquilo ao lado dela.
Com um sorriso discreto, Taishou se aproximou da cama e deitou-se ao seu lado, puxando o cobertor sobre os dois. A escuridão do quarto os envolveu novamente, mas desta vez era uma escuridão acolhedora, um refúgio seguro onde ele poderia finalmente relaxar e esquecer as preocupações do dia. Quando a manhã chegou, o peso da noite anterior ainda pesava sobre os ombros de Taishou. O sono fora inquieto, repleto de reviravoltas e pensamentos que o deixavam indisposto. Ao se levantar, a sensação de mal-estar o acompanhava, como um lembrete persistente da verdade que ele se esforçava para esconder. Na cozinha, Akane já preparava o café da manhã para Caleb, a rotina familiar se desenrolando como sempre. Observando-a interagir com o filho, uma pontada de culpa atravessou o coração de Taishou. Ele sabia que deveria contar a verdade, confessar tudo o que havia acontecido na noite anterior, mas as palavras se prendiam em sua garganta, recusando-se a sair. Com a gentileza que a caracterizava, Akane serviu-lhe café e o beijou na face, desejando-lhe um bom dia. Em seus olhos, não havia suspeita, apenas a confiança inabalável que sempre depositara nele. Taishou sorriu de volta, mas seu sorriso era fraco e carregado de amargura.
Mentiu para ela, inventando uma história sobre uma restauração de quadro importante no museu para explicar seu estado de cansaço. Akane, sem questionar, aceitou sua desculpa com facilidade. A confiança cega que ela tinha nele o machucava ainda mais, tornando o peso da mentira ainda mais insuportável. Enquanto Akane se despedia de Caleb e se preparava para ir trabalhar, Taishou observava tudo em silêncio. Seu filho, Caleb Seiji, um adolescente de cabelos negros curtos e lisos, usava uma franja que ocultava um de seus olhos, pretos como os do pai. Ele estava absorto em seu celular. Taishou chamou sua atenção, pedindo que guardasse o aparelho. Caleb ergueu os olhos da tela e, por um instante, Taishou viu um lampejo de compreensão no olhar do filho. “Você está bem, papai? Você parece estranho hoje,” Caleb notou, com uma percepção fugaz de que algo estava errado. Taishou engoliu em seco e fingiu estar tudo bem. “Sim, filho, estou bem. Não se preocupe comigo!” Caleb logo desviou o olhar, retornando sua atenção ao celular. Taishou permaneceu em silêncio, tomado por uma mistura de alívio e apreensão. Com um beijo apressado na bochecha do pai, Caleb se despediu e saiu de casa, rumo à escola, ainda com os olhos grudados na tela do celular. Sozinho na cozinha, Taishou terminou o café lentamente, a mente presa nos eventos da noite anterior. A cada gole, a culpa se intensificava, como um fogo queimando em seu interior. Ao chegar ao museu, a monotonia do dia a dia o consumiu. As tarefas se arrastavam, e cada minuto se tornava uma eternidade. Em meio à rotina tediosa, as memórias da mordida em Kenji voltavam à sua mente, assombradas por flashes vívidos do momento. Um suor frio brotou em sua testa, enquanto a culpa se transformava em uma necessidade incontrolável.