Livro I - Capítulo I
Disseram muitos dos que estavam em redor de uma criancinha, na pia do batismo, que na face dela havia uma luz misteriosa, como a projeção de um círio invisível, que, naquele instante solene, alumiasse, nas mãos de um anjo, as cerimônias do sacramento augusto. Visão de boas almas.
Era uma menina de nove dias.
Sua madrinha era Nossa Senhora da Conceição, fulgurante de mil lumes, no seu docel de seda e prata, com as mãos cruzadas sobre o seio, com os olhos extáticos no céu, como seguindo o trilho de estrelas por onde, aos pés do Eterno, voejava o anjo da ANNUNCIAÇÃO.
Seu padrinho era um duque, vestido de ouro, com as suas insignias de general em chefe, com o seu tesouro de condecorações guerreiras a cobrirem-lhe o peito, onde pulsava sangue de reis, que não valia mais, por isso, em coração de homem.
Seu pai era um coronel, fidalgo dos que primeiro o foram nesta terra, valente como o primeiro e o último da sua linhagem, e honrado como aquele de seus avós, que morrera desterrado, em Tanger, por não denunciar o que lhe fora amigo desleal, embora traidor ao rei D. João II.
Era o coronel... que vos importa o nome?!...
Sua mãe nascera dama de D. Maria I, crescera mimo de galanteria e docilidade, emancipara-se donzela de todas as virtudes, casara-se, mulher, exemplo das mais santas afeições de um marido, e fora mãe como pode sê-lo a mulher, depois que a Virgem Maria alimentou um filho, depois que Jesus Cristo reabilitou a fascinada da serpente, depois que a filha de Eva entrou no seu reconquistado Éden, a colher a flor da dignidade, regada pelo sangue do filho de Maria.