Livro III - Capítulo II
Neste conflito de doridos pensamentos em que a alma do padre andava trabalhada, inspirou-lhe a sua aflição um pensamento que longas e veladas noites lhe alvoroçou o espírito, antes que seus lábios o proferissem.
Fr. Antônio lembrou-se de conduzir Álvaro à sociedade; levá-lo ele próprio ao mundo, e buscar aí em roda de pessoas que se interessassem, tanto como ele, na regeneração daquele mancebo.
Mas as relações do egresso eram muito poucas, e quase se limitavam às do parentesco, e às novas que adquirira na casa em que vivia.
Onde ele, cheio de confiança, poderia apresentar seu discípulo era em sua casa, na roda de sua família, onde desde 1834 não tinha entrado uma pessoa estranha dessas que são apresentadas pelo seu nome, pela sua posição, ou pelo seu dinheiro. Aí, porém, vivia uma menina que não sabia ainda distinguir o homem que nascera bom, e bom perseverara, do homem que fora mau e parecia bom.
A consciência do padre não lhe aconselhava confiadamente esse passo, cuja firmeza era toda responsabilidade sua, porque bem sabia ele que Álvaro da Silveira, apresentado ao coronel, seria recebido como filho, e, apresentado a Maria, seria recebido como irmão.
E foi por isso que em sua alma se debateram com violência dois sentimentos opostos: a confiança e a prevenção.
Ou porque do céu lhe descesse a inspiração, ou porque as propensões de sua índole lhe fizessem ver a face do bem empanada pelo véu da maliciosa suspeita, frei Antônio convidou Álvaro para acompanhá-lo a casa de sua família, onde, se quisesse, encontraria as afeições que se encontram em uma família recolhida, que, de ordinário, parece desvelar-se em comunicar aos estranhos a felicidade de amor que lhe trasborda do seio.
Álvaro, sem fingir-se, não apreciou muito o convite, mas não se recusou a ele. O hábito de obedecer aos insinuantes conselhos do padre foi talvez o único móvel, que o fez aceitar um oferecimento, que lhe não prometia distração à profunda tristeza que se lhe entranhara no espírito.
Frei Antônio compreendera esta hesitação, e nela viu um prospero agouro. Seriam ilusões de uma boa alma?