Livro Último - Capítulo V
O padre separara-se no caminho, por supor que a sua assistência constrangeria Álvaro na presença de Maria dos Prazeres. Álvaro, porém, desde que se viu só, e à porta do mosteiro, desanimou.
Não foi o receio de ser acusado de ingrato e cruel que o susteve. Essas acusações já o frade lhe tinha dito que as não ouviria. O que lhe esfriou o alvoroço com que ia, foi um sentimento de vergonha de si próprio. Acostumado a deixar-se sempre guiar, sem combate, pelas primeiras impressões, boas ou más, Álvaro, depressa anuíra a procurar sua mulher, e mais depressa foi vencido pelo orgulho que lhe dizia quanto ele ia ser pequeno diante de sua mulher.
A soberba apraz-se, às vezes, escarnecer as suas vítimas, depois que as acha despenhadas na miséria. É quando ela se converte em castigo duro, tormento incomparável. Em quanto rico, Álvaro, mordido pela serpente da soberba, acudiu à dor da chaga com o bálsamo do ouro, essa alavanca poderosa do capricho e da vingança. Pobre, a ferretoada da víbora entrava-lhe até ao coração, e daí lavrava ulcerosa, porque a miséria constante lha estava descarnando sempre.
Por isso o pobre orgulhoso será entre os mais desgraçados o primeiro. Se Deus se não amercear das angústias, que espedaçam o homem caído em miséria do alto da grandeza, o inferno das dores indescritíveis estará no coração desse Lúcifer despenhado.