Livro Último - Capítulo X Lágrimas Abençoadas · Capítulo 87 de 97
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Livro Último - Capítulo X

Álvaro estava em pé, com os olhos fitos na porta por onde Maria devia entrar. A prioresa, apenas entrou com a secular pela mão, disse mui afavelmente:

--Eu não esperei que me apresentassem o sr. Álvaro para ter o prazer de cumprimentá-lo. Conheci nesta casa suas tias-avós, conheci sua mãe, e seu pai e toda a sua família. Até conheci um anjinho do céu, que me disseram ser esposa de v. ex.a Tratei de averiguar se era verdade. O mundo dizia que sim, o anjinho também dizia que sim, e eu disse sempre que não, porque não acho natural que o possuidor de um tesouro, vindo do céu, o lançasse de si. Teima a minha Maria em dizer que é sua, e eu digo que não pode ser senão de quem eu quiser. Agora é minha filha e não pode ser sua esposa, sem que v. ex.a ma venha pedir com todas as formalidades de noivo.

--E dar-ma-á v. ex.a?--perguntou Álvaro correspondendo com jovialidade à graça risonha da prelada.

--Dou-lha--replicou a prelada--com uma condição. Há de vir viver ao pé de nós.

--Como, minha senhora?!

--Há de vir viver conosco. Aposto que está lá fazendo seus entes de razão contra a violação do claustro? Eu lhe digo, meu genro, uma freira, que tem uma filha como esta, dá um testemunho de que se deixou arrastar por alguma de essas paixões feias que são a origem destes anjos tão lindos! V. ex.a está-se rindo?! Então ouça-me agora seriamente, e esta Maria, que está chorando e rindo ao mesmo tempo, escute também. O sr. Álvaro vem viver conosco, não é bem conosco, porque entre a nossa casa e a sua há uma parede. Então já sabe para onde vai?

--Não, minha senhora; espero as ordens de v. ex.a.

--Vai para casa do nosso capelão, que é um egresso chamado Antônio dos Anjos, um santo, que foi algum tempo mestre de uma criança traquinas, que andou por esse mundo de Cristo a fazer travessuras, e me dizem que ainda aqui há de vir para ser muito meu amigo, e talvez para me pedir contas de um coração que eu, sem sua ordem, recolhi ao meu, para ambos pedirem juntos ao Senhor das misericórdias a redenção de um escravo do mal, tão digno de ser o que eu sei; e Deus quer que ele seja.

Maria rompeu em soluços e lágrimas. A prelada tomou-lhe para o seio a face, como se afagasse uma criança. Álvaro estava imóvel, com os olhos rasos de lágrimas postos no simpático grupo da encanecida prioresa e da ainda formosa Maria.

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