Livro II - Capítulo XIX Lágrimas Abençoadas · Capítulo 44 de 97
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Livro II - Capítulo XIX

A carta que Frei Antônio recebera, era de sua sobrinha. Era este o seu conteúdo:

«Pedi licença a meus pais para escrever-lhe, meu caro tio, e sorriram à minha suplica. Como não pude adormecer a noite passada, trabalhei e conclui a última encomenda de flores que tinha. Graças ao Senhor, já vieram novas encomendas; mas eu sinto-me fatigada dos braços, e não posso continuar. No espírito sinto eu muita vida, e não posso nem quero vencer esta consoladora força que o impele para meu tio. Penso que o não verei hoje; mas... cedi agora à maneira comum de se exprimir a gente... eu vejo meu tio em todos os instantes e lugares... Deixa-me escrever uma verdade, que não teria forças de dizer-lhe?... Deus quer que meu tio seja o prisma por onde eu devo contemplá-lo. Será isto uma fraqueza de razão, ou uma liberdade pecaminosa? Pecado seria eu calar este pensamento, que o meu querido mestre pode repreender.

«Estou triste, como há pouco. Eu adivinho alguma infelicidade. Sinto-me com tanta coragem para ela!... Mas a natureza humana, e especialmente o espírito da mulher, e especialmente o meu espírito, é muito fraco. Espero tanto em Deus!... tanto em Maria Santíssima!... e parece que uma voz, nem humana, nem divina, me diz que fuja, que trema, que recue ao combate do infortúnio contra a paciência! Muito triste é isto, meu caro tio! A minha vida tem faltas, que eu devo expiar? Porque mas não dizem, se me amam?!

«Persigo-o muito, eu bem o sei! Não o deixo em paz, quando tão necessária lhe é para estudar a grande luta em que está empenhado! Não sei as forças do seu discípulo, mas eu admiro mais a conversão de Santo Agostinho que as vitórias de Alexandre. Aqui estou eu a fazer-me vaidosa e sabia diante de meu tio, que também conhece a minha humilde ignorância!... É que estou afeita a conversarmos como escrevo.

«E a minha melancolia? E os meus versos? Nem me disse se tinham as sílabas todas, ou quantas deviam ter mais! Nem valia a pena... Adeus, meu extremoso amigo! Meu pai, e minha mãe, e meus irmãos estão muito saudosos. Não se esqueça um instante da sua família que o ama tanto como a sua sobrinha

Maria.»

--Coitadinha!...--murmurou padre Antônio, dobrando a carta--És um anjo!

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