Livro II - Capítulo XX Lágrimas Abençoadas · Capítulo 45 de 97
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Livro II - Capítulo XX

O conde tomara uma postura cômica de pasmo, quando Álvaro entrou no quarto. Alguma coisa o impressionara; mas em homens tais as impressões são fugitivas, e frouxas, porque não há aí entusiasmo, nem grandeza em essas almas caídas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e triviais.

O procedimento do seu amigo devia maravilhá-lo. Era extraordinário! Apenas entrou no quarto, Álvaro estendera-lhe friamente a mão, e mandara-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o hóspede lhe era aborrecido, bem o denunciava ele no franzir da testa, onde por força vem à luz da fisionomia sentimentos que a delicadeza quisera algumas vezes abafar.

--Doe-te a cabeça?--perguntou o conde.

--Não... doe-me o espírito--respondeu Álvaro.

--As dores do espírito, matam-se com espírito... mas é de vinho... Bebe... Obriga a matéria a pensar de outra maneira, como diz Rousseau.

--E diz Rousseau que a matéria pensa?--perguntou Álvaro, com um sorriso motejador.

--Que dúvida!... A matéria organizada, chamada homem, é uma coisa que pensa. Quando pensa mal, isto é, quando nos apoquenta, modifica-se a matéria, imprimindo lhe uma ação nova. A maneira de modificá-la é simplicíssima. Disseste que estavas triste, não é verdade?

--Sim.

--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setúbal, que é de mais a mais um triunfo patriótico sobre o Champagne e Bordéus. Seja o que for o bolo alimentício, que alojas no estômago, é matéria: esta, posta em contacto com a matéria que pensa, altera-a; e desta alteração química e fisiológica resulta um novo ser pensante, uma solene pirraça à tristeza.

O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida teoria. Foi para ele uma segunda surpresa o silêncio de Álvaro da Silveira. Neste silêncio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraçadas de um truão, invita Minerva, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O conde não estava afeito a estas decepções. O orgulho doía-se. Álvaro seria o último de quem ele devia esperar um mau acolhimento.

--Agora vejo eu--disse ele contrafazendo o pejo, que mais acertadamente chamaríamos despejo.--Agora vejo eu, que o teu cérebro de hoje conspira contra a tua felicidade de ontem... que tens tu, mancebo gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o olfato do coração? Sonhaste alguma virgem de olhos garços, que não pudeste realizar em matéria corrente e sonante nestes reinos?

Álvaro, nem um sorriso! Era demais para tanto espírito! O conde só agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciência do discípulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O predomínio do conde sobre o seu gênio não estava inteiramente extinto. Era-lhe necessário justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia servir-lhe; mas a transfiguração do seu caráter, naquele momento, não lhe permitia uma mentira. Bem pudera Álvaro queixar-se de um padecimento físico, e tinha bem justificada a sua indolência para as carícias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o coração humano, ouviremos um aplauso à franqueza que depois ostentava Álvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos bons, o primeiro desses desejos é comunicar aos outros uma felicidade, que tanto menos egoísta, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem da indiferença para a observância da religião revela-se sempre com esses sintomas. O zelo de um neófito manifesta-se mais corajoso e ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em desalojar a impiedade dos seus últimos redutos. E depois, no espírito iluminado pela efusão rápida e imperceptível da graça divina, há um desejo forte, uma vaidade santa de atrair espíritos contumazes, de curvar os joelhos arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinácia nos parece impossível na presença dos argumentos que humilharam a nossa. O que então se dá na alma é uma paixão sublime. A eloquência do que fala, convicto de verdades que lhe prometem uma aspiração imortal, parece um empréstimo da linguagem dos anjos. Ei-los aí, de repente, crédulos, os apóstolos, que estendiam há pouco as redes no lago de Getsêmani, e surgem agora entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando línguas que nunca ouviram.

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