Livro III - Capítulo III Lágrimas Abençoadas · Capítulo 52 de 97
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Livro III - Capítulo III

O padre prevenira sua família da próxima visita que lhe era destinada. A mãe de Maria, tão inocente como sua filha, e tão confiada na prudência de seu cunhado como na de seu próprio marido, recebeu a notícia com jubiloso assentimento. O coronel fitou em seu irmão um olhar de interrogação, que devia ser uma pergunta intima, que os lábios tinham medo de balbuciar: «Por ventura nada receias tu, meu irmão? Sabes que ao pé de minha filha só pode sentar-se um anjo como ela? Tens a certeza de que esse mancebo entra em minha casa como no santuário da honra?» Frei Antônio lera estas perguntas nos olhos de seu irmão, e, como se precisasse de empregar a palavra que o coronel não ousava pedir-lhe, o padre apertou-lhe a mão com ternura, e murmurou a meia voz: «Não temas!... tu és honrado, tua mulher é uma santa, tua filha é um anjo... Eu serei um pecador, mas não sereis vós os que haveis de expiar as minhas culpas... Não temas, meu irmão.»

Maria, quando a nova lhe foi dada, experimentou uma sensação, de essas raras sensações que não hão de ter nunca na terra uma palavra fiel que as defina. Ao ver que nos lábios de sua mãe estava um riso de beneplácito e contentamento, Maria sorriu também maquinalmente, e ficou silenciosa, durante a longa conversação que se travara a este respeito.

Recolhida, contudo, ao calado abrigo do seu quarto, ao místico coloquio das suas tristezas com a imagem de Maria Santíssima, a melindrosa menina consultava-se, com doloroso interesse, no que seria essa nuvem escura de melancolia, que viera turvar-lhe o espírito, quando ouviu dizer que Álvaro da Silveira, por cuja conversão tantas vezes ela orara, ia ser recebido como amigo no seio de sua família.

Esta interrogação era como as consultas que nós fazemos do nosso próprio destino; era como a ansiedade vã de levantarmos a cortina do nosso quadro de existência daqui a anos. Maria quando uma vez escrevera uma poesia intitulada pressentimento, dissera tudo quanto podia dizer, vira o futuro quanto podia vê-lo, caminhara através da vida quanto podia caminhar; e, como se os passos lhe cansassem, parou, chorando. É que o seu poema fora uma profecia de lágrimas nunca represadas.

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