Livro II - Capítulo XXIII Lágrimas Abençoadas · Capítulo 48 de 97
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Livro II - Capítulo XXIII

As argucias galhofeiras do conde não agradaram a algum dos ouvintes. Álvaro pareceu vexar-se daquela despedida, mais insultuosa que engraçada, ao padre. Este, porém, suposto que vexado, não se denunciou pelo mais ligeiro gesto de enfadamento. A coragem para receber impassível as ironias sarcásticas da incredulidade, dera-lha a desgraça, e aconselhara-lha a caridade.

Na ausência do conde, Álvaro e seu pai esperavam do padre palavras ressentidas; e maravilharam-se quando lhe ouviram dizer com profunda compaixão:

--O desgraçado precisa muito das orações de um justo!... Quem me dera sê-lo para que a luz do céu lhe descesse ao espírito, antes que o desalento do mundo lhe aconselhasse a religião como refugio das extremas desgraças da vida! Oh! quando isso acontecer... muito infeliz deve ele ter sido!...

Desde este momento apertaram-se os vínculos de piedade, de simpatia religiosa que prendiam Álvaro e o frade. O mancebo vira a vergonhosa retirada do seu antigo mestre de ateísmo, e decidira-se de coração a favor do modesto triunfo do humilde padre. Como espírito iluminado pela fé, Álvaro precisava formar a sua razão pelos elementos de uma filosofia que Fr. Antônio lhe dissera existir, mas que não era aquela do seu amigo conde.

O estudo atencioso, reflexivo, e continuado tornou-se a vida, quase invariável, do educando. Uma transição, assim rápida, assentava o padre que não podia, sem intervenção divina, explicar a improvisa regeneração de um homem, que deixara no mundo mil incentivos de paixões que o não tinham enfastiado ainda.

A vergonha da virtude, que não pudera vingar em um coração ulcerado de vícios, principiou a desabrochar flores que enfeitavam a conversão do mancebo de essas galas de educação, que parecem vindas do berço e herdadas dos pais. Era o império da religião, e unicamente da religião.

Fr. Antônio dos Anjos, vaidoso com razão da obra, cujo instrumento ele fora, não cessava de agradecer ao Altíssimo a escolha que fizera de um pecador para a conversão de outro pecador, para quem o remorso seria tardio.

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