Livro III - Capítulo XX Lágrimas Abençoadas · Capítulo 69 de 97
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Livro III - Capítulo XX

A mulher de Álvaro da Silveira balbuciou:

--Não o acuso, meu tio; peço-lhe somente que me deixe chorar. É bem pouco pedir; mas eu sinto um grande conforto neste único prazer dos infelizes.

--O da oração é maior, minha sobrinha...--atalhou o padre.

--Pois eu não oro, meu tio? É quando sinto mais dentro do coração a doçura das lágrimas. Ou peça a Deus paciência para sofrer até ao fim, sem que a minha família o saiba; ou peça que se digne tocar o coração de meu marido, choro sempre, e fico sempre mais desoprimida.

--Mas os teus dias são sempre eguais, filha. Estás cada vez mais abatida, mais magra, e mais febril.

--Que importa o corpo? O que eu recebo de Deus é a força da alma... A morte não lha peço, por que sei que não faria com ela a felicidade de Álvaro... É impossível que o remorso o não castigue depois... Isso é que eu não queria... O Senhor me livre de ser o instrumento das torturas de alguém... E, se eu morresse, a nossa pobre família sofria muito... minha mãe, seguir-me-ia, e os meus irmãos pequeninos nos braços de meu pobre pai... matá-lo-iam com carinhos... É por isso que eu não peço a morte...

--Não peças, Maria. Diz-me o coração que terás melhores dias da tua existência, e que eu hei de vê-los ainda.

--Oxalá... e como serão esses dias, meu tio?

--Será quando teu marido voltar ao que era quando te queria tanto.

--Pois esse amor pode por ventura tornar?

--Pois não pode, filha?! Estás passando por uma dolorosa provação; é impossível que não recebas neste mundo o premio da tua constância. Assim como Álvaro passou do mal para o bem, e depois recaiu no mal, o anjo, que o alumiou uma vez, há de alumiá-lo outra, minha sobrinha. Quando menos o esperarmos, estará conosco, para nos restituir o bom coração que nos roubou. Crê, e ora, minha filha. Oremos ambos. As nossas súplicas sejam por ele, e deixemos ao senhor apiedar-se de todos, quando a sua bondade quiser.

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