Livro Último - Capítulo XV
Passados dois meses encontraram-se frei Antônio e o merceeiro que tinha emprestado dinheiro sobre os rendimentos da casa de Álvaro.
--Já sabe tudo?--perguntou o padre.
--Sei tudo--disse o lojista--O rapaz está outro. Vai ver sua mulher todos os dias, e ouvi dizer que chorava os seus pecados. Que faz ele agora se está arrependido? Porque não tira a pobre senhora do convento? Que se arremedem com pouco, e vivam juntos.
--É pouco de mais o que eles têm para viverem.
--Eu darei o que lhes faltar; mas requeiro debaixo de juramento que nunca a minha proteção seja sabida por algum deles.
Oito dias depois, Maria dos Prazeres, ou dos Anjos como a crismaram no convento, para que o sobrenome não fosse uma falsidade, saiu do convento para uma pequena casa, onde seu marido a esperava com a face inundada de lágrimas felizes.
Aquele viver dos três era um santo frenesi de amor; Vinham compartir daquela alegria o coronel, a mãe de Maria, seus irmãos, e até a prioresa quis acompanhar sua filha para lhe conter (dizia ela) os ímpetos amorosos da lua de mel. O padre estava sempre em continua ação de graças. Ria e chorava ao mesmo tempo o bom do velho. No arrebatamento da alegria abraçava a prelada que tinha sempre um equivoco mui engraçado que dizer-lhe em esses expansivos abraços: riam-se todos e o coronel rejuvenescia da intempestiva velhice.
--Quem dá os meios para esta casa?--perguntava ele.
--A providência de Deus--respondia o irmão.
--Donde vem este dinheiro no princípio de cada mês?--perguntava Maria.
--Da Providência de Deus--replicava o tio às repetidas instâncias.