Livro III - Capítulo XXVI Lágrimas Abençoadas · Capítulo 75 de 97
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Livro III - Capítulo XXVI

Álvaro da Silveira recebeu a carta, quando saía para Santarém, onde o esperava um brilhante sarau, em que era rainha uma nobre dama que se deixara ferir do nobre caçador. Era, portanto, muito improprio o ensejo da carta, cuja generosidade tinha para ele o valor odioso de uma acusação mascarada. Foi esta a opinião do seu amigo conde.

Álvaro respondeu vocalmente que mais tarde responderia por escrito. O portado, industriado pelo padre, replicou humildemente que não voltava sem resposta, ou sinal de ter sido recebida a carta. Perguntou-lhe Álvaro quem lha tinha dado. O criado falou a verdade. «Pois esse hipócrita ainda lá está?» exclamou irado o fidalgo... «Leva--continuou ele--aí vai o sinal de que recebi a carta».--E entregou-lhe, aberta, a carta de sua mulher.

Tal foi a resposta que Maria recebeu. Diga quem puder as lágrimas que este desprezo lhe custou. O frade respeitou-as tanto, que em logar de consolá-la com a paciência, eloquente sempre em seus lábios, chorou também.

--Vamos, filha--disse ele por fim.

--Já?! de noite?--refletiu ela.

--Tens medo, Maria? A noite vai melhor ao estado da nossa alma... Chegaremos de madrugada à tua nova casa. Passarás o dia no locutório com a nossa família.

--Pois está tudo arranjado?

--Tudo, Maria, tudo providencialmente arranjado. Vais ser hospeda da sr.a escrivã, em quanto eu não posso por meios certos que Deus me há de deparar comprar-te uma cela no convento. Depois, o teu trabalho dar-te-á uma subsistência certa. Falaremos, falaremos... Vamos embora.

Maria foi, quase desfalecida, encostada ao ombro do padre, até entrarem em uma sege de praça que os esperava no portão. Grande, porém, foi a surpresa da atribulada senhora, quando ao entrar na sege, foi apertada por uns braços que só podiam ser de mãe pelo afago com que lhe bebiam as lágrimas da face.

O choro de ambas embargava as palavras soluçadas. O que elas, porém, queriam dizer-se era pedirem-se perdão mutuamente; a mãe à filha, por lhe haver afervorado e absolvido o amor a Álvaro; a filha à mãe porque fraqueava no martírio, e, sem pedir-lhe conselho, abandonava aos juízos da sociedade a explicação da sua fuga, talvez bem infamada.

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