Livro Último - Capítulo XVI Lágrimas Abençoadas · Capítulo 93 de 97
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Livro Último - Capítulo XVI

Álvaro da Silveira inspirava receios de reincidência ao padre. A sua primeira conversão parecia sincera e firme, e o anjo do bem abandonara-o às presas do vício ressurgente. A segunda, semelhante à primeira, com quanto abonada pela experiência de duras penas, poderia, chegando ao extremo, não vingar. Fr. Antônio temia o tempo, tremia em segredo; e não ousava dizer os seus temores à sobrinha ou à irmã.

O marido de Maria, penetrando o coração do padre, dissera-lhe:

--Conheça o coração humano, meu caro benfeitor. A minha conversão religiosa foi um abalo que devia parar. Eu era um homem que achava pequeno o mundo. Scismára muitas vezes na eternidade, quando voltava com enojo as costas aos vícios satisfeitos. O meu espírito, imergido no lodo, não podia voejar acima do que os olhos abrangiam, e os sentidos confirmavam. Refazia-me novamente de forças para a libertinagem, procurava-lhe com cínica avidez as faces novas e, desesperado de encontrá-las, invocava outra vez a ideia confusa do meu destino.

«Quando frei Antônio me apareceu, a minha alma era um vácuo horrível. Ouvi-o, era a primeira vez que a voz de um homem respondia às minhas perguntas a Deus. Affiz-me a considerá-lo um justo, alteei-me onde os seus voos me chamavam, e sentia rejuvenescer a minha alma de viço e alentos nunca experimentados. Maria, este anjo de Deus, fez que o meu coração se purificasse ao mesmo tempo que o espírito se regenerava. O amor que lhe dei, imenso e fervoroso, não era mentira; nem podia sê-lo, por que a mentira não se sustenta à custa do sacrifício da liberdade.

«O amor dela era para mim uma emanação do amor divino. No dia em que aquela ardente fé nos divinos preceitos se entibiasse, arrefeceria também o amor a sua sobrinha. Estavam vinculados ambos os afetos: dependiam um do outro. A religião era como a lampada suspensa no meio do templo que reflete o seu clarão em todos os altares. Logo que se apagou, fizeram-se trevas em todas as minhas afeições nobres, em todas, até vergonha senti de haver tido remorso dos meus vícios. Foi por isso que a sua presença, padre Antônio, me aborrecia, que os conselhos de meu pobre pai me enfastiavam, e que as lágrimas de minha mulher me levavam desde o desagrado até ao ódio. Isto foi horrível, mas verdadeiro.

«Como a luz da religião se extinguiu em minha alma, não sei. Lembra-me que me assaltaram saudades de uma sociedade que me ridicularizava a conversão e o casamento. Saudades de uma vida mesclada de tédios e de alegrias. Necessidade de alargar o círculo de ferro que me apertava a respiração. Era o crime que me visitava com todas as suas galas pérfidas. Era o anjo mau da tentação que triunfava, pintando-me insignificante de espírito, de «fortuna», e de beleza uma mulher que parecia violentar-me a adquirir os seus hábitos mesquinhamente caseiros e de baixa condição.

«Ultrajei a minha pobre vítima com o desprezo, e depois pensei que a mataria com o abandono. Fui um infame dos infames que se não definem.

«Nenhum homem experimentou afrontas semelhantes às que eu devorei. Todos os meus haveres hipotequei-os ao vício, e ao crime. Nunca tive uma alegria de alma por um punhado de ouro. Arrojava-o com desesperação aos abismos onde me diziam que era possível arrancar-se das mãos do diabo uma sentença de prazer novo. Nunca, nunca! Tocaria a última baliza da indigência, se o meu fausto não aparentasse uma riqueza. Pedi quantias, algumas das quais não pagarei jamais, porque estou pobre, e outras paguei-as com o vilipêndio merecido de um cárcere.

«Algumas vezes vi uma sombra veneranda, padre Antônio, e pavorosos sonhos eram aqueles em que eu via minha mulher a expirar-lhe nos braços.

«Revivia-me então a necessidade de gritar pela misericórdia divina; mas o grito de contrição era sufocado por um riso blasfemo. Quando o infortúnio é superior às forças humanas apaga-se a luz da razão, fica o espírito na escuridade da demência, e já não há alma que se refugie na esperança de uma vida melhor.

«Hoje, sim, frei Antônio. Já não é uma organização suscetível de impressões que obedece à eloquência da sua palavra religiosa. Hoje é o desgraçado, que sente no coração fendido de golpes o poder do bálsamo divino, ministrado pela mão daquela que vitimei. O perdão da mártir é o que me está testemunhando a misericórdia do céu. Vejo nela a omnipotência de Deus: não a procuro nos livros, não a preciso da argumentação; não quero que me combatam com o raciocínio a impiedade que o meu coração rejeita. Creio em Deus, meu caro mestre, creio no céu, creio no inferno, creio em tudo que preciso crer para cair de joelhos aos seus pés, e suplicar-lhe que não duvide um momento da minha reabilitação.»

Padre Antônio recebera-o nos braços, soluçando palavras de benção, e de felicidade inexprimível.

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