Livro I - Capítulo X
Lamentae o suicida, porque a sua última hora foi uma luta horrível entre a desesperação, a incerteza, e, talvez a saudade.
Ao ver-se pobre no mundo, considerou-se o homem sem vida social; mas a vida física, onde as frechas do desprezo lhe rasgavam até o coração, era-lhe uma algema insuportável a manietá-lo ao poste da vergonha.
Feliz pelo destino, ou desgraçado pela fatalidade, o Lúcifer, despenhado deste céu da terra, que a impiedade lhe deu, optou pelo túmulo entre duas ideias: pobreza e impotência.
Impotente para vencer a sociedade que lhe não restituía o seu ouro, o desesperado, aborrecendo a morte tanto como a vida, crava-se um punhal, que nem ele sabe se o vinga dos homens, se o deita no túmulo, se o sacrifica à justiça de Deus.
O ateu pensara longas horas antes de erguer-se o patíbulo; mas, nos seus últimos instantes, não era filósofo: era um algoz.
A desesperação enervara-lhe o entendimento, e robustecera-lhe o braço.
O cutelo, no braço do algoz, não tem nada com o espírito. Um e outro são machinas de morte.