Livro III - Capítulo XXIV Lágrimas Abençoadas · Capítulo 73 de 97
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Livro III - Capítulo XXIV

Era assim a carta de Maria a seu marido:

«Foste enganado por uma quimera, Álvaro. Não era eu a mulher digna do teu amor. Quando vi apertar-se o teu coração à dor do arrependimento, tive mais compaixão de ti do que de mim. Eu, pobre mulher, posso sofrer e chorar, sem ser vista. Tu, Álvaro, nascido para os prazeres do mundo, cuja privação o meu amor não podia recompensar-te, sofrerias muito, se não tivesses ânimo de afastar com a ponta do pé os deveres, e esquecer que eu sou, ao mesmo tempo, tua escrava e tua tirana.

«Felizmente que adotaste o melhor expediente.

«Penso que as distrações, longe de mim, te deixam sentir as doçuras da liberdade. És, talvez, feliz. Se o és, Álvaro, olha que esse bem peço-o eu constantemente a Deus para ti. Não te deixes vencer jamais do remorso. Os meus padecimentos, bem o sabes, não se aliviam em queixas. Nunca te pedi explicação da tua frieza, nem te dei uma palavra aborrecida por outra. Até as lágrimas te escondia, não é verdade? Se me surpreendias chorando, antes queria mentir-te uma invenção, que exacerbar-te com as minhas lástimas o pesar de me teres dado o direito de te arguir. Quando assim se sofré, Álvaro, não há ideia de vingança, nem se aceita com prazer a expiação de quem nos mortifica.

«Vamos tratar da tua felicidade, meu caro irmão. Deixa-me dar-te este título que tem tanto do afeto como da razão. Entre nós já não existe o grande amor, que me parece ser inflexível aos ditames do juízo. Podemos suavemente caminhar cada um para seu lado, sem voltarmos as costas com arremesso. É o que eu queria, e espero consegui-lo, porque, sendo eu tão fraca, a força que sinto para dar um passo em teu bem, é Deus que ma dá, e dar-ma-á até ao fim.

«Deixo-te mais livre do que vives, Álvaro. Vou entrar em um convento, e vou pobre como vim para tua casa. Sentirei lá que és meu marido, porque não cessarei de orar por ti, e oferecer em desconto das minhas e das tuas faltas o tempo que Deus me der de vida.

«Conheço que nasci para a solidão e para os prazeres ignorados da vida obscura. Esta consciência e a absolvição de algumas cruezas do teu caráter para comigo. Tu precisavas de uma mulher que te disputasse na sociedade uma parte da tua glória. Querias, talvez, abrilhantar-me aos olhos dos outros com o reflexo da tua luz. E eu, educada na pobreza e na simplicidade, não pude, por mais que quis, contrafazer a minha índole. Fui arrastada pelo dever aos raros bailes onde me levaste; voltava de lá contente com a esperança de estar sozinha contigo, e muitas vezes me deixaste sozinha com a minha saudade; e tornaste aos bailes a aproveitar as horas que eu te aguava com a minha inexorável melancolia.

«Era então que eu te lastimava, por teres sido enganado pelo coração, quando me dizias que a vida no ermo, só comigo, era o teu sonho de ventura, e amaldiçoavas o brilho pérfido da sociedade que te não deixara mais cedo ver o que é este mundo, com os olhos da razão.

«Se me não tivesses dito isto, Álvaro, eu seria muito culpada por aceitar o sacrifício da tua liberdade. Fomos enganados ambos. Pensava eu que era verdadeiro o teu fastio dos prazeres ruidosos e vãos; cuidei até que o meu maior merecimento para ti estava no desprezo com que eu ouvia lá fora do meu cantinho o bulício da vida opulenta. Aqui está porque eu não te peço perdão de ter querido ser, contra a vontade de meu bom pai, tua mulher. Desta culpa quem me há de perdoar é o pobre velho, e eu conto com a bondade da sua alma.

«Aqui tens, pois, o meu destino, Álvaro. Vou para um convento; não devo, porém, sair de tua casa sem praticar este ato de humildade, rogando o teu consentimento. Quase certa de que mo dás, vou fazer os meus ligeiros preparativos. Ainda não disse tudo, Álvaro... Se um dia sentires a penosa necessidade de falar a alguém que te diga palavras de alívio, procura-me, vai sem receio de encontrares uma queixosa. Eu farei quanto puder em teu bem contra o mal que o mundo te houver feito. Chamarei à tua alma as reminiscências do que ela foi, quando eu ta mereci, furtando-a às outras paixões. Vai procurar-me, Álvaro, e acharás sempre uma irmã.

«De tudo o que te disse nesta longa carta, deves tirar a certeza de que, muito longe de odiar-te, estimo-te, sou tua amiga, ofereço a minha vida pelo dom da tua ventura; mas quisera, Álvaro, que essa ventura não fosse mentirosa. A que presentemente gozas não pode ser duradoura, nem filha do espírito.

Adeus.

Tua mulher

Maria dos Prazeres.»

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