Livro II - Capítulo XXI
Álvaro da Silveira sentira-se capaz de converter um ímpio. Há pouco ainda, balbuciara as primeiras palavras de fé, e crê-se já robusto para vibrar a funda contra o gigante do materialismo cuja arrogância não vencem forças de homem, sem o impulso divino, que arrojara a pedra que prostrou o gigante filisteu.
--Que tens tu?--repetiu o conde.
--O que eu tenho--respondeu Álvaro--é o desejo de um amigo; mas queria um amigo, que nascesse neste momento, e em um momento me compreendesse. Não podes avaliar-me, conde. Se pudesses, ser-te-ia bastante uma só palavra...
--Pois bem--replicou o conde--diz ao menos essa palavra... ou diz sequer três palavras conceituosas como as de César...
--Ora atende-me. Tendo nós vivido sempre juntos nunca me persuadi que pudesse estar tão longe de ti como estou agora.
--Serás tu romântico?! atalhou o conde dando-se uns ares grutescos de espanto.
--Se ouvisses--tornou Álvaro sorrindo--a definição que há pouco ouvi do que é ser romântico, e se concordasses com ela, respondia-te que estava romântico.
--Pois quem anda cá por casa a dar definições? Teu pai deu agora nessa?
--Não foi meu pai... Meu pai o que soube foi definir a minha posição.
--Apre! Estás misterioso como o boi Ápis! Vou-me embora, que não sei ler hieróglifos humanos. Palavra de honra! Soletra lá o conceito de essa charada, do contrário vou-te mandar preparar quarto na enfermaria de S. José.
--Então queres saber quem define os homens e as coisas cá em casa?
--Quero conhecer esse escolástico; deve ser um monstro de paciência humana!
--É um padre!
--Um padre? exclamou o conde, erguendo-se, e apertando as mãos à cabeça--um padre em casa de Álvaro da Silveira! Malagrida em 1844 a fazer exercícios espirituais contra os exercícios da matéria!...