Livro I - Capítulo VIII
Não é assim o cínico.
Herdára um tesouro que seus pais lhe prepararam; e preparara ele em seu coração todos os elementos para aumentá-lo.
Que o ouro aumenta, quando é lançado no cadinho da perversidade. E o coração, ferido de avareza, é um segundo tesouro para quem herdou o primeiro. O mais eficaz instrumento da caridade, o ouro, nas mãos do avaro, converte-se em ferro de dois gumes: um que lhe entra no próprio coração, outro no coração que lhe pede o óbulo.
É assim o cínico.
Em cada degrau da sua escala de grandeza espirrava o sangue das faces que calcava. Entre ele, e um círculo de vítimas, que o rodearam, fascinadas pelo brilho da sua auréola, erguia-se o anteparo da irreligião.
Quem lhe dera o sorriso feroz fora a impiedade.
Quem lhe alimentara as ânsias de cevar-se em gozos, adubados em lágrimas e sangue, fora a impiedade.
Quem lhe segredara os derradeiros segredos do crime, para que o enojo de crimes repetidos lhe não esfriasse o amor sórdido da vida, fora a impiedade.
Quem lhe dissera que no túmulo para dentro não há pobres para repelir, nem corôas de virgem para desfolhar, nem faces lagrimosas para cuspir, nem amigos para vender a inimigos, fora a impiedade.