Livro I - Capítulo VIII Lágrimas Abençoadas · Capítulo 9 de 97
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Livro I - Capítulo VIII

Não é assim o cínico.

Herdára um tesouro que seus pais lhe prepararam; e preparara ele em seu coração todos os elementos para aumentá-lo.

Que o ouro aumenta, quando é lançado no cadinho da perversidade. E o coração, ferido de avareza, é um segundo tesouro para quem herdou o primeiro. O mais eficaz instrumento da caridade, o ouro, nas mãos do avaro, converte-se em ferro de dois gumes: um que lhe entra no próprio coração, outro no coração que lhe pede o óbulo.

É assim o cínico.

Em cada degrau da sua escala de grandeza espirrava o sangue das faces que calcava. Entre ele, e um círculo de vítimas, que o rodearam, fascinadas pelo brilho da sua auréola, erguia-se o anteparo da irreligião.

Quem lhe dera o sorriso feroz fora a impiedade.

Quem lhe alimentara as ânsias de cevar-se em gozos, adubados em lágrimas e sangue, fora a impiedade.

Quem lhe segredara os derradeiros segredos do crime, para que o enojo de crimes repetidos lhe não esfriasse o amor sórdido da vida, fora a impiedade.

Quem lhe dissera que no túmulo para dentro não há pobres para repelir, nem corôas de virgem para desfolhar, nem faces lagrimosas para cuspir, nem amigos para vender a inimigos, fora a impiedade.

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