Livro I - Capítulo XXIII Lágrimas Abençoadas · Capítulo 24 de 97
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Livro I - Capítulo XXIII

Não me demorei tempo algum nesta aldeia--disse frei Antônio--Pedi ao meu pobre benfeitor que me guardasse o meu hábito, e prometi pagar-lhe o seu, que ele me deu com lágrimas de contentamento.

«Caminhei incógnito, pedindo esmolas. Atravessei dez léguas para o norte, e assim assegurava cada vez mais a minha vida, não infringindo a condicional de morte, se eu caminhasse para o sul.»

O padre soltou aqui um sorriso de ironia inofensiva e continuou:

«Achei-me no Vale de Aguiar, ermo de paz, de tristeza santa. Cercado de montanhas pedregosas, a planície abrange duas léguas, e perde-se na pitoresca Vila Pouca de Aguiar. Tão profundo foi o meu desalento quando aí me vi. Quanto depressa me afiz àquelas várzeas, e àquele céu que parece firmar-se nas cristas das montanhas.

--E como vivias aí, Antônio? perguntou o coronel.

«Vivia à sopa de um lavrador... Pasmas, meu irmão.

--Entristece-me de ver a miséria a que pode descer um homem do teu nascimento.

«Do meu nascimento! disse o padre, sorrindo--O que é o meu nascimento!... Essas hierarquias são filhas da nossa miséria; a desgraça não conhece nem o fidalgo nem o jornaleiro... Não me lamentes, meu irmão. O homem só reconhece a sua dignidade quando vive pelo trabalho do braço ou da inteligência. Que maior nobreza querias tu que eu tivesse? Eu antes queria angariar assim nobremente o meu pão com o meu braço, e o coração, cheio de vontade. E pensas tu que a sociedade estaria corrupta pela hierarquia, se a ociosidade não estivesse em guerra constante com o trabalho? Medita, meu irmão, e verás que este país tinha excrescências, que o obrigaram a deitar-se no doloroso leito de Procusto em que o ouvimos gemer... e gememos todos.

--Deixemos filosofias. A minha querida sobrinha quer que eu lhe diga como vivia...

--Isso já eu sei... era trabalhando...--atalhou Maria.

--Trabalhando, sim, por um salario de jornaleiro, e agradecendo ao Altíssimo a robustez com que me dotara sentindo-me até com forças para poder lançar mão da enxada, e roçar um carro de tojo. Roçar um carro de tojo é sentir a gente a cada instante a precisão de arrancar espinhos que se cravam nas mãos e nos pés. É ir com as gabelas às costas empastá-las no carro, arfar de cansado, limpar com a manga de uma vestia de burel a face alagada de suor, carrear outra e outra gabela, durante um dia inteiro interrompido por uma hora do dia em que se come um caldo de couves, e umas batatas salpicadas de sal. Ajoelhava a pedir a Deus coragem, forças e resignação: não lhe pedia melhor pão, nem melhor vida. Sabei que o temor de Deus é uma renuncia, que a matéria do homem faz ao espírito, que é do Criador. A Providência transfigura o infeliz, ao passo que o infortúnio lhe vai mudando em dor as lágrimas. E, se não, dizei-me: quem me obrigou a mim a ocultar o nome que poderia aliviar-me de alguns rudes trabalhos de lavoura? Não poderia eu ser mestre de meninos? Não tenho eu o meu caráter de ministro do altar, e a minha pobre inteligência para remediar em um púlpito o ministério apostólico? Tinha, e vivia em terra que me daria proteção. E, com tudo, nunca me escasseou o alento para trabalho mais pesado, nunca me senti doente ao levantar-me da minha enxerga, antes de amanhecer, para vigiar os frutos, em que me estava garantido pela omnipotência do Senhor o premio do meu trabalho. Os monges primitivos da minha ordem como é que viviam? Não cultivavam eles os seus campos, e não cosiam os panos da sua túnica? É que ainda então não viera o privilegio e a classe santificar a inercia do corpo em virtude da varia cor dos sangues. Santo Deus, como são pasmosos os caprichos que rebaixam a majestade do homem trabalhador, alteando ao fastigio do acatamento o ocioso por mercê de uma herança!...

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