Livro I - Capítulo IX
E, depois, a mão de Deus despenhou o cínico.
No tremedal, onde caíra, roeram-me o os vermes dos cadáveres que ele fizera.
E riu-se.
Cobriram-em o os impropérios, e os sarcasmos de tantos, que ele enxovalhara, sacudindo-lhes às faces a lama das ruas com as rodas do seu carro insultuoso.
E riu-se.
Teve que aceitar uma esmola, que, por escárnio lhe lançou ao chapéu um daqueles que lha pedira, em vão, ansioso de fome.
E riu-se.
Bateu à porta de seus criados, que medravam nas prodigalidades do amo: pediu um bocado de pão, e responderam-lhe de dentro com uma gargalhada.
E riu-se.
Este é o cínico.
E quando lhe aconselharam o suicídio, riu-se, e riu até morrer porque a morte de cínico é uma risada na blasfêmia.