Livro II - Capítulo XVIII Lágrimas Abençoadas · Capítulo 43 de 97
Obra Menu

Livro II - Capítulo XVIII

Os esplendidos festins da depravação não se fechavam para alguém. Ponto era que o conviva fosse bem apresentado, e fechasse os lábios da crítica com mordaça de ouro. Já sabeis que Álvaro era rico, e quem o levou pela mão até o último degrau da escada da imoralidade, fora um conde tão rico e tão nobre como ele.

Este homem pavoneava-se de ter conquistado um nome, que exprimia uma seita. Chamavam-lhe cínico, e ele gloriava-se do nome. A sociedade nunca o maltratara, mas ele dizia que tinha uma vingança solene a tirar da sociedade. Algoz da honra de muitas famílias, a sua guilhotina era a calúnia, quando não podia mostrar as mãos salpicadas do sangue das vítimas. Velava alta noite a porta de um amigo, que o recebera de dia, para que os passageiros, ao vê-lo, o considerassem amante de sua irmã. Quando o murmúrio do descredito chegava aos ouvidos do pai, que rejeitava a mão de um traidor que o visitava, o conde não tinha dúvida em oferecer galhardamente a esse pai uma pistola, ou um florete. Se o ancião recuava diante da morte, ou da ideia do abandono em que ficava sua família, o cínico ria-se-lhe na face, e chamava-lhe cobarde nas praças, ou nos salões.

Assim como conduzira pela mão Álvaro da Silveira às bacanais, mais de uma virgem fora conduzida por ele à última estação da licença. E, depois, o maldito de Deus, e dos homens, aprazia-se de contemplar o desenfreamento de essas mulheres, como se fossem feras, restituídas à sua liberdade.

Estas linhas, esboçadas à pressa e com repugnância, traçam a fisionomia moral do conde que entrara para o quarto de Álvaro da Silveira.

1/1
Menu

Fazer anotação