Livro Último - Capítulo XII
Fr. Antônio dos Anjos, sabendo que a prelada o mandara entrar na grade passados alguns minutos, chegou no ensejo em que a veneranda senhora limpava as lágrimas.
--São lágrimas de felicidade...--exclamou ela--Venha compartir do nosso júbilo, Fr. Antônio. Aí tem o seu discípulo, que vem do mundo mais instruído do que foi das suas lições. Traz a ciência da desgraça, e entende que para ser um sábio completo só lhe falta a ciência da resignação. Essa é que o padre capelão lhe há de ensinar. Já sabe que o seu quarto há de ser mobilado por mim, e conforme for do meu agrado? Pois há de ver como uma freira caduca tem ainda o gosto apurado. Hoje há de remediar-se com a cama que o padre lhe der; amanhã há de ter um quarto que nem um palmito. Os quadros hão de ser os que a minha filha me deu; são flores que significam o aroma que vai da oração até Deus; são um cãozinho que é o símbolo da amizade; é uma cruz que significa o trono onde todas as angústias são coroadas soberanas da glória eterna... em fim, são obras de muito lavor e de muita paciência, desbotadas quase todas pelas lágrimas. Ora pois, está tocando ao coro; eu vou lá pedir a Deus que abençoe a escolha que fiz de um genro, e a minha filha, que está mais para chorar, qual quer, vir enxugar essas lágrimas aos pés da cruz, ou ficar aqui?
Maria não respondeu. Frei Antônio interrogou com os olhos a vontade de Álvaro, e conheceu-o oprimido.
--Vão, vão--disse o padre--Nós voltaremos.
--Maria!--disse Álvaro--eu ainda te não ouvi uma palavra. Seja só uma... diz-me: «perdoo-te.»
Maria exclamou entre soluços:
--Deus sabe que nunca te acusei; se me tivesse queixado com ira, pedia-te perdão agora.
--É, pois certo, meu Deus?--disse Álvaro.
--O que?--perguntou a prioresa.
--É certo que é possível a felicidade para mim?