Capítulo I - Da Sensação Leviatã · Capítulo 2 de 49
Obra Menu

Capítulo I - Da Sensação

Capítulo I - Da Sensação

Quanto aos pensamentos do homem, considerá-los-ei primeiro isoladamente e, depois, em sequência, ou em sua dependência recíproca. Isoladamente, cada um deles é uma representação ou aparência de alguma qualidade, ou de algum outro acidente, de um corpo exterior a nós, ao qual comumente se chama objeto. Esse objeto atua sobre os olhos, os ouvidos e as demais partes do corpo humano e, pela diversidade de sua atuação, produz diversidade de aparências.

A origem de todas elas é aquilo a que chamamos sensação, pois não há concepção alguma na mente humana que não tenha sido, primeiro, total ou parcialmente, produzida nos órgãos dos sentidos. Todas as demais derivam dessa origem.

Conhecer a causa natural da sensação não é muito necessário ao assunto que ora temos em mãos, e já escrevi extensamente sobre ela em outro lugar. Contudo, para preencher cada parte de meu método presente, expô-la-ei aqui brevemente.

A causa da sensação é o corpo exterior, ou objeto, que pressiona o órgão próprio de cada sentido, seja imediatamente, como no gosto e no tato, seja mediatamente, como na visão, na audição e no olfato. Essa pressão, por intermédio dos nervos e de outros cordões e membranas do corpo, prolongada para dentro até o cérebro e o coração, provoca ali uma resistência, contrapressão ou esforço do coração para libertar-se. E esse esforço, por dirigir-se para fora, parece ser alguma matéria exterior. Essa aparência, ou fantasia, é aquilo a que os homens chamam sensação e consiste, para o olho, em luz ou cor figurada; para o ouvido, em som; para as narinas, em odor; para a língua e o palato, em sabor; e, para o restante do corpo, em calor, frio, dureza, maciez e outras qualidades semelhantes, que discernimos pelo tato.

Todas essas qualidades, chamadas sensíveis, não são, no objeto que as causa, senão outros tantos movimentos diversos da matéria, pelos quais ele pressiona diferentemente nossos órgãos. Tampouco em nós, que somos pressionados, são elas outra coisa senão movimentos diversos, pois o movimento nada produz além de movimento. Mas sua aparência para nós é fantasia, tanto em vigília quanto em sonho. E assim como pressionar, esfregar ou golpear o olho nos faz imaginar uma luz, e pressionar o ouvido produz um estrondo, também os corpos que vemos ou ouvimos produzem o mesmo por sua ação vigorosa, embora não observada.

Pois, se essas cores e esses sons estivessem nos corpos ou objetos que os causam, não poderiam separar-se deles, como vemos que ocorre por meio dos espelhos e, nos ecos, pela reflexão, casos em que sabemos estar a coisa vista em um lugar e a aparência em outro. E embora, a certa distância, o objeto real e verdadeiro pareça revestido da fantasia que produz em nós, ainda assim o objeto é uma coisa, e a imagem ou fantasia é outra. Assim, em todos os casos, a sensação não é senão fantasia originária, causada, como disse, pela pressão, isto é, pelo movimento das coisas exteriores sobre nossos olhos, ouvidos e outros órgãos destinados a esse fim.

As escolas de filosofia, porém, em todas as universidades da cristandade, apoiadas em certos textos de Aristóteles, ensinam outra doutrina. Para explicar a causa da visão, afirmam que a coisa vista emite por todos os lados uma espécie visível, isto é, em nossa língua, uma aparência visível, aparição, aspecto ou ser visto, cuja recepção pelo olho constitui a visão. Para explicar a causa da audição, dizem que a coisa ouvida emite uma espécie audível, isto é, um aspecto audível ou ser visto audível, que, entrando pelo ouvido, produz a audição. E até mesmo para explicar a causa do entendimento afirmam que a coisa entendida emite uma espécie inteligível, isto é, um ser visto inteligível, que, chegando ao entendimento, nos faz entender.

Não digo isso por desaprovar o uso das universidades. Mas, como deverei falar mais adiante de sua função numa república, preciso mostrar, sempre que a ocasião se apresentar, quais coisas nelas deveriam ser corrigidas, entre as quais se encontra o uso frequente de discursos sem significação.

1/1
Menu

Fazer anotação