Capítulo XXXVI - Da Palavra De Deus E Dos Profetas
Capítulo XXXVI - Da Palavra De Deus E Dos Profetas
O que é palavra
Quando se faz menção à Palavra de Deus ou à palavra do homem, não se quer significar uma parte da oração, como aquilo que os gramáticos chamam substantivo, verbo ou qualquer voz simples, sem ligação com outras palavras que a torne significativa, mas uma fala ou discurso completo, pelo qual aquele que fala afirma, nega, ordena, promete, ameaça, deseja ou interroga.
Nesse sentido, não é vocabulum que significa palavra, mas sermo, em grego logos, isto é, alguma fala, discurso ou enunciado.
Tanto as palavras pronunciadas por Deus quanto as palavras acerca de Deus são chamadas, nas Escrituras, Palavra de Deus
Além disso, quando dizemos Palavra de Deus ou palavra do homem, isso pode ser entendido, às vezes, com referência àquele que fala, como as palavras pronunciadas por Deus ou por um homem.
Nesse sentido, quando dizemos Evangelho de São Mateus, entendemos que São Mateus foi seu autor.
Às vezes, porém, a expressão refere-se ao assunto.
Nesse sentido, quando lemos na Bíblia “as palavras dos dias dos reis de Israel ou de Judá”, quer-se dizer que os atos praticados naqueles dias constituíam o assunto dessas palavras.
E, no grego, que nas Escrituras conserva muitos hebraísmos, por Palavra de Deus entende-se frequentemente não aquilo que foi pronunciado por Deus, mas aquilo que se diz acerca de Deus e de seu governo, isto é, a doutrina da religião.
Assim, dizer Logos Theou equivale a dizer Theologia, isto é, a doutrina que costumamos chamar teologia, como se manifesta nas passagens seguintes.
Em Atos 13,46:
“Então Paulo e Barnabé, falando com ousadia, disseram: era necessário que a Palavra de Deus vos fosse primeiramente anunciada; mas, visto que a rejeitais e vos julgais indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios.”
Aquilo que aqui é chamado Palavra de Deus era a doutrina da religião cristã, como se evidencia claramente pelo que vem antes.
E em Atos 5,20, onde um anjo diz aos apóstolos:
“Ide, apresentai-vos no Templo e anunciai ao povo todas as palavras desta vida.”
Por “palavras desta vida” entende-se a doutrina do Evangelho, como se vê pelo que eles fizeram no Templo e pelo que se expressa no último versículo do mesmo capítulo:
“Todos os dias, no Templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e anunciar Jesus Cristo.”
Nessa passagem é manifesto que Jesus Cristo era o assunto dessa Palavra de Vida ou, o que é a mesma coisa, o assunto das palavras dessa vida eterna que nosso Salvador lhes oferecia.
Do mesmo modo, em Atos 15,7, a Palavra de Deus é chamada Palavra do Evangelho, porque contém a doutrina do Reino de Cristo.
E a mesma Palavra, em Romanos 10,8-9, é chamada Palavra da Fé, isto é, como ali se expressa, a doutrina de que Cristo veio e ressuscitou dos mortos.
Também em Mateus 13,19:
“Quando alguém ouve a Palavra do Reino.”
Isto é, a doutrina do Reino ensinada por Cristo.
Outra vez, diz-se em Atos 12,24 que a mesma Palavra “crescia e se multiplicava”.
Entender isso acerca da doutrina evangélica é fácil, mas entendê-lo acerca da voz ou fala de Deus seria difícil e estranho.
No mesmo sentido, a doutrina dos demônios não significa as palavras de algum demônio, mas a doutrina dos pagãos acerca dos demônios e daquelas imagens que cultuavam como deuses.
Consideradas essas duas significações de PALAVRA DE DEUS, tal como a expressão é empregada nas Escrituras, é manifesto que, na segunda significação, em que se toma pela doutrina da religião cristã, toda a Escritura é a Palavra de Deus.
Na primeira significação, porém, não o é inteiramente.
Por exemplo, embora as palavras “Eu sou o Senhor teu Deus” e as seguintes, até o fim dos Dez Mandamentos, tenham sido pronunciadas por Deus a Moisés, o prefácio “Deus falou estas palavras, dizendo” deve ser entendido como palavras daquele que escreveu a história sagrada.
A Palavra de Deus, quando tomada por aquilo que ele pronunciou, é entendida às vezes propriamente e às vezes metaforicamente.
Propriamente, como as palavras que falou a seus profetas.
Metaforicamente, por sua sabedoria, poder e decreto eterno na criação do mundo.
Nesse sentido, os mandamentos “Faça-se a luz”, “Haja um firmamento”, “Façamos o homem” e outros semelhantes, no primeiro capítulo do Gênesis, são a Palavra de Deus.
No mesmo sentido se diz em João 1,3:
“Todas as coisas foram feitas por ela, e sem ela nada do que foi feito se fez.”
E em Hebreus 1,3:
“Ele sustenta todas as coisas pela palavra de seu poder.”
Isto é, pelo poder de sua palavra, ou seja, por seu poder.
E em Hebreus 11,3:
“Os mundos foram formados pela Palavra de Deus.”
Há muitas outras passagens com a mesma significação.
Do mesmo modo, entre os latinos, o nome destino, que propriamente significa a palavra pronunciada, é tomado nesse mesmo sentido.
Segundo, pelo efeito de sua Palavra
Em segundo lugar, Palavra de Deus é tomada pelo efeito de sua Palavra, isto é, pela própria coisa que, mediante sua Palavra, é afirmada, ordenada, ameaçada ou prometida.
Assim, no Salmo 105,19, diz-se que José foi mantido na prisão “até que sua palavra se cumprisse”.
Isto significa até que acontecesse aquilo que ele predissera ao copeiro do faraó acerca de sua restituição ao cargo.
Pois, por “sua palavra se cumpriu”, quer-se dizer que a própria coisa aconteceu.
Do mesmo modo, em 1 Reis 18,36, Elias diz a Deus:
“Fiz todas estas tuas palavras.”
Em lugar de:
“Fiz todas estas coisas segundo tua palavra”, isto é, segundo tua ordem.
E em Jeremias 17,15:
“Onde está a Palavra do Senhor?”
A expressão é empregada em lugar de:
“Onde está o mal que ele ameaçou enviar?”
E em Ezequiel 12,28:
“Nenhuma de minhas palavras será mais adiada.”
Por “palavras” entendem-se as coisas que Deus prometeu a seu povo.
No Novo Testamento, em Mateus 24,35:
“O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão.”
Isto é, nada do que prometi ou predisse deixará de acontecer.
É nesse sentido que São João Evangelista, e, ao que penso, somente São João, chama nosso Salvador, enquanto encarnado, de Palavra de Deus.
Assim, em João 1,14:
“A Palavra se fez carne.”
Isto é, a Palavra ou promessa de que Cristo viria ao mundo, “a qual no princípio estava com Deus”, ou seja, estava no propósito de Deus Pai, que enviaria Deus Filho ao mundo para iluminar os homens no caminho da vida eterna, não havia até então sido executada e efetivamente encarnada.
Nosso Salvador é chamado ali a Palavra não porque fosse a promessa, mas porque era a coisa prometida.
Aqueles que, tomando ocasião dessa passagem, costumam chamá-lo Verbo de Deus apenas tornam o texto mais obscuro.
Poderiam igualmente chamá-lo Substantivo de Deus.
Pois, tanto por substantivo quanto por verbo, os homens entendem apenas uma parte da oração, uma voz, um som que não afirma, não nega, não ordena, não promete e não é substância corpórea nem espiritual.
Por isso, não se pode dizer que seja Deus ou homem, ao passo que nosso Salvador é ambos.
E essa Palavra que São João, em seu Evangelho, diz ter estado com Deus é chamada, em sua Primeira Epístola, “a Palavra da Vida” e, no versículo seguinte, “a vida eterna que estava com o Pai”.
Assim, ele não pode ser chamado Palavra em outro sentido senão naquele em que é chamado vida eterna, isto é, aquele que nos obteve a vida eterna por sua vinda em carne.
Do mesmo modo, no Apocalipse 19,13, o Apóstolo, falando de Cristo vestido com uma veste mergulhada em sangue, diz:
“Seu nome é a Palavra de Deus.”
Isso deve ser entendido como se dissesse que seu nome era:
“Aquele que veio segundo o propósito de Deus desde o princípio e segundo sua Palavra e suas promessas transmitidas pelos profetas.”
Portanto, não há aqui encarnação de uma palavra, mas encarnação de Deus Filho, chamado Palavra porque sua encarnação foi o cumprimento da promessa.
Do mesmo modo, o Espírito Santo é chamado a Promessa.
Terceiro, pelas palavras da razão e da equidade
Há também passagens das Escrituras em que, por Palavra de Deus, se entendem palavras conformes à razão e à equidade, embora às vezes não tenham sido pronunciadas nem por profeta nem por homem santo.
Pois o faraó Neco era idólatra. Contudo, suas palavras ao bom rei Josias, nas quais o aconselhou, por meio de mensageiros, a não se opor à sua marcha contra Carquemis, são apresentadas como procedentes da boca de Deus. E Josias, por não lhes dar ouvidos, foi morto na batalha, como se lê em 2 Crônicas 35,21-23.
É verdade que, tal como a mesma história é narrada no Primeiro Livro de Esdras, essas palavras foram pronunciadas a Josias não pelo faraó, mas por Jeremias, da boca do Senhor. Devemos, porém, dar crédito às Escrituras canônicas, seja o que for que esteja escrito nos Apócrifos.
A Palavra de Deus deve também ser tomada pelos ditames da razão e da equidade quando se diz, nas Escrituras, que ela está escrita no coração dos homens, como no Salmo 36,31, em Jeremias 31,33, em Deuteronômio 30,11 e 14, e em muitas outras passagens semelhantes.
Diversas acepções da palavra profeta
O nome PROFETA significa nas Escrituras, às vezes, porta-voz, isto é, aquele que fala de Deus ao homem ou do homem a Deus; às vezes, preditor, ou aquele que anuncia coisas futuras; e, às vezes, aquele que fala de modo incoerente, como os homens perturbados.
É usado mais frequentemente no sentido daquele que fala de Deus ao povo.
Assim, Moisés, Samuel, Elias, Isaías, Jeremias e outros eram profetas.
E, nesse sentido, o sumo sacerdote era profeta, pois somente ele entrava no Santo dos Santos para consultar a Deus e devia declarar sua resposta ao povo.
Por isso, quando Caifás disse que convinha que um homem morresse pelo povo, São João afirma que “não disse isso por si mesmo, mas, sendo sumo sacerdote naquele ano, profetizou que um homem morreria pela nação”.
Também aqueles que ensinavam o povo nas congregações cristãs são chamados profetas.
No mesmo sentido, Deus diz a Moisés acerca de Aarão:
“Ele será teu porta-voz diante do povo; será para ti como boca, e tu serás para ele como Deus.”
Aquilo que nessa passagem é porta-voz é interpretado, no capítulo 7, versículo 1, como profeta:
“Vê”, diz Deus, “constituí-te como Deus para o faraó, e Aarão, teu irmão, será teu profeta.”
No sentido de falar do homem a Deus, Abraão é chamado profeta em Gênesis 20,7, onde Deus, em sonho, fala a Abimeleque desta maneira:
“Agora, portanto, restitui ao homem sua mulher, porque ele é profeta e orará por ti.”
Disso pode também inferir-se que o nome profeta pode ser dado, sem impropriedade, àqueles que nas igrejas cristãs possuem a vocação de proferir orações públicas pela congregação.
No mesmo sentido, os profetas que desciam do lugar elevado, ou monte de Deus, com saltério, tamborim, flauta e harpa, e Saul entre eles, são chamados profetas porque louvavam publicamente a Deus dessa maneira.
No mesmo sentido, Miriã é chamada profetisa em Êxodo 15,20.
Assim deve também ser entendido em 1 Coríntios 11,4-5, onde São Paulo diz:
“Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta”, e “toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta”.
Pois profetizar nessa passagem não significa mais que louvar a Deus em salmos e cânticos sagrados, o que as mulheres podiam fazer na Igreja, embora não lhes fosse lícito falar à congregação.
É nessa significação que os poetas dos pagãos, que compunham hinos e outras espécies de poemas em honra de seus deuses, eram chamados vates, isto é, profetas, como é suficientemente conhecido por todos os versados nos livros dos gentios.
Isso também se mostra em Tito 1,12, onde São Paulo diz acerca dos cretenses que um profeta deles próprios afirmara serem mentirosos.
Não que São Paulo considerasse seus poetas profetas, mas reconhecia que a palavra profeta era comumente usada para significar aqueles que celebravam em versos a honra de Deus.
A predição de acontecimentos futuros contingentes nem sempre é profecia
Quando por profecia se entende predição ou anúncio de acontecimentos futuros contingentes, eram profetas não apenas os porta-vozes de Deus que anunciavam aos outros as coisas que Deus lhes havia predito, mas também todos os impostores que pretendem, com a ajuda de espíritos familiares ou mediante a adivinhação supersticiosa de acontecimentos passados a partir de falsas causas, predizer acontecimentos semelhantes no futuro.
Há muitas espécies desses homens, como já declarei no capítulo XII deste discurso. Eles adquirem, na opinião do povo comum, maior reputação de profecia por um único acontecimento casual que possa ser forçado a ajustar-se a seu propósito do que podem perder por qualquer número de fracassos.
A profecia não é uma arte, nem, quando tomada por predição, uma vocação permanente. É um encargo extraordinário e temporário concedido por Deus, na maioria das vezes a homens bons, mas às vezes também aos maus.
A mulher de Endor, da qual se diz que possuía um espírito familiar e que, por meio dele, suscitou uma imagem de Samuel e predisse a morte de Saul, nem por isso era profetisa.
Pois não possuía ciência alguma pela qual pudesse suscitar tal imagem, nem se mostra que Deus tenha ordenado que ela a suscitasse. Deus apenas conduziu aquela impostura para que servisse como meio de aterrorizar e desanimar Saul e, consequentemente, de produzir a derrota em que ele caiu.
Quanto à fala incoerente, ela era considerada entre os gentios uma espécie de profecia, porque os profetas de seus oráculos, intoxicados por um espírito ou vapor procedente da caverna do oráculo pítico em Delfos, ficavam realmente loucos por algum tempo e falavam como loucos.
De suas palavras desconexas podia extrair-se um sentido ajustável a qualquer acontecimento, do mesmo modo como se dizia que todos os corpos eram feitos de matéria-prima.
Também encontro essa acepção nas Escrituras, em 1 Samuel 18,10:
“E o espírito mau veio sobre Saul, e ele profetizou no meio da casa.”
A maneira pela qual Deus falou aos profetas
Embora haja nas Escrituras tantas significações da palavra profeta, a mais frequente é aquela em que ela designa o homem a quem Deus fala imediatamente aquilo que ele deverá dizer em seu nome a outro homem ou ao povo.
A partir disso pode-se perguntar de que maneira Deus fala a tal profeta.
Pode alguém dizer propriamente que Deus possui voz e linguagem, quando não se pode dizer propriamente que possua língua ou outros órgãos como os homens?
O profeta Davi argumenta assim:
“Aquele que fez os olhos não verá? Ou aquele que fez os ouvidos não ouvirá?”
Mas isso pode ser dito não, como habitualmente se supõe, para significar a natureza de Deus, e sim para significar nossa intenção de honrá-lo.
Pois ver e ouvir são atributos honrosos e podem ser dados a Deus para declarar, tanto quanto nossa capacidade pode conceber, seu poder onipotente.
Se, porém, fossem tomados em sentido estrito e próprio, poder-se-ia argumentar, a partir do fato de Deus ter criado todas as partes do corpo humano, que ele também faz delas o mesmo uso que fazemos.
Muitos desses usos seriam tão indecorosos que atribuí-los a Deus constituiria o maior ultraje do mundo.
Devemos, portanto, interpretar que Deus fala imediatamente aos homens por qualquer modo mediante o qual os faça compreender sua vontade.
Os modos pelos quais faz isso são muitos e devem ser buscados apenas nas Sagradas Escrituras.
Embora nelas muitas vezes se diga que Deus falou a esta ou àquela pessoa sem declarar de que maneira, há também muitas passagens que expõem os sinais pelos quais essas pessoas deviam reconhecer sua presença e seu mandamento.
Por meio delas pode-se compreender como ele falou a muitas das demais.
Aos profetas extraordinários do Antigo Testamento, Deus falou por sonhos ou visões
Não se expressa de que maneira Deus falou a Adão, Eva, Caim e Noé, nem como falou a Abraão antes de este sair de seu próprio país e chegar a Siquém, na terra de Canaã.
Então se diz que Deus lhe apareceu.
Temos aí um modo pelo qual Deus tornou manifesta sua presença, isto é, por uma aparição ou visão.
Outra vez:
“A Palavra do Senhor veio a Abraão numa visão.”
Isto é, alguma coisa apareceu como sinal da presença de Deus e como mensageiro de Deus para falar-lhe.
Novamente, o Senhor apareceu a Abraão mediante a aparição de três anjos; a Abimeleque, em sonho; a Ló, pela aparição de dois anjos; a Agar, pela aparição de um anjo; e outra vez a Abraão, pela aparição de uma voz vinda do céu.
A Isaac, apareceu durante a noite, isto é, durante o sono ou em sonho.
A Jacó, em sonho, ou seja, como dizem as palavras do texto:
“Jacó sonhou que via uma escada.”
E outra vez, numa visão de anjos.
A Moisés, pela aparição de uma chama de fogo no meio de uma sarça.
Depois do tempo de Moisés, sempre que o Antigo Testamento declara a maneira como Deus falou imediatamente ao homem, ele falou por uma visão ou por um sonho, como a Gideão, Samuel, Elias, Eliseu, Isaías, Ezequiel e aos demais profetas.
E frequentemente também no Novo Testamento, como a José, São Pedro, São Paulo e São João Evangelista no Apocalipse.
Somente a Moisés Deus falou de maneira mais extraordinária, no monte Sinai e no Tabernáculo; e ao sumo sacerdote, no Tabernáculo e no Santo dos Santos do Templo.
Moisés, e depois dele os sumos sacerdotes, eram profetas de posição e grau mais eminentes no favor de Deus.
E o próprio Deus declara expressamente que aos outros profetas falava por sonhos e visões, mas a seu servo Moisés de maneira semelhante àquela pela qual um homem fala a seu amigo.
As palavras são estas:
“Se houver entre vós um profeta, eu, o Senhor, a ele me darei a conhecer numa visão e falarei com ele em sonho. Não é assim com meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. Com ele falarei boca a boca, claramente e não por enigmas; e ele contemplará a semelhança do Senhor.”
E no Êxodo:
“O Senhor falava a Moisés face a face, como um homem fala a seu amigo.”
Contudo, essa fala de Deus a Moisés ocorria pela mediação de um anjo ou de anjos, como aparece expressamente em Atos 7,35 e 53, e em Gálatas 3,19.
Era, portanto, uma visão, embora mais clara que a concedida aos demais profetas.
Conforme a isso, quando Deus diz:
“Se surgir entre vós um profeta ou sonhador de sonhos”,
a segunda expressão é apenas a interpretação da primeira.
E em Joel:
“Vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos velhos sonharão sonhos e vossos jovens terão visões.”
Mais uma vez, a palavra profecia é explicada por sonho e visão.
Foi igualmente dessa maneira que Deus falou a Salomão, prometendo-lhe sabedoria, riquezas e honra, pois o texto diz:
“E Salomão despertou, e eis que era um sonho.”
Assim, em geral, os profetas extraordinários do Antigo Testamento tomaram conhecimento da Palavra de Deus somente por seus sonhos ou visões, isto é, pelas imagens que tinham durante o sono ou num êxtase.
Em todo profeta verdadeiro, essas imagens eram sobrenaturais; nos falsos profetas, eram naturais ou fingidas.
Os mesmos profetas eram, contudo, chamados homens que falavam pelo Espírito.
Assim, em Zacarias 7,12, o profeta, falando dos judeus, diz:
“Endureceram seus corações como diamante, para não ouvirem a Lei e as palavras que o Senhor dos Exércitos enviou por seu Espírito mediante os antigos profetas.”
Disso é manifesto que falar pelo Espírito, ou por inspiração, não era uma maneira particular de Deus falar, diferente da visão.
Pois aqueles de quem se dizia que falavam pelo Espírito eram profetas extraordinários, que, para cada nova mensagem, deviam receber uma comissão particular ou, o que é o mesmo, um novo sonho ou uma nova visão.
Aos profetas de vocação permanente e suprema, Deus falou no Antigo Testamento a partir do propiciatório, de maneira não expressa nas Escrituras
Entre os profetas que o eram por vocação permanente no Antigo Testamento, alguns eram supremos e outros subordinados.
Supremos foram, primeiro, Moisés; e, depois dele, o sumo sacerdote de cada época, enquanto o sacerdócio foi real.
Depois que o povo judeu rejeitou Deus, para que ele já não reinasse sobre eles, também aqueles reis que se submeteram ao governo divino foram seus principais profetas, e o ofício do sumo sacerdote tornou-se ministerial.
Quando Deus devia ser consultado, os sacerdotes vestiam os paramentos sagrados e interrogavam o Senhor segundo a ordem do rei, e eram privados de seu ofício quando o rei assim julgava conveniente.
Pois o rei Saul ordenou que lhe trouxessem o holocausto; ordenou ao sacerdote que aproximasse a Arca; e, logo depois, que a deixasse, porque percebeu uma vantagem sobre seus inimigos.
No mesmo capítulo, Saul consulta a Deus.
Do mesmo modo, o rei Davi, depois de ter sido ungido, embora ainda não tivesse tomado posse do reino, é apresentado consultando o Senhor sobre se deveria combater os filisteus em Queila.
Mais adiante, Davi ordena ao sacerdote que lhe traga o éfode, para consultar se deveria ou não permanecer em Queila.
E o rei Salomão retirou de Abiatar o sacerdócio e o concedeu a Zadoque.
Portanto, Moisés, os sumos sacerdotes e os reis piedosos, que consultavam a Deus em todas as ocasiões extraordinárias acerca da maneira pela qual deviam conduzir-se ou do resultado que deveriam esperar, eram todos profetas soberanos.
Mas não é manifesto de que maneira Deus lhes falava.
Dizer que, quando Moisés subiu até Deus no monte Sinai, isso ocorreu por sonho ou visão, como sucedia aos demais profetas, é contrário à distinção feita pelo próprio Deus entre Moisés e os outros profetas em Números 12,6-8.
Dizer que Deus falou ou apareceu tal como é em sua própria natureza é negar sua infinitude, invisibilidade e incompreensibilidade.
Dizer que falou por inspiração ou infusão do Espírito Santo, entendendo-se por Espírito Santo a Divindade, é tornar Moisés igual a Cristo, no qual somente, como diz São Paulo, habita corporalmente a plenitude da Divindade.
E, por fim, dizer que falou pelo Espírito Santo no sentido das graças ou dons do Espírito Santo é nada lhe atribuir de sobrenatural.
Pois Deus dispõe os homens à piedade, à justiça, à misericórdia, à verdade, à fé e a toda espécie de virtude, tanto moral quanto intelectual, por meio da doutrina, do exemplo e de diversas ocasiões naturais e ordinárias.
E, assim como esses modos não podem ser aplicados a Deus quando falou a Moisés no monte Sinai, também não podem ser aplicados quando falou aos sumos sacerdotes a partir do propiciatório.
Portanto, não é inteligível de que maneira Deus falou àqueles profetas soberanos do Antigo Testamento cujo ofício era consultá-lo.
No tempo do Novo Testamento, não houve profeta soberano além de nosso Salvador, que era ao mesmo tempo o Deus que falava e o profeta a quem falava.
Aos profetas de vocação permanente, mas subordinados, Deus falou pelo Espírito
Quanto aos profetas subordinados de vocação permanente, não encontro passagem alguma que prove que Deus lhes falava sobrenaturalmente, mas apenas da maneira pela qual naturalmente inclina os homens à piedade, à crença, à justiça e às demais virtudes, assim como faz com todos os outros cristãos.
Esse modo, embora consista na constituição, instrução, educação e nas ocasiões e estímulos que os homens recebem para as virtudes cristãs, é verdadeiramente atribuído à operação do Espírito de Deus, ou Espírito Santo, que em nossa língua chamamos Santo Espírito.
Pois não há boa inclinação que não proceda da operação de Deus.
Mas essas operações nem sempre são sobrenaturais.
Portanto, quando se diz que um profeta fala no Espírito ou pelo Espírito de Deus, não devemos entender mais que ele fala de acordo com a vontade de Deus, declarada pelo profeta supremo.
Pois a acepção mais comum da palavra espírito é a significação da intenção, mente ou disposição de um homem.
No tempo de Moisés, havia, além dele, setenta homens que profetizavam no acampamento dos israelitas.
A maneira pela qual Deus lhes falou é declarada no capítulo 11 de Números, versículo 25:
“O Senhor desceu numa nuvem e falou a Moisés, tomou do Espírito que estava sobre ele e o deu aos setenta anciãos. E aconteceu que, quando o Espírito repousou sobre eles, profetizaram e não cessaram.”
Disso é manifesto, primeiro, que sua profecia ao povo era servidora e subordinada à profecia de Moisés.
Pois Deus tomou do Espírito de Moisés para colocá-lo sobre eles, de modo que profetizavam conforme Moisés queria. De outro modo, não lhes teria sido permitido profetizar.
Houve contra eles uma queixa apresentada a Moisés, e Josué queria que Moisés os proibisse.
Moisés, porém, não o fez, mas disse a Josué que não tivesse ciúmes por causa dele.
Segundo, é manifesto que o Espírito de Deus, nessa passagem, nada significa além da mente e disposição para obedecer e auxiliar Moisés na administração do governo.
Pois, se se entendesse que receberam o Espírito substancial de Deus, isto é, a natureza divina, então o teriam recebido de modo não inferior a Cristo, no qual somente o Espírito de Deus habitou corporalmente.
Entende-se, portanto, o dom e a graça de Deus que os orientava a cooperar com Moisés, de quem seu espírito era derivado.
E aparece no versículo 16 que eram homens que o próprio Moisés deveria designar como anciãos e oficiais do povo.
Pois as palavras são:
“Reúne para mim setenta homens que sabes serem anciãos e oficiais do povo.”
Nessa passagem, “que sabes” equivale a “que designas” ou “que designaste como tais”.
Pois somos informados anteriormente, em Êxodo 18, de que Moisés, seguindo o conselho de seu sogro Jetro, designou juízes e oficiais sobre o povo, homens que temiam a Deus.
Dentre esses estavam os setenta que Deus, colocando sobre eles o espírito de Moisés, inclinou a ajudá-lo na administração do reino.
É nesse sentido que se diz, em 1 Samuel 16,13-14, que, imediatamente depois da unção de Davi, o Espírito de Deus veio sobre Davi e abandonou Saul.
Deus concedia suas graças àquele que escolhera para governar seu povo e as retirava daquele que rejeitara.
Assim, por Espírito entende-se a inclinação ao serviço de Deus, e não qualquer revelação sobrenatural.
Deus também falou algumas vezes por sortes
Deus falou também muitas vezes pelo resultado das sortes, que eram lançadas por aqueles a quem havia colocado em autoridade sobre seu povo.
Assim, lemos que Deus revelou, mediante as sortes que Saul ordenou que fossem lançadas, a falta cometida por Jônatas ao comer um favo de mel, contrariamente ao juramento feito pelo povo.
E Deus dividiu a terra de Canaã entre os israelitas pelas sortes que Josué lançou diante do Senhor em Siló.
Da mesma maneira, parece ter sido por sortes que Deus revelou o crime de Acã.
Esses foram os modos pelos quais Deus declarou sua vontade no Antigo Testamento.
Todos esses modos ele empregou também no Novo Testamento.
À Virgem Maria, por uma visão de um anjo.
A José, em sonho.
A Paulo, no caminho de Damasco, por uma visão de nosso Salvador.
A Pedro, pela visão de um lençol descido do céu, contendo diversas espécies de carnes de animais puros e impuros; e, na prisão, pela visão de um anjo.
A todos os apóstolos e autores do Novo Testamento, pelas graças de seu Espírito.
E novamente aos apóstolos, na escolha de Matias para o lugar de Judas Iscariotes, por sorte.
Todo homem deve examinar a probabilidade da vocação de um pretenso profeta
Visto, portanto, que toda profecia pressupõe visão ou sonho, os quais, quando naturais, são a mesma coisa, ou algum dom especial de Deus, observado tão raramente entre os homens que causa admiração quando aparece; e visto que tanto esses dons quanto os sonhos e visões mais extraordinários podem proceder de Deus não apenas por sua operação sobrenatural e imediata, mas também por sua operação natural e pela mediação de causas secundárias, são necessárias razão e capacidade de julgamento para distinguir entre dons naturais e sobrenaturais, e entre visões ou sonhos naturais e sobrenaturais.
Consequentemente, os homens precisam ser muito circunspectos e cautelosos ao obedecer à voz de alguém que, afirmando ser profeta, exige que obedeçamos a Deus pelo caminho que ele, em nome de Deus, nos declara ser o caminho da felicidade.
Pois aquele que pretende ensinar aos homens o caminho para tão grande felicidade pretende governá-los, isto é, dirigi-los e reinar sobre eles. E isso é algo que todos os homens naturalmente desejam, razão pela qual tal pretensão merece ser suspeita de ambição e impostura e, consequentemente, deve ser examinada e provada por cada homem antes que lhe preste obediência, a menos que já a tenha prestado na instituição de uma república, como quando o profeta é o soberano civil ou foi autorizado pelo soberano civil.
E, se esse exame dos profetas e dos espíritos não fosse permitido a cada indivíduo do povo, teria sido inútil indicar os sinais pelos quais cada homem pudesse distinguir entre aqueles a quem deve seguir e aqueles a quem não deve.
Visto, portanto, que tais sinais são apresentados no Deuteronômio para reconhecer um profeta, e na Primeira Epístola de São João para reconhecer um espírito; visto que há tanta profecia no Antigo Testamento e tanta pregação no Novo Testamento contra os profetas; e visto que o número de falsos profetas é ordinariamente muito maior que o dos verdadeiros, cada homem deve acautelar-se, por sua própria conta e risco, ao obedecer às orientações deles.
Primeiro, que havia muito mais falsos profetas que verdadeiros aparece pelo fato de que, quando Acabe consultou quatrocentos profetas, todos eram falsos impostores, com exceção de um só, Micaías.
E, pouco antes do tempo do cativeiro, os profetas eram em geral mentirosos.
“Os profetas”, diz o Senhor por Jeremias, “profetizam mentiras em meu nome. Eu não os enviei, nem lhes dei ordem, nem lhes falei; eles vos profetizam uma visão falsa, uma coisa de nenhum valor e o engano de seu próprio coração.”
A tal ponto isso ocorria que Deus ordenou ao povo, pela boca do profeta Jeremias, que não lhes obedecesse:
“Assim diz o Senhor dos Exércitos: não deis ouvidos às palavras dos profetas que vos profetizam. Eles vos tornam vãos; falam uma visão de seu próprio coração, e não da boca do Senhor.”
Toda profecia, exceto a do profeta soberano, deve ser examinada por cada súdito
Visto, portanto, que, no tempo do Antigo Testamento, havia tais disputas entre os profetas visionários, um contendendo com outro e perguntando: “Por onde saiu de mim o Espírito para ir a ti?”, como entre Micaías e os outros quatrocentos; visto que uns acusavam os outros de mentira, como em Jeremias 14,14; e visto que há, no Novo Testamento e ainda hoje, semelhantes controvérsias entre os profetas espirituais, todo homem estava então, e está agora, obrigado a fazer uso de sua razão natural para aplicar a toda profecia as regras que Deus nos deu para distinguir a verdadeira da falsa.
Dessas regras, no Antigo Testamento, uma era a conformidade da doutrina com aquilo que Moisés, o profeta soberano, lhes havia ensinado; e a outra era o poder milagroso de predizer aquilo que Deus faria acontecer, como já mostrei com base em Deuteronômio 13 e nas passagens seguintes.
No Novo Testamento, havia apenas um sinal, que era a pregação desta doutrina: JESUS É O CRISTO, isto é, o Rei dos judeus prometido no Antigo Testamento.
Quem negasse esse artigo era falso profeta, quaisquer que fossem os milagres que parecesse realizar; e quem o ensinasse era verdadeiro profeta.
Pois São João, falando expressamente dos meios de examinar os espíritos para saber se procedem ou não de Deus, depois de lhes dizer que surgiriam falsos profetas, afirma:
“Nisto conhecereis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus.”
Isto é, é aprovado e admitido como profeta de Deus.
Não significa que seja homem piedoso ou um dos eleitos pelo fato de confessar, professar ou pregar que Jesus é o Cristo, mas que é um profeta reconhecido.
Pois Deus algumas vezes fala por profetas cujas pessoas não aceitou, como falou por Balaão e como predisse a Saul sua morte por meio da feiticeira de Endor.
Outra vez, no versículo seguinte:
“Todo espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Cristo. E esse é o espírito do Anticristo.”
Assim, a regra é perfeita de ambos os lados: é verdadeiro profeta aquele que prega que o Messias já veio na pessoa de Jesus; e é falso aquele que nega sua vinda e o espera em algum impostor futuro que falsamente tomará para si essa honra, a quem o Apóstolo chama propriamente Anticristo.
Todo homem deve, portanto, considerar quem é o profeta soberano, isto é, quem é o vice-regente de Deus na terra e possui, imediatamente abaixo de Deus, a autoridade de governar os cristãos; e deve tomar como regra a doutrina que esse profeta ordenou que fosse ensinada em nome de Deus.
Por meio dela deverá examinar e provar a verdade das doutrinas que pretensos profetas, com milagres ou sem eles, venham a apresentar em qualquer ocasião.
E, se as considerar contrárias a essa regra, deverá proceder como fizeram aqueles que foram a Moisés queixar-se de que alguns profetizavam no acampamento, por duvidarem de sua autoridade para fazê-lo, deixando ao soberano, assim como eles deixaram a Moisés, a decisão de sustentá-los ou proibi-los, conforme julgar conveniente.
Se o soberano os desaprovar, não se deverá mais obedecer à voz deles.
Se os aprovar, deverão ser obedecidos como homens aos quais Deus concedeu uma parte do espírito de seu soberano.
Pois, quando os cristãos não reconhecem seu soberano cristão como profeta de Deus, devem ou tomar seus próprios sonhos como a profecia pela qual pretendem ser governados, e o inchaço de seus próprios corações como o Espírito de Deus; ou permitir que sejam conduzidos por algum príncipe estrangeiro, ou por algum de seus companheiros de sujeição, capaz de enfeitiçá-los, mediante a difamação do governo, levando-os à rebelião, sem outro milagre para confirmar sua vocação além de algum êxito extraordinário e da impunidade ocasional.
E, desse modo, destruindo todas as leis, tanto divinas quanto humanas, reduzem toda ordem, governo e sociedade ao primeiro caos da violência e da guerra civil.