Capítulo XLVII - Do Benefício Que Procede De Semelhante Escuridão, E A Quem Ele Reverte Leviatã · Capítulo 48 de 49
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Capítulo XLVII - Do Benefício Que Procede De Semelhante Escuridão, E A Quem Ele Reverte

Capítulo XLVII - Do Benefício Que Procede De Semelhante Escuridão, E A Quem Ele Reverte

Presume-se autor de um ato aquele que dele recebe benefício

Cícero faz honrosa menção de um dos Cássios, juiz severo entre os romanos, por um costume que tinha nas causas criminais: quando o testemunho das testemunhas não era suficiente, perguntava aos acusadores: Cui bono? Isto é, que proveito, honra ou outra satisfação o acusado obtivera ou esperava obter com o ato? Pois, entre as presunções, nenhuma revela tão evidentemente o autor quanto o BENEFÍCIO da ação. Pela mesma regra pretendo examinar aqui quem podem ser aqueles que, durante tanto tempo, mantiveram o povo desta parte da cristandade dominado por doutrinas contrárias às sociedades pacíficas dos homens.

Que a Igreja militante é o Reino de Deus foi ensinado primeiro pela Igreja de Roma

Em primeiro lugar, ao erro segundo o qual a Igreja atualmente militante na Terra é o Reino de Deus, isto é, o Reino da Glória ou a Terra Prometida, e não o Reino da Graça, que é apenas uma promessa dessa Terra, estão ligados os seguintes benefícios mundanos.

Primeiro, que os pastores e mestres da Igreja adquirem por isso, como ministros públicos de Deus, o direito de governar a Igreja e, por conseguinte, visto que a Igreja e a república são constituídas pelas mesmas pessoas, o direito de serem dirigentes e governadores da república.

Foi por esse título que o papa conseguiu persuadir os súditos de todos os príncipes cristãos de que desobedecer-lhe era desobedecer ao próprio Cristo e, em todas as divergências entre ele e outros príncipes, enfeitiçados pela expressão poder espiritual, a abandonarem seus soberanos legítimos. Isso constitui, de fato, uma monarquia universal sobre toda a cristandade.

Pois, embora os papas tenham sido inicialmente investidos no direito de serem os mestres supremos da doutrina cristã pelos imperadores cristãos e sob a autoridade deles, dentro dos limites do Império Romano, como eles próprios reconhecem, mediante o título de Pontifex Maximus, que era um cargo subordinado ao Estado civil, depois que o Império foi dividido e dissolvido não foi difícil impor ao povo, já submetido a eles, outro título, a saber, o direito de São Pedro. Com isso, não apenas conservaram intacto seu pretenso poder, mas também o estenderam sobre as mesmas províncias cristãs, embora já não estivessem unidas no Império Romano.

Esse benefício de uma monarquia universal, considerada a aspiração dos homens ao domínio, constitui presunção suficiente de que os papas que o reivindicaram e por muito tempo o desfrutaram foram os autores da doutrina mediante a qual ele foi obtido, isto é, de que a Igreja atualmente existente na Terra é o Reino de Cristo. Pois, admitido isso, deve-se entender que Cristo possui entre nós algum lugar-tenente, por meio do qual nos são comunicados os seus mandamentos.

Depois que certas igrejas renunciaram a esse poder universal do papa, seria razoável esperar que os soberanos civis de todas essas igrejas recuperassem aquela parte dele que, antes de a deixarem escapar imprudentemente, constituía seu próprio direito e se encontrava em suas próprias mãos. E foi isso que efetivamente ocorreu na Inglaterra, com a ressalva de que aqueles por meio dos quais os reis administravam o governo da religião, ao sustentarem que exerciam seu cargo por direito de Deus, pareciam usurpar, se não uma supremacia, ao menos uma independência em relação ao poder civil. Mas apenas pareciam usurpá-la, na medida em que reconheciam no rei o direito de privá-los, conforme sua vontade, do exercício de suas funções.

E também sustentado pelo presbiterianismo

Mas, nos lugares em que o presbiterianismo assumiu esse cargo, embora muitas outras doutrinas da Igreja de Roma fossem proibidas, continuou sendo conservada a doutrina de que o Reino de Cristo já havia chegado e começara com a ressurreição de nosso Salvador.

Mas cui bono? Que proveito esperavam dela?

O mesmo que os papas esperavam: possuir um poder soberano sobre o povo. Pois que significa excomungar o rei legítimo, senão excluí-lo de todos os lugares do culto público de Deus em seu próprio reino e resistir-lhe pela força quando ele, pela força, procura corrigi-los? Ou que significa excomungar qualquer pessoa sem autorização do soberano civil, senão privá-la de sua liberdade legítima, isto é, usurpar um poder ilegítimo sobre seus irmãos?

Os autores dessa escuridão na religião são, portanto, o clero romano e o clero presbiteriano.

Infalibilidade

Incluo também sob este título todas as doutrinas que lhes servem para conservar a posse dessa soberania espiritual depois de adquirida.

A primeira delas é que o papa, em sua qualidade pública, não pode errar. Pois quem, acreditando ser isso verdadeiro, não o obedecerá prontamente em tudo quanto ele ordenar?

Subordinação dos bispos

Em segundo lugar, a doutrina de que todos os demais bispos, seja qual for a república em que se encontrem, não recebem seu direito nem imediatamente de Deus nem mediatamente de seus soberanos civis, mas do papa.

Por essa doutrina, passa a haver em toda república cristã muitos homens poderosos, pois assim são os bispos, cuja dependência está no papa e que lhe devem obediência, embora ele seja um príncipe estrangeiro. Por esse meio, ele pode, como muitas vezes fez, provocar uma guerra civil contra o Estado que não se submeta a ser governado de acordo com sua vontade e seu interesse.

Isenções do clero

Em terceiro lugar, a isenção dos bispos, de todos os outros sacerdotes, bem como dos monges e frades, em relação ao poder das leis civis.

Por esse meio, uma grande parte de cada república desfruta do benefício das leis e é protegida pelo poder do Estado civil, mas não paga parte alguma das despesas públicas, nem está sujeita, como os outros súditos, às penas correspondentes aos seus crimes. Consequentemente, não teme homem algum além do papa e adere somente a ele, para sustentar sua monarquia universal.

Os nomes de sacerdotes e sacrifícios

Em quarto lugar, a atribuição aos seus padres, que no Novo Testamento nada mais são que presbíteros, isto é, anciãos, do nome de sacerdotes, ou seja, sacrificadores, título que, entre os judeus, enquanto Deus era seu rei, pertencia ao soberano civil e aos seus ministros públicos.

Além disso, transformar a Ceia do Senhor em sacrifício serve para fazer o povo acreditar que o papa possui sobre todos os cristãos o mesmo poder que Moisés e Aarão possuíam sobre os judeus, isto é, todo o poder, tanto civil quanto eclesiástico, como então possuía o sumo sacerdote.

A sacramentalização do matrimônio

Em quinto lugar, ensinar que o matrimônio é um sacramento concede ao clero o julgamento sobre a legitimidade dos casamentos e, por meio disso, sobre quais filhos são legítimos e, consequentemente, sobre o direito de sucessão aos reinos hereditários.

O celibato dos sacerdotes

Em sexto lugar, a proibição do casamento aos sacerdotes serve para assegurar esse poder do papa sobre os reis.

Pois, se um rei for sacerdote, não poderá casar-se nem transmitir seu reino à posteridade. Se não for sacerdote, o papa reivindicará sobre ele e sobre seu povo essa autoridade eclesiástica.

Confissão auricular

Em sétimo lugar, mediante a confissão auricular, obtêm, para a segurança de seu poder, informações melhores sobre os desígnios dos príncipes e das grandes personagens do Estado civil do que estes podem obter sobre os desígnios do Estado eclesiástico.

Canonização dos santos e declaração dos mártires

Em oitavo lugar, pela canonização dos santos e pela declaração de quem são os mártires, asseguram seu poder, pois induzem homens simples a uma obstinação contra as leis e os mandamentos de seus soberanos civis, mesmo até a morte, caso sejam declarados hereges ou inimigos da Igreja pela excomunhão do papa, isto é, conforme a interpretação deles, inimigos do papa.

Transubstanciação, penitência e absolvição

Em nono lugar, asseguram o mesmo poder mediante a faculdade que atribuem a todo sacerdote de fazer Cristo, bem como pela faculdade de impor penitência e de perdoar ou reter os pecados.

Purgatório, indulgências e obras exteriores

Em décimo lugar, pelas doutrinas do purgatório, da justificação pelas obras exteriores e das indulgências, o clero se enriquece.

Demonologia e exorcismo

Em décimo primeiro lugar, mediante sua demonologia, o uso do exorcismo e outras coisas que lhe dizem respeito, conservam, ou acreditam conservar, o povo mais intimidado por seu poder.

Teologia escolástica

Por fim, a metafísica, a ética e a política de Aristóteles, as distinções frívolas, os termos bárbaros e a linguagem obscura dos escolásticos, ensinados nas universidades, todas elas erigidas e reguladas pela autoridade dos papas, servem para impedir que esses erros sejam descobertos e para fazer os homens confundirem o fogo-fátuo de uma filosofia vã com a luz do Evangelho.

Quem são os autores da escuridão espiritual

A essas doutrinas, se não fossem suficientes, poderiam ser acrescentadas outras de suas doutrinas obscuras, cujo proveito reverte manifestamente para a instituição de um poder ilegítimo sobre os soberanos legítimos dos povos cristãos, para a sustentação desse poder depois de instituído, ou para as riquezas, honras e autoridade mundanas daqueles que o sustentam.

Por isso, conforme a regra anteriormente exposta do cui bono, podemos justamente declarar autores de toda essa escuridão espiritual o papa, o clero romano e todos aqueles que procuram estabelecer no espírito dos homens a doutrina errônea segundo a qual a Igreja atualmente existente na Terra é aquele Reino de Deus mencionado no Antigo e no Novo Testamento.

Mas os imperadores e outros soberanos cristãos sob cujo governo esses erros e outras usurpações semelhantes dos eclesiásticos sobre seu ofício começaram a introduzir-se, perturbando suas possessões e a tranquilidade de seus súditos, embora os tenham tolerado por falta de previsão das consequências e por não perceberem os desígnios de seus mestres, podem, não obstante, ser considerados cúmplices do prejuízo causado a si mesmos e ao público. Pois, sem sua autoridade, nenhuma doutrina sediciosa poderia ter sido publicamente pregada no princípio.

Digo que poderiam tê-la impedido no começo. Mas, depois que o povo foi dominado por esses homens espirituais, já não havia remédio humano que alguém pudesse inventar. Quanto aos remédios que Deus haveria de prover, ele que jamais deixa de destruir, no momento oportuno, todas as maquinações dos homens contra a verdade, devemos aguardar sua vontade. Muitas vezes, ele permite que a prosperidade de seus inimigos, juntamente com a ambição deles, cresça a tal altura que sua própria violência abre os olhos que a prudência de seus predecessores havia antes selado. Assim, por quererem agarrar demais, os homens deixam escapar tudo, como se rompeu a rede de Pedro pela agitação de uma multidão excessiva de peixes. Ao passo que a impaciência daqueles que tentam resistir a semelhantes usurpações antes que os olhos de seus súditos estejam abertos apenas aumenta o poder a que resistem.

Não censuro, portanto, o imperador Frederico por ter segurado o estribo para nosso compatriota, o papa Adriano. Tal era então a disposição de seus súditos que, se não o tivesse feito, provavelmente não teria sucedido no Império. Censuro, porém, aqueles que, no princípio, quando seu poder ainda estava inteiro, permitiram que semelhantes doutrinas fossem forjadas nas universidades de seus próprios domínios e, desse modo, seguraram o estribo para todos os papas posteriores, enquanto estes montavam nos tronos de todos os soberanos cristãos, para cavalgá-los e fatigá-los, juntamente com seus povos, conforme sua vontade.

Mas, assim como as invenções dos homens são tecidas, também são desfeitas. O caminho é o mesmo, mas a ordem é inversa.

A trama começa pelos primeiros elementos do poder, que são a sabedoria, a humildade, a sinceridade e outras virtudes dos apóstolos, aos quais os povos por eles convertidos obedeciam por reverência, e não por obrigação. Suas consciências eram livres, e suas palavras e ações não estavam sujeitas a ninguém além do poder civil.

Posteriormente, à medida que os rebanhos de Cristo cresceram, os presbíteros passaram a reunir-se para decidir o que deveriam ensinar e, obrigando-se assim a não ensinar coisa alguma contrária aos decretos de suas assembleias, fizeram pensar que o povo também estava obrigado a seguir sua doutrina. Quando alguns se recusavam a fazê-lo, eles se recusavam a lhes fazer companhia, prática que então se chamava excomunhão, não por considerá-los infiéis, mas desobedientes.

Esse foi o primeiro nó apertado sobre sua liberdade.

Com o aumento do número de presbíteros, os presbíteros da principal cidade ou província adquiriram autoridade sobre os presbíteros paroquiais e reservaram para si o nome de bispos.

Esse foi o segundo nó apertado sobre a liberdade cristã.

Por fim, o bispo de Roma, em consideração à cidade imperial, arrogou-se uma autoridade sobre todos os outros bispos do Império, em parte pela vontade dos próprios imperadores e pelo título de Pontifex Maximus e, finalmente, quando os imperadores se tornaram fracos, pelos privilégios de São Pedro.

Esse foi o terceiro e último nó, e constituiu toda a síntese e construção do poder pontifício.

Portanto, a análise ou resolução segue pelo mesmo caminho, mas começa pelo nó que foi amarrado por último, como se pode ver na dissolução, na Inglaterra, do governo eclesiástico situado acima do poder político.

Primeiro, o poder dos papas foi inteiramente dissolvido pela rainha Isabel, e os bispos, que antes exerciam suas funções pelo direito do papa, passaram a exercê-las pelo direito da rainha e de seus sucessores. Contudo, por conservarem a expressão jure divino, julgava-se que reivindicavam esse poder por direito imediato de Deus.

Assim foi desatado o primeiro nó.

Depois disso, os presbiterianos conseguiram recentemente, na Inglaterra, a abolição do episcopado.

Assim foi dissolvido o segundo nó.

Quase ao mesmo tempo, o poder foi retirado também dos presbiterianos.

Assim fomos reconduzidos à independência dos cristãos primitivos, para que cada homem siga Paulo, Cefas ou Apolo, conforme melhor lhe parecer. Isso, caso ocorra sem contenda e sem que a doutrina de Cristo seja medida por nossa afeição à pessoa de seu ministro, falta que o apóstolo censurou nos coríntios, talvez seja o melhor.

Primeiro, porque não deve existir poder algum sobre as consciências dos homens além daquele da própria Palavra, que produz a fé em cada um, nem sempre conforme o propósito daqueles que plantam e regam, mas segundo o próprio Deus, que dá o crescimento.

Em segundo lugar, porque não é razoável que aqueles que ensinam haver tão grande perigo em cada pequeno erro exijam de um homem dotado de razão própria que siga a razão de outro homem, ou a razão da maioria de muitos outros homens. Isso é pouco melhor que arriscar sua salvação num jogo de cara ou coroa.

Tampouco devem esses mestres desagradar-se com a perda de sua antiga autoridade. Ninguém deveria saber melhor do que eles que o poder se conserva pelas mesmas virtudes mediante as quais foi adquirido, isto é, pela sabedoria, humildade, clareza da doutrina e sinceridade da conduta. Não se conserva pela supressão das ciências naturais e da moralidade fundada na razão natural, nem pela linguagem obscura, nem pela atribuição a si mesmos de mais conhecimento do que conseguem demonstrar, nem por fraudes piedosas, nem por outros defeitos semelhantes, que, nos pastores da Igreja de Deus, não são apenas faltas, mas também escândalos capazes de fazer os homens, mais cedo ou mais tarde, tropeçarem na destruição da autoridade deles.

Comparação do papado com o reino das fadas

Mas, depois que a doutrina de que a Igreja atualmente militante é o Reino de Deus mencionado no Antigo e no Novo Testamento foi recebida no mundo, a ambição e as disputas pelos cargos que lhe pertenciam, sobretudo pelo grande cargo de lugar-tenente de Cristo, bem como a pompa daqueles que obtinham os principais encargos públicos desse reino, tornaram-se gradualmente tão evidentes que eles perderam a reverência interior devida à função pastoral. Tanto assim que os homens mais sábios dentre aqueles que possuíam algum poder no Estado civil não necessitavam de coisa alguma além da autoridade de seus príncipes para negar-lhes qualquer obediência futura.

Pois, desde o tempo em que o bispo de Roma conseguiu ser reconhecido como bispo universal, sob o pretexto da sucessão de São Pedro, toda a sua hierarquia, ou Reino das Trevas, pode ser comparada, de modo bastante apropriado, ao reino das fadas, isto é, às histórias de velhas contadas na Inglaterra sobre fantasmas, espíritos e as façanhas que realizam durante a noite.

E, se alguém considerar a origem desse grande domínio eclesiástico, perceberá facilmente que o papado nada mais é que o fantasma do falecido Império Romano, sentado e coroado sobre o túmulo dele. Pois foi assim que o papado surgiu repentinamente das ruínas daquele poder pagão.

A língua que empregam, tanto nas igrejas quanto em seus atos públicos, é o latim, que hoje não é de uso comum em nenhuma nação do mundo. Que é isso, senão o fantasma da antiga língua romana?

As fadas, seja qual for a nação em que habitem, possuem apenas um rei universal, a quem alguns de nossos poetas chamam rei Oberon, mas a Escritura chama Belzebu, príncipe dos demônios. Do mesmo modo, os eclesiásticos, sejam quais forem os domínios em que se encontrem, reconhecem apenas um rei universal, o papa.

Os eclesiásticos são homens espirituais e pais espirituais. As fadas são espíritos e fantasmas.

As fadas e os fantasmas habitam a escuridão, as solidões e os túmulos. Os eclesiásticos caminham na obscuridade da doutrina, nos mosteiros, nas igrejas e nos cemitérios.

Os eclesiásticos possuem suas igrejas catedrais, que, em qualquer povoado em que sejam erigidas, pela virtude da água benta e de certos encantamentos chamados exorcismos, têm o poder de transformar esses povoados em cidades, isto é, em sedes de domínio. As fadas também possuem seus castelos encantados e certos fantasmas gigantescos que dominam as regiões ao redor.

As fadas não podem ser capturadas e conduzidas a responder pelos danos que causam. Assim também os eclesiásticos desaparecem dos tribunais da justiça civil.

Os eclesiásticos retiram dos jovens o uso da razão mediante certos encantamentos compostos de metafísica, milagres, tradições e abusos da Escritura, tornando-os imprestáveis para qualquer coisa além de executar aquilo que lhes ordenam. Diz-se igualmente que as fadas retiram as crianças pequenas de seus berços e as transformam em tolos naturais, aos quais o povo, por isso, chama elfos, criaturas inclinadas a fazer mal.

Em que oficina ou laboratório as fadas produzem seus encantamentos, as velhas histórias não determinaram. Mas sabe-se muito bem que os laboratórios do clero são as universidades, que receberam sua disciplina da autoridade pontifícia.

Quando as fadas estão descontentes com alguém, diz-se que enviam seus elfos para beliscá-lo. Os eclesiásticos, quando estão descontentes com algum Estado civil, fazem também seus elfos, isto é, súditos supersticiosos e enfeitiçados, beliscarem seus príncipes pela pregação da sedição, ou fazem um príncipe encantado por promessas beliscar outro.

As fadas não se casam, mas há entre elas íncubos que mantêm relações com seres de carne e sangue. Os sacerdotes também não se casam.

Os eclesiásticos retiram a nata da terra por meio das doações de homens ignorantes que os temem e por meio dos dízimos. Do mesmo modo, nas histórias de fadas, elas entram nos laticínios e banqueteiam-se com a nata que retiram do leite.

Não está registrado nas histórias que espécie de dinheiro circula no reino das fadas. Mas os eclesiásticos, quando recebem, aceitam o mesmo dinheiro que nós. Quando devem fazer algum pagamento, porém, pagam em canonizações, indulgências e missas.

A essas e outras semelhanças entre o papado e o reino das fadas pode-se acrescentar que, assim como as fadas não existem senão na imaginação do povo ignorante, nascida das tradições de velhas ou de antigos poetas, também o poder espiritual do papa, fora dos limites de seu próprio domínio civil, consiste somente no medo que o povo seduzido sente da excomunhão, depois de ouvir falsos milagres, falsas tradições e falsas interpretações da Escritura.

Por isso, não foi tarefa muito difícil para Henrique VIII, mediante seu exorcismo, nem para a rainha Isabel, mediante o dela, expulsá-los.

Mas quem sabe se esse espírito de Roma, agora expulso e caminhando por meio de missões nos lugares áridos da China, do Japão e das Índias, onde produz pouco fruto, não poderá retornar? Ou, antes, quem sabe se uma reunião de espíritos piores que ele não poderá entrar e habitar esta casa limpa e varrida, tornando seu fim pior que seu começo?

Pois não é apenas o clero romano que pretende que o Reino de Deus seja deste mundo e, por isso, reivindica nele um poder distinto daquele do Estado civil.

E isso é tudo quanto planejei dizer acerca da doutrina da POLÍTICA. Depois de revisá-la, submetê-la-ei de bom grado ao julgamento de meu país.

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