Capítulo II - Da Imaginação Leviatã · Capítulo 3 de 49
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Capítulo II - Da Imaginação

Capítulo II - Da Imaginação

Que uma coisa, quando permanece imóvel, continuará imóvel para sempre, a menos que outra coisa a mova, é uma verdade de que ninguém duvida. Mas que, quando uma coisa está em movimento, continuará eternamente em movimento, a menos que outra coisa a detenha, embora a razão seja a mesma, a saber, que nada pode modificar a si próprio, não recebe assentimento com a mesma facilidade.

Pois os homens medem não apenas os outros homens, mas também todas as demais coisas, por si mesmos. E, porque percebem que, após o movimento, ficam sujeitos à dor e ao cansaço, imaginam que tudo o mais também se fatiga do movimento e procura repouso por vontade própria, pouco considerando se o desejo de repouso que encontram em si mesmos não consiste em algum outro movimento.

Daí vem que as escolas afirmem que os corpos pesados caem para baixo por um apetite de repouso e para conservar sua natureza no lugar que lhes é mais apropriado, atribuindo absurdamente às coisas inanimadas apetite e conhecimento daquilo que convém à sua conservação, conhecimento maior do que o possuído pelo homem.

Quando um corpo é posto em movimento, move-se eternamente, a menos que alguma outra coisa o impeça. E tudo quanto o impede não pode extinguir inteiramente seu movimento num instante, mas apenas com o tempo e por graus. Assim como vemos na água que, embora cesse o vento, as ondas não deixam de rolar por muito tempo, o mesmo acontece com o movimento produzido nas partes internas do homem quando ele vê, sonha e assim por diante.

Pois, depois de removido o objeto ou fechados os olhos, ainda conservamos uma imagem da coisa vista, embora mais obscura do que quando a vemos. É isso que os latinos chamam imaginação, por causa da imagem formada na visão, aplicando o mesmo nome, embora impropriamente, a todos os demais sentidos. Os gregos, porém, chamam-lhe fantasia, palavra que significa aparência e que se aplica tão propriamente a um sentido quanto a outro. Portanto, a imaginação nada mais é que sensação em declínio, e encontra-se nos homens e em muitos outros seres vivos, tanto durante o sono quanto durante a vigília.

Memória

O declínio da sensação nos homens acordados não é o declínio do movimento produzido na sensação, mas seu obscurecimento, do mesmo modo que a luz do Sol obscurece a luz das estrelas, embora as estrelas exerçam durante o dia, não menos que durante a noite, a virtude pela qual são visíveis.

Mas, entre os muitos golpes que nossos olhos, ouvidos e outros órgãos recebem dos corpos exteriores, somente o predominante é percebido. Por isso, sendo predominante a luz do Sol, não somos afetados pela ação das estrelas. E, quando um objeto é afastado de nossos olhos, embora permaneça em nós a impressão que ele produziu, outros objetos mais presentes, sucedendo-lhe e atuando sobre nós, obscurecem e enfraquecem a imaginação do passado, assim como a voz de um homem se enfraquece no ruído do dia.

Daí se segue que, quanto maior for o tempo transcorrido desde a visão ou a sensação de qualquer objeto, mais fraca será a imaginação. Pois a contínua mudança do corpo humano destrói, com o tempo, as partes que foram movidas na sensação. Assim, a distância no tempo e a distância no espaço produzem em nós o mesmo efeito.

Da mesma forma que, à distância, aquilo para que olhamos aparece indistinto e sem diferenciação de suas menores partes, e as vozes se tornam fracas e inarticuladas, também, depois de grande distância no tempo, nossa imaginação do passado se enfraquece. Perdemos, por exemplo, das cidades que vimos, muitas ruas particulares, e, das ações, muitas circunstâncias particulares.

Quando queremos exprimir a própria coisa que declina, isto é, a própria fantasia, chamamo-la imaginação, como disse antes. Mas, quando queremos exprimir o declínio e indicar que a sensação está desvanecendo, envelhecida e passada, chamamo-la memória. Assim, imaginação e memória são uma única coisa, que recebe nomes diversos segundo as diversas considerações.

Muita memória, ou memória de muitas coisas, chama-se experiência.

Além disso, como a imaginação é apenas das coisas que anteriormente foram percebidas pelos sentidos, seja todas de uma vez, seja por partes em momentos diferentes, a primeira, que consiste em imaginar o objeto inteiro tal como foi apresentado aos sentidos, é imaginação simples, como quando alguém imagina um homem ou um cavalo que viu antes.

A outra é composta, como quando, tendo visto um homem num momento e um cavalo em outro, concebemos em nossa mente um centauro. Do mesmo modo, quando um homem combina a imagem de sua própria pessoa com a imagem das ações de outro homem, como quando imagina ser um Hércules ou um Alexandre, o que frequentemente acontece aos que se deixam arrebatar pela leitura de romances, trata-se de uma imaginação composta e, propriamente, apenas de uma ficção da mente.

Há também outras imaginações que surgem nos homens, embora acordados, em consequência de uma forte impressão produzida nos sentidos. Assim, depois de contemplarmos o Sol, a impressão deixa diante de nossos olhos uma imagem solar durante longo tempo. E, depois de atentarmos longa e intensamente para figuras geométricas, podemos, no escuro, embora acordados, ter diante dos olhos imagens de linhas e ângulos. Esse gênero de fantasia não possui nome particular, por não ser coisa que costume entrar no discurso dos homens.

Sonhos

As imaginações daqueles que dormem são o que chamamos sonhos. E estas também, como todas as demais imaginações, estiveram antes nos sentidos, seja inteiramente, seja por partes.

E porque, durante o sono, o cérebro e os nervos, que são os órgãos necessários da sensação, ficam tão entorpecidos que não se deixam mover facilmente pela ação dos objetos exteriores, não pode surgir no sono imaginação alguma, e, portanto, sonho algum, que não proceda da agitação das partes internas do corpo humano.

Essas partes internas, devido à conexão que possuem com o cérebro e com os outros órgãos, quando se encontram perturbadas, mantêm-nos em movimento. Com isso, as imaginações anteriormente formadas ali aparecem como se o homem estivesse acordado. A diferença é que, estando agora entorpecidos os órgãos dos sentidos, não há objeto novo que possa dominar e obscurecer tais imaginações com uma impressão mais vigorosa. Por isso, no silêncio dos sentidos, o sonho deve necessariamente ser mais claro que nossos pensamentos em vigília.

Daí resulta ser difícil, e por muitos considerado impossível, distinguir com exatidão entre sensação e sonho. Quanto a mim, quando considero que, nos sonhos, não penso com frequência nem de modo constante nas mesmas pessoas, lugares, objetos e ações em que penso acordado; que, sonhando, não conservo uma sequência tão longa de pensamentos coerentes quanto em outros momentos; e que, quando acordado, observo frequentemente os absurdos dos sonhos, mas jamais sonho com os absurdos de meus pensamentos em vigília, fico plenamente satisfeito de que, estando acordado, sei que não sonho, embora, quando sonho, pense estar acordado.

E, visto que os sonhos são causados pela perturbação de alguma das partes internas do corpo, perturbações diversas devem necessariamente causar sonhos diferentes.

Daí vem que dormir com frio produza sonhos de medo e suscite o pensamento e a imagem de algum objeto temível, pois o movimento do cérebro para as partes internas e das partes internas para o cérebro é recíproco. E assim como a ira causa calor em certas partes do corpo quando estamos acordados, o aquecimento excessivo dessas mesmas partes, enquanto dormimos, causa ira e suscita no cérebro a imaginação de um inimigo.

Do mesmo modo, assim como a bondade natural, quando estamos acordados, causa desejo, e o desejo produz calor em certas outras partes do corpo, também o calor excessivo nessas partes, enquanto dormimos, suscita no cérebro a imaginação de alguma bondade que nos é demonstrada.

Em suma, nossos sonhos são o reverso de nossas imaginações em vigília. Quando estamos acordados, o movimento começa numa extremidade; quando sonhamos, começa na outra.

Aparições ou visões

A maior dificuldade para distinguir o sonho de um homem de seus pensamentos em vigília ocorre quando, por algum acidente, não percebemos que dormimos. Isso pode facilmente acontecer a um homem cheio de pensamentos temerosos, cuja consciência esteja muito perturbada e que adormeça sem as circunstâncias habituais de deitar-se ou despir-se, como alguém que cochila numa cadeira.

Pois aquele que se esforça e deliberadamente se deita para dormir, caso lhe surja alguma fantasia insólita e extravagante, dificilmente pode considerá-la outra coisa que não um sonho.

Lemos a respeito de Marco Bruto, homem a quem Júlio César poupara a vida e que fora também seu favorito, mas que, não obstante, o assassinou, que, em Filipos, na noite anterior à batalha contra Augusto César, viu uma aparição terrível, comumente relatada pelos historiadores como uma visão. Mas, consideradas as circunstâncias, pode-se facilmente julgar que não passou de um breve sonho.

Sentado em sua tenda, pensativo e atormentado pelo horror de seu ato temerário, não era difícil que, cochilando ao frio, sonhasse com aquilo que mais o amedrontava. E, assim como o medo gradualmente o despertou, também necessariamente fez a aparição desaparecer pouco a pouco. Como ele não tinha certeza de haver dormido, não podia ter motivo para considerar aquilo um sonho, nem coisa diversa de uma visão.

E esse acidente não é muito raro. Mesmo os que estão perfeitamente acordados, caso sejam medrosos e supersticiosos, estejam tomados por histórias aterradoras e se encontrem sozinhos no escuro, estão sujeitos a fantasias semelhantes e acreditam ver espíritos e fantasmas de mortos caminhando nos cemitérios. Contudo, ou se trata apenas de sua fantasia, ou da malandragem daqueles que se aproveitam de semelhante medo supersticioso para passar disfarçados, durante a noite, por lugares que não desejariam ser vistos frequentando.

Dessa ignorância quanto à maneira de distinguir os sonhos e outras fantasias vigorosas da visão e da sensação surgiu a maior parte da religião dos gentios nos tempos antigos, quando adoravam sátiros, faunos, ninfas e seres semelhantes. E daí provém, em nossos dias, a opinião que as pessoas rudes têm acerca de fadas, fantasmas, duendes e do poder das bruxas.

Quanto às bruxas, não penso que sua feitiçaria seja um poder real. Ainda assim, são justamente punidas pela falsa crença de que podem praticar tais malefícios, unida ao propósito de praticá-los, caso possam, pois seu ofício se aproxima mais de uma nova religião que de uma arte ou ciência.

Quanto às fadas e aos fantasmas errantes, penso que a crença neles foi deliberadamente ensinada, ou ao menos não refutada, para conservar o prestígio do uso de exorcismos, cruzes, água benta e outras invenções semelhantes dos homens eclesiásticos.

Não obstante, não há dúvida de que Deus pode produzir aparições contrárias à natureza. Mas que o faça com tanta frequência que os homens precisem temê-las mais do que temem a interrupção ou a mudança do curso da natureza, que Ele também pode interromper e modificar, não é artigo da fé cristã.

Homens perversos, porém, sob o pretexto de que Deus pode fazer qualquer coisa, ousam dizer qualquer coisa quando isso lhes convém, embora a julguem falsa. Cabe ao homem sábio não acreditar neles além da medida em que a reta razão torna crível aquilo que dizem.

Se esse medo supersticioso dos espíritos fosse eliminado, e com ele os prognósticos tirados dos sonhos, as falsas profecias e muitas outras coisas que disso dependem, por meio das quais pessoas astutas e ambiciosas abusam do povo simples, os homens estariam muito mais preparados do que estão para a obediência civil.

E essa deveria ser a tarefa das escolas. Elas, porém, antes alimentam semelhantes doutrinas. Pois, não sabendo o que são a imaginação ou os sentidos, ensinam aquilo que recebem. Alguns dizem que as imaginações surgem por si mesmas e não possuem causa. Outros, que nascem, na maioria das vezes, da vontade; que os bons pensamentos são soprados, isto é, inspirados no homem por Deus, e os maus pensamentos, pelo Diabo; ou que os bons pensamentos são derramados, isto é, infundidos no homem por Deus, e os maus, pelo Diabo.

Alguns dizem que os sentidos recebem as espécies das coisas e as entregam ao sentido comum; que o sentido comum as entrega à fantasia, a fantasia à memória, e a memória ao juízo, como se passassem coisas de mão em mão, fazendo com muitas palavras que nada seja entendido.

Entendimento

A imaginação suscitada no homem, ou em qualquer outra criatura dotada da faculdade de imaginar, por palavras ou outros sinais voluntários é aquilo a que geralmente chamamos entendimento, e é comum ao homem e aos animais.

Pois um cão, pelo costume, entenderá o chamado ou a repreensão de seu dono, e o mesmo acontece com muitos outros animais.

O entendimento peculiar ao homem consiste em compreender não apenas a vontade de outro, mas também suas concepções e pensamentos, pela sequência e conexão dos nomes das coisas em afirmações, negações e outras formas de discurso. Dessa espécie de entendimento falarei mais adiante.

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