Capítulo XLIV - Das Trevas Espirituais Decorrentes Da Má Interpretação Das Escrituras
Capítulo XLIV - Das Trevas Espirituais Decorrentes Da Má Interpretação Das Escrituras
O que é o Reino das Trevas
Além dos poderes soberanos, divinos e humanos, dos quais até aqui discorri, menciona-se nas Escrituras outro poder, a saber, em Efésios 6,12, o dos “governantes das trevas deste mundo”; em Mateus 12,26, o “Reino de Satanás”; e, em Mateus 9,34, o “principado de Belzebu sobre os demônios”, isto é, sobre fantasmas que aparecem no ar.
Por essa razão, Satanás também é chamado, em Efésios 2,2, “príncipe do poder do ar” e, porque governa nas trevas deste mundo, em João 16,11, “príncipe deste mundo”.
Consequentemente, aqueles que estão sob seu domínio, em oposição aos fiéis, que são os filhos da luz, são chamados filhos das trevas.
Pois, sendo Belzebu o príncipe dos fantasmas, habitantes de seu domínio de ar e trevas, os filhos das trevas e esses demônios, fantasmas ou espíritos de ilusão significam alegoricamente a mesma coisa.
Considerado isso, o Reino das Trevas, tal como é apresentado nessas e em outras passagens das Escrituras, nada mais é que uma confederação de enganadores que, para obter domínio sobre os homens neste mundo presente, procuram, por meio de doutrinas obscuras e errôneas, extinguir neles a luz tanto da natureza quanto do Evangelho e, desse modo, torná-los despreparados para o futuro Reino de Deus.
A Igreja ainda não está inteiramente livre das trevas
Assim como os homens que, desde o nascimento, estão completamente privados da luz dos olhos corporais não possuem ideia alguma dessa luz, e ninguém concebe em sua imaginação uma luz maior que aquela percebida em algum momento por seus sentidos exteriores, assim também ocorre com a luz do Evangelho e a luz do entendimento: nenhum homem pode conceber que exista um grau delas maior que aquele que ele próprio já alcançou.
Daí resulta que os homens não possuem outro meio de reconhecer suas próprias trevas senão raciocinando a partir dos infortúnios imprevistos que encontram em seus caminhos.
A parte mais escura do Reino de Satanás é a que se encontra fora da Igreja de Deus, isto é, entre aqueles que não creem em Jesus Cristo. Mas não podemos dizer que, por isso, a Igreja desfrute, como a terra de Gósen, de toda a luz necessária ao cumprimento da obra que Deus nos incumbiu de realizar.
De onde provém que, na cristandade, quase desde o tempo dos apóstolos, tenha havido tamanha disputa para expulsar uns aos outros de seus lugares, tanto por guerras estrangeiras quanto por guerras civis? Tantos tropeços diante de cada pequena aspereza da própria fortuna e de cada pequena elevação da fortuna alheia? E tamanha diversidade de caminhos na corrida para o mesmo alvo, a felicidade, se não é noite entre nós, ou pelo menos neblina?
Ainda estamos, portanto, nas trevas.
Quatro causas das trevas espirituais
O inimigo veio durante a noite de nossa ignorância natural e semeou o joio dos erros espirituais.
Primeiramente, abusando da luz das Escrituras e extinguindo-a, pois erramos por não conhecer as Escrituras.
Em segundo lugar, introduzindo a demonologia dos poetas pagãos, isto é, sua doutrina fabulosa acerca dos demônios, que não passam de ídolos ou fantasmas do cérebro, sem natureza real própria distinta da imaginação humana, como os espectros dos mortos, as fadas e outras matérias de histórias de velhas.
Em terceiro lugar, misturando às Escrituras diversos restos da religião e grande parte da filosofia vã e errônea dos gregos, especialmente a de Aristóteles.
Em quarto lugar, misturando a ambas tradições falsas ou incertas e histórias inventadas ou duvidosas.
Assim, caímos em erro por “dar ouvidos a espíritos sedutores” e à demonologia daqueles “que falam mentiras com hipocrisia”, ou, como consta no original de 1 Timóteo 4,1-2, “daqueles que representam o papel de mentirosos”, “tendo a consciência cauterizada”, isto é, agindo contra o próprio conhecimento.
A respeito da primeira dessas causas, que consiste em seduzir os homens pelo abuso das Escrituras, pretendo falar brevemente neste capítulo.
Erros decorrentes da má interpretação das Escrituras acerca do Reino de Deus
O maior e principal abuso das Escrituras, do qual quase todos os demais são consequência ou instrumento, consiste em torcê-las para provar que o Reino de Deus, tantas vezes mencionado nas Escrituras, é a Igreja presente, isto é, a multidão dos cristãos que agora vivem ou que, tendo morrido, ressuscitarão no último dia.
Entretanto, o Reino de Deus foi primeiramente instituído, por intermédio do ministério de Moisés, apenas sobre os judeus, que por isso eram chamados seu povo peculiar. Esse Reino cessou depois, na eleição de Saul, quando eles se recusaram a continuar sendo governados por Deus e exigiram um rei à maneira das outras nações, pedido ao qual o próprio Deus consentiu, como demonstrei mais amplamente no capítulo XXXV.
Depois desse tempo, não houve no mundo outro Reino de Deus, por pacto ou de qualquer outro modo, além daquele em virtude do qual Deus sempre foi, é e será rei de todos os homens e de todas as criaturas, governando segundo sua vontade por seu poder infinito.
Não obstante, ele prometeu por seus profetas restaurar novamente esse governo sobre eles quando chegasse plenamente o tempo que havia estabelecido em seu conselho secreto e quando eles se voltassem para ele por meio do arrependimento e da correção da vida.
E não apenas isso: convidou também os gentios a entrar e desfrutar a felicidade de seu reinado, sob as mesmas condições de conversão e arrependimento. Prometeu ainda enviar seu Filho ao mundo para expiar, por sua morte, os pecados de todos eles e prepará-los, por sua doutrina, para recebê-lo em sua segunda vinda.
Como essa segunda vinda ainda não ocorreu, o Reino de Deus ainda não chegou, e agora não estamos sujeitos, por pacto, a nenhum outro rei além de nossos soberanos civis, exceto no sentido de que os cristãos já se encontram no Reino da Graça, na medida em que já possuem a promessa de serem recebidos quando ele vier novamente.
O erro de considerar que o Reino de Deus é a Igreja presente
Como consequência do erro segundo o qual a Igreja presente é o Reino de Cristo, deve haver algum homem ou alguma assembleia por cuja boca nosso Salvador, que agora está no Céu, fale, dê leis e represente sua pessoa perante todos os cristãos, ou então diversos homens ou diversas assembleias que façam o mesmo perante diferentes partes da cristandade.
Esse poder régio sob Cristo é reivindicado universalmente pelo papa e, nas repúblicas particulares, pelas assembleias dos pastores locais, embora as Escrituras não o atribuam a ninguém senão aos soberanos civis.
Daí resulta uma disputa tão apaixonada que ela extingue a luz da natureza e provoca tão grandes trevas no entendimento dos homens que estes deixam de perceber a quem comprometeram sua obediência.
E o erro de considerar que o papa é seu vigário-geral
Como consequência da pretensão do papa de ser o vigário-geral de Cristo na Igreja presente, suposta como aquele Reino ao qual o Evangelho nos encaminha, surge a doutrina segundo a qual é necessário que um rei cristão receba sua coroa das mãos de um bispo, como se fosse dessa cerimônia que ele derivasse a expressão Dei Gratia em seu título, e como se apenas então se tornasse rei pelo favor de Deus, quando coroado pela autoridade do vice-regente universal de Deus na terra.
Da mesma pretensão decorre que todo bispo, seja quem for seu soberano, preste em sua consagração um juramento de obediência absoluta ao papa.
Consequência da mesma doutrina é a decisão do Quarto Concílio de Latrão, realizado sob o papa Inocêncio III, no capítulo terceiro, De Haereticis:
“Se um rei, depois de admoestado pelo papa, não purgar seu reino das heresias e, sendo por isso excomungado, não der satisfação no prazo de um ano, seus súditos ficam absolvidos do vínculo de obediência.”
Por heresias entendem-se ali todas as opiniões cuja defesa a Igreja de Roma proibiu.
Por esse meio, sempre que existe alguma oposição entre os projetos políticos do papa e os de outros príncipes cristãos, como frequentemente ocorre, levanta-se uma neblina tão espessa entre os súditos destes que eles já não conseguem distinguir o estrangeiro que se introduz no trono de seu príncipe legítimo daquele a quem eles próprios haviam colocado ali.
Nessas trevas da mente, são levados a combater uns contra os outros, sem distinguir inimigos de amigos, sob a condução da ambição de outro homem.
E o erro de considerar que os pastores constituem o clero
Da mesma opinião, segundo a qual a Igreja presente é o Reino de Deus, procede o fato de os pastores, diáconos e todos os outros ministros da Igreja tomarem para si o nome de clero e atribuírem aos demais cristãos o nome de laicato, isto é, simplesmente povo.
Pois clero significa aqueles cuja manutenção provém da renda que Deus, tendo-a reservado para si durante seu reinado sobre os israelitas, destinou à tribo de Levi. Como os levitas deviam ser seus ministros públicos e não receberam, como seus irmãos, porção alguma de terra da qual pudessem viver, essa renda lhes foi atribuída como herança.
Portanto, pretendendo que a Igreja presente seja, tal como o reino de Israel, o Reino de Deus, e reivindicando para si e para seus ministros subordinados uma renda semelhante como herança de Deus, o papa adotou um nome de clero adequado a essa pretensão.
Daí resulta que os dízimos e outros tributos pagos aos levitas como direito de Deus entre os israelitas tenham sido durante muito tempo exigidos e recebidos dos cristãos pelos eclesiásticos jure divino, isto é, em nome do direito de Deus.
Por esse meio, o povo em toda parte foi obrigado a pagar um tributo duplo, um ao Estado e outro ao clero. E o tributo pago ao clero, sendo a décima parte da renda, equivalia ao dobro do que um rei de Atenas, considerado tirano, exigia de seus súditos para custear todos os encargos públicos, pois ele não reclamava mais que a vigésima parte e, ainda assim, mantinha abundantemente com ela a república.
E, no Reino dos Judeus, durante o reinado sacerdotal de Deus, os dízimos e as ofertas constituíam toda a receita pública.
Da mesma confusão entre a Igreja presente e o Reino de Deus nasceu a distinção entre leis civis e leis canônicas.
A lei civil consiste nos atos dos soberanos em seus próprios domínios, enquanto a lei canônica consiste nos atos do papa dentro desses mesmos domínios.
Esses cânones, embora inicialmente fossem apenas cânones, isto é, regras propostas e voluntariamente recebidas pelos príncipes cristãos até a transferência do Império para Carlos Magno, tornaram-se depois, à medida que aumentava o poder do papa, regras impostas. E os próprios imperadores, para evitar males maiores aos quais o povo cegado poderia ser conduzido, foram obrigados a permitir que passassem por leis.
Daí resulta que, em todos os domínios onde o poder eclesiástico do papa é plenamente recebido, judeus, turcos e gentios sejam tolerados pela Igreja Romana em sua religião, desde que, no exercício e profissão dela, não ofendam o poder civil, ao passo que, para um cristão, ainda que estrangeiro, não pertencer à religião romana é crime capital, porque o papa pretende que todos os cristãos sejam seus súditos.
De outro modo, seria tão contrário à lei das nações perseguir um estrangeiro cristão por professar a religião de seu próprio país quanto perseguir um infiel, ou até mais contrário, visto que aqueles que não são contra Cristo estão com ele.
Da mesma pretensão resulta que, em todo Estado cristão, haja certos homens isentos, por liberdade eclesiástica, dos tributos e dos tribunais do Estado civil.
Assim ocorre com o clero secular, além dos monges e frades, que em muitos lugares representam proporção tão grande do povo comum que, se necessário, apenas dentre eles poderia ser formado um exército suficiente para qualquer guerra em que a Igreja militante quisesse empregá-los contra seus próprios príncipes ou contra outros.
Erro decorrente de confundir consagração com conjuração
Um segundo abuso geral das Escrituras consiste em transformar a consagração em conjuração ou encantamento.
Consagrar, nas Escrituras, é oferecer, dar ou dedicar a Deus, com linguagem e gestos piedosos e decorosos, um homem ou qualquer outra coisa, separando-o do uso comum, isto é, santificá-lo ou torná-lo pertencente a Deus e destinado ao uso exclusivo daqueles que Deus designou como seus ministros públicos, como já demonstrei amplamente no capítulo XXXV.
Desse modo, não se altera a coisa consagrada, mas apenas seu uso, que deixa de ser profano e comum para tornar-se santo e peculiar ao serviço de Deus.
Mas, quando por meio dessas palavras se pretende alterar a natureza ou a qualidade da própria coisa, isso não é consagração, mas uma obra extraordinária de Deus ou uma conjuração vã e ímpia.
E, como a pretensão de mudar a natureza nas consagrações é tão frequente que não pode ser considerada obra extraordinária, ela nada mais é que conjuração ou encantamento, pelo qual se deseja levar os homens a crer numa alteração da natureza que não ocorreu, contrariando o testemunho da visão humana e de todos os demais sentidos.
Assim acontece, por exemplo, quando o sacerdote, em vez de consagrar o pão e o vinho ao serviço peculiar de Deus no sacramento da Ceia do Senhor, o que consiste apenas em separá-los do uso comum para significar, isto é, para recordar aos homens sua redenção pela Paixão de Cristo, cujo corpo foi partido e cujo sangue foi derramado na cruz por nossas transgressões, pretende que, ao pronunciar as palavras de nosso Salvador, “Isto é meu corpo” e “Isto é meu sangue”, a natureza do pão já não permaneça ali, mas seja substituída pelo próprio corpo de Cristo, embora nada apareça à visão ou a qualquer outro sentido de quem o recebe que já não aparecesse antes da consagração.
Dos conjuradores egípcios que, segundo se diz, transformaram suas varas em serpentes e a água em sangue, considera-se que apenas iludiram os sentidos dos espectadores mediante uma falsa aparência das coisas, e ainda assim são tidos por encantadores.
Mas o que pensaríamos deles se nada semelhante a uma serpente tivesse aparecido em suas varas, nem coisa alguma semelhante a sangue na água encantada, nem qualquer outra coisa senão água, e eles, ainda assim, tivessem sustentado diante do rei que eram serpentes com aparência de varas e sangue com aparência de água?
Isso teria sido ao mesmo tempo encantamento e mentira.
Contudo, nesse ato cotidiano do sacerdote, faz-se exatamente o mesmo, convertendo-se as palavras sagradas numa fórmula de encantamento que nada produz aos sentidos. Ainda assim, asseguram-nos que ela transformou o pão num homem, e mais ainda, num Deus, e exigem que os homens o adorem como se ali estivesse presente nosso próprio Salvador, Deus e homem, levando-os assim a cometer a mais grosseira idolatria.
Pois, se basta para desculpar essa idolatria dizer que já não é pão, mas Deus, por que a mesma desculpa não serviria aos egípcios, caso tivessem a audácia de afirmar que os alhos-porós e as cebolas que adoravam não eram verdadeiramente alhos-porós e cebolas, mas uma divindade sob suas espécies ou aparências?
As palavras “Isto é meu corpo” equivalem a estas: “Isto significa ou representa meu corpo”, e essa é uma figura de linguagem comum. Tomá-las literalmente é um abuso.
E, ainda que fossem tomadas literalmente, não poderiam estender-se além do pão que o próprio Cristo consagrou com suas próprias mãos. Pois ele jamais disse que qualquer pão, do qual qualquer sacerdote dissesse “Isto é meu corpo” ou “Isto é o corpo de Cristo”, seria imediatamente transubstanciado.
Nem a Igreja de Roma estabeleceu essa transubstanciação antes do tempo de Inocêncio III, não mais que quinhentos anos atrás, quando o poder dos papas se encontrava em seu auge e as trevas da época haviam crescido tanto que os homens já não distinguiam o pão que lhes era dado para comer, especialmente quando nele se imprimia a figura de Cristo na cruz, como se quisessem fazê-los crer que ele fora transubstanciado não apenas no corpo de Cristo, mas também na madeira de sua cruz, e que ambos eram comidos juntamente no sacramento.
Encantamento nas cerimônias do batismo
Encantamento semelhante, em lugar de consagração, é empregado também no sacramento do batismo.
Nele, o abuso do nome de Deus em cada pessoa separadamente e em toda a Trindade, acompanhado do sinal da cruz a cada nome, compõe a fórmula encantatória.
Primeiramente, ao preparar a água benta, o sacerdote diz:
“Eu te conjuro, criatura da água, em nome de Deus Pai todo-poderoso, em nome de Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, e pela virtude do Espírito Santo, para que te tornes água conjurada, destinada a expulsar todos os poderes do inimigo e a erradicar e subjugar o inimigo etc.”
O mesmo ocorre na bênção do sal que será misturado à água:
“Para que te tornes sal conjurado, a fim de que todos os fantasmas e toda a astúcia da fraude do Diabo fujam e se afastem do lugar em que fores aspergido, e todo espírito impuro seja conjurado por aquele que virá julgar os vivos e os mortos.”
O mesmo se dá na bênção do óleo:
“Para que todo o poder do inimigo, todo o exército do Diabo, todos os ataques e fantasmas de Satanás sejam expulsos por esta criatura do óleo.”
Quanto à criança que será batizada, ela é submetida a muitos encantamentos.
Primeiramente, à porta da igreja, o sacerdote sopra três vezes em seu rosto e diz:
“Sai dela, espírito impuro, e dá lugar ao Espírito Santo, o Consolador.”
Como se todas as crianças, até que o sacerdote soprasse sobre elas, estivessem possuídas por demônios.
Depois, antes de sua entrada na igreja, ele diz, como antes:
“Eu te conjuro etc. a sair e afastar-te deste servo de Deus.”
E novamente o mesmo exorcismo é repetido mais uma vez antes que ela seja batizada.
Essas e algumas outras fórmulas de encantamento e consagração são empregadas na administração dos sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor, nos quais tudo o que serve àqueles homens santos, exceto a saliva não santificada do sacerdote, possui alguma fórmula determinada de exorcismo.
No matrimônio, na visitação dos enfermos e na consagração de lugares
Tampouco os demais ritos, como os do matrimônio, da extrema-unção, da visitação dos enfermos, da consagração de igrejas e cemitérios e outros semelhantes, estão isentos de encantamentos, visto que neles se empregam óleo e água encantados, juntamente com o abuso da cruz e das palavras sagradas de Davi, Asperges me, Domine, hyssopo, como se fossem coisas dotadas de eficácia para expulsar fantasmas e espíritos imaginários.
Erros decorrentes da má interpretação de vida eterna, morte perpétua e segunda morte
Outro erro geral procede da má interpretação das expressões vida eterna, morte perpétua e segunda morte.
Embora leiamos claramente nas Sagradas Escrituras que Deus criou Adão numa condição em que poderia viver para sempre, sob a condição de não desobedecer a seu mandamento, e que essa condição não era essencial à natureza humana, mas decorria da virtude da árvore da vida, da qual ele tinha liberdade para comer enquanto não pecasse; embora leiamos também que, depois de pecar, ele foi expulso do Paraíso para que não comesse dessa árvore e vivesse eternamente; e que a Paixão de Cristo constitui remissão do pecado para todos os que creem nele e, consequentemente, restituição da vida eterna a todos os fiéis, e somente a eles, ainda assim, a doutrina atual, e há muito tempo ensinada, é muito diferente.
Segundo ela, todo homem possui por natureza eternidade de vida, na medida em que sua alma é imortal.
Assim, a espada flamejante à entrada do Paraíso, embora impeça o homem de chegar à árvore da vida, não o impede de possuir a imortalidade que Deus lhe retirou por causa de seu pecado, nem o torna necessitado do sacrifício de Cristo para recuperá-la.
Consequentemente, não apenas os fiéis e justos, mas também os perversos e os pagãos desfrutarão vida eterna sem morte alguma, muito menos uma segunda e perpétua morte.
Para remediar essa dificuldade, diz-se que por segunda e perpétua morte se entende uma segunda e perpétua vida, mas em tormentos, figura de linguagem jamais empregada senão neste caso particular.
Toda essa doutrina está fundamentada apenas em algumas das passagens mais obscuras do Novo Testamento, as quais, contudo, quando se considera o propósito inteiro das Escrituras, tornam-se bastante claras num sentido diferente e mostram-se desnecessárias à fé cristã.
Pois, supondo que, quando um homem morre, nada reste dele além de seu cadáver, não poderia Deus, que por sua palavra elevou o pó e a argila inanimados à condição de criatura viva, ressuscitar com a mesma facilidade um cadáver e fazê-lo viver novamente, conservá-lo vivo para sempre ou fazê-lo morrer outra vez por outra palavra?
Nas Escrituras, alma significa sempre ou a vida ou a criatura viva; e corpo e alma conjuntamente significam o corpo vivo.
No quinto dia da criação, Deus disse: “Produzam as águas reptile animae viventis”, isto é, “o ser rastejante que possui em si alma viva”, expressão que os ingleses traduzem por “que possui vida”.
E novamente: Deus criou as baleias “et omnem animam viventem”, que em inglês significa “toda criatura viva”.
Do mesmo modo, quanto ao homem, Deus o formou do pó da terra, soprou em seu rosto o sopro da vida, “et factus est homo in animam viventem”, isto é, “e o homem tornou-se uma criatura viva”.
E, depois que Noé saiu da arca, Deus disse que jamais tornaria a ferir “omnem animam viventem”, isto é, “toda criatura viva”.
E em Deuteronômio 12,23: “Não comas o sangue, pois o sangue é a alma”, isto é, “a vida”.
Se nessas passagens alma significasse uma substância incorpórea, dotada de existência separada do corpo, o mesmo poderia ser inferido a respeito de qualquer outra criatura viva, e não apenas do homem.
Mas que as almas dos fiéis devam permanecer em seus corpos, da ressurreição por toda a eternidade, não por sua própria natureza, mas por graça especial de Deus, já demonstrei, creio, de maneira suficiente com base nas Escrituras, no capítulo XXXVIII.
Quanto às passagens do Novo Testamento em que se diz que algum homem será lançado de corpo e alma no fogo do Inferno, isso significa apenas corpo e vida, isto é, que será lançado vivo ao fogo perpétuo da Geena.
Como as doutrinas do purgatório, dos exorcismos e da invocação dos santos
É essa abertura que dá entrada à obscura doutrina, primeiramente, dos tormentos eternos e, depois, do purgatório.
Dela decorrem também a crença de que os espectros dos mortos vagueiam, especialmente por lugares consagrados, solitários ou escuros; as pretensões de exorcizar e conjurar fantasmas; a invocação dos mortos; e a doutrina das indulgências, isto é, da isenção temporária ou perpétua do fogo do purgatório, no qual se pretende que essas substâncias incorpóreas sejam purificadas pelo fogo e tornadas aptas para o Céu.
Pois os homens, antes do tempo de nosso Salvador, já estavam geralmente dominados, pelo contágio da demonologia dos gregos, pela opinião de que as almas humanas eram substâncias distintas de seus corpos e que, por isso, quando o corpo morresse, a alma de cada homem, piedoso ou perverso, deveria subsistir em algum lugar pela virtude da própria natureza, sem que nisso se reconhecesse qualquer dom sobrenatural de Deus.
Os doutores da Igreja, portanto, permaneceram durante muito tempo em dúvida quanto ao lugar em que essas almas deveriam permanecer até que se reunissem novamente a seus corpos na ressurreição.
Por algum tempo, supuseram que permaneciam sob os altares. Mais tarde, porém, a Igreja de Roma considerou mais proveitoso construir para elas esse lugar chamado purgatório, que algumas outras Igrejas, nesta época mais recente, demoliram.
Os textos alegados em favor das doutrinas anteriormente mencionadas já foram respondidos
Consideremos agora quais textos das Escrituras parecem confirmar mais fortemente esses três erros gerais que aqui mencionei.
Quanto àqueles que o cardeal Belarmino alegou em favor do atual Reino de Deus administrado pelo papa, e não há outros que apresentem aparência de prova melhor, já lhes respondi e tornei evidente que o Reino de Deus instituído por Moisés terminou com a eleição de Saul. Depois desse tempo, o sacerdote jamais depôs rei algum por autoridade própria.
Aquilo que o sumo sacerdote fez a Atalia não foi realizado por direito próprio, mas pelo direito do jovem rei Joás, filho dela. Salomão, porém, por direito próprio, depôs o sumo sacerdote Abiatar e colocou outro em seu lugar.
A passagem mais difícil de responder, dentre todas as que podem ser apresentadas para provar que o Reino de Deus por Cristo já se encontra neste mundo, não é alegada por Belarmino nem por qualquer outro membro da Igreja de Roma, mas por Beza, que pretende fazê-lo começar com a ressurreição de Cristo.
Não sei, porém, se sua intenção é conferir ao presbitério o poder eclesiástico supremo na república de Genebra e, consequentemente, a todo presbitério em qualquer outra república, ou se pretende atribuí-lo aos príncipes e demais soberanos civis. Pois, nos lugares onde existe essa forma de governo da Igreja, o presbitério reivindicou o poder de excomungar seus próprios reis e de ser o moderador supremo em matéria de religião, não menos que o papa o reivindica universalmente.
Resposta ao texto do qual Beza infere que o Reino de Cristo começou na ressurreição
As palavras são estas, em Marcos 9,1:
“Em verdade vos digo que alguns dos que aqui estão não provarão a morte até que tenham visto o Reino de Deus chegar com poder.”
Essas palavras, se tomadas gramaticalmente, tornam certo que ou alguns daqueles homens que se encontravam então junto de Cristo ainda estão vivos, ou o Reino de Deus deve estar agora neste mundo presente.
Há, porém, outra passagem ainda mais difícil. Depois da ressurreição de nosso Salvador e imediatamente antes de sua ascensão, os apóstolos perguntaram-lhe, em Atos 1,6:
“Restaurarás neste tempo o Reino a Israel?”
Ele lhes respondeu:
“Não vos compete conhecer os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu por seu próprio poder. Mas recebereis poder quando o Espírito Santo vier sobre vós, e sereis minhas testemunhas, ou mártires, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra.”
Isso equivale a dizer: meu Reino ainda não chegou, nem conhecereis de antemão quando chegará, pois virá como ladrão durante a noite. Mas enviarei o Espírito Santo, e por meio dele tereis poder para dar testemunho a todo o mundo, mediante vossa pregação, de minha ressurreição, das obras que realizei e da doutrina que ensinei, para que os homens creiam em mim e aguardem a vida eterna quando eu vier novamente.
Como isso pode concordar com a chegada do Reino de Cristo na ressurreição?
E há também o que São Paulo diz em 1 Tessalonicenses 1,9-10: “Eles se converteram dos ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro e esperar dos céus seu Filho.” Esperar dos céus seu Filho significa esperar sua vinda para ser rei em poder, espera que não seria necessária se esse Reino já estivesse presente.
Além disso, se o Reino de Deus começou na ressurreição, como Beza pretende nessa passagem de Marcos 9,1, por que razão os cristãos, desde a ressurreição, continuam dizendo em suas orações: “Venha o teu Reino”?
É, portanto, manifesto que as palavras de São Marcos não devem ser interpretadas dessa maneira.
“Alguns dos que aqui estão”, diz nosso Salvador, “não provarão a morte até que tenham visto o Reino de Deus chegar com poder.”
Se esse Reino devesse chegar na ressurreição de Cristo, por que se diz “alguns deles”, em vez de todos? Pois todos viveram até depois de Cristo haver ressuscitado.
Explicação da passagem de Marcos 9,1
Aqueles que exigem interpretação exata desse texto devem interpretar primeiro as palavras semelhantes de nosso Salvador a São Pedro a respeito de São João, em João 21,22:
“Se eu quiser que ele permaneça até que eu venha, que te importa?”
Sobre essas palavras fundamentou-se o rumor de que ele não morreria. Contudo, a verdade desse rumor não foi confirmada como bem fundamentada nem refutada como mal fundamentada nessas palavras, mas deixada como um dito não compreendido.
A mesma dificuldade existe na passagem de São Marcos.
E, se for lícito conjecturar seu significado a partir do que vem imediatamente depois, tanto nessa passagem quanto em São Lucas, onde a mesma afirmação se repete, não é improvável dizer que se refere à transfiguração, descrita nos versículos imediatamente seguintes.
Ali se diz que, “depois de seis dias, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João”, não todos, mas alguns de seus discípulos, “levou-os separadamente a um monte elevado e transfigurou-se diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes, excessivamente brancas como a neve, de tal modo que nenhum lavandeiro na terra poderia branqueá-las assim. E apareceram-lhes Elias e Moisés, que falavam com Jesus etc.”
Desse modo, eles viram Cristo em glória e majestade, tal como virá, a ponto de ficarem profundamente atemorizados.
Assim, a promessa de nosso Salvador foi cumprida por meio de uma visão.
Que tenha sido uma visão pode ser provavelmente inferido de São Lucas, que relata a mesma história no capítulo 9, versículo 28, e diz que Pedro e aqueles que estavam com ele estavam dominados pelo sono. Mas isso se torna inteiramente certo em Mateus 17,9, onde o mesmo acontecimento é novamente narrado, pois nosso Salvador lhes ordenou:
“Não conteis a ninguém a visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dentre os mortos.”
Seja como for, dessa passagem não se pode extrair argumento algum para provar que o Reino de Deus começou antes do Dia do Juízo.
Abuso de alguns outros textos em defesa do poder do papa
Quanto a alguns outros textos empregados para provar o poder do papa sobre os soberanos civis, além daqueles apresentados por Belarmino, como a afirmação de que as duas espadas que Cristo e seus apóstolos possuíam entre si eram a espada espiritual e a temporal, as quais, segundo dizem, São Pedro recebeu de Cristo, e ainda que, dentre os dois luminares, o maior significa o papa e o menor, o rei, seria igualmente possível inferir do primeiro versículo da Bíblia que o Céu significa o papa e a Terra, o rei.
Isso não é argumentar a partir das Escrituras, mas insultar licenciosamente os príncipes, costume que entrou em voga depois que os papas se tornaram tão seguros de sua grandeza que passaram a desprezar todos os reis cristãos e, calcando o pescoço dos imperadores, a zombar ao mesmo tempo deles e das Escrituras, valendo-se das palavras do Salmo 91:
“Pisarás o leão e a áspide; calcarás aos pés o leão jovem e o dragão.”
A maneira de consagrar nas Escrituras não continha exorcismos
Quanto aos ritos de consagração, embora dependam em sua maior parte da discrição e do juízo dos governantes da Igreja, e não das Escrituras, esses governantes estão obrigados a seguir a orientação exigida pela própria natureza da ação, de modo que as cerimônias, palavras e gestos sejam decorosos e significativos ou, pelo menos, conformes àquilo que se realiza.
Quando Moisés consagrou o Tabernáculo, o altar e os utensílios que lhes pertenciam, em Êxodo 40, ungiu-os com o óleo que Deus ordenara preparar para esse fim, e eles se tornaram santos. Nada ali foi exorcizado para expulsar fantasmas.
O mesmo Moisés, soberano civil de Israel, quando consagrou Aarão, o sumo sacerdote, e seus filhos, lavou-os com água, não com água exorcizada, vestiu-os com suas roupas e ungiu-os com óleo. E eles foram santificados para ministrar ao Senhor no ofício sacerdotal.
Tratou-se simplesmente de limpá-los e adorná-los de maneira decorosa antes de apresentá-los a Deus como seus servos.
Quando o rei Salomão, soberano civil de Israel, consagrou o Templo que havia construído, segundo 1 Reis 8, permaneceu diante de toda a congregação de Israel e, depois de abençoá-la, deu graças a Deus por ter colocado no coração de seu pai o desejo de edificá-lo e por ter concedido a ele próprio a graça de concluir a obra.
Depois, pediu primeiramente a Deus que aceitasse aquela casa, embora ela não fosse adequada à sua grandeza infinita, e que ouvisse as orações de seus servos quando orassem nela ou, caso estivessem ausentes, voltados em sua direção. Por fim, ofereceu um sacrifício pacífico, e a casa foi dedicada.
Não houve ali procissão alguma. O rei permaneceu imóvel em seu primeiro lugar. Não houve água exorcizada, nem Asperges me, nem qualquer outra aplicação impertinente de palavras pronunciadas em outra ocasião, mas um discurso decoroso e racional, inteiramente conforme à ocasião de oferecer a Deus a casa recém-construída.
Não lemos que São João tenha exorcizado as águas do Jordão, nem Filipe a água do rio em que batizou o eunuco, nem que qualquer pastor no tempo dos apóstolos tenha tomado sua saliva, aplicado-a ao nariz da pessoa que seria batizada e dito: In odorem suavitatis, isto é, “como suave aroma ao Senhor”.
Nesse rito, nem a cerimônia da saliva, por sua impureza, nem a aplicação dessa passagem das Escrituras, por sua leviandade, podem ser justificadas por autoridade humana alguma.
A imortalidade da alma humana não é provada pelas Escrituras como pertencente à natureza, mas à graça
Para provar que a alma separada do corpo vive eternamente, não apenas as almas dos eleitos por graça especial e pela restauração da vida eterna que Adão perdeu pelo pecado e nosso Salvador restituiu aos fiéis mediante o sacrifício de si mesmo, mas também as almas dos réprobos, como propriedade naturalmente decorrente da essência da humanidade, sem outra graça de Deus além daquela universalmente concedida a todos os homens, há diversas passagens que, à primeira vista, parecem servir suficientemente a esse propósito.
Mas, quando as comparo com aquilo que anteriormente aleguei, no capítulo XXXVIII, a partir do capítulo 14 de Jó, parecem-me muito mais sujeitas a interpretações diversas que as palavras de Jó.
Em primeiro lugar, há as palavras de Salomão em Eclesiastes 12,7:
“Então o pó voltará ao pó, como era, e o espírito voltará a Deus, que o deu.”
Essas palavras podem admitir com bastante propriedade, caso não exista outro texto diretamente contrário, a interpretação de que somente Deus sabe, mas o homem não, o que acontece ao espírito de um homem quando ele expira.
O próprio Salomão, no mesmo livro, no capítulo 3, versículos 20 e 21, profere a mesma sentença no sentido que lhe atribuí. Suas palavras são:
“Todos vão, homem e animal, para o mesmo lugar. Todos procedem do pó e todos ao pó retornam. Quem sabe se o espírito do homem sobe ao alto e se o espírito do animal desce à terra?”
Isto é, ninguém sabe senão Deus.
E não é modo incomum de falar dizer, a respeito das coisas que não compreendemos: “Deus sabe o quê” e “Deus sabe onde”.
A passagem de Gênesis 5,24, “Enoque caminhou com Deus e já não existia, porque Deus o tomou”, explicada em Hebreus 11,5 pelas palavras “foi trasladado para não ver a morte e não foi encontrado, porque Deus o trasladara, pois antes de sua trasladação recebeu testemunho de que agradara a Deus”, favorece tanto a imortalidade do corpo quanto a da alma e prova que essa trasladação foi peculiar àqueles que agradam a Deus, não comum a eles e aos perversos, e que depende da graça, não da natureza.
Em contrapartida, que interpretação poderemos dar, além do sentido literal, às palavras de Salomão em Eclesiastes 3,19?
“O que acontece aos filhos dos homens acontece também aos animais; a mesma coisa acontece a ambos. Como morre um, assim morre o outro. Todos possuem o mesmo sopro, ou o mesmo espírito, de modo que o homem não possui vantagem alguma sobre o animal, pois tudo é vaidade.”
Segundo o sentido literal, não há aqui imortalidade natural da alma, nem, contudo, qualquer oposição à vida eterna que os eleitos desfrutarão pela graça.
E, no capítulo 4, versículo 3:
“Melhor que ambos é aquele que ainda não existiu”, isto é, melhor que aqueles que vivem ou já viveram.
Essa seria uma afirmação difícil se a alma de todos os que viveram fosse imortal, pois então possuir uma alma imortal seria pior que não possuir alma alguma.
E novamente, no capítulo 9, versículo 5:
“Os vivos sabem que morrerão, mas os mortos nada sabem”, isto é, naturalmente e antes da ressurreição do corpo.
Outra passagem que parece favorecer uma imortalidade natural da alma é aquela em que nosso Salvador diz que Abraão, Isaac e Jacó estão vivos.
Mas isso é dito a respeito da promessa de Deus e da certeza de que ressuscitarão, não de uma vida então efetiva, no mesmo sentido em que Deus disse a Adão que, no dia em que comesse do fruto proibido, certamente morreria. Desde aquele momento, Adão era um homem morto por sentença, embora não por execução, até quase mil anos depois.
Do mesmo modo, Abraão, Isaac e Jacó estavam vivos por promessa quando Cristo falou, mas não o estarão efetivamente antes da ressurreição.
E a história do rico e de Lázaro nada prova contra isso, se a tomarmos, como de fato é, por uma parábola.
Mas há outras passagens do Novo Testamento nas quais parece atribuir-se diretamente a imortalidade aos perversos.
É evidente que todos eles ressuscitarão para o Juízo. Além disso, diz-se em muitos lugares que irão para o “fogo eterno”, para “tormentos eternos”, para “castigos eternos”, e que “o verme da consciência jamais morre”. Tudo isso está compreendido na expressão morte eterna, que ordinariamente é interpretada como vida eterna em tormentos.
Contudo, não encontro em parte alguma que algum homem viverá eternamente em tormentos.
Parece também difícil afirmar que Deus, Pai das misericórdias, que faz no Céu e na Terra tudo o que quer, que dispõe dos corações de todos os homens, que opera neles tanto o querer quanto o agir, e sem cujo dom gratuito o homem não possui inclinação alguma para o bem nem arrependimento do mal, castigaria as transgressões humanas sem fim no tempo e com toda a extremidade de suplício que os homens podem imaginar, e ainda maior.
Devemos, portanto, considerar qual é o significado de fogo eterno e de outras expressões semelhantes das Escrituras.
Já demonstrei que o Reino de Deus por Cristo começa no Dia do Juízo; que nesse dia os fiéis ressuscitarão com corpos gloriosos e espirituais e serão seus súditos nesse Reino, que será eterno; que não se casarão nem serão dados em casamento, nem comerão e beberão como faziam em seus corpos naturais, mas viverão para sempre em suas pessoas individuais, sem a eternidade específica produzida pela geração.
Demonstrei também que os réprobos ressuscitarão para receber os castigos de seus pecados e que aqueles eleitos que estiverem vivos em seus corpos terrenos nesse dia terão seus corpos subitamente transformados, tornando-se espirituais e imortais.
Mas não há passagem alguma das Escrituras que prove que os corpos dos réprobos, que constituem o Reino de Satanás, também serão corpos gloriosos ou espirituais, ou que serão como os anjos de Deus, sem comer, beber ou gerar, ou que sua vida será eterna em suas pessoas individuais, como a vida de cada fiel, ou como teria sido a vida de Adão caso não tivesse pecado, excetuadas apenas as passagens relativas aos tormentos eternos, que podem ser interpretadas de outro modo.
Daí se pode inferir que, assim como os eleitos, depois da ressurreição, serão restituídos à condição em que Adão se encontrava antes de pecar, os réprobos estarão na condição em que Adão e sua posteridade ficaram depois de cometido o pecado, exceto pelo fato de que Deus prometeu um Redentor a Adão e aos descendentes que nele confiassem e se arrependessem, mas não àqueles que morressem em seus pecados, como fazem os réprobos.
O que são os tormentos eternos
Consideradas essas coisas, os textos que mencionam fogo eterno, tormentos eternos ou o verme que nunca morre não contradizem a doutrina de uma segunda e perpétua morte, no sentido próprio e natural da palavra morte.
O fogo ou os tormentos preparados para os perversos na Geena, em Tofete ou em qualquer outro lugar podem continuar para sempre, e jamais faltarão perversos para serem atormentados neles, embora nem todos nem qualquer homem individualmente o sejam por toda a eternidade.
Pois os perversos, deixados na condição em que se encontravam depois do pecado de Adão, poderão, na ressurreição, viver como antes viviam, casar-se e ser dados em casamento, e possuir corpos grosseiros e corruptíveis, como os que agora possui toda a humanidade. Consequentemente, poderão gerar perpetuamente depois da ressurreição, como faziam antes, pois não há passagem alguma das Escrituras em sentido contrário.
São Paulo, ao falar da ressurreição em 1 Coríntios 15, refere-se apenas à ressurreição para a vida eterna, e não à ressurreição para o castigo.
Da primeira, diz ele que o corpo é “semeado em corrupção e ressuscitado em incorrupção; semeado em desonra e ressuscitado em glória; semeado em fraqueza e ressuscitado em poder; semeado corpo natural e ressuscitado corpo espiritual”.
Nada disso pode ser dito dos corpos daqueles que ressuscitam para o castigo.
O texto de Lucas 20,34-36 é fecundo:
“Os filhos deste mundo casam-se e são dados em casamento; mas aqueles que forem considerados dignos de alcançar o mundo vindouro e a ressurreição dentre os mortos nem se casam nem são dados em casamento. Tampouco podem morrer, pois são iguais aos anjos e são filhos de Deus, por serem filhos da ressurreição.”
Os filhos deste mundo, que se encontram na condição em que Adão os deixou, casar-se-ão e serão dados em casamento, isto é, corromper-se-ão e gerarão sucessivamente. Isso constitui uma imortalidade da espécie, mas não das pessoas individuais.
Eles não são dignos de ser contados entre aqueles que alcançarão o mundo vindouro e uma ressurreição absoluta dentre os mortos, mas permanecerão nele apenas por breve tempo, como habitantes provisórios desse mundo, e somente para receber o castigo merecido por sua contumácia.
Os eleitos são os únicos filhos da ressurreição, isto é, os únicos herdeiros da vida eterna. Somente eles já não podem morrer. São eles os iguais aos anjos e os filhos de Deus, e não os réprobos.
Aos réprobos resta, depois da ressurreição, uma segunda e eterna morte. Entre essa ressurreição e sua segunda e eterna morte, haverá apenas um período de castigo e tormento, o qual, pela sucessão dos pecadores destinados a ele, durará enquanto a espécie humana subsistir por propagação, isto é, eternamente.
Resposta aos textos alegados em favor do purgatório
Sobre essa doutrina da eternidade natural das almas separadas fundamenta-se, como já disse, a doutrina do purgatório.
Pois, admitindo-se que a vida eterna existe apenas pela graça, não há outra vida senão a vida do corpo, nem imortalidade antes da ressurreição.
Os textos em favor do purgatório que Belarmino alega a partir das Escrituras canônicas do Antigo Testamento são, primeiramente, o jejum de Davi por Saul e Jônatas, mencionado em 2 Samuel 1,12, e novamente, em 2 Samuel 3,35, seu jejum pela morte de Abner.
Segundo ele, esse jejum de Davi destinava-se a obter de Deus alguma coisa em favor deles depois de sua morte, porque, depois de jejuar para conseguir a recuperação do próprio filho, tão logo soube que este havia morrido, pediu alimento.
Visto, portanto, que a alma possui existência separada do corpo, e que nada pode ser obtido pelo jejum dos homens em favor das almas que já se encontram no Céu ou no Inferno, segue-se que existem algumas almas de mortos que não estão nem no Céu nem no Inferno. Portanto, devem estar num terceiro lugar, que há de ser o purgatório.
Foi assim, mediante forte violência interpretativa, que ele torceu essas passagens para provar o purgatório.
Entretanto, é manifesto que as cerimônias de luto e jejum, quando praticadas pela morte de homens cuja vida não era proveitosa aos que choram, são realizadas por respeito às suas pessoas. Quando praticadas pela morte daqueles cuja vida beneficiava os enlutados, procedem da perda particular que sofreram.
Assim, Davi honrou Saul e Abner com seu jejum e, diante da morte do próprio filho, consolou-se retomando sua alimentação habitual.
Nas outras passagens que ele alega do Antigo Testamento, não há sequer aparência ou sombra de prova.
Ele apresenta todo texto em que aparecem as palavras ira, fogo, queima, purificação ou limpeza, desde que algum dos Padres, num sermão, o tenha aplicado retoricamente à doutrina do purgatório, na qual já se acreditava.
O primeiro versículo do Salmo 38 diz:
“Senhor, não me repreendas em tua ira, nem me castigues em teu ardente desagrado.”
O que teria isso que ver com o purgatório, se Agostinho não tivesse aplicado a ira ao fogo do Inferno e o desagrado ao fogo do purgatório?
E o que tem que ver com o purgatório o versículo do Salmo 66,12:
“Passamos pelo fogo e pela água, e tu nos conduziste a um lugar úmido”?
E o mesmo se diga de outros textos semelhantes, com os quais os doutores daquela época procuravam adornar ou ampliar seus sermões e comentários, arrastando-os à força da engenhosidade para seus próprios propósitos.
Resposta às passagens do Novo Testamento alegadas em favor do purgatório
Mas ele alega outras passagens do Novo Testamento que não são tão fáceis de responder.
A primeira é Mateus 12,32:
“Todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do Homem será perdoado; mas aquele que falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem neste mundo nem no mundo vindouro.”
Belarmino pretende que o mundo vindouro seja o purgatório, no qual alguns pecados poderão ser perdoados, embora não tenham sido perdoados neste mundo.
Entretanto, é manifesto que existem apenas três mundos: um, desde a criação até o Dilúvio, destruído pela água e chamado nas Escrituras mundo antigo; outro, desde o Dilúvio até o Dia do Juízo, que é o mundo presente e será destruído pelo fogo; e o terceiro, que começará no Dia do Juízo e prosseguirá eternamente, chamado mundo vindouro, no qual todos concordam que não haverá purgatório.
Portanto, o mundo vindouro e o purgatório são incompatíveis.
Mas qual pode ser então o significado dessas palavras de nosso Salvador?
Confesso que é muito difícil conciliá-las com todas as doutrinas hoje unanimemente recebidas. E não há vergonha alguma em confessar que a profundidade das Escrituras é grande demais para ser sondada pela limitação do entendimento humano.
Não obstante, posso apresentar à consideração de teólogos mais eruditos algumas coisas sugeridas pelo próprio texto.
Primeiramente, visto que falar contra o Espírito Santo, considerado como terceira pessoa da Trindade, é falar contra a Igreja, na qual reside o Espírito Santo, parece que a comparação é feita entre a tolerância de nosso Salvador diante das ofensas que lhe foram dirigidas enquanto esteve na terra e a severidade dos pastores que vieram depois dele contra aqueles que negassem sua autoridade, recebida do Espírito Santo.
Seria como se ele dissesse:
Vós, que negais meu poder, e até vós, que me crucificareis, sereis perdoados por mim todas as vezes que vos voltardes para mim pelo arrependimento. Mas, se negardes o poder daqueles que depois vos ensinarão em virtude do Espírito Santo, eles serão inexoráveis e não vos perdoarão, mas vos perseguirão neste mundo e vos deixarão sem absolvição, ainda que vos volteis para mim, se não vos voltardes também para eles, entregando-vos, tanto quanto estiver ao alcance deles, aos castigos do mundo vindouro.
Assim, essas palavras podem ser tomadas como profecia ou predição acerca dos tempos que por longo período existiram na Igreja cristã.
Ou, caso não seja esse o significado, pois não sou categórico em passagens tão difíceis, talvez reste, depois da ressurreição, oportunidade para o arrependimento de alguns pecadores.
Há também outra passagem que parece concordar com isso.
Considerando as palavras de São Paulo em 1 Coríntios 15,29:
“Que farão aqueles que são batizados pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que, então, são batizados pelos mortos?”
Pode-se provavelmente inferir, como alguns fizeram, que no tempo de São Paulo havia o costume de receber o batismo em favor dos mortos, do mesmo modo que os homens que hoje creem se tornam fiadores e responsáveis pela fé das crianças incapazes de crer.
Essas pessoas assumiriam, em nome de seus amigos falecidos, o compromisso de que eles estariam prontos para obedecer e receber nosso Salvador como rei quando ele viesse novamente.
Nesse caso, o perdão dos pecados no mundo vindouro não exigiria purgatório algum.
Mas há tanto paradoxo em ambas as interpretações que não deposito confiança nelas. Apresento-as apenas aos que conhecem profundamente as Escrituras, para que investiguem se não há alguma passagem mais clara que as contradiga.
Somente isto vejo demonstrado com evidência pelas Escrituras: não existe nelas nem a palavra nem a coisa chamada purgatório, nem nesta nem em qualquer outra passagem; nem há coisa alguma que possa provar a necessidade de um lugar para a alma separada do corpo, seja para a alma de Lázaro durante os quatro dias em que esteve morto, seja para as almas daqueles que a Igreja Romana pretende estarem agora atormentados no purgatório.
Pois Deus, que pôde dar vida a um pedaço de argila, possui o mesmo poder para restituir a vida a um morto e renovar seu cadáver inanimado e corrompido, transformando-o num corpo glorioso, espiritual e imortal.
Outra passagem é 1 Coríntios 3, onde se diz que aqueles que edificaram palha, feno e coisas semelhantes sobre o verdadeiro fundamento verão sua obra perecer, mas “eles mesmos serão salvos, embora como através do fogo”.
Belarmino pretende que esse fogo seja o fogo do purgatório.
As palavras, como já disse, constituem uma alusão às de Zacarias 13,9, onde se lê:
“Farei passar a terceira parte pelo fogo, refiná-la-ei como se refina a prata e prová-la-ei como se prova o ouro.”
Isso é dito acerca da vinda do Messias em poder e glória, isto é, no Dia do Juízo e da conflagração do mundo presente, no qual os eleitos não serão consumidos, mas refinados, isto é, abandonarão suas doutrinas e tradições errôneas, que serão, por assim dizer, chamuscadas e retiradas deles, e depois invocarão o nome do verdadeiro Deus.
Do mesmo modo, o Apóstolo diz que aqueles que, conservando este fundamento, Jesus é o Cristo, edificarem sobre ele outras doutrinas errôneas não serão consumidos no fogo que renovará o mundo, mas passarão por ele para a salvação, embora vejam e abandonem seus erros anteriores.
Os edificadores são os pastores.
O fundamento é que Jesus é o Cristo.
A palha e o feno são as falsas consequências dele extraídas por ignorância ou fraqueza.
O ouro, a prata e as pedras preciosas são suas doutrinas verdadeiras.
E seu refinamento ou purificação consiste no abandono de seus erros.
Em tudo isso, não existe aparência alguma que favoreça a combustão de almas incorpóreas, isto é, incapazes de padecer.
Como deve ser entendido o batismo pelos mortos
Uma terceira passagem é a de 1 Coríntios 15, anteriormente mencionada, acerca do batismo pelos mortos. Dela, Belarmino conclui, primeiramente, que as orações pelos mortos não são inúteis e, disso, que existe um fogo do purgatório. Mas nenhuma das duas conclusões é correta.
Dentre as muitas interpretações da palavra batismo, ele aprova em primeiro lugar aquela segundo a qual batismo significa metaforicamente um batismo de penitência, e os homens seriam batizados nesse sentido quando jejuam, oram e dão esmolas. Desse modo, batismo pelos mortos e oração pelos mortos seriam a mesma coisa.
Mas essa é uma metáfora da qual não há exemplo nem nas Escrituras nem em qualquer outro uso da linguagem e que, além disso, não concorda com a harmonia e o propósito das Escrituras.
A palavra batismo é empregada em Marcos 10,38 e Lucas 12,50 para significar ser mergulhado no próprio sangue, como Cristo o foi na cruz e como a maior parte dos apóstolos o foi ao dar testemunho dele. Mas é difícil dizer que a oração, o jejum e as esmolas tenham qualquer semelhança com um mergulho.
A mesma palavra é também empregada em Mateus 3,11, passagem que parece favorecer em alguma medida o purgatório, para significar uma purificação pelo fogo. Mas é evidente que o fogo e a purificação ali mencionados são os mesmos de que fala o profeta Zacarias no capítulo 13, versículo 9:
“Farei passar a terceira parte pelo fogo e a refinarei etc.”
E São Pedro, depois dele, em 1 Pedro 1,7:
“Para que a prova de vossa fé, muito mais preciosa que o ouro perecível, embora provada pelo fogo, seja encontrada para louvor, honra e glória na manifestação de Jesus Cristo.”
E São Paulo, em 1 Coríntios 3,13:
“O fogo provará qual é a obra de cada um.”
Mas São Pedro e São Paulo falam do fogo que haverá na segunda manifestação de Cristo, e o profeta Zacarias, do Dia do Juízo. Portanto, essa passagem de São Mateus pode ser interpretada do mesmo modo, e assim não haverá necessidade alguma de um fogo do purgatório.
Outra interpretação do batismo pelos mortos é aquela que mencionei anteriormente e que Belarmino coloca em segundo lugar quanto à probabilidade. Dela ele também infere a utilidade da oração pelos mortos.
Pois, se depois da ressurreição aqueles que não ouviram falar de Cristo ou que não creram nele puderem ser recebidos no Reino de Cristo, não será inútil que seus amigos, depois da morte deles, orem por eles até que ressuscitem.
Mas, ainda que se conceda que Deus, pelas orações dos fiéis, possa converter a si alguns daqueles que não ouviram Cristo ser pregado e que, consequentemente, não puderam rejeitá-lo, e ainda que a caridade dos homens nesse ponto não possa ser censurada, nada disso prova o purgatório.
Pois ressuscitar da morte para a vida é uma coisa, e ressuscitar do purgatório para a vida é outra, sendo esta última uma passagem da vida para a vida, de uma vida em tormentos para uma vida em alegria.
Uma quarta passagem é Mateus 5,25:
“Entra em acordo depressa com teu adversário, enquanto estás a caminho com ele, para que o adversário não te entregue ao oficial e sejas lançado na prisão. Em verdade te digo que de modo algum sairás dali enquanto não pagares o último centavo.”
Nessa alegoria, o ofensor é o pecador; tanto o adversário quanto o juiz são Deus; o caminho é esta vida; a prisão é a sepultura; e o oficial é a morte.
Dessa prisão o pecador não ressuscitará para a vida eterna, mas para uma segunda morte, enquanto não tiver pago o último centavo, ou enquanto Cristo não o pagar por ele mediante sua Paixão, que constitui resgate integral por toda espécie de pecado, tanto pelos pecados menores quanto pelos crimes maiores, pois ambos se tornam igualmente perdoáveis pela Paixão de Cristo.
A quinta passagem é Mateus 5,22:
“Todo aquele que se irar contra seu irmão sem causa será réu no juízo. E todo aquele que disser a seu irmão: Raca, será réu perante o conselho. Mas todo aquele que disser: Tolo, será réu do fogo do Inferno.”
Dessas palavras Belarmino infere três espécies de pecado e três espécies de castigo, e que nenhum desses pecados, exceto o último, será punido com o fogo do Inferno. Consequentemente, depois desta vida, haveria no purgatório castigo para os pecados menores.
Mas essa inferência não possui aparência alguma de validade em nenhuma interpretação que até agora se tenha dado à passagem.
Haverá depois desta vida uma distinção entre tribunais de justiça, como havia entre os judeus no tempo de nosso Salvador, para ouvir e decidir diferentes espécies de crime, como os juízes e o conselho?
Não pertencerá todo julgamento a Cristo e a seus apóstolos?
Portanto, para compreender esse texto, não devemos considerá-lo isoladamente, mas em conjunto com as palavras que o precedem e as que o seguem.
Nosso Salvador interpreta nesse capítulo a lei de Moisés, que os judeus julgavam cumprida quando não haviam transgredido seu sentido gramatical, embora tivessem transgredido a intenção ou o significado do legislador.
Assim, como julgavam que o sexto mandamento só era violado quando se matava um homem, e o sétimo apenas quando alguém se deitava com uma mulher que não fosse sua esposa, nosso Salvador lhes diz que a ira interior de um homem contra seu irmão, quando sem causa justa, é homicídio.
“Ouvistes”, diz ele, “a lei de Moisés: Não matarás, e quem matar será condenado perante os juízes”, ou perante a sessão dos Setenta.
“Eu, porém, vos digo que irar-se contra o irmão sem causa, ou dizer-lhe Raca ou Tolo, é homicídio e será punido no Dia do Juízo, perante a sessão de Cristo e de seus apóstolos, com o fogo do Inferno.”
Essas palavras, portanto, não foram empregadas para distinguir diferentes crimes, diferentes tribunais de justiça e diferentes castigos, mas para censurar a distinção entre pecado e pecado que os judeus extraíam não da diferença da vontade em obedecer a Deus, mas da diferença entre seus tribunais temporais de justiça.
E destinavam-se a mostrar-lhes que aquele que possuísse a vontade de prejudicar seu irmão, ainda que o efeito se manifestasse apenas em insultos, ou nem sequer se manifestasse, seria lançado ao fogo do Inferno pelos juízes e pela sessão, que no Dia do Juízo serão um só tribunal, e não tribunais diferentes.
Considerado isso, não consigo imaginar o que se possa extrair desse texto em defesa do purgatório.
A sexta passagem é Lucas 16,9:
“Fazei amigos com as riquezas da injustiça, para que, quando elas vos faltarem, eles vos recebam nos tabernáculos eternos.”
Belarmino alega essa passagem para provar a invocação dos santos falecidos.
Mas o sentido é claro: devemos, por meio de nossas riquezas, fazer dos pobres nossos amigos e obter, desse modo, suas orações enquanto vivem.
“Aquele que dá ao pobre empresta ao Senhor.”
A sétima passagem é Lucas 23,42:
“Senhor, lembra-te de mim quando entrares em teu Reino.”
Portanto, diz ele, há remissão dos pecados depois desta vida.
Mas a consequência não é válida. Nosso Salvador o perdoou naquele mesmo momento e, quando vier novamente em glória, lembrar-se-á de ressuscitá-lo para a vida eterna.
A oitava passagem é Atos 2,24, onde São Pedro diz de Cristo que “Deus o ressuscitou e desatou as dores da morte, porque não era possível que fosse retido por ela”.
Belarmino interpreta isso como uma descida de Cristo ao purgatório para libertar dali algumas almas de seus tormentos.
Entretanto, é manifesto que foi Cristo quem foi libertado. Era ele quem não podia ser retido pela morte ou pela sepultura, e não as almas no purgatório.
Mas, se for devidamente observado aquilo que Beza diz em suas notas sobre essa passagem, qualquer um verá que, em lugar de dores, deveria estar escrito laços. E então não haverá mais motivo para procurar o purgatório nesse texto.