Capítulo XLVI - Das Trevas Procedentes Da Filosofia Vã E Das Tradições Fabulosas Leviatã · Capítulo 47 de 49
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Capítulo XLVI - Das Trevas Procedentes Da Filosofia Vã E Das Tradições Fabulosas

Capítulo XLVI - Das Trevas Procedentes Da Filosofia Vã E Das Tradições Fabulosas

O que é filosofia

Por filosofia entende-se o conhecimento adquirido pelo raciocínio, partindo do modo de geração de alguma coisa para suas propriedades, ou de suas propriedades para algum modo possível de geração dessa mesma coisa, com o fim de poder produzir, na medida em que a matéria e a força humana o permitam, os efeitos requeridos pela vida humana.

Assim, o geômetra, partindo da construção das figuras, descobre por raciocínio muitas de suas propriedades e, partindo das propriedades, novos modos de construí-las, para poder medir a terra e a água e para infinitos outros usos.

Do mesmo modo, o astrônomo, partindo do nascimento, do ocaso e do movimento do Sol e das estrelas em diversas partes do céu, descobre as causas do dia e da noite e das diferentes estações do ano, por meio das quais mantém a contagem do tempo. O mesmo se dá com as demais ciências.

A prudência não é parte da filosofia

Por essa definição é evidente que não devemos considerar como parte da filosofia aquele conhecimento originário chamado experiência, no qual consiste a prudência. Isso porque ele não é alcançado pelo raciocínio, mas se encontra tanto nos animais irracionais quanto no homem, e consiste apenas na memória das sucessões de acontecimentos passados, nas quais a omissão da menor circunstância, alterando o efeito, frustra a expectativa do mais prudente. Ao contrário, nada é produzido por um raciocínio correto senão verdades gerais, eternas e imutáveis.

Nenhuma doutrina falsa é parte da filosofia

Tampouco devemos dar esse nome a conclusões falsas, pois aquele que raciocina corretamente com palavras que compreende jamais pode concluir um erro.

Nem a revelação sobrenatural

Nem deve ser chamada filosofia aquilo que um homem conhece por revelação sobrenatural, porque não foi adquirido pelo raciocínio.

Nem o saber aceito pela autoridade dos autores

Tampouco aquilo que se obtém raciocinando a partir da autoridade dos livros, porque não procede pelo raciocínio da causa para o efeito nem do efeito para a causa, e não é conhecimento, mas fé.

Dos primórdios e do progresso da filosofia

Sendo a faculdade de raciocinar consequência do uso da linguagem, não era possível que não houvesse algumas verdades gerais descobertas pelo raciocínio quase tão antigas quanto a própria linguagem.

Os selvagens da América não deixam de possuir algumas boas máximas morais. Possuem também um pouco de aritmética, suficiente para somar e dividir números que não sejam muito grandes. Nem por isso, contudo, são filósofos.

Assim como havia plantas de trigo e de vinha em pequena quantidade, dispersas pelos campos e bosques, antes que os homens conhecessem suas virtudes, as empregassem para sua alimentação ou as plantassem separadamente em campos e vinhedos, período em que se alimentavam de bolotas e bebiam água, também houve desde o princípio diversas especulações verdadeiras, gerais e úteis, como plantas naturais da razão humana.

No início, porém, eram poucas. Os homens viviam de uma experiência grosseira. Não havia método, isto é, não havia semeadura ou cultivo separado do conhecimento, apartado das ervas daninhas e das plantas comuns do erro e da conjectura.

Como a causa disso era a falta de lazer, em razão da necessidade de obter os meios de vida e de se defender contra os vizinhos, era impossível que fosse diferente antes do estabelecimento de grandes repúblicas. O lazer é a mãe da filosofia, e a república é a mãe da paz e do lazer. Onde primeiro existiram cidades grandes e florescentes, ali começou o estudo da filosofia.

Os gimnosofistas da Índia, os magos da Pérsia e os sacerdotes da Caldeia e do Egito são considerados os filósofos mais antigos, e esses países foram os mais antigos reinos.

A filosofia ainda não havia chegado aos gregos e aos demais povos do Ocidente, cujas repúblicas, talvez não maiores que Luca ou Genebra, jamais tinham paz, salvo quando seus medos recíprocos eram iguais, nem lazer para observar coisa alguma além uns dos outros.

Por fim, quando a guerra reuniu muitas dessas pequenas cidades gregas em número menor de cidades maiores, sete homens, oriundos de diferentes partes da Grécia, começaram a adquirir reputação de sábios. Alguns a obtiveram por máximas morais e políticas, outros pelo saber dos caldeus e egípcios, que consistia em astronomia e geometria. Ainda assim, não ouvimos falar até então de escolas de filosofia.

Das escolas de filosofia entre os atenienses

Depois que os atenienses, pela derrota dos exércitos persas, conquistaram o domínio do mar e, por meio dele, de todas as ilhas e cidades marítimas do arquipélago, tanto da Ásia quanto da Europa, e se tornaram ricos, aqueles que não tinham ocupação em casa nem no exterior pouco mais tinham em que se empregar além de, como diz São Lucas em Atos 17,21, “contar e ouvir novidades”, ou discorrer publicamente sobre filosofia para a juventude da cidade.

Cada mestre escolhia algum lugar para esse propósito. Platão ensinava em certos passeios públicos chamados Academia, nome derivado de um homem chamado Academo. Aristóteles ensinava no passeio do templo de Pã, chamado Liceu. Outros ensinavam na Stoa, ou passeio coberto, onde eram desembarcadas as mercadorias dos comerciantes. Outros o faziam em diferentes lugares, nos quais passavam o tempo de lazer ensinando ou discutindo suas opiniões. Alguns ensinavam em qualquer lugar onde conseguissem reunir os jovens da cidade para ouvi-los falar.

Foi também isso o que Carnéades fez em Roma, quando era embaixador, levando Catão a aconselhar o Senado a despedi-lo rapidamente, por medo de que corrompesse os costumes dos jovens que se deleitavam em ouvi-lo dizer, segundo julgavam, coisas belas.

Daí veio que o lugar em que qualquer deles ensinava e disputava fosse chamado schola, palavra que na língua deles significa lazer, e que suas disputas fossem chamadas diatribae, isto é, passagem do tempo.

Os próprios filósofos receberam também os nomes de suas seitas, alguns a partir dessas escolas. Os que seguiam a doutrina de Platão eram chamados acadêmicos. Os seguidores de Aristóteles, peripatéticos, por causa do passeio em que ensinava. Os ensinados por Zenão eram chamados estoicos, por causa da Stoa. Seria como se denominássemos os homens segundo Moorfields, a igreja de São Paulo ou a Bolsa, apenas porque ali se reúnem frequentemente para tagarelar e vadiar.

Não obstante, os homens se afeiçoaram de tal maneira a esse costume que, com o tempo, ele se espalhou por toda a Europa e pela maior parte da África, de modo que escolas públicas foram estabelecidas e mantidas para aulas e disputas em quase todas as repúblicas.

Das escolas dos judeus

Havia também, antigamente, antes e depois do tempo de nosso Salvador, escolas entre os judeus, mas eram escolas de sua lei.

Embora fossem chamadas sinagogas, isto é, congregações do povo, como a lei era nelas lida, exposta e discutida a cada sábado, não diferiam em natureza, mas apenas no nome, das escolas públicas. Não existiam somente em Jerusalém, mas em todas as cidades dos gentios habitadas por judeus.

Havia uma dessas escolas em Damasco, na qual Paulo entrou para perseguir. Havia outras em Antioquia, Icônio e Tessalônica, nas quais entrou para disputar. E dessa espécie era a sinagoga dos libertinos, cireneus, alexandrinos, cilícios e asiáticos, isto é, a escola dos libertinos e dos judeus que eram estrangeiros em Jerusalém. Foi dessa escola que vieram aqueles que disputaram com Santo Estêvão.

A inutilidade das escolas dos gregos

Mas qual foi a utilidade dessas escolas? Que ciência se adquire hoje por meio de suas aulas e disputas?

Quanto à geometria, que é a mãe de toda ciência natural, não a devemos às escolas. Platão, que foi o melhor filósofo dos gregos, proibia a entrada em sua escola a todos os que ainda não fossem, em alguma medida, geômetras.

Houve muitos que estudaram essa ciência com grande proveito para a humanidade, mas não há menção de suas escolas, nem houve seita alguma de geômetras, nem eles passavam então sob o nome de filósofos.

A filosofia natural dessas escolas era antes um sonho que uma ciência e era exposta numa linguagem destituída de sentido e significação. Isso não pode ser evitado por aqueles que pretendem ensinar filosofia sem antes haver alcançado grande conhecimento de geometria. Pois a natureza opera pelo movimento, e os modos e graus do movimento não podem ser conhecidos sem o conhecimento das proporções e propriedades das linhas e figuras.

Sua filosofia moral é apenas uma descrição de suas próprias paixões. Pois a regra dos costumes, fora do governo civil, é a lei de natureza, e, dentro dele, é a lei civil que determina o que é honesto e desonesto, justo e injusto e, em geral, bom e mau.

Eles, ao contrário, fazem de suas próprias inclinações e aversões as regras do bem e do mal. Por esse meio, em tão grande diversidade de gostos, nada é aceito por todos, e cada um faz, tanto quanto ousa, tudo aquilo que parece bom a seus próprios olhos, para a destruição da república.

Sua lógica, que deveria ser o método do raciocínio, nada mais é que uma coleção de armadilhas verbais e de invenções destinadas a confundir aqueles que tentam interrogá-los.

Em suma, não há absurdo algum que os antigos filósofos, como diz Cícero, que era um deles, não tenham sustentado alguns dentre eles. E creio que dificilmente se poderia dizer algo mais absurdo em filosofia natural do que aquilo que hoje se chama Metafísica de Aristóteles, mais contrário ao governo do que grande parte do que ele disse em sua Política, ou mais ignorante do que grande parte de sua Ética.

A inutilidade das escolas dos judeus

A escola dos judeus era originalmente uma escola da Lei de Moisés. Este ordenou, em Deuteronômio 31,10, que, ao fim de cada sete anos, na Festa dos Tabernáculos, a Lei fosse lida a todo o povo, para que a ouvissem e aprendessem.

Portanto, a leitura da Lei a cada sábado, costume que passou a existir depois do cativeiro, não deveria ter outro fim senão familiarizar o povo com os mandamentos aos quais devia obedecer e explicar-lhe os escritos dos profetas.

Mas é manifesto, pelas muitas repreensões que receberam de nosso Salvador, que eles corromperam o texto da Lei com seus falsos comentários e tradições vãs e compreenderam tão pouco os profetas que não reconheceram nem Cristo nem as obras que ele realizou e que haviam sido profetizadas por eles.

Assim, por meio de suas aulas e disputas nas sinagogas, transformaram a doutrina de sua Lei numa espécie fantástica de filosofia acerca da natureza incompreensível de Deus e dos espíritos. Compuseram-na com a filosofia e a teologia vãs dos gregos, misturadas com suas próprias fantasias, extraídas das passagens mais obscuras das Escrituras e que mais facilmente podiam ser torcidas para servir a seus propósitos, bem como das tradições fabulosas de seus antepassados.

O que é uma universidade

Aquilo que hoje se chama universidade é a reunião e incorporação, sob um único governo, de muitas escolas públicas numa mesma cidade.

Nela, as escolas principais foram instituídas para as três profissões, isto é, a religião romana, o direito romano e a arte da medicina.

O estudo da filosofia não tem ali outro lugar senão o de serva da religião romana. E, como somente a autoridade de Aristóteles tem curso nessas instituições, esse estudo não é propriamente filosofia, cuja natureza não depende de autores, mas aristotelismo.

Quanto à geometria, até tempos muito recentes ela não tinha lugar algum, por não servir a coisa alguma além da verdade rigorosa. E, se algum homem, pela engenhosidade de sua própria natureza, alcançasse nela algum grau de perfeição, era comumente considerado mágico, e sua arte, diabólica.

Erros introduzidos na religião pela Metafísica de Aristóteles

Descendo agora às doutrinas particulares da filosofia vã que passaram para as universidades e, destas, para a Igreja, em parte provenientes de Aristóteles, em parte da cegueira do entendimento, considerarei primeiro seus princípios.

Há uma certa filosofia primeira, da qual toda outra filosofia deveria depender, e que consiste principalmente em limitar corretamente as significações daquelas denominações ou nomes que são os mais universais de todos.

Essas limitações servem para evitar a ambiguidade e a equivocidade no raciocínio e são comumente chamadas definições. São dessa espécie as definições de corpo, tempo, lugar, matéria, forma, essência, sujeito, substância, acidente, potência, ato, finito, infinito, quantidade, qualidade, movimento, ação, paixão e diversas outras necessárias para explicar as concepções de um homem acerca da natureza e da geração dos corpos.

A explicação, isto é, a fixação do significado desses termos e de outros semelhantes, é comumente chamada nas escolas Metafísica, por constituir parte da filosofia de Aristóteles que leva esse título.

Mas o título possui ali outro sentido, pois significa apenas “livros escritos ou colocados depois de sua Filosofia Natural”. As escolas, contudo, tomam-nos por livros de filosofia sobrenatural, porque a palavra Metafísica admite ambos os sentidos.

E, na verdade, aquilo que ali está escrito encontra-se, em sua maior parte, tão distante da possibilidade de ser compreendido e é tão contrário à razão natural que todo aquele que pensa haver nele alguma coisa compreensível deve necessariamente considerá-lo sobrenatural.

Erros relativos às essências abstratas

Dessa Metafísica, misturada às Escrituras para formar a teologia escolástica, somos informados de que existem no mundo certas essências separadas dos corpos, às quais chamam essências abstratas e formas substanciais.

Para interpretar esse jargão, exige-se neste ponto uma atenção um pouco maior que a ordinária. Peço também desculpas àqueles que não estão habituados a essa espécie de discurso, pois me dirijo aqui aos que estão.

O mundo, e não me refiro apenas à Terra, que dá aos seus amantes o nome de homens mundanos, mas ao universo, isto é, à massa inteira de todas as coisas existentes, é corpóreo, ou seja, é corpo, e possui as dimensões da grandeza, a saber, comprimento, largura e profundidade.

Também cada parte de um corpo é corpo e possui as mesmas dimensões. Consequentemente, cada parte do universo é corpo, e aquilo que não é corpo não é parte do universo.

E, como o universo é tudo, aquilo que não é parte dele é nada e, por consequência, não está em parte alguma.

Disso não se segue que os espíritos sejam nada, pois possuem dimensões e são, portanto, realmente corpos. Na linguagem comum, entretanto, o nome corpo é dado apenas àqueles corpos que são visíveis ou palpáveis, isto é, que possuem algum grau de opacidade.

Quanto aos espíritos, chamam-nos incorpóreos, nome que expressa maior honra e que, por isso, pode ser atribuído com maior piedade ao próprio Deus. Nele não consideramos qual atributo exprime melhor sua natureza, que é incompreensível, mas qual exprime melhor nosso desejo de honrá-lo.

Para sabermos agora com que fundamento afirmam que existem essências abstratas ou formas substanciais, devemos considerar o que essas palavras propriamente significam.

A função das palavras é registrar para nós mesmos e manifestar aos outros os pensamentos e concepções de nossa mente.

Algumas palavras são nomes das coisas concebidas, como os nomes de todas as espécies de corpos que atuam sobre os sentidos e deixam uma impressão na imaginação.

Outras são nomes das próprias imagens, isto é, das ideias ou imagens mentais que temos de todas as coisas que vemos ou recordamos.

Outras, ainda, são nomes de nomes ou de diferentes espécies de discurso, como universal, plural, singular, negação, verdadeiro, falso, silogismo, interrogação, promessa e pacto, que são nomes de certas formas de discurso.

Há também palavras que servem para mostrar a consequência ou a incompatibilidade de um nome com outro. Quando alguém diz: “Um homem é um corpo”, pretende significar que o nome corpo é necessariamente consequente ao nome homem, por serem apenas nomes diferentes da mesma coisa, o homem. Essa consequência é indicada pela união deles mediante a palavra “é”.

Assim como empregamos o verbo “é”, os latinos empregam seu verbo est, e os gregos, esti, em todas as suas flexões. Não sei se todas as outras nações do mundo possuem, em suas diferentes línguas, uma palavra correspondente. Tenho certeza, porém, de que não necessitam dela.

Com efeito, a colocação ordenada de dois nomes poderia significar a consequência entre eles, caso esse fosse o costume, pois é o costume que dá força às palavras, tão bem quanto as palavras “é”, “ser”, “são” e semelhantes.

E, se existisse uma língua desprovida de verbo correspondente a est, “é” ou “ser”, os homens que a empregassem não seriam em nada menos capazes de inferir, concluir e realizar toda espécie de raciocínio que os gregos e os latinos.

Mas o que aconteceria então com os termos entidade, essência, essencial, essencialmente, que dele derivam, e com muitos outros que dependem deles e são empregados como ordinariamente o são?

Eles não são nomes de coisas, mas sinais pelos quais tornamos conhecido que concebemos a consequência de um nome ou atributo em relação a outro.

Quando dizemos “um homem é um corpo vivo”, não queremos dizer que o homem seja uma coisa, o corpo vivo outra e o “é” ou o ser uma terceira, mas que homem e corpo vivo são a mesma coisa, porque a consequência “se ele é homem, é um corpo vivo” é uma consequência verdadeira, significada pela palavra “é”.

Portanto, ser corpo, caminhar, estar falando, viver, ver e outros infinitivos semelhantes, assim como corporeidade, caminhada, fala, vida, visão e outros termos que significam exatamente o mesmo, são nomes de nada, como já expus mais amplamente em outro lugar.

Mas para que finalidade, poderá alguém perguntar, serve tal sutileza numa obra desta natureza, em que não pretendo tratar de coisa alguma além do que é necessário à doutrina do governo e da obediência?

Serve para que os homens já não se deixem enganar por aqueles que, mediante essa doutrina das essências separadas, edificada sobre a filosofia vã de Aristóteles, procuram afastá-los da obediência às leis de seu país, aterrorizando-os com nomes vazios, assim como se espantam as aves das plantações com uma jaqueta vazia, um chapéu e uma vara torta.

É com base nisso que, quando um homem morre e é sepultado, dizem que sua alma, isto é, sua vida, pode caminhar separada do corpo e ser vista durante a noite entre os túmulos.

Com base no mesmo fundamento, afirmam que a figura, a cor e o sabor de um pedaço de pão possuem existência ali onde, segundo dizem, não existe pão algum.

Do mesmo modo, dizem que a fé, a sabedoria e outras virtudes são às vezes derramadas num homem, às vezes sopradas para dentro dele desde o céu, como se o homem virtuoso e suas virtudes pudessem estar separados.

E sustentam muitas outras coisas que servem para diminuir a dependência dos súditos em relação ao poder soberano de seu país.

Pois quem se esforçará por obedecer às leis se espera que a obediência lhe seja derramada ou soprada para dentro? Ou quem não obedecerá antes a um sacerdote que pode fabricar Deus do que ao seu soberano, ou mesmo do que ao próprio Deus? Ou quem, temendo espectros, não terá grande consideração por aqueles que podem fabricar a água santa que os afasta dele?

Isso bastará como exemplo dos erros introduzidos na Igreja a partir das entidades e essências de Aristóteles. Talvez ele soubesse que se tratava de falsa filosofia, mas a escreveu como coisa conforme à religião dos gregos e capaz de corroborá-la, temendo o destino de Sócrates.

Uma vez caídos nesse erro das essências separadas, ficam necessariamente envolvidos em muitas outras absurdidades que dele decorrem.

Pois, como pretendem que essas formas sejam reais, são obrigados a atribuir-lhes algum lugar. Mas, porque as consideram incorpóreas e desprovidas de toda dimensão quantitativa, e todos sabem que o lugar é dimensão e não pode ser preenchido senão por aquilo que é corpóreo, são levados, para sustentar seu crédito, a estabelecer uma distinção: afirmam que essas formas não estão propriamente em lugar algum de modo circunscritivo, mas apenas de modo definitivo.

Esses termos, sendo meras palavras e, nessa ocasião, destituídos de significação, só passam em latim, para que sua vaidade permaneça oculta. Pois a circunscrição de uma coisa nada mais é que a determinação ou definição de seu lugar e, portanto, os dois termos da distinção significam o mesmo.

Em particular, quanto à essência de um homem, que, segundo dizem, é sua alma, afirmam que ela está inteira em seu dedo mínimo e inteira em todas as outras partes de seu corpo, por menores que sejam, e, no entanto, que não há mais alma no corpo inteiro do que em qualquer uma dessas partes.

Pode algum homem pensar que Deus é servido por tais absurdidades? E, no entanto, tudo isso precisa ser acreditado por aqueles que desejam acreditar na existência de uma alma incorpórea separada do corpo.

E, quando precisam explicar como uma substância incorpórea pode ser capaz de dor e ser atormentada no fogo do inferno ou do purgatório, nada têm a responder além de que não se pode saber como o fogo queima as almas.

Novamente, como o movimento é mudança de lugar e as substâncias incorpóreas não são capazes de lugar, encontram dificuldade para fazer parecer possível que uma alma possa ir daqui, sem o corpo, para o céu, para o inferno ou para o purgatório, e que os espectros dos homens, aos quais se pode acrescentar o das roupas em que aparecem, caminhem durante a noite pelas igrejas, cemitérios e outros lugares de sepultamento.

Não sei o que poderiam responder a isso, a menos que digam que caminham de modo definitivo, não circunscritivo, ou espiritualmente, não temporalmente, pois distinções tão extraordinárias podem ser igualmente aplicadas a qualquer dificuldade.

Nunc-stans

Quanto ao significado da eternidade, não querem que ela seja uma sucessão interminável do tempo. Se o fosse, não poderiam explicar como a vontade de Deus e sua preordenação das coisas futuras não seriam anteriores à sua presciência das mesmas, assim como a causa eficiente é anterior ao efeito, ou o agente à ação, nem poderiam explicar muitas outras de suas opiniões ousadas acerca da natureza incompreensível de Deus.

Querem, porém, ensinar-nos que a eternidade é a permanência imóvel do tempo presente, um nunc-stans, como dizem as escolas. Nem eles nem qualquer outro compreendem essa expressão, assim como não compreenderiam um hic-stans para designar uma grandeza infinita de lugar.

Um corpo em muitos lugares e muitos corpos num só lugar ao mesmo tempo

E, como os homens dividem um corpo em pensamento enumerando suas partes e, ao enumerar essas partes, enumeram também as partes do lugar que ele preenchia, não é possível que, ao conceber muitas partes, não concebam também muitos lugares correspondentes a essas partes.

Por isso, não se pode conceber na mente de homem algum maior ou menor número de partes do que de lugares destinados a elas.

Apesar disso, querem que acreditemos que, pelo poder onipotente de Deus, um corpo pode estar ao mesmo tempo em muitos lugares, e muitos corpos, ao mesmo tempo, num único lugar, como se fosse reconhecimento do poder divino dizer que aquilo que é não é, ou que aquilo que aconteceu não aconteceu.

Essas são apenas uma pequena parte das incongruências a que são forçados por disputarem filosoficamente, em vez de admirarem e adorarem a natureza divina e incompreensível, cujos atributos não podem significar o que Deus é, mas devem significar nosso desejo de honrá-lo com as melhores denominações que pudermos conceber.

Mas aqueles que se aventuram a raciocinar sobre sua natureza a partir desses atributos de honra, perdendo o entendimento já na primeira tentativa, caem de um inconveniente em outro, sem fim e sem número.

Acontece-lhes o mesmo que a um homem ignorante das cerimônias da corte que, ao chegar à presença de uma pessoa muito superior àquelas com quem está acostumado a falar, tropeça ao entrar e, tentando impedir a própria queda, deixa escapar a capa; ao tentar recuperar a capa, deixa cair o chapéu e, com uma desordem após outra, revela seu espanto e sua rusticidade.

Absurdos da filosofia natural: a gravidade como causa do peso

Quanto à física, isto é, ao conhecimento das causas subordinadas e secundárias dos acontecimentos naturais, eles não apresentam causa alguma, mas apenas palavras vazias.

Se desejarmos saber por que algumas espécies de corpos descem naturalmente em direção à Terra, enquanto outras se afastam naturalmente dela, as escolas nos dirão, com Aristóteles, que os corpos que descem são pesados e que esse peso é o que os faz descer.

Mas, se perguntarmos o que entendem por peso, defini-lo-ão como um esforço para dirigir-se ao centro da Terra. Assim, a causa pela qual as coisas descem é um esforço para estar abaixo, o que equivale a dizer que os corpos descem ou sobem porque descem ou sobem.

Ou nos dirão que o centro da Terra é o lugar de repouso e conservação das coisas pesadas e que, por isso, elas se esforçam para estar ali.

É como se as pedras e os metais possuíssem desejo, ou pudessem discernir o lugar onde querem estar, como faz o homem; ou amassem o repouso, como o homem não ama; ou ainda como se um pedaço de vidro estivesse menos seguro numa janela do que caindo na rua.

A quantidade introduzida num corpo já constituído

Se quisermos saber por que o mesmo corpo parece maior, sem que nada lhe seja acrescentado, numa ocasião do que em outra, dizem que, quando parece menor, está condensado, e, quando parece maior, rarefeito.

Mas o que significam condensado e rarefeito? Condensado é quando há, na mesmíssima matéria, menor quantidade do que antes; rarefeito, quando há maior quantidade.

É como se pudesse existir matéria que não possuísse alguma quantidade determinada, quando a quantidade nada mais é que a determinação da matéria, isto é, do corpo, pela qual dizemos que um corpo é maior ou menor que outro em certa medida. Ou como se um corpo fosse constituído sem quantidade alguma e, posteriormente, se introduzisse nele maior ou menor quantidade, conforme se pretendesse que o corpo fosse mais ou menos denso.

Infusão das almas

Quanto à causa da alma do homem, dizem: Creatur infundendo e creando infunditur, isto é: “É criada ao ser infundida” e “é infundida pela criação”.

Ubiquidade da aparição

Quanto à causa da sensação, apresentam uma ubiquidade das espécies, isto é, das aparências ou aparições dos objetos. Quando são aparições aos olhos, constituem a visão; quando aos ouvidos, a audição; ao paladar, o gosto; às narinas, o olfato; e ao restante do corpo, o tato.

A vontade como causa do querer

Quanto à causa da vontade de realizar uma ação particular, chamada volição, atribuem-na à faculdade, isto é, à capacidade geral que os homens possuem de querer ora uma coisa, ora outra, à qual chamam vontade, fazendo da potência a causa do ato.

Seria como atribuir como causa dos atos bons ou maus dos homens sua capacidade de praticá-los.

A ignorância como causa oculta

Em muitas ocasiões, apresentam como causa dos acontecimentos naturais sua própria ignorância, apenas disfarçada sob outras palavras.

Assim, dizem que a fortuna é a causa das coisas contingentes, isto é, das coisas cuja causa desconhecem.

Do mesmo modo, atribuem muitos efeitos a qualidades ocultas, isto é, qualidades desconhecidas por eles e, por isso, segundo pensam, por qualquer outro homem.

Atribuem-nos também à simpatia, à antipatia, à antiperístase, às qualidades específicas e a outros termos semelhantes, que não significam nem o agente que os produz nem a operação pela qual são produzidos.

Se uma metafísica e uma física como essas não constituem filosofia vã, então nunca houve filosofia vã alguma, nem São Paulo precisaria advertir-nos para que a evitássemos.

Um produz as coisas incongruentes, outro produz a incongruência

Quanto à filosofia moral e civil deles, possui absurdidades iguais ou ainda maiores.

Se um homem pratica uma ação injusta, isto é, uma ação contrária à lei, dizem que Deus é a causa primeira da lei e também a causa primeira dessa ação e de todas as demais, mas que não é de modo algum causa da injustiça, que consiste na desconformidade da ação com a lei.

Isso é filosofia vã.

Seria igualmente possível dizer que um homem produz tanto uma linha reta quanto uma linha curva, enquanto outro produz a incongruência entre ambas.

Essa é a filosofia de todos os homens que determinam suas conclusões antes de conhecerem suas premissas, pretendendo compreender aquilo que é incompreensível e transformando atributos de honra em atributos de natureza.

Foi para sustentar a doutrina do livre-arbítrio, isto é, de uma vontade humana não sujeita à vontade de Deus, que se estabeleceu essa distinção.

O apetite privado como regra do bem público

Aristóteles e outros filósofos pagãos definem o bem e o mal pelo apetite dos homens, e o fazem de modo suficientemente correto enquanto consideramos cada homem governado por sua própria lei.

Pois, na condição dos homens que não possuem outra lei além de seus próprios apetites, não pode haver regra geral para as ações boas e más.

Numa república, porém, essa medida é falsa. Não é o apetite dos homens particulares, mas a lei, que é a vontade e o apetite do Estado, que constitui a medida.

Apesar disso, essa doutrina continua a ser praticada. Os homens julgam a bondade ou a maldade de suas próprias ações, das ações alheias e das ações da própria república segundo suas paixões. Ninguém chama coisa alguma de boa ou má senão aquilo que assim lhe parece aos próprios olhos, sem consideração alguma pelas leis públicas.

A única exceção são os monges e frades, obrigados por voto àquela obediência simples a seu superior à qual todo súdito deveria considerar-se obrigado, pela lei de natureza, em relação ao soberano civil.

Essa medida privada do bem é doutrina não apenas vã, mas também perniciosa ao Estado público.

E que o casamento legítimo é falta de castidade

É também filosofia vã e falsa afirmar que o ato matrimonial é contrário à castidade ou à continência e, por consequência, transformá-lo em vício moral, como fazem aqueles que alegam a castidade e a continência como fundamento para negar o casamento ao clero.

Pois confessam que não passa de uma constituição da Igreja exigir daqueles que, nas ordens sagradas, assistem continuamente ao altar e à administração da Eucaristia uma abstinência contínua das mulheres, sob os nomes de castidade, continência e pureza contínuas.

Por isso, chamam o uso legítimo das esposas de falta de castidade e continência e, assim, fazem do casamento um pecado ou, pelo menos, uma coisa tão impura e imunda que torna o homem inapto para o altar.

Se essa lei foi estabelecida porque o uso das esposas é incontinência e contrário à castidade, então todo casamento é vício.

Se foi estabelecida porque tal uso é demasiado impuro e imundo para um homem consagrado a Deus, então, com muito maior razão, outras operações naturais, necessárias e cotidianas, realizadas por todos os homens, deveriam torná-los indignos do sacerdócio, por serem ainda mais impuras.

Mas não é provável que o fundamento secreto dessa proibição do casamento dos sacerdotes tenha sido assentado tão superficialmente sobre tais erros de filosofia moral, nem apenas sobre a preferência da vida solteira ao estado matrimonial.

Essa preferência procedeu da sabedoria de São Paulo, que percebeu quão inconveniente seria para aqueles que, nos tempos de perseguição, pregavam o Evangelho e eram forçados a fugir de um país para outro ficarem sobrecarregados com os cuidados de esposa e filhos.

O verdadeiro fundamento foi antes o desígnio dos papas e sacerdotes de tempos posteriores de fazerem de si mesmos o clero, isto é, os únicos herdeiros do reino de Deus neste mundo.

Para isso, era necessário privá-los do uso do casamento, porque nosso Salvador diz que, na vinda de seu reino, os filhos de Deus “nem se casarão nem serão dados em casamento, mas serão como os anjos no céu”, isto é, espirituais.

Tendo, portanto, assumido para si o nome de espirituais, permitir-se, quando já não havia necessidade, a propriedade de esposas teria sido uma incongruência.

E que todo governo, exceto o popular, é tirania

Da filosofia civil de Aristóteles, aprenderam a chamar tirania a toda espécie de república que não fosse popular, como era naquele tempo o Estado de Atenas.

A todos os reis chamavam tiranos, e à aristocracia dos trinta governantes estabelecidos pelos lacedemônios que os haviam subjugado chamavam os Trinta Tiranos.

Do mesmo modo, chamavam liberdade à condição do povo sob uma democracia.

Originalmente, tirano não significava nada além de monarca. Mas, depois que essa forma de governo foi abolida na maior parte da Grécia, o nome passou a significar não apenas aquilo que antes significava, mas também o ódio que os Estados populares lhe dedicavam.

Assim também o nome de rei se tornou odioso depois da deposição dos reis em Roma, pois é natural a todos os homens conceber que algum grande defeito seja significado por qualquer atributo empregado com desprezo contra um grande inimigo.

E, quando os mesmos homens se desagradam daqueles que administram a democracia ou a aristocracia, não lhes faltam nomes infamantes para exprimir sua ira. Chamam prontamente a primeira de anarquia, e a segunda de oligarquia ou tirania de poucos.

Aquilo que ofende o povo não é outra coisa senão ser governado, não como cada indivíduo desejaria governar-se, mas como o representante público, seja ele um homem ou uma assembleia de homens, considera conveniente, isto é, por um governo arbitrário.

Por isso, atribuem nomes maus a seus superiores, sem jamais saberem, talvez até pouco depois de uma guerra civil, que, sem tal governo arbitrário, essa guerra deve ser perpétua, e que são os homens e as armas, não as palavras e promessas, que constituem a força e o poder das leis.

Que não são os homens, mas a lei, que governa

É, portanto, outro erro da Política de Aristóteles afirmar que, numa república bem ordenada, não devem governar os homens, mas as leis.

Que homem dotado de seus sentidos naturais, ainda que não saiba ler nem escrever, não percebe que é governado por aqueles a quem teme e que acredita poderem matá-lo ou feri-lo quando desobedece?

Ou quem acredita que a lei possa feri-lo, isto é, palavras e papel sem as mãos e espadas dos homens?

Esse erro pertence ao número dos erros perniciosos, pois induz os homens, sempre que não gostam de seus governantes, a aderir àqueles que os chamam tiranos e a considerar lícito levantar guerra contra eles.

E, contudo, muitas vezes são encorajados a isso pelo clero, desde o púlpito.

Leis sobre a consciência

Há outro erro em sua filosofia civil, que nunca aprenderam de Aristóteles, de Cícero nem de qualquer outro pagão: estender o poder da lei, que é regra apenas das ações, aos próprios pensamentos e consciências dos homens, mediante o exame e a inquisição daquilo que sustentam, apesar da conformidade de suas palavras e ações.

Por esse meio, os homens são punidos por responderem com a verdade acerca de seus pensamentos ou são constrangidos, por medo do castigo, a responder falsamente.

É verdade que o magistrado civil, pretendendo empregar um ministro no encargo de ensinar, pode perguntar-lhe se está disposto a pregar determinadas doutrinas e, caso ele se recuse, pode negar-lhe o emprego.

Mas obrigá-lo a acusar a si mesmo por causa de suas opiniões, quando suas ações não são proibidas pela lei, é contrário à lei de natureza, especialmente entre aqueles que ensinam que um homem será condenado a tormentos eternos e extremos se morrer sustentando uma opinião falsa acerca de algum artigo da fé cristã.

Pois quem há que, sabendo existir tamanho perigo no erro, não seja compelido pelo cuidado natural de si mesmo a arriscar sua alma segundo o próprio juízo, em vez de confiá-la ao juízo de qualquer outro homem que não terá parte alguma em sua condenação?

Interpretação privada da lei

Que um homem particular, sem a autoridade da república, isto é, sem a permissão de seu representante, interprete a lei segundo seu próprio espírito é outro erro da política, mas não extraído de Aristóteles nem de qualquer outro filósofo pagão.

Nenhum deles nega que no poder de fazer leis esteja compreendido também o poder de explicá-las quando houver necessidade.

E não são as Escrituras, em todos os lugares onde possuem força de lei, tornadas leis pela autoridade da república e, consequentemente, parte da lei civil?

Da mesma espécie é também o erro cometido quando qualquer pessoa, exceto o soberano, restringe em alguém um poder que a república não restringiu, como fazem aqueles que reservam a pregação do Evangelho a uma ordem determinada de homens, onde as leis a deixaram livre.

Se o Estado me permite pregar ou ensinar, isto é, se não mo proíbe, nenhum homem pode proibir-me.

Se eu me encontrar entre os idólatras da América, deverei eu, sendo cristão, embora não ordenado, considerar pecado pregar Jesus Cristo até que tenha recebido ordens de Roma?

Ou, depois de haver pregado, não deverei responder às suas dúvidas e explicar-lhes as Escrituras, isto é, não deverei ensinar?

Talvez alguém diga que, nesse caso, assim como no da administração dos sacramentos, a necessidade deverá ser considerada missão suficiente, o que é verdade.

Mas também é verdade que, para tudo aquilo em que uma dispensa é devida por necessidade, não há necessidade alguma de dispensa quando não existe lei que o proíba.

Portanto, negar essas funções àqueles a quem o soberano civil não as negou é retirar uma liberdade legítima, o que é contrário à doutrina do governo civil.

A linguagem dos teólogos escolásticos

Poderiam ser apresentados mais exemplos de filosofia vã introduzida na religião pelos doutores da teologia escolástica, mas outros homens, caso queiram, podem observá-los por si mesmos.

Acrescentarei apenas isto: os escritos dos teólogos escolásticos, em sua maior parte, nada mais são que sequências destituídas de significação, compostas de palavras estranhas e bárbaras, ou de palavras empregadas de modo diferente do uso comum da língua latina, tais que confundiriam Cícero, Varrão e todos os gramáticos da antiga Roma.

Se alguém quiser ver isso provado, procure, como já disse anteriormente, verificar se consegue traduzir algum teólogo escolástico para qualquer das línguas modernas, como o francês, o inglês ou alguma outra língua abundante.

Pois aquilo que não pode ser tornado inteligível na maioria dessas línguas tampouco é inteligível em latim.

Embora eu não possa qualificar essa falta de significação da linguagem como filosofia falsa, ela possui a capacidade não apenas de ocultar a verdade, mas também de levar os homens a pensar que a possuem e, assim, fazê-los desistir de procurá-la mais adiante.

Erros provenientes da tradição

Por fim, quanto aos erros introduzidos por histórias falsas ou incertas, que é toda a lenda dos milagres fictícios contidos nas vidas dos santos, e todas as histórias de aparições e espectros alegadas pelos doutores da Igreja de Roma para sustentar suas doutrinas do inferno e do purgatório, o poder do exorcismo e outras doutrinas que não possuem fundamento nem na razão nem nas Escrituras, assim como todas as tradições que chamam Palavra de Deus não escrita, senão fábulas de velhas?

Embora encontrem algumas dessas coisas dispersas nos escritos dos antigos Padres, esses Padres eram homens que podiam acreditar com excessiva facilidade em relatos falsos.

E apresentar suas opiniões como testemunho da verdade daquilo em que acreditavam não exerce, sobre aqueles que, seguindo o conselho de São João na Primeira Epístola, capítulo 4, versículo 1, examinam os espíritos, outra força senão a de desacreditar seu testemunho em tudo aquilo que diz respeito ao poder da Igreja de Roma, cujo abuso ou não suspeitavam ou lhes trazia benefício, em razão de sua crença demasiado precipitada nos relatos.

Os homens mais sinceros, quando desprovidos de grande conhecimento das causas naturais, como estavam os Padres, são geralmente os mais sujeitos a essa credulidade, pois, por natureza, os melhores homens são os que menos suspeitam de propósitos fraudulentos.

O papa Gregório e São Bernardo relatam algumas aparições de espectros que diziam estar no purgatório, e o mesmo faz nosso Beda, mas, segundo creio, em nenhum lugar senão com base no relato de outros.

Contudo, se eles ou qualquer outro narrarem histórias semelhantes como provenientes de seu próprio conhecimento, não confirmarão por isso tais relatos vãos, mas apenas revelarão sua própria fraqueza ou fraude.

Supressão da razão

À introdução da falsa filosofia podemos acrescentar também a supressão da verdadeira, praticada por homens que não são, nem por autoridade legítima nem por estudo suficiente, juízes competentes da verdade.

Nossas próprias navegações tornam manifesto, e todos os homens instruídos nas ciências humanas hoje reconhecem, que existem antípodas. E a cada dia se torna mais evidente que os anos e os dias são determinados pelos movimentos da Terra.

Não obstante, homens que em seus escritos apenas apresentaram como hipótese semelhante doutrina, a fim de expor as razões favoráveis e contrárias a ela, foram por isso punidos pela autoridade eclesiástica.

Mas que razão há para isso?

Será porque tais opiniões são contrárias à verdadeira religião? Isso não pode ocorrer se forem verdadeiras.

Que a verdade seja, portanto, primeiro examinada por juízes competentes, ou refutada por aqueles que pretendem conhecer o contrário.

Será porque são contrárias à religião estabelecida? Nesse caso, que sejam silenciadas pelas leis daqueles aos quais seus mestres estão sujeitos, isto é, pelas leis civis. Pois a desobediência pode ser legitimamente punida naqueles que, contrariando as leis, ensinam até mesmo a verdadeira filosofia.

Será porque tendem a produzir desordem no governo, favorecendo a rebelião ou a sedição? Então que sejam silenciadas e seus mestres punidos em virtude do poder daquele a quem foi confiado o cuidado da tranquilidade pública, isto é, pela autoridade civil.

Pois todo poder que os eclesiásticos assumem para si, por direito próprio, em qualquer lugar onde estejam sujeitos ao Estado, ainda que o chamem direito de Deus, não passa de usurpação.

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