Capítulo XXXVIII - Da Significação, Nas Escrituras, De Vida Eterna, Inferno, Salvação, Mundo Vindouro E Redenção Leviatã · Capítulo 39 de 49
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Capítulo XXXVIII - Da Significação, Nas Escrituras, De Vida Eterna, Inferno, Salvação, Mundo Vindouro E Redenção

Capítulo XXXVIII - Da Significação, Nas Escrituras, De Vida Eterna, Inferno, Salvação, Mundo Vindouro E Redenção

A conservação da sociedade civil depende da justiça; e a justiça, do poder de vida e morte, bem como de conceder outras recompensas menores e infligir outros castigos menores, poder este que reside naqueles que possuem a soberania da república. É impossível, portanto, que uma república subsista quando alguém que não seja o soberano possui o poder de conceder recompensas maiores do que a vida e de infligir castigos maiores do que a morte.

Ora, sendo a vida eterna recompensa maior do que a vida presente, e o tormento eterno castigo maior do que a morte natural, é questão digna de cuidadosa consideração por parte de todos os homens que desejam, mediante a obediência à autoridade, evitar as calamidades da confusão e da guerra civil, saber o que se entende nas Sagradas Escrituras por vida eterna e tormento eterno; por quais ofensas, cometidas contra quem, os homens devem ser eternamente atormentados; e por quais ações devem obter a vida eterna.

O lugar da eternidade de Adão, caso não tivesse pecado, era o Paraíso terrestre

Primeiramente, verificamos que Adão foi criado numa condição de vida tal que, se não tivesse transgredido o mandamento de Deus, teria desfrutado dela eternamente no Paraíso do Éden. Pois ali estava a árvore da vida, da qual lhe era permitido comer enquanto se abstivesse de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, que lhe era proibida.

Por isso, logo que dela comeu, Deus o expulsou do Paraíso, “para que não estendesse a mão, tomasse também da árvore da vida e vivesse para sempre” (Gênesis 3,22).

Disso me parece decorrer, submetendo-me, não obstante, tanto neste ponto como em todas as questões cuja determinação depende das Escrituras, à interpretação da Bíblia autorizada pela república da qual sou súdito, que Adão, caso não tivesse pecado, teria possuído vida eterna sobre a Terra; e que a mortalidade recaiu sobre ele e sobre sua posteridade em consequência de seu primeiro pecado.

Não que a morte efetiva tenha então sobrevindo, pois, nesse caso, Adão jamais poderia ter tido filhos, ao passo que viveu ainda por muito tempo e contemplou numerosa posteridade antes de morrer. Mas, quando se diz: “No dia em que dela comeres, certamente morrerás”, deve necessariamente entender-se que ele se tornaria mortal e que sua morte passaria a ser certa.

Visto, portanto, que a vida eterna foi perdida pela transgressão de Adão ao cometer o pecado, aquele que anulasse essa perda deveria, por isso mesmo, recuperar novamente aquela vida. Ora, Jesus Cristo satisfez pelos pecados de todos os que nele acreditam e, portanto, recuperou para todos os que acreditam aquela VIDA ETERNA que havia sido perdida pelo pecado de Adão.

É nesse sentido que se sustenta a comparação de São Paulo, em Romanos 5,18-19:

“Assim como pela ofensa de um só veio o julgamento sobre todos os homens para condenação, assim também pela justiça de um só veio sobre todos os homens o dom gratuito para justificação da vida.”

O mesmo é expresso de modo ainda mais claro em 1 Coríntios 15,21-22:

“Pois, assim como por um homem veio a morte, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados.”

Textos acerca do lugar da vida eterna dos que acreditam

Quanto ao lugar no qual os homens desfrutarão daquela vida eterna que Cristo obteve para eles, os textos há pouco citados parecem situá-lo sobre a Terra.

Pois, se assim como em Adão todos morrem, isto é, perderam o Paraíso e a vida eterna sobre a Terra, assim também em Cristo todos serão vivificados, então todos os homens serão feitos para viver sobre a Terra. Caso contrário, a comparação não seria adequada.

Com isso parece concordar o que diz o salmista: “Sobre Sião Deus ordenou a bênção, a saber, a vida para sempre” (Salmos 133,3), pois Sião está em Jerusalém, sobre a Terra.

Também concorda com isso São João, em Apocalipse 2,7: “Ao que vencer, darei de comer da árvore da vida, que está no meio do Paraíso de Deus.” Essa era a árvore da vida eterna de Adão, mas sua vida deveria ter sido sobre a Terra.

O mesmo parece ser novamente confirmado por São João, em Apocalipse 21,2, onde diz:

“Eu, João, vi a Cidade Santa, a Nova Jerusalém, descendo do céu, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para seu marido.”

E novamente, no versículo 10, afirma coisa do mesmo sentido. É como se dissesse que a Nova Jerusalém, o Paraíso de Deus, na segunda vinda de Cristo, desceria do céu até o povo de Deus, e não que o povo subiria da Terra até ela.

Isso em nada difere do que os dois homens vestidos de branco, isto é, os dois anjos, disseram aos apóstolos que contemplavam a ascensão de Cristo:

“Esse mesmo Jesus, que dentre vós foi elevado ao céu, virá do mesmo modo como o vistes subir ao céu” (Atos 1,11).

Essas palavras soam como se tivessem dito que Ele desceria para governá-los sob seu Pai, eternamente aqui, e não que os levaria para governá-los no céu. E isso está de acordo com a restauração do Reino de Deus instituído sob Moisés, que era um governo político dos judeus sobre a Terra.

Também as palavras de nosso Salvador, segundo as quais, na ressurreição, “nem se casam nem são dados em casamento, mas são como os anjos de Deus no céu” (Mateus 22,30), descrevem uma vida eterna semelhante àquela que perdemos em Adão, no que se refere ao casamento.

Pois, visto que Adão e Eva, se não tivessem pecado, teriam vivido eternamente sobre a Terra em suas pessoas individuais, é manifesto que não continuariam perpetuamente a gerar sua espécie. Porque, se os imortais gerassem como agora faz a humanidade, em pouco tempo a Terra não poderia oferecer-lhes sequer lugar onde permanecer.

Os judeus que perguntaram a nosso Salvador de qual dos muitos irmãos seria esposa, na ressurreição, a mulher que se casara sucessivamente com eles, não compreendiam as consequências da imortalidade: que não haverá geração e, consequentemente, tampouco casamento, assim como não há casamento nem geração entre os anjos.

A comparação entre aquela vida eterna que Adão perdeu e aquela que nosso Salvador recuperou por sua vitória sobre a morte mantém-se também neste ponto: assim como Adão perdeu a vida eterna por seu pecado e, contudo, ainda viveu algum tempo depois dele, o cristão fiel recuperou a vida eterna pela paixão de Cristo, embora morra de morte natural e permaneça morto por algum tempo, a saber, até a ressurreição.

Pois, assim como a morte é contada a partir da condenação de Adão, e não a partir da execução dessa condenação, também a vida é contada a partir da absolvição, e não a partir da ressurreição daqueles que foram eleitos em Cristo.

Ascensão ao céu

Que o lugar em que os homens deverão viver eternamente depois da ressurreição sejam os céus, entendendo-se por céu aquelas partes do mundo mais distantes da Terra, onde se encontram as estrelas, ou acima das estrelas, em outro céu superior chamado Caelum Empyreum, do qual não há menção nas Escrituras nem fundamento na razão, não é algo que se possa extrair facilmente de qualquer texto que eu conheça.

Por Reino dos Céus entende-se o reino do Rei que habita no céu. E seu reino era o povo de Israel, que Ele governou por meio dos profetas, seus lugar-tenentes: primeiro Moisés; depois dele, Eleazar e os sacerdotes soberanos, até o tempo de Samuel, quando os israelitas se rebelaram e quiseram ter como rei um homem mortal, à maneira das outras nações.

Quando nosso Salvador Cristo, mediante a pregação de seus ministros, tiver persuadido os judeus a retornar e chamado os gentios à sua obediência, haverá então um novo Reino dos Céus, porque nosso Rei será Deus, cujo trono está no céu, sem que haja nas Escrituras qualquer necessidade evidente de que o homem ascenda para alcançar sua felicidade a lugar mais alto do que o escabelo de Deus, que é a Terra.

Ao contrário, encontramos escrito em João 3,13:

“Ninguém subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu.”

Observo, de passagem, que essas palavras não são, como as que imediatamente as precedem, palavras de nosso Salvador, mas do próprio São João, pois Cristo não estava então no céu, mas sobre a Terra.

Coisa semelhante se diz de Davi em Atos 2,34, onde São Pedro, para provar a ascensão de Cristo, empregando as palavras do salmista, “Não deixarás minha alma no inferno, nem permitirás que teu Santo veja a corrupção” (Salmos 16,10), afirma que elas foram ditas não acerca de Davi, mas de Cristo. E, para prová-lo, acrescenta esta razão: “Pois Davi não subiu ao céu.”

Mas alguém poderia facilmente responder que, embora os corpos deles não devessem ascender antes do dia do Juízo universal, suas almas estavam no céu desde o momento em que deixaram seus corpos.

Isso também parece ser confirmado pelas palavras de nosso Salvador em Lucas 20,37-38. Demonstrando a ressurreição com base nas palavras de Moisés, Ele diz:

“Que os mortos ressuscitam, até Moisés o mostrou na passagem da sarça, quando chama o Senhor de Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó. Pois Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos, porque todos vivem para Ele.”

Mas, se essas palavras forem entendidas apenas como prova da imortalidade da alma, não demonstram de modo algum aquilo que nosso Salvador pretendia demonstrar, que era a ressurreição do corpo, isto é, a imortalidade do homem.

Nosso Salvador quer dizer, portanto, que aqueles patriarcas eram imortais, não por uma propriedade decorrente da essência e da natureza da humanidade, mas pela vontade de Deus, que se comprazia, por sua pura graça, em conceder vida eterna aos fiéis.

E, embora naquele tempo os patriarcas e muitos outros homens fiéis estivessem mortos, ainda assim, como diz o texto, viviam para Deus, isto é, estavam inscritos no Livro da Vida juntamente com aqueles que haviam sido absolvidos de seus pecados e destinados à vida eterna na ressurreição.

A doutrina de que a alma do homem é, por sua própria natureza, eterna e uma criatura viva independente do corpo, ou de que algum mero homem seja imortal de outro modo que não pela ressurreição no último dia, com exceção de Enoque e Elias, não aparece nas Escrituras.

Todo o capítulo 14 de Jó, que contém o discurso não de seus amigos, mas do próprio Jó, é uma lamentação acerca dessa mortalidade da natureza, sem que com isso contradiga a imortalidade na ressurreição.

“Há esperança para a árvore”, diz ele no versículo 7, “pois, ainda que seja cortada, tornará a brotar; ainda que sua raiz envelheça na terra, e seu tronco morra no solo, ao sentir a água germinará e produzirá ramos como uma planta. Mas o homem morre e se desfaz; o homem entrega o espírito, e onde está?”

E, no versículo 12:

“O homem jaz e não se levanta até que os céus já não existam.”

Mas quando será que os céus já não existirão? São Pedro nos diz que isso ocorrerá na ressurreição universal. Pois, em sua segunda Epístola, capítulo 3, versículo 7, afirma:

“Os céus e a Terra que agora existem estão reservados para o fogo, até o dia do Juízo e da perdição dos homens ímpios.”

E, no versículo 12:

“Aguardando e apressando a vinda do dia de Deus, em que os céus, incendiados, serão dissolvidos, e os elementos se derreterão com calor ardente. Nós, porém, segundo sua promessa, esperamos novos céus e nova Terra, nos quais habita a justiça.”

Portanto, quando Jó diz que o homem não se levanta até que os céus já não existam, é como se dissesse que a vida imortal, pois alma e vida nas Escrituras costumam significar a mesma coisa, não começa no homem antes da ressurreição e do dia do Juízo; e que sua causa não é sua natureza específica nem sua geração, mas a promessa.

São Pedro não diz: “Esperamos, pela natureza, novos céus e nova Terra”, mas: “segundo a promessa”.

Por fim, visto que já foi provado, com base em diversas passagens evidentes das Escrituras, no capítulo 35 deste livro, que o Reino de Deus é uma república civil, na qual o próprio Deus é soberano, primeiramente em virtude do antigo pacto e depois do novo pacto, governando por meio de seu vigário ou lugar-tenente, as mesmas passagens também provam que, depois que nosso Salvador vier novamente em sua majestade e glória para reinar de modo efetivo e eterno, o Reino de Deus estará sobre a Terra.

Mas, porque essa doutrina, embora provada por passagens das Escrituras que não são poucas nem obscuras, parecerá novidade à maioria dos homens, limito-me a propô-la, sem sustentar de modo absoluto este ou qualquer outro paradoxo religioso, e aguardando o desfecho daquela disputa da espada acerca da autoridade, ainda não decidida entre meus compatriotas, pela qual todas as espécies de doutrina devem ser aprovadas ou rejeitadas; e cujos mandamentos, tanto na fala como na escrita, quaisquer que sejam as opiniões particulares dos homens, devem ser obedecidos por todos os que pretendam ser protegidos por suas leis.

Pois os pontos de doutrina concernentes ao Reino de Deus exercem influência tão grande sobre o reino dos homens que não devem ser determinados senão por aqueles que, sob Deus, possuem o poder soberano.

O lugar, depois do Juízo, daqueles que nunca estiveram no Reino de Deus ou que, tendo estado nele, foram expulsos

Assim como o Reino de Deus e a vida eterna, também os inimigos de Deus e seus tormentos depois do Juízo parecem, segundo as Escrituras, ter seu lugar sobre a Terra.

O nome do lugar onde todos os homens permanecem até a ressurreição, quer tenham sido sepultados, quer tenham sido tragados pela terra, é comumente expresso nas Escrituras por palavras que significam debaixo da terra, as quais os latinos traduzem geralmente por Infernus e Inferni, e os gregos por Hades, isto é, um lugar onde os homens não podem ver, abrangendo tanto a sepultura como qualquer lugar mais profundo.

Quanto ao lugar dos condenados depois da ressurreição, ele não é determinado, nem no Antigo nem no Novo Testamento, por qualquer indicação de situação, mas apenas pela companhia em que estarão. Diz-se, por exemplo, que estarão onde se encontram aqueles homens perversos que Deus, em tempos anteriores, destruiu da face da Terra de modo extraordinário e milagroso.

Assim, afirma-se que estão no Inferno, no Tártaro ou no abismo sem fundo, porque Coré, Datã e Abirão foram tragados vivos pela terra. Isso não significa que os autores das Escrituras quisessem que acreditássemos ser possível existir, no globo terrestre, que não apenas é finito, mas também, comparado com a altura das estrelas, de grandeza insignificante, um abismo sem fundo, isto é, uma abertura de profundidade infinita, como aquela que os gregos, em sua demonologia, ou seja, em sua doutrina acerca dos demônios, e depois deles os romanos, chamavam Tártaro, e da qual Virgílio diz:

Bis patet in præceps tantum tenditque sub umbras,

Quantus ad aetherium caeli suspectus Olympum.

Pois tal coisa é incompatível com a proporção entre a Terra e o céu. O sentido é que devemos acreditar que eles estão, de maneira indeterminada, onde se encontram aqueles homens sobre os quais Deus infligiu aquele castigo exemplar.

A congregação dos gigantes

Além disso, visto que aqueles homens poderosos da Terra que viveram no tempo de Noé, antes do dilúvio, chamados pelos gregos de heróis e pelas Escrituras de gigantes, e dos quais ambos afirmam terem sido gerados pela união dos filhos de Deus com as filhas dos homens, foram destruídos pelo dilúvio universal por causa de sua vida perversa, o lugar dos condenados é também, algumas vezes, indicado pela companhia daqueles gigantes mortos.

Assim se lê em Provérbios 21,16:

“O homem que se desvia do caminho do entendimento permanecerá na congregação dos gigantes.”

E em Jó 26,5:

“Eis que os gigantes gemem sob as águas, juntamente com os que habitam com eles.”

Aqui, o lugar dos condenados está sob as águas.

E em Isaías 14,9:

“O inferno se agita para receber-te”, isto é, para receber o rei da Babilônia, “e despertará os gigantes por tua causa.”

Aqui, novamente, o lugar dos condenados, caso o sentido seja literal, deve estar sob as águas.

Lago de fogo

Em terceiro lugar, visto que as cidades de Sodoma e Gomorra foram consumidas, por causa de sua perversidade, pelo extraordinário furor de Deus, com fogo e enxofre, e que juntamente com elas a região ao redor foi transformada num lago betuminoso e fétido, o lugar dos condenados é algumas vezes expresso pelo fogo e por um lago de fogo.

Assim se lê no Apocalipse 21,8:

“Mas os medrosos, os incrédulos, os abomináveis, os assassinos, os libertinos, os feiticeiros, os idólatras e todos os mentirosos terão sua parte no lago que arde com fogo e enxofre, que é a segunda morte.”

É manifesto, portanto, que o fogo do inferno, aqui expresso metaforicamente a partir do fogo real de Sodoma, não significa uma espécie determinada de tormento nem um lugar determinado, mas deve ser entendido de maneira indeterminada como destruição.

Assim ocorre no capítulo 20, versículo 14, onde se diz que “a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo”, isto é, foram abolidos e destruídos. É como se, depois do dia do Juízo, já não houvesse morte nem descida ao inferno, isto é, ao Hades, palavra da qual talvez se derive nossa palavra Hell, e que equivale a não morrer mais.

Trevas exteriores

Em quarto lugar, por causa da praga das trevas infligida aos egípcios, da qual está escrito: “Não viam uns aos outros, nem homem algum se levantou de seu lugar durante três dias, mas todos os filhos de Israel tinham luz em suas habitações” (Êxodo 10,23), o lugar dos perversos depois do Juízo é chamado trevas exteriores, ou, como consta no original, trevas de fora.

Assim é expresso em Mateus 22,13, onde o rei ordena a seus servos que amarrem de mãos e pés o homem que não vestia a roupa nupcial e que o lancem:

Eis to skotos to exoteron,

isto é, nas trevas externas, ou trevas de fora.

Embora se traduza essa expressão por trevas extremas, ela não significa quão grandes são essas trevas, mas onde se encontram, a saber, fora da habitação dos eleitos de Deus.

Geena e Tofete

Por fim, havia nas proximidades de Jerusalém um lugar chamado vale dos filhos de Hinom. Numa parte desse vale, chamada Tofete, os judeus haviam cometido gravíssima idolatria, sacrificando seus filhos ao ídolo Moloque. Nesse mesmo lugar, Deus também havia infligido castigos severíssimos a seus inimigos, e Josias queimara os sacerdotes de Moloque sobre seus próprios altares, como se relata extensamente no segundo Livro dos Reis, capítulo 23.

Posteriormente, esse lugar passou a receber a sujeira e os resíduos levados para fora da cidade, e ali se acendiam fogueiras de tempos em tempos para purificar o ar e eliminar o mau cheiro dos cadáveres.

A partir desse lugar abominável, os judeus passaram depois a chamar o lugar dos condenados pelo nome de Geena, ou vale de Hinom. E essa palavra, Geena, é aquela que hoje se traduz comumente por INFERNO. Das fogueiras que ali ardiam de tempos em tempos procede a noção de fogo eterno e inextinguível.

Do sentido literal das Escrituras acerca do inferno

Ora, visto que ninguém interpreta as Escrituras de maneira a afirmar que, depois do dia do Juízo, todos os perversos serão eternamente castigados no vale de Hinom, ou que ressuscitarão para permanecer para sempre sob a terra ou sob as águas, ou que, depois da ressurreição, já não verão uns aos outros nem poderão mover-se de um lugar para outro, segue-se, parece-me, com grande necessidade, que aquilo que se diz acerca do fogo do inferno é dito metaforicamente.

Deve-se, portanto, procurar o sentido próprio, pois toda metáfora possui algum fundamento real que pode ser expresso em palavras próprias, tanto do lugar do inferno como da natureza dos tormentos infernais e dos que os infligem.

Satanás e diabo não são nomes próprios, mas comuns

Primeiramente, quanto aos que infligem os tormentos, sua natureza e suas propriedades são apresentadas de modo exato e próprio pelos nomes de inimigo, ou Satanás; acusador, ou Diabolus; e destruidor, ou Abadom.

Esses nomes significativos, Satanás, Diabo e Abadom, não designam uma pessoa individual, como costumam fazer os nomes próprios, mas apenas um ofício ou uma qualidade. São, portanto, nomes comuns, que não deveriam ter sido deixados sem tradução, como ocorre nas Bíblias latinas e modernas.

Por terem permanecido sem tradução, parecem ser nomes próprios de demônios, e os homens são mais facilmente seduzidos a acreditar na doutrina dos diabos, que naquele tempo constituía a religião dos gentios e era contrária à doutrina de Moisés e de Cristo.

E porque por inimigo, acusador e destruidor se entende o inimigo daqueles que estarão no Reino de Deus, se o Reino de Deus, depois da ressurreição, estiver sobre a Terra, como demonstrei no capítulo precedente parecer decorrer das Escrituras, também o inimigo e seu reino deverão estar sobre a Terra.

Assim também ocorria antes de os judeus terem deposto Deus. O Reino de Deus estava na Palestina, e as nações ao redor eram os reinos do inimigo. Consequentemente, por Satanás entende-se qualquer inimigo terreno da Igreja.

Os tormentos do inferno

Os tormentos do inferno são expressos algumas vezes por “choro e ranger de dentes”, como em Mateus 8,12; algumas vezes pelo “verme da consciência”, como em Isaías 66,24 e Marcos 9,44, 46 e 48; algumas vezes pelo fogo, como na passagem há pouco citada, “onde o verme não morre e o fogo não se apaga”, e em muitas outras passagens; e algumas vezes pela “vergonha e desprezo”, como em Daniel 12,2:

“E muitos dos que dormem no pó da Terra despertarão, uns para a vida eterna, e outros para a vergonha e o desprezo eterno.”

Todas essas passagens designam metaforicamente a dor e o descontentamento da mente produzidos pela visão daquela felicidade eterna que existe nos outros e que eles próprios perderam por causa de sua incredulidade e desobediência.

E, porque tal felicidade nos outros só pode ser percebida por comparação com suas próprias misérias efetivas, segue-se que eles deverão sofrer dores e calamidades corporais semelhantes àquelas a que estão sujeitos os que não apenas vivem sob governantes maus e cruéis, mas têm também como inimigo o eterno Rei dos santos, Deus Todo-Poderoso.

Entre essas dores corporais deve ser incluída, para cada um dos perversos, uma segunda morte.

Pois, embora as Escrituras sejam claras quanto a uma ressurreição universal, não lemos que a algum dos réprobos seja prometida vida eterna.

Quando São Paulo, respondendo à pergunta sobre com que corpos os homens ressuscitarão, diz em 1 Coríntios 15,42-43 que “o corpo é semeado em corrupção e ressuscita em incorrupção; é semeado em desonra e ressuscita em glória; é semeado em fraqueza e ressuscita em poder”, a glória e o poder não podem ser aplicados aos corpos dos perversos.

Tampouco o nome de segunda morte pode ser aplicado àqueles que só podem morrer uma vez.

E, embora, em linguagem metafórica, uma vida eternamente calamitosa possa ser chamada de morte eterna, essa expressão não pode ser adequadamente entendida como segunda morte.

O fogo preparado para os perversos é um fogo eterno, isto é, a condição na qual nenhum homem poderá estar sem tormento do corpo e da mente, depois da ressurreição, durará para sempre. Nesse sentido, o fogo será inextinguível e os tormentos eternos.

Mas não se pode daí inferir que aquele que for lançado nesse fogo ou atormentado por esses tormentos perdurará e resistirá a eles de tal modo que será eternamente queimado e torturado, sem jamais ser destruído nem morrer.

Embora haja muitas passagens que afirmem a existência de fogo e tormentos eternos, nos quais os homens podem ser lançados sucessivamente, uns após outros, para sempre, não encontro nenhuma que afirme que alguma pessoa individual possuirá ali vida eterna.

Ao contrário, as Escrituras afirmam uma morte eterna, que é a segunda morte. Assim se lê em Apocalipse 20,13-14:

“Depois que a morte e a sepultura tiverem entregado os mortos que nelas estavam, e cada homem tiver sido julgado segundo suas obras, a morte e a sepultura serão também lançadas no lago de fogo. Esta é a segunda morte.”

Disso se evidencia que haverá uma segunda morte para cada um dos que forem condenados no dia do Juízo, depois da qual já não morrerão novamente.

As alegrias da vida eterna e a salvação são a mesma coisa; salvação do pecado e salvação da miséria são uma só coisa

As alegrias da vida eterna são todas compreendidas nas Escrituras sob o nome de SALVAÇÃO, ou de ser salvo.

Ser salvo é estar protegido, seja relativamente, contra males determinados, seja absolutamente, contra todo mal, incluindo a necessidade, a enfermidade e a própria morte.

E, porque o homem foi criado numa condição imortal, não sujeito à corrupção e, consequentemente, a coisa alguma que tendesse à dissolução de sua natureza, mas decaiu daquela felicidade pelo pecado de Adão, segue-se que ser salvo do pecado é ser salvo de todos os males e calamidades que o pecado trouxe sobre nós.

Por isso, nas Sagradas Escrituras, a remissão do pecado e a salvação da morte e da miséria são a mesma coisa, como se evidencia pelas palavras de nosso Salvador. Tendo curado um homem enfermo de paralisia, dizendo-lhe: “Filho, tem bom ânimo; teus pecados te são perdoados” (Mateus 9,2), e sabendo que os escribas consideravam blasfêmia que um homem pretendesse perdoar pecados, perguntou-lhes, no versículo 5:

“Que é mais fácil dizer: Teus pecados te são perdoados, ou: Levanta-te e anda?”

Com isso significava que, quanto à salvação do enfermo, era a mesma coisa dizer “Teus pecados te são perdoados” e “Levanta-te e anda”, e que empregara aquela forma de falar apenas para mostrar que possuía poder para perdoar pecados.

Além disso, é evidente pela razão que, visto serem a morte e a miséria castigos do pecado, a liberação do pecado deve ser também uma liberação da morte e da miséria, isto é, salvação absoluta, tal como os fiéis deverão desfrutar depois do dia do Juízo, pelo poder e favor de Jesus Cristo, que por essa razão é chamado nosso SALVADOR.

Quanto às salvações particulares, como a que se entende em 1 Samuel 14,39: “Tão certo como vive o Senhor, que salva Israel”, isto é, que o salva de seus inimigos temporais; e em 2 Samuel 22,4: “Tu és meu Salvador, tu me salvas da violência”; e em 2 Reis 13,5: “Deus deu aos israelitas um salvador, e assim foram libertos da mão dos assírios”; e outras semelhantes, nada preciso dizer, pois não há dificuldade nem interesse que levem a corromper a interpretação de textos dessa espécie.

O lugar da salvação eterna

Mas, quanto à salvação geral, porque deve ocorrer no Reino dos Céus, há grande dificuldade acerca de seu lugar.

De um lado, pela palavra reino, que é uma condição ordenada pelos homens para sua segurança perpétua contra os inimigos e a necessidade, parece que essa salvação deve ocorrer sobre a Terra. Pois a salvação nos apresenta um reinado glorioso de nosso Rei por conquista, e não uma segurança por fuga.

Por isso, onde esperamos salvação, devemos esperar também triunfo; e antes do triunfo, vitória; e antes da vitória, batalha, o que não se pode supor adequadamente que ocorra no céu.

Mas, por melhor que seja essa razão, não confiarei nela sem passagens muito evidentes das Escrituras.

A condição da salvação é descrita extensamente em Isaías 33,20-24:

“Olha para Sião, a cidade de nossas solenidades; teus olhos verão Jerusalém, habitação tranquila, tabernáculo que não será removido; nenhuma de suas estacas será jamais arrancada, nem se romperá alguma de suas cordas.

Mas ali o glorioso Senhor será para nós como lugar de largos rios e correntes, por onde não passará galera movida a remos, nem navio majestoso o atravessará.

Pois o Senhor é nosso juiz, o Senhor é nosso legislador, o Senhor é nosso Rei; Ele nos salvará.

Tuas cordas estão frouxas; não puderam firmar bem seu mastro, nem estender a vela. Então será repartida a presa de um grande despojo; até os coxos tomarão a presa.

E nenhum habitante dirá: Estou enfermo. Ao povo que nela habitar será perdoada sua iniquidade.”

Nessas palavras temos o lugar de onde a salvação procederá: “Jerusalém, habitação tranquila”; sua eternidade: “um tabernáculo que não será removido”, e assim por diante; seu Salvador: “o Senhor, seu juiz, seu legislador, seu Rei, Ele nos salvará”; a própria salvação: “o Senhor será para eles como largos rios de águas velozes”, e assim por diante; a condição de seus inimigos: “suas cordas estão frouxas, seus mastros enfraquecidos, os coxos tomarão seu despojo”; a condição dos salvos: “os habitantes não dirão: Estou enfermo”.

E, finalmente, tudo isso está compreendido no perdão dos pecados: “Ao povo que nela habitar será perdoada sua iniquidade.”

Disso se evidencia que a salvação ocorrerá sobre a Terra, quando Deus reinar, na segunda vinda de Cristo, em Jerusalém; e de Jerusalém procederá a salvação dos gentios que forem recebidos no Reino de Deus.

Isso é declarado ainda mais expressamente pelo mesmo profeta, em Isaías 66,20-21:

“E eles”, isto é, os gentios que tivessem algum judeu em servidão, “trarão todos os vossos irmãos, dentre todas as nações, como oferta ao Senhor, sobre cavalos, em carros, em liteiras, sobre mulas e sobre animais velozes, ao meu santo monte, Jerusalém, diz o Senhor, assim como os filhos de Israel trazem uma oferta em vaso puro à Casa do Senhor. E também tomarei dentre eles sacerdotes e levitas, diz o Senhor.”

Por isso é manifesto que a sede principal do Reino de Deus, que é o lugar de onde procederá a salvação de nós que éramos gentios, será Jerusalém.

O mesmo é confirmado por nosso Salvador em sua conversa com a mulher samaritana acerca do lugar do culto a Deus. Ele lhe diz, em João 4,22, que os samaritanos adoravam o que não conheciam, mas os judeus adoravam o que conheciam, “porque a salvação vem dos judeus”, ex Judaeis, isto é, começa nos judeus.

É como se dissesse: vós adorais a Deus, mas não sabeis por meio de quem Ele vos salvará, ao passo que nós sabemos que será por alguém da tribo de Judá, um judeu, e não um samaritano.

Por isso também a mulher lhe respondeu de maneira pertinente: “Sabemos que o Messias virá.”

Assim, aquilo que nosso Salvador diz, “a salvação vem dos judeus”, é o mesmo que São Paulo afirma em Romanos 1,16-17:

“O Evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que acredita, primeiro do judeu e também do grego. Porque nele se revela a justiça de Deus de fé em fé.”

Isto é, da fé do judeu para a fé do gentio.

No mesmo sentido, o profeta Joel, descrevendo o dia do Juízo, diz, no capítulo 2, versículos 30 e 31, que Deus mostraria “maravilhas no céu e na Terra, sangue, fogo e colunas de fumaça; o Sol se converteria em trevas e a Lua em sangue, antes que viesse o grande e terrível dia do Senhor”.

E acrescenta, no versículo 32:

“E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo, pois no monte Sião e em Jerusalém haverá salvação.”

Abdias, no versículo 17, diz o mesmo:

“No monte Sião haverá libertação, e haverá santidade, e a casa de Jacó possuirá suas possessões.”

Isto é, as possessões dos gentios, que ele expressa mais particularmente nos versículos seguintes pelo monte de Esaú, pela terra dos filisteus, pelos campos de Efraim, de Samaria e de Gileade e pelas cidades do sul, concluindo com estas palavras:

“O reino pertencerá ao Senhor.”

Todas essas passagens situam a salvação e o Reino de Deus, depois do dia do Juízo, sobre a Terra.

Do outro lado, não encontrei texto algum que possa ser plausivelmente utilizado para provar qualquer ascensão dos santos ao céu, isto é, a algum Coelum Empyreum ou outra região etérea, salvo o fato de ser chamado Reino dos Céus.

Esse nome pode ser-lhe atribuído porque Deus, que era Rei dos judeus, governava-os por seus mandamentos enviados do céu a Moisés por meio de anjos, a fim de reconduzi-los à obediência; e enviará novamente do céu o Messias para governar tanto os judeus como todos os demais fiéis, eternamente, a partir do dia do Juízo.

Ou pode ser assim chamado porque o trono desse nosso grande Rei está no céu, enquanto a Terra é apenas seu escabelo.

Mas que os súditos de Deus devam ocupar algum lugar tão alto quanto seu trono, ou mais alto do que seu escabelo, não parece adequado à dignidade de um rei, nem encontro texto evidente algum que o sustente nas Sagradas Escrituras.

Do que foi dito acerca do Reino de Deus e da salvação, não é difícil interpretar o que se entende por MUNDO VINDOURO.

Há três mundos mencionados nas Escrituras: o mundo antigo, o mundo presente e o mundo vindouro.

Do primeiro fala São Pedro em 2 Pedro 2,5:

“Se Deus não poupou o mundo antigo, mas salvou Noé, a oitava pessoa, pregador da justiça, trazendo o dilúvio sobre o mundo dos ímpios”, e assim por diante.

O primeiro mundo, portanto, estendeu-se desde Adão até o dilúvio universal.

Do mundo presente fala nosso Salvador em João 18,36:

“Meu Reino não é deste mundo.”

Pois Ele veio apenas ensinar aos homens o caminho da salvação e renovar, por sua doutrina, o Reino de seu Pai.

Do mundo vindouro fala São Pedro em 2 Pedro 3,13:

“Nós, porém, segundo sua promessa, esperamos novos céus e nova Terra.”

Esse é o MUNDO no qual Cristo, descendo do céu entre as nuvens, com grande poder e glória, enviará seus anjos, reunirá seus eleitos desde os quatro ventos e desde as extremidades mais distantes da Terra, e daí em diante reinará sobre eles, sob seu Pai, eternamente.

Redenção

A salvação de um pecador pressupõe uma REDENÇÃO anterior. Pois aquele que se tornou culpado de pecado fica sujeito à pena correspondente e deve pagar, por si mesmo ou por meio de outro, o resgate que aquele que foi ofendido e o tem em seu poder exigir.

E, visto que a pessoa ofendida é Deus Todo-Poderoso, em cujo poder estão todas as coisas, antes que a salvação possa ser adquirida deve ser pago o resgate que Deus se compraz em exigir.

Por esse resgate não se entende uma satisfação pelo pecado equivalente à ofensa, coisa que nenhum pecador poderia oferecer por si mesmo, nem homem justo algum por outro.

O dano que um homem causa a outro pode ser reparado mediante restituição ou compensação, mas o pecado não pode ser eliminado por compensação, pois isso tornaria a liberdade de pecar algo passível de venda.

Os pecados, contudo, podem ser perdoados ao arrependido gratuitamente, ou mediante a pena que Deus se compraz em aceitar.

Aquilo que Deus costumava aceitar no Antigo Testamento era algum sacrifício ou oblação.

Perdoar um pecado não é ato de injustiça, ainda que o castigo tenha sido ameaçado. Mesmo entre os homens, embora a promessa de um bem obrigue aquele que a faz, as ameaças, isto é, as promessas de um mal, não o obrigam. Muito menos obrigarão a Deus, que é infinitamente mais misericordioso do que os homens.

Nosso Salvador Cristo, portanto, para nos redimir, não satisfez pelos pecados dos homens no sentido de que sua morte, por sua própria virtude, pudesse tornar injusto que Deus castigasse os pecadores com a morte eterna.

Ele realizou, porém, em sua primeira vinda, o sacrifício e a oblação de si mesmo que Deus se comprazera em exigir para a salvação, em sua segunda vinda, daqueles que nesse intervalo se arrependessem e acreditassem nele.

E, embora esse ato de nossa redenção nem sempre seja chamado nas Escrituras de sacrifício e oblação, mas algumas vezes de preço, por preço não devemos entender coisa alguma por cujo valor Cristo pudesse reivindicar de seu Pai ofendido um direito ao perdão em nosso favor, mas aquele preço que Deus Pai, por sua misericórdia, se comprazera em exigir.

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