Capítulo XLV - Da Demonologia E De Outras Relíquias Da Religião Dos Gentios
Capítulo XLV - Da Demonologia E De Outras Relíquias Da Religião Dos Gentios
A origem da demonologia
A impressão produzida nos órgãos da visão pelos corpos luminosos, quer em linha direta, quer em muitas linhas refletidas por corpos opacos ou refratadas ao atravessarem corpos diáfanos, produz nas criaturas vivas em que Deus colocou tais órgãos uma imagem do objeto de onde procede a impressão. Essa imagem é chamada visão e parece ser não uma mera imagem, mas o próprio corpo exterior a nós. Do mesmo modo, quando um homem comprime violentamente o olho, aparece-lhe uma luz fora dele e diante dele, que ninguém percebe senão ele próprio, porque, na verdade, não há fora dele coisa alguma dessa natureza, mas apenas um movimento nos órgãos interiores que, pressionando para fora por resistência, o faz pensar assim. E o movimento produzido por essa pressão, continuando depois de removido o objeto que o causou, é aquilo a que chamamos imaginação e memória e, durante o sono, ou às vezes em grande perturbação dos órgãos causada por doença ou violência, sonho. Dessas coisas já tratei brevemente nos capítulos segundo e terceiro.
Como essa natureza da visão jamais foi descoberta pelos antigos pretendentes ao conhecimento natural, e muito menos por aqueles que não consideram coisas tão afastadas de sua utilidade presente quanto o é tal conhecimento, era difícil aos homens conceber as imagens da fantasia e dos sentidos de outro modo que não como coisas realmente exteriores a nós. Alguns, porque elas desaparecem sem que saibam para onde nem como, sustentaram que eram absolutamente incorpóreas, isto é, imateriais, formas sem matéria, cor e figura sem corpo algum colorido ou figurado, e que podiam revestir corpos aéreos, como uma vestimenta, para se tornarem visíveis, quando quisessem, aos nossos olhos corporais. Outros disseram que eram corpos e criaturas vivas, mas feitos de ar ou de alguma matéria mais sutil e etérea, a qual, quando desejavam ser vistos, se condensava. Ambas as partes, contudo, concordavam em dar-lhes uma denominação geral: DEMÔNIOS.
Era como se os mortos com quem sonhavam não fossem habitantes de seu próprio cérebro, mas do ar, do céu ou do inferno; como se não fossem fantasmas, mas espectros. Havia nisso tanta razão quanto teria alguém que dissesse ver o próprio espectro num espelho, ou os espectros das estrelas num rio, ou que chamasse a aparição comum do Sol, de aproximadamente um pé de diâmetro, de demônio ou espectro daquele grande Sol que ilumina todo o mundo visível. E, por esse meio, passaram a temê-los como coisas de poder desconhecido, isto é, ilimitado, para lhes fazer bem ou mal. Consequentemente, deram ocasião aos governantes das repúblicas pagãs para regulamentar esse medo, estabelecendo aquela DEMONOLOGIA em que os poetas, como principais sacerdotes da religião pagã, eram especialmente empregados ou reverenciados, de modo a torná-la necessária à paz pública e à obediência dos súditos exigida por essa paz. Assim, fizeram de alguns deles demônios bons e de outros demônios maus, servindo os primeiros de espora para a observância das leis e os segundos de rédeas para contê-los de sua violação.
O que eram os demônios dos antigos
Que espécie de coisas eram aquelas às quais atribuíam o nome de demônios aparece em parte na genealogia de seus deuses, escrita por Hesíodo, um dos mais antigos poetas dos gregos, e em parte em outras histórias, das quais já mencionei algumas no capítulo décimo segundo deste discurso.
Como essa doutrina se difundiu
Os gregos, por meio de suas colônias e conquistas, comunicaram sua língua e seus escritos à Ásia, ao Egito e à Itália e, por consequência necessária, também sua demonologia, ou, como a chama São Paulo, “suas doutrinas de demônios”. Por esse meio, o contágio chegou igualmente aos judeus, tanto aos da Judeia quanto aos de Alexandria e de outras partes para onde haviam sido dispersos. Mas eles não atribuíam, como os gregos, o nome de demônio aos espíritos bons e maus, mas apenas aos maus. Aos bons demônios davam o nome de Espírito de Deus e consideravam profetas aqueles em cujos corpos eles entravam.
Em suma, toda singularidade, quando boa, eles a atribuíam ao Espírito de Deus; quando má, a algum demônio, mas a um kakodaimon, um demônio mau, isto é, um Diabo. Por isso chamavam endemoninhados, isto é, possuídos pelo Diabo, aqueles a quem chamamos loucos ou lunáticos, ou os que sofriam da doença da queda, ou ainda os que diziam alguma coisa que, por falta de entendimento, lhes parecia absurda. De uma pessoa notoriamente impura costumavam também dizer que tinha um espírito impuro; de um mudo, que tinha um demônio mudo; e de João Batista, por causa da singularidade de seu jejum, disseram que tinha um demônio, conforme Mateus 11,18. De nosso Salvador, porque dissera que quem guardasse suas palavras não veria a morte in aeternum, disseram, em João 8,52: “Agora sabemos que tens demônio. Abraão morreu, e os profetas morreram.” E novamente, porque dissera que procuravam matá-lo, o povo respondeu, em João 7,20: “Tens demônio. Quem procura matar-te?”
Por isso é manifesto que os judeus tinham acerca dos fantasmas a mesma opinião, a saber, que não eram fantasmas, isto é, ídolos do cérebro, mas coisas reais e independentes da imaginação.
Por que nosso Salvador não a corrigiu
Se essa doutrina não é verdadeira, poderá alguém perguntar por que nosso Salvador não a contradisse e não ensinou o contrário. Mais ainda, por que empregou, em diversas ocasiões, formas de falar que parecem confirmá-la?
A isso respondo, em primeiro lugar, que, quando Cristo diz: “Um espírito não tem carne nem ossos”, embora mostre que há espíritos, não nega que sejam corpos. E quando São Paulo diz: “Ressuscitaremos corpos espirituais”, reconhece a natureza dos espíritos, mas afirma que são espíritos corporais, o que não é difícil de compreender. Pois o ar e muitas outras coisas são corpos, embora não sejam carne e ossos nem qualquer outro corpo grosseiro discernível pelos olhos.
Mas quando nosso Salvador fala ao Diabo e lhe ordena que saia de um homem, se por Diabo se entende uma doença, como o frenesi ou a loucura, ou um espírito corporal, não é imprópria essa linguagem? Podem as doenças ouvir? Ou pode haver um espírito corporal num corpo de carne e ossos já cheio de espíritos vitais e animais? Não haverá, portanto, espíritos que não possuem corpos nem são meras imagens?
À primeira pergunta respondo que dirigir nosso Salvador sua ordem à loucura ou à demência que curava não é mais impróprio do que repreender a febre, o vento e o mar, pois tampouco estes ouvem. Também não é mais impróprio do que a ordem de Deus à luz, ao firmamento, ao Sol e às estrelas, quando lhes ordenou que existissem, pois não podiam ouvir antes de ter existência. Essas formas de falar não são impróprias, porque significam o poder da Palavra de Deus. Portanto, tampouco é impróprio ordenar à loucura ou à demência, sob a denominação de demônios pela qual eram então comumente compreendidas, que saiam do corpo de um homem.
Quanto à segunda pergunta, relativa ao caráter incorpóreo desses espíritos, ainda não observei passagem alguma das Escrituras da qual se possa concluir que algum homem tenha sido possuído por outro espírito corporal que não o seu próprio, pelo qual seu corpo é naturalmente movido.
As Escrituras não ensinam que os espíritos são incorpóreos
Imediatamente depois que o Espírito Santo desceu sobre nosso Salvador sob a forma de uma pomba, São Mateus diz, no capítulo 4, versículo 1, que ele foi “conduzido pelo Espírito ao deserto”. O mesmo é narrado em Lucas 4,1 nestas palavras: “Jesus, cheio do Espírito Santo, foi conduzido no Espírito ao deserto.” Por isso é evidente que por Espírito se entende ali o Espírito Santo.
Isso não pode ser interpretado como possessão, pois Cristo e o Espírito Santo são uma só e mesma substância, e não há possessão de uma substância ou corpo por outro. E quando, nos versículos seguintes, se diz que ele foi “levado pelo Diabo à Cidade Santa e colocado sobre o pináculo do Templo”, deveremos concluir daí que estava possuído pelo Diabo ou que foi transportado até ali pela força? E novamente, quando se diz que foi levado dali pelo Diabo a uma montanha extremamente alta, de onde lhe mostrou todos os reinos do mundo, não devemos crer que estivesse possuído ou fosse forçado pelo Diabo, nem que exista montanha suficientemente alta para, segundo o sentido literal, mostrar-lhe um hemisfério inteiro.
Que pode significar, então, essa passagem, senão que ele foi por si mesmo ao deserto, e que esse transporte de um lugar para outro, do deserto à cidade e dali a uma montanha, foi uma visão? Com isso concorda também a expressão de São Lucas, segundo a qual ele foi conduzido ao deserto não pelo Espírito, mas no Espírito, ao passo que, a respeito de ter sido levado à montanha e ao pináculo do Templo, fala como São Mateus. Isso está de acordo com a natureza de uma visão.
Do mesmo modo, quando São Lucas diz de Judas Iscariotes que “Satanás entrou nele” e que, em consequência disso, ele foi conferenciar com os principais sacerdotes e capitães sobre como poderia entregar-lhes Cristo, pode-se responder que pela entrada de Satanás, isto é, do Inimigo, nele se entende a intenção hostil e traiçoeira de vender seu Senhor e Mestre. Pois, assim como pelo Espírito Santo se entendem frequentemente nas Escrituras as graças e boas inclinações concedidas pelo Espírito Santo, também pela entrada de Satanás podem ser entendidos os pensamentos e desígnios perversos dos adversários de Cristo e de seus discípulos.
Assim como é difícil dizer que o Diabo entrou em Judas antes que ele concebesse tal desígnio hostil, também é impertinente dizer que ele primeiro se tornou inimigo de Cristo em seu coração e que o Diabo entrou nele depois. Portanto, a entrada de Satanás e seu propósito perverso eram uma só e mesma coisa.
Mas, se não há espírito imaterial nem possessão dos corpos humanos por algum espírito corporal, poderá novamente perguntar-se por que nosso Salvador e seus apóstolos não ensinaram isso ao povo com palavras tão claras que nenhuma dúvida pudesse subsistir. Perguntas dessa espécie, contudo, são mais curiosas do que necessárias à salvação de um cristão.
Os homens poderiam igualmente perguntar por que Cristo, que poderia ter dado a todos fé, piedade e toda espécie de virtudes morais, concedeu-as apenas a alguns e não a todos; por que deixou a investigação das causas naturais e das ciências à razão natural e à diligência dos homens, em vez de revelá-las sobrenaturalmente a todos ou a algum deles; e muitas outras perguntas semelhantes. Para elas, contudo, podem ser apresentadas razões prováveis e piedosas.
Pois, assim como Deus, quando levou os israelitas à Terra Prometida, não os assegurou nela subjugando todas as nações ao redor, mas deixou muitas delas como espinhos em seus flancos, para despertar de tempos em tempos sua piedade e diligência, também nosso Salvador, ao nos conduzir rumo a seu reino celeste, não destruiu todas as dificuldades das questões naturais, mas deixou-as para o exercício de nossa diligência e razão. O objetivo de sua pregação era apenas mostrar-nos o caminho claro e direto da salvação, a saber, a crença neste artigo: que ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo, enviado ao mundo para sacrificar-se por nossos pecados e, em sua segunda vinda, reinar gloriosamente sobre seus eleitos e salvá-los eternamente de seus inimigos.
A opinião sobre a possessão por espíritos ou fantasmas não constitui obstáculo nesse caminho, embora para alguns seja ocasião de sair dele e seguir suas próprias invenções. Se exigirmos das Escrituras uma explicação de todas as questões que possam ser levantadas para nos perturbar no cumprimento dos mandamentos de Deus, poderemos também censurar Moisés por não ter determinado o tempo da criação de tais espíritos, assim como determinou a criação da terra, do mar, dos homens e dos animais.
Para concluir, encontro nas Escrituras que existem anjos e espíritos, bons e maus, mas não que sejam incorpóreos como as aparições vistas pelos homens no escuro, num sonho ou numa visão, às quais os latinos chamavam spectra e tomavam por demônios. Encontro também que há espíritos corporais, embora sutis e invisíveis, mas não que o corpo de algum homem tenha sido possuído ou habitado por eles. E encontro que os corpos dos santos serão dessa natureza, isto é, corpos espirituais, como São Paulo os chama.
O poder de expulsar demônios não é hoje o mesmo que na Igreja primitiva
Não obstante, a doutrina contrária, segundo a qual existem espíritos incorpóreos, prevaleceu até hoje de tal modo na Igreja que sobre ela se edificou o uso do exorcismo, isto é, da expulsão dos demônios por conjuração. Embora praticado raramente e de modo débil, esse uso ainda não foi inteiramente abandonado.
O fato de haver muitos endemoninhados na Igreja primitiva e poucos loucos e outras doenças singulares dessa espécie, enquanto em nossos tempos ouvimos falar e vemos muitos loucos e poucos endemoninhados, não procede de mudança na natureza, mas de mudança nos nomes.
Entretanto, saber como aconteceu que os apóstolos, e depois deles durante algum tempo os pastores da Igreja, curassem aquelas doenças singulares que hoje já não se vê que curem, assim como saber por que já não está no poder de todo verdadeiro crente fazer tudo aquilo que os fiéis faziam então, é outra questão. Lemos em Marcos 16,17 que eles podiam “em nome de Cristo expulsar demônios, falar novas línguas, pegar em serpentes, beber veneno mortal sem sofrer dano e curar os enfermos pela imposição das mãos”, e tudo isso sem outras palavras além de “em nome de Jesus”.
É provável que esses dons extraordinários tenham sido concedidos à Igreja apenas enquanto os homens confiavam inteiramente em Cristo e esperavam sua felicidade somente no reino futuro. Consequentemente, quando passaram a buscar autoridade e riquezas e a confiar na própria sutileza para alcançar um reino deste mundo, esses dons sobrenaturais de Deus foram novamente retirados deles.
Outra relíquia do gentilismo: o culto das imagens, deixado na Igreja, não introduzido nela
Outra relíquia do gentilismo é o culto das imagens, que não foi instituído por Moisés no Antigo Testamento nem por Cristo no Novo, nem propriamente trazido dos gentios para a Igreja, mas deixado entre eles depois que deram seu nome a Cristo.
Antes da pregação de nosso Salvador, era religião geral dos gentios adorar como deuses aquelas aparências que permanecem no cérebro em razão da impressão dos corpos exteriores sobre os órgãos dos sentidos, comumente chamadas ideias, ídolos, fantasmas e concepções, por serem representações dos corpos exteriores que as causam. Nada há nelas de realidade, assim como nada há de real nas coisas que parecem estar diante de nós num sonho.
Essa é a razão pela qual São Paulo diz: “Sabemos que um ídolo nada é.” Não porque considerasse que uma imagem de metal, pedra ou madeira fosse nada, mas porque aquilo que os homens honravam ou temiam na imagem e tomavam por um deus era mera ficção, sem lugar, habitação, movimento ou existência, exceto nos movimentos do cérebro.
O culto dessas coisas com honra divina é aquilo que nas Escrituras se chama idolatria e rebelião contra Deus. Pois, sendo Deus o Rei dos judeus e sendo seu lugar-tenente primeiramente Moisés e depois o sumo sacerdote, se ao povo fosse permitido adorar imagens e dirigir-lhes preces, imagens essas que eram representações de suas próprias fantasias, já não dependeriam do verdadeiro Deus, de quem não pode haver semelhança, nem de seus primeiros ministros, Moisés e os sumos sacerdotes. Cada homem governaria a si mesmo segundo o próprio apetite, para completa destruição da república e para sua própria ruína por falta de união.
Por isso, a primeira lei de Deus foi que não tomassem por deuses alienos deos, isto é, os deuses de outras nações, mas somente aquele Deus verdadeiro que se dignou comunicar-se com Moisés e, por seu intermédio, dar-lhes leis e orientações para sua paz e para sua salvação contra os inimigos. A segunda foi que não fizessem para si imagem alguma, de sua própria invenção, com o propósito de adorá-la. Pois depor um rei e submeter-se a outro é o mesmo, quer o novo rei seja estabelecido por uma nação vizinha, quer por nós mesmos.
Resposta a certos textos que parecem favorecer as imagens
As passagens das Escrituras alegadas para justificar o estabelecimento de imagens destinadas ao culto, ou mesmo sua colocação nos lugares em que Deus é adorado, são, em primeiro lugar, dois exemplos: o dos querubins sobre a Arca de Deus e o da serpente de bronze. Em segundo lugar, há alguns textos pelos quais somos ordenados a adorar certas criaturas por sua relação com Deus, como quando se manda adorar o escabelo de seus pés. Por fim, há outros textos pelos quais se autoriza uma honra religiosa prestada às coisas santas.
Mas, antes de examinar a força dessas passagens para provar aquilo que se pretende, devo primeiro explicar o que se deve entender por adorar e o que se deve entender por imagens e ídolos.
O que é culto
Já mostrei no capítulo vigésimo deste discurso que honrar é estimar altamente o poder de uma pessoa e que tal estima é medida por nossa comparação dessa pessoa com outras. Como, porém, nada há que possa ser comparado a Deus em poder, não o honramos, mas o desonramos, por qualquer estima inferior à infinita.
Assim, a honra é propriamente, por sua própria natureza, secreta e interior ao coração. Mas os pensamentos interiores dos homens, quando aparecem exteriormente em suas palavras e ações, são sinais de nossa honra, e esses sinais recebem o nome de CULTO, em latim cultus. Portanto, orar a alguém, jurar por ele, obedecer-lhe, ser diligente e solícito em servi-lo, em suma, todas as palavras e ações que manifestem medo de ofender ou desejo de agradar são culto, quer essas palavras e ações sejam sinceras, quer fingidas. E, por aparecerem como sinais de honra, são também ordinariamente chamadas honra.
Distinção entre culto divino e culto civil
O culto que prestamos àqueles que consideramos meros homens, como reis e homens revestidos de autoridade, é culto civil. Mas o culto que prestamos àquilo que pensamos ser Deus, quaisquer que sejam as palavras, cerimônias, gestos ou outras ações, é culto divino.
Prostrar-se diante de um rei, por parte de quem o considera apenas homem, é somente culto civil. E aquele que se limita a tirar o chapéu na igreja, porque a considera a casa de Deus, presta culto divino.
Enganam-se os que procuram distinguir o culto divino do culto civil não pela intenção daquele que adora, mas pelas palavras douleia e latreia. Há duas espécies de servos. A primeira é a daqueles que estão absolutamente em poder de seus senhores, como os escravos tomados na guerra e seus descendentes, cujos corpos não estão em seu próprio poder e cujas vidas dependem da vontade de seus senhores, de tal maneira que podem perdê-las pela menor desobediência, sendo comprados e vendidos como animais. Esses eram chamados douloi, isto é, propriamente escravos, e seu serviço, douleia.
A segunda espécie é a daqueles que servem voluntariamente, por salário ou na esperança de benefício de seus senhores. Esses são chamados thetes, isto é, servos domésticos, e seus senhores não têm sobre seu serviço direito algum além do contido nos pactos celebrados entre eles.
Essas duas espécies de servos têm isto em comum: seu trabalho lhes é determinado por outro, quer sejam escravos, quer servos voluntários. A palavra latris é o nome geral de ambos e significa aquele que trabalha para outro, seja como escravo, seja como servo voluntário. Assim, latreia significa, em geral, todo serviço, enquanto douleia significa somente o serviço dos cativos e a condição de escravidão.
Ambas as palavras são usadas indistintamente nas Escrituras para significar nosso serviço a Deus: douleia, porque somos escravos de Deus; latreia, porque o servimos. E em toda espécie de serviço se contém não apenas a obediência, mas também o culto, isto é, ações, gestos e palavras que significam honra.
O que é uma imagem. Os fantasmas
Uma IMAGEM, na significação mais estrita da palavra, é a semelhança de alguma coisa visível. Nesse sentido, somente as formas fantásticas, aparições ou aspectos dos corpos visíveis apresentados à vista são imagens, como a aparência de um homem ou de outra coisa na água por reflexão ou refração, ou a aparência do Sol ou das estrelas no ar por visão direta.
Essas aparências nada têm de real nas coisas vistas nem no lugar onde parecem estar. Suas grandezas e figuras não são as mesmas do objeto, mas mudam segundo a variação dos órgãos da visão ou dos vidros. Muitas vezes estão presentes em nossa imaginação e em nossos sonhos quando o objeto está ausente, ou transformadas em outras cores e formas, por dependerem unicamente da fantasia.
Essas são as imagens originalmente e mais propriamente chamadas ideias e ÍDOLOS, palavras derivadas da língua dos gregos, entre os quais eido significa ver. São também chamadas FANTASMAS, que na mesma língua significa aparições. E é dessas imagens que uma das faculdades da natureza humana recebe o nome de imaginação.
Disso é manifesto que não há nem pode haver imagem alguma de coisa invisível.
É igualmente evidente que não pode haver imagem de uma coisa infinita. Todas as imagens e fantasmas produzidos pela impressão das coisas visíveis possuem figura, mas figura é uma quantidade determinada em todas as direções. Portanto, não pode haver imagem de Deus, nem da alma do homem, nem dos espíritos, mas somente de corpos visíveis, isto é, corpos que possuem luz em si mesmos ou são iluminados por outros.
Ficções; imagens materiais
E, assim como um homem pode imaginar formas que nunca viu, compondo uma figura com partes de diversas criaturas, como fazem os poetas com seus centauros, quimeras e outros monstros jamais vistos, também pode dar matéria a essas formas e produzi-las em madeira, barro ou metal. E também estas são chamadas imagens, não por se assemelharem a alguma coisa corporal, mas por se assemelharem a algum habitante fantástico do cérebro de seu autor. Contudo, entre esses ídolos, tais como originalmente existem no cérebro, e os mesmos quando pintados, esculpidos, modelados ou fundidos em alguma matéria, há uma semelhança de uns com os outros, em razão da qual o corpo material produzido pela arte pode ser chamado imagem do ídolo fantástico produzido pela natureza.
Mas, num uso mais amplo da palavra imagem, compreende-se também toda representação de uma coisa por outra. Assim, um soberano terreno pode ser chamado imagem de Deus, e um magistrado inferior, imagem de um soberano terreno. E muitas vezes, na idolatria dos gentios, havia pouca consideração pela semelhança entre seu ídolo material e o ídolo existente em sua fantasia, embora ainda assim aquele fosse chamado imagem deste. Pois uma pedra não lavrada foi erigida como representação de Netuno, e diversas outras formas muito diferentes daquelas que concebiam para seus deuses.
Também hoje vemos muitas imagens da Virgem Maria e de outros santos diferentes umas das outras, sem correspondência com a fantasia de homem algum, e que, não obstante, servem suficientemente ao propósito para o qual foram erigidas. Esse propósito consistia apenas em representar, por meio dos nomes, as pessoas mencionadas na história, às quais cada homem aplica uma imagem mental de sua própria criação, ou nenhuma imagem.
Assim, uma imagem, no sentido mais amplo, é a semelhança ou a representação de alguma coisa visível, ou ambas ao mesmo tempo, como sucede na maioria dos casos.
Mas o nome ídolo é ainda mais amplamente empregado nas Escrituras, para significar também o Sol, uma estrela ou qualquer outra criatura, visível ou invisível, quando adorados como deuses.
O que é idolatria
Tendo mostrado o que é culto e o que é imagem, reuni-los-ei agora e examinarei o que é aquela IDOLATRIA proibida no Segundo Mandamento e em outras passagens das Escrituras.
Adorar uma imagem é praticar voluntariamente aqueles atos exteriores que são sinais de honra prestada à matéria da imagem, que é madeira, pedra, metal ou alguma outra criatura visível; ou ao fantasma do cérebro, para cuja semelhança ou representação a matéria foi formada e figurada; ou a ambos conjuntamente, como se fossem um corpo animado, composto de matéria e fantasma, como de corpo e alma.
Descobrir a cabeça diante de um homem revestido de poder e autoridade, ou diante do trono de um príncipe, ou em outros lugares que ele tenha destinado para esse propósito em sua ausência, é prestar culto civil a esse homem ou príncipe, porque o gesto não é sinal de honra ao assento ou ao lugar, mas à pessoa, e não é idolatria. Mas, se aquele que assim procede supusesse que a alma do príncipe estivesse no assento, ou dirigisse uma petição ao assento, isso seria culto divino e idolatria.
Orar a um rei pedindo coisas que ele tem poder para fazer por nós, ainda que nos prostremos diante dele, é apenas culto civil, porque não reconhecemos nele poder algum além do humano. Mas orar-lhe voluntariamente por bom tempo ou por qualquer coisa que somente Deus pode fazer por nós é culto divino e idolatria.
Por outro lado, se um rei obrigar um homem a fazer isso pelo terror da morte ou de outro grande castigo corporal, não será idolatria. Pois o culto que o soberano ordena que lhe seja prestado pelo terror de suas leis não é sinal de que aquele que lhe obedece o honre interiormente como Deus, mas apenas de que deseja preservar-se da morte ou de uma vida miserável. E aquilo que não é sinal de honra interior não é culto e, portanto, não é idolatria.
Também não se pode dizer que aquele que assim procede escandalize seu irmão ou coloque diante dele alguma pedra de tropeço. Pois, por mais sábio ou instruído que seja quem presta culto dessa maneira, outro homem não pode concluir daí que ele o aprova, mas apenas que o faz por medo e que esse não é seu próprio ato, mas o ato do soberano.
Adorar a Deus em algum lugar peculiar, ou voltando o rosto para uma imagem ou para um lugar determinado, não é adorar ou honrar o lugar ou a imagem, mas reconhecê-los como santos, isto é, reconhecer que a imagem ou o lugar foram separados do uso comum. Esse é o significado da palavra santo, que não implica qualidade nova alguma no lugar ou na imagem, mas apenas uma nova relação, pela apropriação a Deus, e, portanto, não é idolatria.
Não era idolatria adorar a Deus diante da serpente de bronze; nem o era para os judeus, quando estavam fora de seu país, voltar o rosto, durante a oração, para o Templo de Jerusalém; nem para Moisés tirar os sapatos quando estava diante da sarça em chamas, no solo pertencente ao monte Sinai, lugar que Deus havia escolhido para nele aparecer e dar suas leis ao povo de Israel, sendo por isso terra santa, não por uma santidade inerente, mas por sua separação para o uso de Deus. Tampouco é idolatria para os cristãos prestar culto nas igrejas solenemente dedicadas a Deus com esse propósito pela autoridade do rei ou de outro verdadeiro representante da Igreja.
Mas adorar a Deus como se animasse ou habitasse tal imagem ou lugar, isto é, conceber uma substância infinita num lugar finito, é idolatria. Pois tais deuses finitos são apenas ídolos do cérebro, nada de real, e são comumente chamados nas Escrituras vaidade, mentira e nada.
Também adorar a Deus, não como se animasse ou estivesse presente no lugar ou na imagem, mas com o propósito de recordá-lo ou recordar alguma de suas obras, quando o lugar ou a imagem tenham sido dedicados ou estabelecidos por autoridade privada, e não pela autoridade daqueles que são nossos pastores soberanos, é idolatria. Pois o mandamento é: “Não farás para ti imagem de escultura.”
Deus ordenou a Moisés que erigisse a serpente de bronze; ele não a fez para si próprio e, por isso, ela não contrariava o mandamento. Mas a fabricação do bezerro de ouro por Aarão e pelo povo, por ter sido realizada sem autoridade de Deus, foi idolatria, não apenas porque o tomaram por Deus, mas também porque o fizeram para uso religioso sem autorização de Deus, seu soberano, nem de Moisés, que era seu lugar-tenente.
Os gentios adoravam como deuses Júpiter e outros que talvez, quando vivos, tivessem sido homens que praticaram feitos grandes e gloriosos. Consideravam também filhos de Deus diversos homens e mulheres, supondo-os gerados entre uma divindade imortal e um homem mortal. Isso era idolatria, porque os fizeram deuses para si próprios, sem autoridade de Deus, nem em sua lei eterna da razão, nem em sua vontade positiva e revelada.
Mas, embora nosso Salvador fosse homem, em quem também cremos como Deus imortal e Filho de Deus, isso não é idolatria, porque não fundamos essa crença em nossa própria fantasia ou juízo, mas na Palavra de Deus revelada nas Escrituras.
Quanto à adoração da Eucaristia, se as palavras de Cristo, “Este é meu corpo”, significam que ele próprio e o pão aparente em sua mão eram uma só coisa, e não apenas isso, mas também que todos os pedaços aparentes de pão que desde então foram ou que futuramente forem consagrados pelos sacerdotes são outros tantos corpos de Cristo, e ainda assim todos eles um único corpo, então essa adoração não é idolatria, porque foi autorizada por nosso Salvador.
Mas, se esse texto não significa isso, pois não há outro que possa ser alegado em seu favor, então, por ser culto de instituição humana, é idolatria. Não basta dizer que Deus pode transubstanciar o pão no corpo de Cristo. Também os gentios consideravam Deus onipotente e poderiam, com o mesmo fundamento, desculpar sua idolatria, alegando, tão bem quanto os outros, a transubstanciação de sua madeira e pedra em Deus Todo-Poderoso.
Quanto aos que afirmam que a inspiração divina é uma entrada sobrenatural do Espírito Santo num homem, e não uma aquisição da graça de Deus pela doutrina e pelo estudo, creio que se encontram num dilema muito perigoso. Pois, se não adoram os homens que acreditam estar assim inspirados, caem em impiedade, por não adorarem a presença sobrenatural de Deus. E, se os adoram, cometem idolatria, pois os apóstolos jamais permitiriam que lhes fosse prestado tal culto.
O caminho mais seguro, portanto, é crer que pela descida da pomba sobre os apóstolos, pelo sopro de Cristo sobre eles quando lhes deu o Espírito Santo e pela concessão deste mediante a imposição das mãos se entendem os sinais que Deus quis empregar, ou ordenou que fossem empregados, de sua promessa de assistir aquelas pessoas em seu estudo para pregar o seu reino e em sua conduta, para que esta não fosse escandalosa, mas edificante para os outros.
O culto escandaloso das imagens
Além do culto idólatra das imagens, há também um culto escandaloso delas, que igualmente é pecado, mas não idolatria. Pois idolatria é prestar culto por meio de sinais de uma honra interior e real, ao passo que o culto escandaloso é apenas um culto aparente e pode, às vezes, estar unido a uma detestação interior e sincera tanto da imagem quanto do demônio fantástico, ou ídolo, ao qual ela é dedicada, procedendo unicamente do medo da morte ou de algum outro castigo grave.
Não obstante, esse culto é pecado naqueles que assim procedem, caso sejam homens cujas ações sejam observadas por outros como luzes pelas quais estes se guiam. Pois, seguindo seus caminhos, não podem deixar de tropeçar e cair no caminho da religião. O exemplo daqueles a quem não levamos em consideração, ao contrário, não exerce efeito algum sobre nós, deixando-nos entregues à nossa própria diligência e cautela, e, consequentemente, não é causa de nossa queda.
Portanto, se um pastor legitimamente chamado para ensinar e dirigir os outros, ou qualquer outra pessoa de cuja ciência haja grande opinião, prestar honra exterior a um ídolo por medo, a menos que torne seu medo e sua repugnância tão evidentes quanto o culto, escandalizará seu irmão, por parecer aprovar a idolatria. Pois seu irmão, argumentando a partir da ação de seu mestre, ou daquele cuja ciência reputa elevada, conclui que ela é lícita em si mesma. Esse escândalo é pecado e escândalo dado.
Mas, se alguém que não seja pastor nem possua reputação eminente de conhecimento na doutrina cristã fizer o mesmo, e outro o seguir, não haverá aí escândalo dado, pois este não tinha causa para seguir tal exemplo. Trata-se antes de um pretexto de escândalo que ele próprio toma para si como desculpa diante dos homens.
Pois um homem ignorante que esteja sob o poder de um rei ou Estado idólatra, se for ordenado, sob pena de morte, a prestar culto diante de um ídolo que detesta em seu coração, procede corretamente, embora procedesse melhor se tivesse a fortaleza de sofrer a morte em vez de adorá-lo. Mas, se um pastor que, como mensageiro de Cristo, assumiu o encargo de ensinar a doutrina de Cristo a todas as nações fizer o mesmo, isso será não apenas escândalo pecaminoso em relação à consciência dos outros cristãos, mas também abandono pérfido de seu encargo.
A síntese do que até aqui disse acerca do culto das imagens é esta: aquele que, numa imagem ou em qualquer criatura, adora sua matéria, ou alguma fantasia própria que julga habitar nela, ou ambas conjuntamente, ou acredita que tais coisas ouvem suas preces ou veem suas devoções sem possuírem ouvidos ou olhos, comete idolatria. E aquele que simula tal culto por medo de castigo, caso seja homem cujo exemplo tenha poder entre seus irmãos, comete pecado.
Mas aquele que adora o Criador do mundo diante de uma imagem ou num lugar que não fez nem escolheu por si próprio, mas recebeu do mandamento da Palavra de Deus, como fizeram os judeus ao adorarem Deus diante dos querubins, diante da serpente de bronze por certo tempo, e no Templo de Jerusalém ou voltados para ele, também apenas durante certo tempo, não comete idolatria.
Quanto ao culto dos santos, das imagens, das relíquias e de outras coisas hoje praticado na Igreja de Roma, digo que não é permitido pela Palavra de Deus nem foi introduzido na Igreja de Roma pela doutrina ali ensinada, mas em parte nela deixado desde a primeira conversão dos gentios e, posteriormente, favorecido, confirmado e ampliado pelos bispos de Roma.
Resposta ao argumento extraído dos querubins e da serpente de bronze
Quanto às provas alegadas das Escrituras, isto é, aos exemplos de imagens que Deus ordenou que fossem erigidas, elas não foram colocadas para que o povo ou qualquer homem as adorasse, mas para que adorassem o próprio Deus diante delas, como diante dos querubins sobre a Arca e diante da serpente de bronze.
Pois não lemos que o sacerdote ou qualquer outra pessoa tenha adorado os querubins. Ao contrário, lemos, em 2 Reis 18,4, que Ezequias despedaçou a serpente de bronze que Moisés havia erigido, porque o povo lhe queimava incenso.
Além disso, esses exemplos não foram apresentados para nossa imitação, como se também devêssemos erigir imagens sob o pretexto de adorar Deus diante delas. As palavras do Segundo Mandamento, “Não farás para ti imagem de escultura”, distinguem entre as imagens que Deus ordenou que fossem erigidas e aquelas que erigimos para nós mesmos.
Portanto, não é válido o argumento que passa dos querubins ou da serpente de bronze para as imagens inventadas pelos homens, nem do culto ordenado por Deus para o culto voluntário estabelecido pelos homens.
Deve-se também considerar que, assim como Ezequias despedaçou a serpente de bronze porque os judeus a adoravam, a fim de que não mais o fizessem, também os soberanos cristãos devem destruir as imagens que seus súditos se acostumaram a adorar, para que não subsista ocasião de tal idolatria.
Pois hoje o povo ignorante, onde as imagens são adoradas, acredita realmente que existe nelas poder divino e ouve de seus pastores que algumas delas falaram, sangraram e realizaram milagres. Eles entendem que tais coisas foram feitas pelo santo que julgam ser a própria imagem ou estar nela.
Quando os israelitas adoraram o bezerro, pensaram estar adorando o Deus que os havia tirado do Egito. Ainda assim, aquilo era idolatria, porque julgavam que o bezerro era esse Deus ou que o continha em seu ventre.
Embora alguém possa considerar impossível que o povo seja tão estúpido a ponto de julgar que uma imagem seja Deus ou um santo, ou de adorá-la sob essa noção, as Escrituras manifestam o contrário. Quando foi feito o bezerro de ouro, o povo disse, em Êxodo 32,2: “Estes são teus deuses, ó Israel.” E as imagens de Labão, em Gênesis 31,30, são chamadas seus deuses.
Vemos também diariamente, pela experiência entre toda espécie de povo, que os homens que nada estudam além de sua alimentação e comodidade se contentam em acreditar qualquer absurdo, em vez de se darem ao trabalho de examiná-lo, conservando sua fé como se fosse uma herança inalienável, salvo por uma lei nova e expressa.
Pintar fantasias não é idolatria; empregá-las no culto religioso é
Mas de algumas outras passagens eles inferem que é lícito pintar anjos e também o próprio Deus, como quando se fala de Deus caminhando no jardim, de Jacó vendo Deus no alto da escada e de outras visões e sonhos.
Contudo, visões e sonhos, naturais ou sobrenaturais, são apenas fantasmas. Aquele que pinta uma imagem de qualquer deles não produz uma imagem de Deus, mas de seu próprio fantasma, o que é produzir um ídolo.
Não digo que desenhar uma figura segundo a fantasia seja pecado. Mas, uma vez desenhada, considerá-la representação de Deus é contrário ao Segundo Mandamento e não pode ter outra utilidade senão o culto.
O mesmo se pode dizer das imagens de anjos e de homens mortos, exceto quando empregadas como monumentos de amigos ou de homens dignos de lembrança. Pois esse uso de uma imagem não é culto da imagem, mas honra civil prestada à pessoa, não àquela que existe, mas àquela que existiu.
Mas, quando se presta culto à imagem que fazemos de um santo, sem outra razão senão a crença de que ele ouve nossas preces e se agrada da honra que lhe prestamos, embora esteja morto e privado de sentidos, atribuímos-lhe poder superior ao humano e, portanto, cometemos idolatria.
Visto, pois, que não há autoridade, nem na Lei de Moisés nem no Evangelho, para o culto religioso de imagens ou de outras representações de Deus que os homens erigem para si mesmos, nem para o culto da imagem de qualquer criatura no céu, na terra ou sob a terra, e visto que os reis cristãos, que são representantes vivos de Deus, não devem ser adorados por seus súditos mediante ato algum que signifique uma estima de seu poder superior àquela de que é capaz a natureza do homem mortal, não se pode imaginar que o culto religioso hoje em uso tenha sido introduzido na Igreja por má compreensão das Escrituras.
Resta, portanto, que ele tenha sido deixado nela por não terem sido destruídas as próprias imagens quando da conversão dos gentios que as adoravam.
Como a idolatria foi deixada na Igreja
A causa disso foi a estima imoderada e o alto preço atribuído à execução artística dessas imagens, o que levou seus proprietários, embora convertidos e afastados do culto religioso que antes lhes prestavam como demônios, a conservá-las em suas casas, sob o pretexto de fazê-lo em honra de Cristo, da Virgem Maria, dos apóstolos e dos demais pastores da Igreja primitiva.
Era fácil, atribuindo-lhes novos nomes, transformar em imagem da Virgem Maria e de seu Filho, nosso Salvador, aquela que antes talvez fosse chamada imagem de Vênus e Cupido; transformar um Júpiter em Barnabé, um Mercúrio em Paulo, e assim por diante.
E, à medida que a ambição mundana se insinuava gradualmente entre os pastores, levando-os a esforçar-se por agradar aos novos cristãos e também a apreciar essa espécie de honra, que podiam esperar receber depois da morte tão bem quanto aqueles que já a haviam alcançado, o culto das imagens de Cristo e de seus apóstolos tornou-se cada vez mais idólatra.
É verdade que, algum tempo depois da época de Constantino, diversos imperadores, bispos e concílios gerais perceberam e combateram sua ilegitimidade, mas fizeram-no tarde demais ou com excessiva fraqueza.
Canonização dos santos
A canonização dos santos é outra relíquia do gentilismo. Não procede de uma má compreensão das Escrituras nem constitui invenção nova da Igreja de Roma, mas é costume tão antigo quanto a própria república romana.
O primeiro que em Roma foi canonizado foi Rômulo, com base no relato de Júlio Próculo, que jurou diante do Senado ter falado com ele depois de sua morte e ter sido por ele informado de que habitava no céu, onde era chamado Quirino, e de que seria propício ao Estado de sua nova cidade. Em consequência disso, o Senado prestou testemunho público de sua santidade.
Júlio César e outros imperadores depois dele receberam testemunho semelhante, isto é, foram canonizados como santos, segundo a expressão atual. Isso é o mesmo que a apoteose dos pagãos.
O nome de Pontífice
Foi também dos pagãos romanos que os papas receberam o nome e o poder de PONTÍFICE MÁXIMO.
Esse era o nome daquele que, na antiga república de Roma, possuía, sob o Senado e o povo, a autoridade suprema para regulamentar todas as cerimônias e doutrinas relativas à religião.
Quando Augusto César transformou o Estado em monarquia, tomou para si apenas esse ofício e o de tribuno do povo, isto é, o poder supremo tanto no Estado quanto na religião, e os imperadores que lhe sucederam gozaram do mesmo.
Mas, quando viveu o imperador Constantino, que foi o primeiro a professar e autorizar a religião cristã, era conforme a sua profissão fazer com que a religião fosse regulamentada, sob sua autoridade, pelo bispo de Roma. Não parece, contudo, que tão cedo tenham recebido o nome de Pontífice. Parece antes que os bispos que se seguiram o tomaram por si mesmos para dar sustentação ao poder que exerciam sobre os bispos das províncias romanas.
Pois não foi privilégio algum de São Pedro, mas o privilégio da cidade de Roma, que os imperadores sempre estiveram dispostos a sustentar, que lhes deu tal autoridade sobre os outros bispos. Isso pode ser visto claramente no fato de que o bispo de Constantinopla, quando o imperador fez dessa cidade a sede do Império, pretendeu ser igual ao bispo de Roma.
Por fim, não sem disputa, o papa prevaleceu e se tornou Pontífice Máximo, mas apenas em virtude do direito do imperador, não fora dos limites do Império nem em lugar algum depois que o imperador perdeu seu poder em Roma, embora tenha sido o próprio papa quem lhe retirou esse poder.
Daí podemos observar, de passagem, que não há lugar para a superioridade do papa sobre os outros bispos, exceto nos territórios em que ele próprio é o soberano civil e naqueles em que o imperador, possuindo o poder civil soberano, escolheu expressamente o papa como principal pastor, subordinado a si, de seus súditos cristãos.
Procissão de imagens
Levar imagens em procissão é outra relíquia da religião dos gregos e romanos. Eles também transportavam seus ídolos de um lugar para outro numa espécie de carro especialmente dedicado a esse uso, que os latinos chamavam thensa e vehiculum deorum. A imagem era colocada numa armação ou santuário a que chamavam ferculum. E aquilo que denominavam pompa é o mesmo que hoje recebe o nome de procissão.
De acordo com esse costume, entre as honras divinas concedidas a Júlio César pelo Senado havia esta: que, na pompa ou procissão dos jogos circenses, ele teria thensam et ferculum, isto é, um carro sagrado e um santuário, o que equivalia a ser conduzido de um lado para outro como um deus, exatamente como hoje os papas são transportados por suíços sob um dossel.
Velas de cera e tochas acesas
A essas procissões pertencia também o transporte de tochas e velas acesas diante das imagens dos deuses, tanto entre os gregos quanto entre os romanos.
Posteriormente, os imperadores de Roma receberam a mesma honra. Lemos de Calígula que, ao assumir o Império, foi conduzido de Miseno a Roma no meio de uma multidão, com os caminhos ladeados de altares, animais destinados ao sacrifício e tochas acesas. De Caracala lemos que foi recebido em Alexandria com incenso, flores lançadas diante dele e dadouchiai, isto é, tochas. Pois dadochoi eram aqueles que, entre os gregos, levavam tochas acesas nas procissões de seus deuses.
Com o passar do tempo, o povo devoto, mas ignorante, honrou muitas vezes seus bispos com semelhante pompa de velas de cera, e passou a fazê-lo constantemente, dentro da própria igreja, com as imagens de nosso Salvador e dos santos. Assim se introduziu o uso das velas de cera, que foi também estabelecido por alguns dos antigos concílios.
Os pagãos possuíam também sua aqua lustralis, isto é, água santa. A Igreja de Roma igualmente os imita em seus dias santos. Eles tinham suas bacanais, e nós temos nossas festas de vigília correspondentes a elas. Tinham suas saturnais, e nós nossos carnavais e a liberdade concedida aos servos na terça-feira de carnaval. Tinham a procissão de Príapo, e nós temos a busca, a ereção e as danças ao redor dos mastros de maio, sendo a dança uma espécie de culto. Tinham uma procissão chamada ambarvalia, e nós temos nossa procissão pelos campos durante a semana das Rogações.
Não penso que essas sejam todas as cerimônias deixadas na Igreja desde a primeira conversão dos gentios, mas são todas as que consigo recordar no momento. Se alguém observasse atentamente o que as histórias relatam acerca dos ritos religiosos dos gregos e romanos, não duvido de que encontraria muitas outras dessas velhas garrafas vazias do gentilismo, que os doutores da Igreja de Roma, por negligência ou ambição, tornaram a encher com o vinho novo do cristianismo, o qual, com o tempo, não deixará de rompê-las.