Capítulo IV - Do Discurso Leviatã · Capítulo 5 de 49
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Capítulo IV - Do Discurso

Capítulo IV - Do Discurso

Origem do discurso

A invenção da imprensa, embora engenhosa, não é coisa de grande importância quando comparada à invenção das letras. Não se sabe, porém, quem primeiro descobriu o uso das letras. Diz-se que quem primeiro as levou à Grécia foi Cadmo, filho de Agenor, rei da Fenícia.

Foi uma invenção proveitosa para conservar a memória do tempo passado e promover a união do gênero humano, disperso por tantas e tão distantes regiões da Terra. Foi também difícil, pois procedeu de uma observação atenta dos diversos movimentos da língua, do palato, dos lábios e dos outros órgãos do discurso, a fim de produzir igual número de diferenças entre caracteres pelos quais esses movimentos pudessem ser recordados.

Mas a mais nobre e proveitosa de todas as invenções foi a do discurso, composto de nomes ou denominações e de sua conexão. Por meio dele, os homens registram seus pensamentos, recordam-nos depois que passaram e também os declaram uns aos outros para utilidade mútua e convivência. Sem ele não haveria entre os homens república, sociedade, contrato ou paz, assim como não há entre leões, ursos e lobos.

O primeiro autor do discurso foi o próprio DEUS, que ensinou a Adão como nomear as criaturas que apresentava à sua vista, pois as Escrituras não vão além disso nessa matéria.

Isso, contudo, foi suficiente para orientá-lo a acrescentar outros nomes, conforme a experiência e o uso das criaturas lhe oferecessem ocasião, e a uni-los gradualmente de modo que pudesse fazer-se entender. Assim, com a sucessão do tempo, ele pôde adquirir tanta linguagem quanto lhe era necessária, embora não tão abundante quanto a de que necessita um orador ou um filósofo.

Pois nada encontro nas Escrituras de que se possa deduzir, direta ou indiretamente, que Adão tenha aprendido os nomes de todas as figuras, números, medidas, cores, sons, fantasias e relações; muito menos os nomes relativos às palavras e ao discurso, como geral, especial, afirmativo, negativo, interrogativo, optativo e infinitivo, todos eles úteis; e menos ainda entidade, intencionalidade, quididade e outras palavras significativas das escolas.

Mas toda essa linguagem adquirida e ampliada por Adão e por sua posteridade perdeu-se novamente na torre de Babel, quando, pela mão de Deus, cada homem foi punido por sua rebelião com o esquecimento de sua linguagem anterior.

E, como por isso foram obrigados a dispersar-se pelas diversas partes do mundo, é necessário que a diversidade de línguas hoje existente tenha surgido gradualmente entre eles, do modo como a necessidade, mãe de todas as invenções, lhes ensinou. Com o decorrer do tempo, essas línguas tornaram-se em toda parte mais abundantes.

O uso do discurso

O uso geral do discurso consiste em transferir nosso discurso mental para um discurso verbal, ou a sequência de nossos pensamentos para uma sequência de palavras. Isso proporciona duas vantagens.

A primeira consiste no registro das consequências de nossos pensamentos, que, por serem propensas a escapar de nossa memória e obrigar-nos a novo trabalho, podem ser novamente recordadas pelas palavras com que foram assinaladas. Assim, o primeiro uso dos nomes é servir de marcas ou notas para a memória.

A segunda ocorre quando muitos empregam as mesmas palavras para indicar uns aos outros, por meio de sua conexão e ordem, o que concebem ou pensam acerca de cada matéria, bem como o que desejam, temem ou por que sentem qualquer outra paixão. Para esse uso, as palavras são chamadas sinais.

Os usos particulares do discurso são estes.

Primeiro, registrar aquilo que, pela reflexão, descobrimos ser a causa de alguma coisa presente ou passada, bem como aquilo que descobrimos que as coisas presentes ou passadas podem produzir ou causar. Isso, em suma, é a aquisição das artes.

Segundo, mostrar aos outros o conhecimento que alcançamos, isto é, aconselhar e ensinar uns aos outros.

Terceiro, tornar conhecidas aos outros nossas vontades e nossos propósitos, para que possamos auxiliar-nos mutuamente.

Quarto, agradar e divertir a nós mesmos e aos outros, brincando inocentemente com as palavras, por prazer ou ornamento.

Abusos do discurso

A esses usos correspondem também quatro abusos.

O primeiro ocorre quando os homens registram incorretamente seus pensamentos, pela inconstância da significação de suas palavras, registrando como suas concepções aquilo que jamais conceberam e, assim, enganando a si mesmos.

O segundo ocorre quando empregam palavras metaforicamente, isto é, em sentido diverso daquele para o qual foram estabelecidas, e desse modo enganam os outros.

O terceiro ocorre quando, por meio de palavras, declaram ser sua vontade aquilo que não é.

O quarto ocorre quando usam as palavras para causar sofrimento uns aos outros. Pois, visto que a natureza armou os seres vivos, alguns com dentes, outros com chifres e outros com mãos, para ferir um inimigo, usar a língua para feri-lo é apenas um abuso do discurso, a menos que se trate de alguém que tenhamos a obrigação de governar. Nesse caso, não se trata de feri-lo, mas de corrigi-lo e emendá-lo.

A maneira pela qual o discurso serve à recordação das consequências das causas e dos efeitos consiste na imposição de nomes e em sua conexão.

Nomes próprios e nomes comuns universais

Entre os nomes, alguns são próprios e singulares, aplicados a uma única coisa, como Pedro, João, este homem, esta árvore.

Outros são comuns a muitas coisas, como homem, cavalo e árvore. Cada um deles, embora seja um único nome, é o nome de diversas coisas particulares. Em relação ao conjunto de todas elas, recebe o nome de universal, pois no mundo nada é universal além dos nomes. As coisas nomeadas são todas individuais e singulares.

Um nome universal é imposto a muitas coisas em razão da semelhança entre elas quanto a alguma qualidade ou outro acidente. Enquanto um nome próprio traz à memória apenas uma coisa, os universais recordam qualquer uma entre muitas.

Entre os nomes universais, alguns possuem maior extensão e outros menor, compreendendo os mais amplos aqueles de menor extensão. Outros possuem extensão igual e compreendem-se reciprocamente.

Por exemplo, o nome corpo possui significação mais ampla que a palavra homem e a compreende. Os nomes homem e racional possuem extensão igual e compreendem-se mutuamente.

É preciso observar, contudo, que por nome nem sempre se entende, como na gramática, uma única palavra. Às vezes, muitas palavras reunidas por circunlóquio constituem um só nome. Todas estas palavras, aquele que em suas ações observa as leis de seu país, constituem um único nome, equivalente à palavra justo.

Por meio dessa imposição de nomes, alguns com significação mais ampla, outros mais restrita, transformamos o cálculo das consequências das coisas imaginadas na mente num cálculo das consequências das denominações.

Por exemplo, um homem que não possua qualquer uso do discurso, como alguém que tenha nascido e permanecido inteiramente surdo e mudo, caso coloque diante dos olhos um triângulo e, ao lado dele, dois ângulos retos, como os cantos de uma figura quadrada, poderá, pela reflexão, compará-los e descobrir que os três ângulos daquele triângulo são iguais aos dois ângulos retos postos ao lado.

Mas, se lhe for mostrado outro triângulo de forma diferente do primeiro, ele não poderá saber, sem novo trabalho, se seus três ângulos também são iguais aos mesmos dois ângulos retos.

Aquele que possui o uso das palavras, porém, ao observar que semelhante igualdade não decorria do comprimento dos lados nem de qualquer outra particularidade daquele triângulo, mas apenas de que seus lados eram retos e seus ângulos eram três, e que isso era tudo aquilo pelo qual o denominava triângulo, concluirá com segurança e universalmente que tal igualdade dos ângulos se encontra em todos os triângulos, quaisquer que sejam.

Ele registrará sua descoberta nestes termos gerais: todo triângulo possui seus três ângulos iguais a dois ângulos retos.

Assim, a consequência descoberta num caso particular passa a ser registrada e recordada como regra universal, liberando nosso cálculo mental das limitações do tempo e do lugar. Ela nos livra de todo trabalho mental, exceto o primeiro, e faz com que aquilo que foi descoberto como verdadeiro aqui e agora seja verdadeiro em todos os tempos e lugares.

Mas o uso das palavras para registrar nossos pensamentos não é em coisa alguma tão evidente quanto na numeração.

Um indivíduo naturalmente incapaz de aprender de memória a ordem das palavras numerais, como um, dois e três, pode observar cada badalada de um relógio e assentir com a cabeça, ou dizer um, um, um, mas jamais poderá saber que horas o relógio está marcando.

Parece ter havido um tempo em que esses nomes dos números não eram usados e os homens precisavam aplicar os dedos de uma ou de ambas as mãos às coisas de que desejavam manter a contagem. Daí parece ter resultado que hoje, em qualquer nação, nossas palavras numerais sejam apenas dez, e em algumas apenas cinco, depois das quais se começa novamente.

Aquele que sabe contar até dez, caso recite os números fora de ordem, perder-se-á e não saberá quando chegou ao fim. Muito menos será capaz de somar, subtrair e realizar as demais operações da aritmética.

Assim, sem palavras não há possibilidade de calcular números, muito menos grandezas, velocidades, forças e outras coisas cujo cálculo é necessário à existência ou ao bem-estar do gênero humano.

Quando dois nomes são unidos numa consequência ou afirmação, como um homem é um ser vivo, ou se ele é homem, é um ser vivo, se o nome posterior, ser vivo, significa tudo aquilo que o nome anterior, homem, significa, então a afirmação ou consequência é verdadeira. Caso contrário, é falsa.

Pois verdadeiro e falso são atributos do discurso, não das coisas. Onde não há discurso, não há verdade nem falsidade.

Pode haver erro, como quando esperamos aquilo que não acontecerá ou suspeitamos daquilo que não aconteceu. Em nenhum dos casos, contudo, um homem pode ser acusado de falsidade.

Visto, portanto, que a verdade consiste na ordenação correta dos nomes em nossas afirmações, aquele que busca a verdade exata precisa recordar aquilo que cada nome que emprega representa e colocá-lo de modo correspondente. Caso contrário, ficará enredado nas palavras como um pássaro nos galhos cobertos de visgo: quanto mais se debate, mais preso fica.

Por isso, na geometria, que é a única ciência que até agora aprouve a Deus conceder à humanidade, os homens começam por estabelecer as significações de suas palavras. A esse estabelecimento de significações chamam definições e colocam-nas no início de seu cálculo.

Por isso se torna manifesto quão necessário é, para todo homem que aspire ao verdadeiro conhecimento, examinar as definições dos autores anteriores, corrigindo-as quando tenham sido estabelecidas negligentemente ou formulando-as por si mesmo.

Os erros das definições multiplicam-se à medida que o cálculo avança e conduzem os homens a absurdos que, no fim, eles percebem, mas não podem evitar sem recomeçar o cálculo desde o princípio, onde se encontra o fundamento de seus erros.

Daí acontece que os que confiam nos livros procedam como aqueles que somam muitas pequenas contas numa soma maior sem verificar se cada uma das pequenas contas foi corretamente calculada.

Quando finalmente encontram o erro já manifesto, sem desconfiar de seus primeiros fundamentos, não sabem como libertar-se, mas perdem tempo folheando seus livros, como pássaros que entram pela chaminé e, vendo-se encerrados num aposento, esvoaçam em direção à falsa luz de uma janela de vidro, por não terem inteligência suficiente para considerar por onde entraram.

Assim, na definição correta dos nomes encontra-se o primeiro uso do discurso, que é a aquisição da ciência. Nas definições incorretas ou inexistentes encontra-se seu primeiro abuso, do qual procedem todas as doutrinas falsas e sem sentido.

Essas doutrinas fazem com que os homens que recebem sua instrução da autoridade dos livros, e não de sua própria reflexão, estejam tão abaixo da condição dos ignorantes quanto os homens dotados de verdadeira ciência estão acima dela.

Entre a verdadeira ciência e as doutrinas errôneas encontra-se a ignorância.

A sensação e a imaginação naturais não estão sujeitas ao absurdo. A própria natureza não pode errar. E, à medida que os homens aumentam a abundância de sua linguagem, tornam-se mais sábios ou mais insensatos que o comum.

Sem as letras, não é possível que um homem se torne extraordinariamente sábio nem, a menos que sua memória seja prejudicada por doença ou pela má constituição dos órgãos, extraordinariamente tolo.

Pois as palavras são fichas dos homens sábios, que apenas calculam por meio delas, mas são a moeda dos tolos, que as estimam segundo a autoridade de um Aristóteles, de um Cícero, de um Tomás ou de qualquer outro doutor, desde que seja homem.

Coisas sujeitas a nomes

Está sujeito a nomes tudo aquilo que pode entrar num cálculo ou nele ser considerado, podendo ser acrescentado a outra coisa para formar uma soma ou subtraído de outra, deixando um resto.

Os latinos chamavam os cálculos de dinheiro de rationes, e o ato de calcular de ratiocinatio. Aquilo que em contas ou livros contábeis chamamos itens, eles chamavam nomina, isto é, nomes.

Daí parece proceder que tenham estendido a palavra ratio à faculdade de calcular em todas as outras coisas.

Os gregos possuem uma única palavra, logos, tanto para discurso quanto para razão, não porque pensassem não haver discurso sem razão, mas porque não há raciocínio sem discurso.

Ao ato de raciocinar chamavam silogismo, palavra que significa somar as consequências de uma proposição a outra.

Como as mesmas coisas podem entrar no cálculo segundo diversos acidentes, seus nomes são, para mostrar essa diversidade, alterados e diversificados de várias maneiras.

Essa diversidade de nomes pode ser reduzida a quatro classes gerais.

Primeiro, uma coisa pode entrar no cálculo como matéria ou corpo, como vivo, sensível, racional, quente, frio, movido e imóvel. Em todos esses nomes está subentendida a palavra matéria ou corpo. Todos eles, portanto, são nomes da matéria.

Segundo, uma coisa pode entrar no cálculo, ou ser considerada, segundo algum acidente ou qualidade que concebemos nela, como o fato de ser movida, de possuir determinado comprimento ou de ser quente.

Nesse caso, mediante uma pequena alteração ou derivação do nome da própria coisa, formamos um nome para o acidente considerado. De vivo formamos vida; de movido, movimento; de quente, calor; de comprido, comprimento, e assim por diante.

Todos esses são nomes dos acidentes e propriedades pelos quais uma matéria ou corpo se distingue de outro. São chamados nomes abstratos porque são separados, não da matéria, mas do cálculo da matéria.

Terceiro, trazemos ao cálculo as propriedades de nossos próprios corpos, pelas quais realizamos essas distinções.

Quando alguma coisa é vista por nós, não calculamos a própria coisa, mas a visão, a cor ou sua ideia na fantasia. Quando alguma coisa é ouvida, não calculamos a coisa, mas apenas a audição ou o som, que é nossa fantasia ou concepção dela por meio do ouvido. Tais são os nomes das fantasias.

Quarto, trazemos ao cálculo, consideramos e damos nomes aos próprios nomes e aos discursos.

Geral, universal, especial e equívoco são nomes de nomes. Afirmação, interrogação, mandamento, narração, silogismo, sermão, oração e muitos outros semelhantes são nomes de discursos.

Uso dos nomes positivos

Essa é toda a variedade dos nomes positivos, empregados para assinalar algo que se encontra na natureza ou pode ser concebido pela mente humana, como os corpos que existem ou podem ser concebidos, as propriedades dos corpos que existem ou podem ser imaginadas, ou ainda as palavras e o discurso.

Nomes negativos e seus usos

Há também outros nomes, chamados negativos, que servem para indicar que determinada palavra não é o nome da coisa em questão, como nada, nenhum homem, infinito, indócil, três menos quatro e semelhantes.

Apesar disso, são úteis para calcular ou corrigir o cálculo e recordam nossas cogitações passadas, embora não sejam nomes de coisa alguma, pois fazem com que recusemos admitir nomes empregados incorretamente.

Palavras sem significação

Todos os demais nomes são apenas sons sem significação e pertencem a duas espécies.

A primeira compreende os nomes novos cujo significado ainda não foi explicado por definição. Muitos deles foram cunhados pelos escolásticos e por filósofos confusos.

A segunda ocorre quando os homens formam um nome com dois nomes cujas significações são contraditórias e incompatíveis, como corpo incorpóreo, ou, o que é o mesmo, substância incorpórea, e muitos outros.

Sempre que uma afirmação é falsa, os dois nomes que a compõem, unidos e transformados num só, nada significam.

Por exemplo, se é falsa a afirmação de que um quadrângulo é redondo, as palavras quadrângulo redondo nada significam e constituem mero som.

Do mesmo modo, se é falso dizer que a virtude pode ser derramada ou soprada de um lugar para outro, as expressões virtude infundida e virtude inspirada são tão absurdas e sem significação quanto quadrângulo redondo.

Por isso, dificilmente se encontrará uma palavra insensata e sem significação que não seja composta de nomes latinos ou gregos.

Um francês raramente ouve nosso Salvador ser chamado pelo nome Parole, mas frequentemente pelo nome Verbe. Contudo, Verbe e Parole não diferem senão por ser uma palavra latina e a outra francesa.

Entendimento

Quando um homem, ao ouvir um discurso, possui os pensamentos que as palavras desse discurso e sua conexão foram estabelecidas e constituídas para significar, diz-se que ele o entende.

O entendimento, portanto, nada mais é que uma concepção causada pelo discurso.

Se o discurso é peculiar ao homem, como parece ser pelo que sei, então o entendimento também lhe é peculiar.

Por isso, as afirmações absurdas e falsas, quando universais, não podem ser entendidas, embora muitos pensem entendê-las quando apenas repetem as palavras em voz baixa ou as recitam mentalmente.

De quais espécies de discursos se servem para significar os apetites, as aversões e as paixões da mente humana, bem como de seu uso e abuso, falarei depois de ter tratado das paixões.

Nomes inconstantes

Os nomes das coisas que nos afetam, isto é, que nos agradam ou desagradam, possuem significação inconstante nos discursos comuns dos homens, porque nem todos os homens são afetados do mesmo modo pela mesma coisa, nem o mesmo homem o é em todos os momentos.

Visto que todos os nomes são impostos para significar nossas concepções, e que todas as nossas afecções são apenas concepções, quando concebemos as mesmas coisas de maneiras diferentes, dificilmente podemos evitar nomeá-las também de modos diferentes.

Pois, embora a natureza daquilo que concebemos seja a mesma, a diversidade de nossa recepção, conforme as diferentes constituições do corpo e os preconceitos da opinião, dá a todas as coisas a coloração de nossas diversas paixões.

Por isso, ao raciocinar, um homem deve acautelar-se com as palavras que, além de significarem aquilo que imaginamos acerca da natureza de uma coisa, significam também a disposição, a natureza e o interesse de quem fala. É o caso dos nomes das virtudes e dos vícios.

Um homem chama sabedoria àquilo que outro chama medo; um chama crueldade àquilo que outro chama justiça; um chama prodigalidade àquilo que outro chama magnanimidade; um chama gravidade àquilo que outro chama estupidez, e assim por diante.

Por isso, nomes dessa espécie jamais podem constituir fundamentos verdadeiros de qualquer raciocínio.

O mesmo se aplica às metáforas e figuras de linguagem. Estas, porém, são menos perigosas, porque confessam sua inconstância, ao passo que os outros nomes não o fazem.

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