Capítulo VII - Dos Fins Ou Resoluções Do Discurso
Capítulo VII - Dos Fins Ou Resoluções Do Discurso
De todo discurso governado pelo desejo de conhecimento há, por fim, um término, seja pela obtenção do que se busca, seja pelo abandono da busca. E, na cadeia do discurso, onde quer que ela seja interrompida, há, por esse momento, um fim.
Juízo, ou sentença final; dúvida
Se o discurso for meramente mental, consiste em pensamentos alternados de que a coisa será e não será, ou de que foi e não foi. Assim, onde quer que se interrompa a cadeia do discurso de um homem, deixa-se nele uma presunção de que será ou não será, de que foi ou não foi. Tudo isso é opinião. E aquilo que, na deliberação acerca do bem e do mal, é apetite alternado, na investigação da verdade do passado e do futuro é opinião alternada. E, assim como o último apetite na deliberação se chama vontade, a última opinião na busca da verdade do passado e do futuro chama-se JUÍZO, ou sentença resoluta e final daquele que discorre. E, assim como toda a cadeia de apetites alternados, na questão do bem ou do mal, se chama deliberação, toda a cadeia de opiniões alternadas, na questão do verdadeiro ou do falso, chama-se DÚVIDA.
Nenhum discurso, seja qual for, pode terminar em conhecimento absoluto de um fato passado ou futuro. Pois, quanto ao conhecimento do fato, ele é originalmente sensação e, depois disso, memória. E, quanto ao conhecimento da consequência, que antes afirmei chamar-se ciência, ele não é absoluto, mas condicional. Nenhum homem pode saber pelo discurso que isto ou aquilo é, foi ou será, o que seria saber absolutamente, mas apenas que, se isto é, aquilo é; se isto foi, aquilo foi; se isto será, aquilo será. Isso é saber condicionalmente, e não a consequência de uma coisa para outra, mas a consequência de um nome de uma coisa para outro nome da mesma coisa.
Ciência, opinião, consciência
Portanto, quando o discurso é expresso pela fala, começa pelas definições das palavras e prossegue pela conexão delas em afirmações gerais, e destas novamente em silogismos, o fim ou soma final chama-se conclusão; e o pensamento da mente por ela significado é aquele conhecimento condicional, ou conhecimento da consequência das palavras, comumente chamado ciência. Mas, se o primeiro fundamento de tal discurso não forem definições, ou se as definições não forem corretamente reunidas em silogismos, então o fim ou conclusão será novamente OPINIÃO, isto é, opinião acerca da verdade de algo dito, embora por vezes em palavras absurdas e sem sentido, destituídas da possibilidade de serem compreendidas.
Quando dois ou mais homens conhecem um mesmo fato, diz-se que estão CONSCIENTES dele uns com os outros, o que equivale a conhecê-lo conjuntamente. E, como tais homens são as testemunhas mais adequadas dos atos uns dos outros, ou dos atos de um terceiro, sempre foi e sempre será reputado um ato muito mau que alguém fale contra sua consciência, ou corrompa ou constranja outro a fazê-lo. Por isso, a alegação da consciência foi sempre ouvida com grande atenção em todas as épocas.
Posteriormente, os homens passaram a usar a mesma palavra metaforicamente, para designar o conhecimento de seus próprios atos secretos e pensamentos secretos; e, por isso, diz-se retoricamente que a consciência vale por mil testemunhas. Por fim, homens violentamente enamorados de suas próprias opiniões novas, por mais absurdas que fossem, e obstinadamente decididos a sustentá-las, deram também a essas opiniões o venerável nome de consciência, como se quisessem fazer parecer ilícito mudá-las ou falar contra elas; e assim pretendem saber que são verdadeiras, quando, no máximo, sabem apenas que assim pensam.
Crença, fé
Quando o discurso de um homem não começa por definições, começa ou por alguma outra consideração própria, e então continua a chamar-se opinião, ou começa por alguma afirmação de outro homem, de cuja capacidade para conhecer a verdade e de cuja honestidade para não enganar ele não duvida. Nesse caso, o discurso não diz respeito tanto à coisa quanto à pessoa, e a resolução chama-se CRENÇA e FÉ: fé no homem; crença tanto no homem quanto na verdade do que ele diz.
Assim, na crença há duas opiniões: uma acerca da afirmação do homem; outra acerca de sua virtude. Ter fé em alguém, confiar em alguém ou acreditar em um homem significam a mesma coisa, isto é, uma opinião acerca da veracidade desse homem. Mas acreditar no que é dito significa apenas uma opinião acerca da verdade da afirmação.
Devemos observar, contudo, que a expressão “creio em”, assim como a latina credo in e a grega pisteuō eis, nunca é usada senão nos escritos dos teólogos. Em outros escritos, empregam-se, em seu lugar, “acredito nele”, “tenho fé nele”, “confio nele”; e, em latim, credo illi, fido illi; e, em grego, pisteuō autō. Essa singularidade do uso eclesiástico da palavra suscitou muitas disputas acerca do objeto correto da fé cristã.
Mas, por “crer em”, tal como se encontra no Credo, entende-se não a confiança na pessoa, mas a confissão e o reconhecimento da doutrina. Pois não apenas os cristãos, mas toda espécie de homens creem em Deus no sentido de considerar verdadeiro tudo o que ouvem que ele diz, quer o compreendam, quer não, e esta é toda a fé e confiança que se pode ter em qualquer pessoa. Mas nem todos creem na doutrina do Credo.
Disso podemos inferir que, quando acreditamos ser verdadeira qualquer afirmação, não por argumentos extraídos da própria coisa ou dos princípios da razão natural, mas pela autoridade e pela boa opinião que temos daquele que a proferiu, então o orador, ou a pessoa em quem cremos ou confiamos e cuja palavra aceitamos, é o objeto de nossa fé; e a honra prestada por meio da crença é prestada unicamente a ele.
Consequentemente, quando cremos que as Escrituras são a palavra de Deus, sem termos recebido revelação imediata do próprio Deus, nossa crença, fé e confiança estão na Igreja, cuja palavra aceitamos e à qual aquiescemos. E aqueles que creem no que um profeta lhes relata em nome de Deus aceitam a palavra do profeta, prestam-lhe honra, confiam nele e nele creem quanto à verdade do que relata, seja ele um profeta verdadeiro ou falso.
O mesmo ocorre com toda outra história. Pois, se eu não acreditasse em tudo o que os historiadores escreveram sobre os feitos gloriosos de Alexandre ou de César, não creio que o espírito de Alexandre ou de César tivesse justa causa para se ofender, nem qualquer outra pessoa, salvo o historiador. Se Tito Lívio disser que certa vez os deuses fizeram uma vaca falar, e não acreditarmos nisso, não desconfiamos de Deus, mas de Tito Lívio.
É evidente, portanto, que tudo aquilo em que cremos sem outra razão além da que se extrai unicamente da autoridade dos homens e de seus escritos, tenham eles sido enviados por Deus ou não, é fé unicamente nos homens.