Capítulo XXXIII - Do Número, Antiguidade, Objetivo, Autoridade E Intérpretes Dos Livros Das Sagradas Escrituras
Capítulo XXXIII - Do Número, Antiguidade, Objetivo, Autoridade E Intérpretes Dos Livros Das Sagradas Escrituras
Dos livros das Sagradas Escrituras
Por livros das SAGRADAS ESCRITURAS entendem-se aqueles que devem constituir o cânon, isto é, as regras da vida cristã.
E, como todas as regras de vida que os homens estão obrigados em consciência a observar são leis, a questão acerca das Escrituras é a questão acerca do que constitui lei em toda a cristandade, tanto natural quanto civil.
Embora não esteja determinado nas Escrituras quais leis cada rei cristão deverá instituir em seus próprios domínios, está determinado quais leis ele não deverá instituir.
Visto, portanto, que já demonstrei serem os soberanos, em seus próprios domínios, os únicos legisladores, são canônicos, isto é, são lei em cada nação, somente aqueles livros que forem estabelecidos como tais pela autoridade soberana.
É verdade que Deus é o soberano de todos os soberanos e, por isso, quando fala a qualquer súdito, deve ser obedecido, seja qual for a ordem contrária de qualquer potentado terreno.
Mas a questão não é a da obediência a Deus, e sim quando e o que Deus disse. Isso, para os súditos que não possuem revelação sobrenatural, não pode ser conhecido senão pela razão natural que os conduziu, para a obtenção da paz e da justiça, a obedecer à autoridade de suas respectivas repúblicas, isto é, a seus soberanos legítimos.
Em conformidade com essa obrigação, não posso reconhecer como Sagradas Escrituras outros livros do Antigo Testamento além daqueles que foram ordenados como tais pela autoridade da Igreja da Inglaterra.
Quais sejam esses livros é suficientemente conhecido, sem que seja necessário apresentar aqui um catálogo. E são os mesmos reconhecidos por São Jerônimo, que considera os demais, a saber, a Sabedoria de Salomão, o Eclesiástico, Judite, Tobias, o primeiro e o segundo livros dos Macabeus, embora tivesse visto o primeiro em hebraico, e o terceiro e o quarto livros de Esdras, como apócrifos.
Dos livros canônicos, Josefo, judeu erudito que escreveu no tempo do imperador Domiciano, enumera vinte e dois, fazendo corresponder seu número ao alfabeto hebraico.
São Jerônimo faz o mesmo, embora ambos os enumerem de maneira diferente.
Josefo conta cinco livros de Moisés; treze dos profetas, que escreveram a história de seu próprio tempo, cuja correspondência com os escritos proféticos contidos na Bíblia veremos mais adiante; e quatro de hinos e preceitos morais.
São Jerônimo conta cinco livros de Moisés, oito dos profetas e nove de outros escritos sagrados, aos quais chama Hagiógrafos.
Os Setenta, que eram setenta homens eruditos dentre os judeus, chamados por Ptolomeu, rei do Egito, para traduzir a Lei judaica do hebraico para o grego, não nos deixaram, como Sagradas Escrituras na língua grega, livros diferentes daqueles recebidos pela Igreja da Inglaterra.
Quanto aos livros do Novo Testamento, são igualmente reconhecidos como canônicos por todas as igrejas cristãs e por todas as seitas de cristãos que admitem quaisquer livros como canônicos.
Sua antiguidade
Quem foram os autores originais dos diversos livros das Sagradas Escrituras não foi demonstrado por testemunho suficiente de nenhuma outra história, que é a única prova das questões de fato.
Tampouco isso pode ser demonstrado por argumentos da razão natural, pois a razão serve apenas para demonstrar a verdade não dos fatos, mas das consequências.
A luz que deve, portanto, guiar-nos nessa questão deve ser aquela que os próprios livros nos oferecem.
E essa luz, embora não nos mostre o autor de cada livro, não deixa de ser útil para nos dar conhecimento da época em que foram escritos.
O Pentateuco não foi escrito por Moisés
Primeiro, quanto ao Pentateuco, não é argumento suficiente de que tenha sido escrito por Moisés o fato de ser chamado de os cinco livros de Moisés, assim como os títulos Livro de Josué, Livro dos Juízes, Livro de Rute e Livros dos Reis não são argumentos suficientes para provar que tenham sido escritos por Josué, pelos juízes, por Rute e pelos reis.
Pois, nos títulos dos livros, indica-se tão frequentemente o assunto quanto o autor.
A História de Lívio designa o autor; mas a História de Escanderbeg recebe o nome de seu assunto.
Lemos no último capítulo do Deuteronômio, versículo 6, acerca do sepulcro de Moisés, “que ninguém conhece seu sepulcro até o dia de hoje”, isto é, até o dia em que essas palavras foram escritas.
É manifesto, portanto, que essas palavras foram escritas depois de seu sepultamento.
Pois seria uma interpretação estranha dizer que Moisés falou, ainda que profeticamente, de seu próprio sepulcro, afirmando que não fora encontrado até aquele dia em que ele ainda estava vivo.
Talvez se alegue, porém, que apenas o último capítulo, e não todo o Pentateuco, foi escrito por outro homem.
Consideremos, portanto, o que encontramos no livro do Gênesis, capítulo 12, versículo 6:
“E Abraão atravessou a terra até o lugar de Siquém, até a planície de Moré; e o cananeu estava então na terra.”
Essas palavras devem necessariamente ser de alguém que escreveu quando o cananeu já não estava na terra e, consequentemente, não podem ser de Moisés, que morreu antes de nela entrar.
Do mesmo modo, em Números 21, versículo 14, o autor cita outro livro mais antigo, intitulado Livro das Guerras do Senhor, no qual estavam registrados os atos de Moisés no mar Vermelho e junto ao ribeiro de Arnom.
É, portanto, suficientemente evidente que os cinco livros de Moisés foram escritos depois de seu tempo, embora não seja tão manifesto quanto tempo depois.
Mas, embora Moisés não tenha compilado integralmente esses livros nem lhes dado a forma em que os possuímos, escreveu tudo aquilo que neles se diz ter escrito.
Assim, por exemplo, escreveu o volume da Lei, que, ao que parece, está contido no capítulo 11 do Deuteronômio e nos capítulos seguintes até o 27, e que foi também ordenado que fosse escrito em pedras quando os israelitas entrassem na terra de Canaã.
E isso o próprio Moisés escreveu e entregou aos sacerdotes e anciãos de Israel, para que fosse lido a todo Israel a cada sete anos, quando se reunissem na festa dos Tabernáculos.
Essa é a Lei que Deus ordenou que seus reis, quando aquela forma de governo fosse estabelecida, copiassem dos sacerdotes e levitas e colocassem ao lado da Arca.
É também a mesma Lei que, tendo sido perdida, foi muito tempo depois novamente encontrada por Hilquias e enviada ao rei Josias, que, fazendo-a ler ao povo, renovou o pacto entre Deus e eles.
O Livro de Josué foi escrito depois de seu tempo
Que o Livro de Josué também foi escrito muito tempo depois da época de Josué pode ser inferido de muitas passagens do próprio livro.
Josué levantara doze pedras no meio do Jordão como monumento da passagem dos israelitas, acerca das quais o autor diz: “Elas ali estão até o dia de hoje.”
Pois “até o dia de hoje” é uma expressão que significa um tempo passado para além da memória humana.
Do mesmo modo, depois de dizer o Senhor que retirara do povo o opróbrio do Egito, o autor afirma: “O lugar chama-se Gilgal até o dia de hoje”, o que teria sido impróprio dizer no tempo de Josué.
Também acerca do nome do vale de Acor, derivado da perturbação que Acã causou no acampamento, o autor diz que “permanece até o dia de hoje”, o que deve necessariamente ter sido escrito muito tempo depois da época de Josué.
Há muitos outros argumentos dessa espécie, como em Josué 8,29; 13,13; 14,14; e 15,63.
O Livro dos Juízes e o de Rute foram escritos muito depois do cativeiro
O mesmo se manifesta por argumentos semelhantes no Livro dos Juízes, capítulos 1, versículos 21 e 26; 6,24; 10,4; 15,19; 17,6; e em Rute 1,1.
Mas isso aparece sobretudo em Juízes 18,30, onde se diz que Jônatas “e seus filhos foram sacerdotes da tribo de Dã até o dia do cativeiro da terra”.
O mesmo quanto aos Livros de Samuel
Que os Livros de Samuel também foram escritos depois de seu tempo demonstra-se por argumentos semelhantes, em 1 Samuel 5,5; 7,13 e 15; 27,6; e 30,25.
Nesta última passagem, depois que Davi determinou que aqueles que guardavam a bagagem recebessem parte igual dos despojos à daqueles que haviam combatido, o autor diz: “E fez disso estatuto e ordenança em Israel até o dia de hoje.”
Outra vez, quando Davi, desgostoso por ter o Senhor matado Uzá, que estendera a mão para sustentar a Arca, chamou o lugar Perez-Uzá, o autor diz que ele é assim chamado “até o dia de hoje”.
Portanto, o tempo em que esse livro foi escrito deve ter sido muito posterior ao acontecimento, isto é, muito posterior à época de Davi.
Os Livros dos Reis e os Livros das Crônicas
Quanto aos dois Livros dos Reis e aos dois Livros das Crônicas, além das passagens que mencionam monumentos que o autor afirma terem permanecido até seus próprios dias, como 1 Reis 9,13; 9,21; 10,12; 12,19; 2 Reis 2,22; 8,22; 10,27; 14,7; 16,6; 17,23; 17,34; 17,41; 1 Crônicas 4,41; e 5,26, é argumento suficiente de que foram escritos depois do cativeiro na Babilônia o fato de sua história prosseguir até esse tempo.
Pois os fatos registrados são sempre mais antigos que os livros que mencionam e citam o registro, como fazem esses livros em diversas passagens, remetendo o leitor às Crônicas dos Reis de Judá, às Crônicas dos Reis de Israel, aos Livros do profeta Samuel, do profeta Natã, do profeta Aías, à Visão de Ido, aos Livros do profeta Semaías e do profeta Ado.
Esdras e Neemias
Os Livros de Esdras e Neemias foram certamente escritos depois do retorno do cativeiro, porque neles estão contidos esse retorno, a reedificação dos muros e das casas de Jerusalém, a renovação do pacto e a ordenação de sua organização política.
Ester
A história da rainha Ester pertence ao tempo do cativeiro. Portanto, o autor deve ter vivido nesse mesmo tempo ou depois dele.
Jó
O Livro de Jó não contém sinal algum da época em que foi escrito.
E, embora se mostre suficientemente, em Ezequiel 14,14 e Tiago 5,11, que Jó não era uma pessoa fictícia, o próprio livro não parece ser uma história, mas um tratado acerca de uma questão muito discutida na Antiguidade, a saber: por que os homens maus frequentemente prosperam neste mundo, enquanto os bons são afligidos?
Isso é tanto mais provável porque, do início até o terceiro versículo do terceiro capítulo, onde começa a queixa de Jó, o texto hebraico está, como atesta São Jerônimo, em prosa; daí até o sexto versículo do último capítulo, está em versos hexâmetros; e o restante desse último capítulo volta a estar em prosa.
Assim, toda a disputa está em verso, e a prosa foi acrescentada apenas como prefácio no início e epílogo no fim.
O verso não é o estilo habitual daqueles que se encontram em grande sofrimento, como Jó, nem daqueles que vêm consolá-los, como seus amigos; mas era frequente, na Antiguidade, na filosofia, especialmente na filosofia moral.
O Saltério
Os Salmos foram escritos em sua maior parte por Davi para uso do coro.
A eles foram acrescentados alguns cânticos de Moisés e de outros homens santos, e alguns compostos depois do retorno do cativeiro, como os salmos 137 e 126.
Disso é manifesto que o Saltério foi compilado e colocado na forma que agora possui depois do retorno dos judeus da Babilônia.
Os Provérbios
Os Provérbios, sendo uma coleção de sentenças sábias e piedosas, em parte de Salomão, em parte de Agur, filho de Jaqué, e em parte da mãe do rei Lemuel, não podem provavelmente ser considerados como tendo sido reunidos por Salomão mais do que por Agur ou pela mãe de Lemuel.
Embora as sentenças sejam deles, a coleção ou compilação em um único livro foi obra de algum outro homem piedoso que viveu depois de todos eles.
Eclesiastes e Cântico dos Cânticos
Os livros do Eclesiastes e do Cântico dos Cânticos nada contêm que não seja de Salomão, exceto talvez os títulos ou inscrições.
Pois “Palavras do Pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém” e “Cântico dos Cânticos, que é de Salomão” parecem ter sido acrescentados para fins de distinção quando os livros das Escrituras foram reunidos num só corpo da Lei, para que se preservassem não apenas a doutrina, mas também os nomes dos autores.
Os Profetas
Dos profetas, os mais antigos são Sofonias, Jonas, Amós, Oseias, Isaías e Miqueias, que viveram no tempo de Amazias e Azarias, também chamado Uzias, reis de Judá.
Mas o Livro de Jonas não é propriamente o registro de sua profecia, pois esta está contida nestas poucas palavras: “Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída.”
É antes uma história ou narração de sua obstinação e de sua resistência aos mandamentos de Deus. Assim, é pouco provável que ele próprio tenha sido o autor, visto ser o assunto da narrativa.
O Livro de Amós, porém, é sua profecia.
Jeremias, Obadias, Naum e Habacuque profetizaram no tempo de Josias.
Ezequiel, Daniel, Ageu e Zacarias, durante o cativeiro.
Não é manifesto por seus escritos quando Joel e Malaquias profetizaram.
Mas, considerando as inscrições ou títulos de seus livros, é suficientemente manifesto que toda a Escritura do Antigo Testamento foi publicada na forma em que a possuímos depois do retorno dos judeus do cativeiro na Babilônia e antes do tempo de Ptolomeu Filadelfo, que ordenou que fosse traduzida para o grego por setenta homens enviados da Judeia para esse fim.
E, se os livros apócrifos, recomendados pela Igreja, não como canônicos, mas como livros proveitosos para nossa instrução, puderem receber crédito neste ponto, as Escrituras foram publicadas na forma em que as possuímos por Esdras.
Isso pode ser visto no que ele próprio diz, no segundo livro, capítulo 14, versículos 21, 22 e seguintes, onde, falando a Deus, diz:
“Tua Lei foi queimada; por isso ninguém conhece as coisas que fizeste, nem as obras que hão de começar. Mas, se encontrei graça diante de ti, envia sobre mim o Espírito Santo, e escreverei tudo quanto foi feito no mundo desde o princípio e estava escrito em tua Lei, para que os homens encontrem teu caminho e para que aqueles que viverem nos últimos dias possam viver.”
E no versículo 45:
“E aconteceu que, completados os quarenta dias, o Altíssimo falou, dizendo: ‘Os primeiros escritos que produziste, publica-os abertamente, para que os dignos e os indignos possam lê-los; mas conserva os últimos setenta, para que os entregues somente aos sábios dentre o povo.’”
Isso basta acerca da época em que foram escritos os livros do Antigo Testamento.
O Novo Testamento
Os autores do Novo Testamento viveram todos menos de uma geração depois da ascensão de Cristo e todos haviam visto nosso Salvador ou sido seus discípulos, exceto São Paulo e São Lucas.
Consequentemente, tudo quanto foi escrito por eles é tão antigo quanto a época dos apóstolos.
Mas o tempo em que os livros do Novo Testamento foram recebidos e reconhecidos pela Igreja como sendo de sua autoria não é inteiramente tão antigo.
Pois, assim como os livros do Antigo Testamento não nos são transmitidos desde uma época anterior à de Esdras, que, pela direção do Espírito de Deus, os recuperou quando estavam perdidos, também os do Novo Testamento, cujas cópias não eram numerosas nem podiam facilmente estar todas nas mãos de um único homem particular, não podem ser remontados a uma época anterior àquela em que os governantes da Igreja os reuniram, aprovaram e recomendaram como escritos dos apóstolos e discípulos sob cujos nomes são conhecidos.
A primeira enumeração de todos os livros, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, encontra-se nos Cânones dos Apóstolos, que se supõe terem sido reunidos por Clemente, primeiro bispo de Roma depois de São Pedro.
Mas, como isso é apenas uma suposição e muitos o contestam, o Concílio de Laodiceia é o primeiro de que temos conhecimento a ter recomendado a Bíblia às igrejas cristãs de então como os escritos dos profetas e dos apóstolos.
Esse concílio foi realizado no ano 364 depois de Cristo.
Naquele tempo, embora a ambição já tivesse prevalecido de tal modo entre os grandes doutores da Igreja que eles deixassem de considerar os imperadores, ainda que cristãos, como pastores do povo, passando a considerá-los ovelhas, e os imperadores não cristãos como lobos; e embora se esforçassem por apresentar sua doutrina não como conselho e instrução de pregadores, mas como leis de governantes absolutos, considerando piedosas as fraudes que tendessem a tornar o povo mais obediente à doutrina cristã, estou convencido de que nem por isso falsificaram as Escrituras.
Isso, embora as cópias dos livros do Novo Testamento estivessem apenas nas mãos dos eclesiásticos, porque, se tivessem tido a intenção de falsificá-las, certamente as teriam tornado mais favoráveis ao poder deles sobre os príncipes cristãos e sobre a soberania civil do que de fato são.
Não vejo, portanto, razão alguma para duvidar de que o Antigo e o Novo Testamento, tal como agora os possuímos, sejam os verdadeiros registros das coisas feitas e ditas pelos profetas e apóstolos.
E talvez também o sejam alguns dos livros chamados apócrifos, caso tenham sido excluídos do cânon não por inconformidade de doutrina com os demais, mas apenas por não terem sido encontrados em hebraico.
Pois, depois da conquista da Ásia por Alexandre Magno, poucos judeus eruditos deixaram de dominar perfeitamente a língua grega.
Os setenta intérpretes que traduziram a Bíblia para o grego eram todos hebreus; e chegaram até nós as obras de Fílon e Josefo, ambos judeus, escritas por eles com eloquência em grego.
Mas não é o autor, e sim a autoridade da Igreja, que torna um livro canônico.
Seu objetivo
E, embora esses livros tenham sido escritos por diversos homens, é manifesto que todos os autores foram dotados de um único e mesmo espírito, pois convergem para um único e mesmo fim, que é expor os direitos do Reino de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.
O Livro do Gênesis apresenta a genealogia do povo de Deus desde a criação do mundo até sua entrada no Egito.
Os outros quatro livros de Moisés contêm a eleição de Deus como seu Rei e as leis que ele lhes prescreveu para o governo.
Os livros de Josué, Juízes, Rute e Samuel, até o tempo de Saul, descrevem os atos do povo de Deus até o momento em que rejeitaram o jugo divino e pediram um rei à maneira das nações vizinhas.
O restante da história do Antigo Testamento conduz a sucessão da linhagem de Davi até o cativeiro. Dessa linhagem deveria proceder aquele que restauraria o Reino de Deus, nosso bendito Salvador, Deus Filho, cuja vinda foi predita nos livros dos profetas.
Depois deles, os evangelistas escreveram sua vida, seus atos e sua reivindicação ao Reino enquanto viveu na terra.
Por fim, os Atos e as Epístolas dos Apóstolos declaram a vinda de Deus Espírito Santo e a autoridade que ele deixou com os apóstolos e seus sucessores para a direção dos judeus e o chamamento dos gentios.
Em suma, as histórias e profecias do Antigo Testamento, bem como os Evangelhos e as Epístolas do Novo Testamento, tiveram um único e mesmo objetivo: converter os homens à obediência a Deus.
Primeiro, em Moisés e nos sacerdotes.
Segundo, no homem Cristo.
Terceiro, nos apóstolos e nos sucessores do poder apostólico.
Pois estes três representaram, em tempos diferentes, a pessoa de Deus: Moisés e seus sucessores, os sumos sacerdotes e os reis de Judá, no Antigo Testamento; o próprio Cristo, durante o tempo em que viveu na terra; e os apóstolos e seus sucessores, desde o dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre eles, até o dia de hoje.
Formulação da questão acerca da autoridade das Escrituras
Uma questão muito discutida entre as diversas seitas da religião cristã é de onde as Escrituras derivam sua autoridade.
Essa questão também é por vezes formulada em outros termos, como: de que maneira sabemos que elas são a Palavra de Deus? Ou: por que acreditamos que o sejam?
A dificuldade de resolvê-la nasce sobretudo da impropriedade das palavras em que a própria questão é formulada.
Pois todos creem que seu primeiro e original autor é Deus. Consequentemente, não é isso que se encontra em disputa.
Além disso, é manifesto que ninguém pode saber que elas são a Palavra de Deus, embora todos os verdadeiros cristãos o creiam, salvo aqueles a quem o próprio Deus o tenha revelado sobrenaturalmente. Portanto, a questão não é corretamente formulada como uma questão de nosso conhecimento.
Por fim, quando a questão é proposta em termos de nossa crença, como alguns são levados a acreditar por uma razão e outros por outra, não pode ser dada uma única resposta geral válida para todos.
A questão corretamente formulada é esta: por qual autoridade elas foram constituídas como lei?
Sua autoridade e interpretação
Na medida em que não diferem das leis de natureza, não há dúvida de que são a lei de Deus e trazem consigo sua própria autoridade, legível para todos os homens que possuem o uso da razão natural.
Mas essa autoridade não é diferente daquela de toda outra doutrina moral conforme à razão, cujos ditames são leis não instituídas, mas eternas.
Se foram constituídas como lei pelo próprio Deus, possuem a natureza das leis escritas, que são leis somente para aqueles a quem Deus as publicou de modo tão suficiente que ninguém possa desculpar-se dizendo não saber que eram suas.
Aquele, portanto, a quem Deus não revelou sobrenaturalmente que elas são suas, nem que aqueles que as publicaram foram enviados por ele, não está obrigado a obedecê-las por nenhuma autoridade senão a daquele cujas ordens já possuem força de lei, isto é, por nenhuma autoridade além da autoridade da república, residente no soberano, que é o único a possuir o poder legislativo.
Por outro lado, se não é a autoridade legislativa da república que lhes confere força de lei, deve ser alguma outra autoridade derivada de Deus, seja privada, seja pública.
Se for privada, obriga apenas aquele a quem, em particular, Deus se dignou revelá-la.
Pois, se cada homem estivesse obrigado a aceitar como lei de Deus aquilo que homens particulares, sob pretexto de inspiração ou revelação privada, lhe impusessem, seria impossível que qualquer lei divina fosse reconhecida.
Isso porque há grande número de homens que, por orgulho e ignorância, tomam seus próprios sonhos, fantasias extravagantes e loucura por testemunhos do Espírito de Deus; ou que, por ambição, fingem tais testemunhos divinos, de modo falso e contrário à própria consciência.
Se essa autoridade for pública, será a autoridade da república ou da Igreja.
Mas a Igreja, se for uma pessoa, é a mesma coisa que uma república de cristãos, chamada república porque consiste em homens unidos numa só pessoa, seu soberano; e chamada Igreja porque consiste em homens cristãos unidos sob um único soberano cristão.
Se, porém, a Igreja não for uma pessoa, não possui autoridade alguma. Não pode ordenar nem praticar ação alguma, não é capaz de possuir poder ou direito sobre coisa alguma, nem possui vontade, razão ou voz, pois todas essas qualidades pertencem à pessoa.
Ora, se o conjunto de todos os cristãos não estiver contido numa única república, eles não são uma só pessoa.
Não há, portanto, uma Igreja universal que possua autoridade sobre eles, e, por conseguinte, as Escrituras não são constituídas como leis pela Igreja universal.
Ou, se a Igreja universal for uma só república, então todos os monarcas e Estados cristãos são pessoas particulares, sujeitas a ser julgadas, depostas e punidas por um soberano universal de toda a cristandade.
Assim, a questão da autoridade das Escrituras reduz-se a esta:
Se os reis cristãos e as assembleias soberanas das repúblicas cristãs são absolutos em seus próprios territórios, imediatamente subordinados a Deus; ou se estão sujeitos a um único vigário de Cristo, constituído sobre a Igreja universal, por quem possam ser julgados, condenados, depostos e mortos conforme ele julgar conveniente ou necessário ao bem comum.
Essa questão não pode ser resolvida sem uma consideração mais particular do Reino de Deus, de onde também devemos extrair nosso juízo acerca da autoridade de interpretar as Escrituras.
Pois todo aquele que possui poder legítimo sobre algum escrito para torná-lo lei possui também o poder de aprovar ou desaprovar sua interpretação.