Capítulo XXXIX - Da Significação Da Palavra Igreja Nas Escrituras Leviatã · Capítulo 40 de 49
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Capítulo XXXIX - Da Significação Da Palavra Igreja Nas Escrituras

Capítulo XXXIX - Da Significação Da Palavra Igreja Nas Escrituras

Igreja, a Casa do Senhor

A palavra Igreja, Ecclesia, significa diversas coisas nos livros das Sagradas Escrituras.

Algumas vezes, embora não com frequência, é tomada pela Casa de Deus, isto é, por um templo no qual os cristãos se reúnem para cumprir publicamente os deveres sagrados, como em 1 Coríntios 14,34:

“Que vossas mulheres guardem silêncio nas igrejas.”

Mas aí a palavra é empregada metaforicamente pela congregação reunida naquele lugar, e passou depois a ser usada para o próprio edifício, a fim de distinguir os templos dos cristãos dos templos dos idólatras.

O Templo de Jerusalém era a Casa de Deus e a Casa de Oração. Do mesmo modo, todo edifício dedicado pelos cristãos ao culto de Cristo é a Casa de Cristo. Por isso, os Padres gregos o chamavam Kuriake, a Casa do Senhor, de onde, em nossa língua, vieram as palavras Kyrke e Church.

O significado próprio de Ecclesia

Quando não é tomada por uma casa, Igreja significa o mesmo que Ecclesia significava nas repúblicas gregas, isto é, uma congregação ou assembleia de cidadãos convocados para ouvir o magistrado falar-lhes. Na república romana, essa assembleia era chamada Concio, assim como aquele que falava era chamado Ecclesiastes ou Concionator.

Quando eram convocados pela autoridade legítima, como em Atos 19,39, tratava-se de Ecclesia Legitima, uma Igreja legítima, Ennomos Ecclesia. Mas, quando eram incitados por clamor tumultuoso e sedicioso, tratava-se de uma Igreja confusa, Ecclesia Sugkechumene.

A palavra é tomada também algumas vezes pelos homens que possuem o direito de pertencer à congregação, embora não estejam efetivamente reunidos, isto é, por toda a multidão dos cristãos, por mais dispersos que se encontrem. Assim ocorre em Atos 8,3, onde se diz que “Saulo devastava a Igreja”. É nesse sentido que Cristo é chamado chefe da Igreja.

Algumas vezes significa uma parte determinada dos cristãos, como em Colossenses 4,15:

“Saudai a Igreja que está em sua casa.”

Outras vezes significa somente os eleitos, como em Efésios 5,27:

“Uma Igreja gloriosa, sem mancha nem ruga, santa e irrepreensível.”

Isso se entende da Igreja triunfante, ou Igreja vindoura.

Algumas vezes, ainda, significa uma congregação reunida de professantes do cristianismo, seja sua profissão verdadeira ou fingida, como se entende em Mateus 18,17, onde se diz:

“Dize-o à Igreja; e, se ele não ouvir a Igreja, considera-o como gentio e publicano.”

Em que sentido a Igreja é uma pessoa. Definição de Igreja

Somente nesse último sentido a Igreja pode ser tomada como uma pessoa, isto é, pode-se dizer que possui poder para querer, pronunciar-se, ordenar, ser obedecida, fazer leis ou realizar qualquer outra ação.

Pois, sem autorização de uma congregação legítima, qualquer ato realizado numa reunião de pessoas é o ato particular de cada um dos que estavam presentes e prestaram auxílio à sua realização, e não o ato de todos em conjunto, como se constituíssem um só corpo. Muito menos será o ato daqueles que estavam ausentes ou que, embora presentes, não queriam que fosse realizado.

De acordo com esse sentido, defino IGREJA como:

Uma companhia de homens que professam a religião cristã, unidos na pessoa de um soberano, por cuja ordem devem reunir-se e sem cuja autoridade não devem reunir-se.

E porque, em todas as repúblicas, é ilícita a assembleia que não possui autorização do soberano civil, também aquela Igreja que se reúne numa república cujo soberano a proibiu de reunir-se é uma assembleia ilícita.

Uma república cristã e uma Igreja são a mesma coisa

Segue-se também que não existe sobre a Terra uma Igreja universal a que todos os cristãos estejam obrigados a obedecer, porque não existe sobre a Terra poder algum ao qual todas as demais repúblicas estejam sujeitas.

Há cristãos nos domínios de diversos príncipes e Estados, mas cada um deles está sujeito à república da qual é membro e, consequentemente, não pode estar sujeito aos mandamentos de qualquer outra pessoa.

Portanto, uma Igreja capaz de ordenar, julgar, absolver, condenar ou realizar qualquer outro ato é a mesma coisa que uma república civil composta por homens cristãos. É chamada Estado civil porque seus súditos são homens, e Igreja porque seus súditos são cristãos.

Governo temporal e governo espiritual são apenas duas palavras introduzidas no mundo para fazer os homens verem em dobro e se enganarem acerca de seu soberano legítimo.

É verdade que os corpos dos fiéis, depois da ressurreição, serão não apenas espirituais, mas eternos. Nesta vida, porém, são materiais e corruptíveis.

Não há, portanto, nesta vida, qualquer governo, seja do Estado, seja da religião, que não seja temporal. Tampouco é lícito a algum súdito ensinar doutrina cuja divulgação seja proibida pelo governante tanto do Estado como da religião.

E esse governante deve ser um só. Caso contrário, necessariamente surgirão facção e guerra civil na república: entre a Igreja e o Estado; entre os espiritualistas e os temporalistas; entre a espada da justiça e o escudo da fé; e, o que é ainda mais grave, no próprio peito de cada homem cristão, entre o cristão e o homem.

Os doutores da Igreja são chamados pastores, e assim também são chamados os soberanos civis. Mas, se os pastores não estiverem subordinados uns aos outros, de maneira que haja um pastor supremo, os homens serão instruídos em doutrinas contrárias, das quais ambas podem ser falsas, mas uma delas necessariamente o será.

Quem é esse pastor supremo segundo a lei de natureza já foi demonstrado, a saber, o soberano civil. A quem as Escrituras atribuíram esse ofício será examinado nos capítulos seguintes.

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