Capítulo XLI - Do Ofício De Nosso Bendito Salvador
Capítulo XLI - Do Ofício De Nosso Bendito Salvador
As três partes do ofício de Cristo
Encontramos nas Sagradas Escrituras três partes no ofício do Messias.
A primeira é a de Redentor ou Salvador.
A segunda é a de Pastor, Conselheiro ou Mestre, isto é, de Profeta enviado por Deus para converter aqueles que Deus elegeu para a salvação.
A terceira é a de Rei, e Rei eterno, mas subordinado a seu Pai, assim como Moisés e os sumos sacerdotes o foram em seus respectivos tempos.
A essas três partes correspondem três tempos.
Nossa redenção, Ele a realizou em sua primeira vinda, mediante o sacrifício no qual ofereceu a si mesmo por nossos pecados sobre a cruz.
Nossa conversão, realizou-a em parte naquele tempo, em sua própria pessoa, e em parte a realiza agora por meio de seus ministros, e continuará a realizá-la até sua segunda vinda.
Depois de sua segunda vinda começará seu glorioso reinado sobre os eleitos, que deverá durar eternamente.
Seu ofício como Redentor
Ao ofício de Redentor, isto é, daquele que paga o resgate do pecado, cujo resgate é a morte, pertence ter sido sacrificado e, por esse meio, ter suportado sobre sua própria cabeça e afastado de nós nossas iniquidades, do modo exigido por Deus.
Não que a morte de um só homem, ainda que sem pecado, pudesse satisfazer, segundo o rigor da justiça, pelas ofensas de todos os homens, mas porque a misericórdia de Deus instituiu para o pecado os sacrifícios que, em sua misericórdia, se comprazia em aceitar.
Na antiga Lei, como se pode ler em Levítico 16, o Senhor exigia que, uma vez a cada ano, fosse realizada expiação pelos pecados de todo Israel, tanto dos sacerdotes como dos demais.
Para isso, somente Aarão devia sacrificar, por si e pelos sacerdotes, um novilho. Quanto ao restante do povo, devia receber deles dois bodes jovens, dos quais sacrificaria um.
Sobre o outro, que era o bode emissário, devia impor as mãos e, mediante a confissão das iniquidades do povo, depositá-las todas sobre sua cabeça. Depois, por meio de um homem designado para esse fim, devia fazer que o bode fosse conduzido ao deserto, onde escaparia e levaria consigo as iniquidades do povo.
Assim como o sacrifício de um dos bodes constituía preço suficiente para o resgate de todo Israel, porque era aceito, também a morte do Messias constitui preço suficiente pelos pecados de toda a humanidade, porque nada mais foi exigido.
Os sofrimentos de nosso Salvador Cristo parecem estar figurados aqui tão claramente como na oferenda de Isaac ou em qualquer outro símbolo dele no Antigo Testamento.
Ele era tanto o bode sacrificado como o bode emissário.
“Foi oprimido e afligido”, diz Isaías 53,7, “e não abriu a boca; foi conduzido como cordeiro ao matadouro e, como ovelha muda diante de seus tosquiadores, não abriu a boca.”
Aqui Ele é o bode sacrificado.
“Ele suportou nossas enfermidades”, diz o versículo 4, “e carregou nossas dores.”
E novamente, no versículo 6:
“O Senhor fez recair sobre Ele a iniquidade de todos nós.”
Assim, Ele é o bode emissário.
“Foi cortado da terra dos vivos”, diz o versículo 8, “pela transgressão de meu povo.”
Aqui novamente Ele é o bode sacrificado.
E, no versículo 11:
“Ele suportará os pecados deles.”
Ele é o bode emissário.
Desse modo, o Cordeiro de Deus equivale a ambos os bodes: sacrificado, por ter morrido; e libertado, por sua ressurreição, tendo sido oportunamente ressuscitado por seu Pai e retirado da habitação dos homens em sua ascensão.
O Reino de Cristo não é deste mundo
Visto que aquele que redime não possui direito sobre a coisa redimida antes que a redenção se realize e o resgate seja pago, e sendo esse resgate a morte do Redentor, é manifesto que nosso Salvador, como homem, não era Rei daqueles que redimiu antes de sofrer a morte, isto é, durante o tempo em que viveu corporalmente sobre a Terra.
Digo que Ele não era então Rei em exercício, por força do pacto que os fiéis estabelecem com Ele no batismo.
Contudo, pela renovação de seu pacto com Deus no batismo, obrigavam-se a obedecer-lhe como Rei, sob seu Pai, quando Ele se comprazesse em assumir o Reino.
De acordo com isso, nosso Salvador afirma expressamente em João 18,36:
“Meu Reino não é deste mundo.”
Ora, visto que as Escrituras mencionam apenas dois mundos, este que agora existe e permanecerá até o dia do Juízo, razão pela qual também é chamado Último Dia, e aquele que consistirá em novos céus e nova Terra, o Reino de Cristo não começará antes da ressurreição universal.
É isso que nosso Salvador afirma em Mateus 16,27:
“O Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com seus anjos, e então recompensará cada homem segundo suas obras.”
Recompensar cada homem segundo suas obras é exercer o ofício de Rei. E isso não ocorrerá antes de Ele vir na glória de seu Pai, com seus anjos.
Quando nosso Salvador diz, em Mateus 23,2:
“Os escribas e fariseus estão sentados na cadeira de Moisés; observai, portanto, e fazei tudo quanto vos ordenarem”,
declara claramente que atribuía o poder régio, naquele tempo, não a si mesmo, mas a eles.
Também o faz quando diz, em Lucas 12,14:
“Quem me constituiu juiz ou repartidor entre vós?”
E em João 12,47:
“Não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo.”
Entretanto, nosso Salvador veio a este mundo para ser Rei e Juiz no mundo vindouro.
Pois era o Messias, isto é, o Cristo, ou seja, o Sacerdote ungido e o Profeta soberano de Deus. Isso significa que deveria possuir todo o poder que estivera em Moisés, o Profeta, nos sumos sacerdotes que sucederam a Moisés e nos reis que sucederam aos sacerdotes.
São João diz expressamente, no capítulo 5, versículo 22:
“O Pai não julga ninguém, mas entregou todo o julgamento ao Filho.”
Isso não contradiz a outra passagem, “Não vim para julgar o mundo”, pois esta se refere ao mundo presente, e aquela ao mundo vindouro.
Assim também se diz que, na segunda vinda de Cristo, em Mateus 19,28:
“Vós, que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do Homem se sentar no trono de sua glória, também vos sentareis sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel.”
A finalidade da vinda de Cristo era renovar o pacto do Reino de Deus e persuadir os eleitos a aceitá-lo, o que constituía a segunda parte de seu ofício
Se Cristo, enquanto esteve sobre a Terra, não possuía reino neste mundo, com que finalidade ocorreu sua primeira vinda?
Foi para restaurar a Deus, mediante um novo pacto, o Reino que lhe pertencia pelo antigo pacto, mas havia sido interrompido pela rebelião dos israelitas na eleição de Saul.
Para isso, devia pregar-lhes que era o Messias, isto é, o Rei que lhes fora prometido pelos profetas, e oferecer a si mesmo em sacrifício pelos pecados daqueles que, pela fé, se submetessem a Ele.
E, caso a nação como um todo o rejeitasse, devia chamar à sua obediência aqueles dentre os gentios que acreditassem nele.
Assim, havia duas partes no ofício de nosso Salvador durante sua permanência sobre a Terra.
Uma consistia em proclamar a si mesmo como o Cristo.
A outra consistia em persuadir e preparar os homens, mediante o ensino e a realização de milagres, para que vivessem de modo digno da imortalidade que os que acreditassem deveriam desfrutar quando Ele viesse em majestade para tomar posse do Reino de seu Pai.
Por essa razão, o tempo de sua pregação é muitas vezes chamado por Ele próprio de regeneração.
Essa regeneração não é propriamente um reino, nem constitui, portanto, autorização para negar obediência aos magistrados então existentes. Pois Ele ordenou que obedecessem aos que estavam sentados na cadeira de Moisés e que pagassem tributo a César.
Era apenas uma garantia antecipada do Reino de Deus vindouro, concedida àqueles a quem Deus dera a graça de serem seus discípulos e de acreditar nele.
Por essa razão, diz-se que os homens piedosos já estão no Reino da Graça, como se houvessem sido naturalizados naquele Reino celestial.
A pregação de Cristo não era contrária à lei então vigente entre os judeus, nem à de César
Até aqui, portanto, nada foi feito ou ensinado por Cristo que tendesse a diminuir o direito civil dos judeus ou de César.
Quanto à república então existente entre os judeus, tanto os que governavam como os que eram governados esperavam o Messias e o Reino de Deus. Não poderiam tê-lo esperado se suas leis proibissem que Ele, ao chegar, se manifestasse e se declarasse.
Visto, portanto, que Cristo nada fez além de procurar demonstrar, mediante a pregação e os milagres, que era esse Messias, não praticou nisso coisa alguma contrária às leis deles.
O Reino que reivindicava pertencia a outro mundo.
Ensinou todos os homens a obedecer, durante aquele intervalo, aos que estavam sentados na cadeira de Moisés.
Permitiu-lhes pagar tributo a César e recusou assumir para si o ofício de juiz.
Como, então, poderiam suas palavras ou ações ser sediciosas ou tender à destruição do governo civil então existente?
Mas, tendo Deus determinado seu sacrifício para reconduzir seus eleitos à antiga obediência estabelecida por pacto, empregou, como meios para realizar esse propósito, a malícia e a ingratidão deles.
Tampouco isso era contrário às leis de César.
Pois, embora o próprio Pilatos, para agradar aos judeus, o tenha entregado para ser crucificado, antes de fazê-lo declarou publicamente não encontrar nele culpa alguma.
E colocou como título de sua condenação não aquilo que os judeus exigiam, “que Ele pretendia ser Rei”, mas simplesmente: “Ele era o Rei dos judeus”.
Apesar do clamor deles, recusou-se a modificar o título, dizendo:
“O que escrevi, escrevi.”
A terceira parte de seu ofício consistia em ser Rei, sob seu Pai, dos eleitos
Quanto à terceira parte de seu ofício, que consistia em ser Rei, já demonstrei que seu Reino não começaria antes da ressurreição.
Mas então Ele será Rei não apenas como Deus, sentido no qual já é e sempre será Rei de toda a Terra, em virtude de sua onipotência, mas também, de modo peculiar, de seus próprios eleitos, em virtude do pacto que estes estabelecem com Ele no batismo.
Por isso nosso Salvador diz, em Mateus 19,28, que seus apóstolos se sentariam sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel:
“Quando o Filho do Homem se sentar no trono de sua glória.”
Com isso significava que reinaria então em sua natureza humana.
E, em Mateus 16,27:
“O Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com seus anjos, e então recompensará cada homem segundo suas obras.”
O mesmo se pode ler em Marcos 13,26 e 14,62, e, de maneira mais expressa quanto ao tempo, em Lucas 22,29-30:
“Eu vos destino um Reino, assim como meu Pai o destinou a mim, para que comais e bebais à minha mesa em meu Reino e vos senteis sobre tronos, julgando as doze tribos de Israel.”
Disso se evidencia que o Reino de Cristo, destinado a Ele por seu Pai, não começará antes que o Filho do Homem venha em glória e constitua seus apóstolos juízes das doze tribos de Israel.
Mas alguém pode aqui perguntar: visto que não há casamento no Reino dos Céus, os homens comerão e beberão naquele tempo? Que espécie de alimentação, portanto, se pretende significar nessa passagem?
Isso é explicado por nosso Salvador em João 6,27, onde diz:
“Trabalhai, não pelo alimento que perece, mas pelo alimento que permanece para a vida eterna, o qual o Filho do Homem vos dará.”
Assim, comer à mesa de Cristo significa comer da árvore da vida, isto é, desfrutar da imortalidade no Reino do Filho do Homem.
Por essas e muitas outras passagens, evidencia-se que o Reino de nosso Salvador será exercido por Ele em sua natureza humana.
A autoridade de Cristo no Reino de Deus está subordinada a seu Pai
Além disso, Ele será Rei apenas como subordinado ou vice-regente de Deus Pai, assim como Moisés o foi no deserto, os sumos sacerdotes antes do reinado de Saul e os reis depois dele.
Pois uma das profecias acerca de Cristo afirmava que Ele seria semelhante a Moisés quanto ao ofício:
“Levantarei para eles um Profeta”, diz o Senhor em Deuteronômio 18,18, “dentre seus irmãos, semelhante a ti, e porei minhas palavras em sua boca.”
Essa semelhança com Moisés também se manifesta nas ações do próprio Salvador durante o tempo em que viveu sobre a Terra.
Assim como Moisés escolheu doze príncipes das tribos para governarem sob sua autoridade, nosso Salvador escolheu doze apóstolos, que se sentarão sobre doze tronos e julgarão as doze tribos de Israel.
E assim como Moisés autorizou setenta anciãos a receberem o Espírito de Deus e a profetizarem ao povo, isto é, como já disse, a falarem em nome de Deus, também nosso Salvador ordenou setenta discípulos para pregarem seu Reino e a salvação a todas as nações.
E, assim como, quando apresentaram a Moisés uma acusação contra aqueles dentre os setenta que profetizavam no acampamento de Israel, ele justificou sua conduta, por estarem nisso a serviço de seu governo, também nosso Salvador, quando São João lhe apresentou uma queixa contra certo homem que expulsava demônios em seu nome, justificou-o, dizendo em Lucas 9,50:
“Não o proibais, pois quem não é contra nós é por nós.”
Além disso, nosso Salvador assemelhou-se a Moisés na instituição dos sacramentos, tanto daquele pelo qual se ingressa no Reino de Deus como daquele que comemora a libertação de seus eleitos de sua condição miserável.
Antes do tempo de Moisés, os filhos de Israel tinham como sacramento de sua recepção no Reino de Deus o rito da circuncisão. Esse rito, tendo sido omitido no deserto, foi restaurado assim que entraram na Terra Prometida.
Do mesmo modo, antes da vinda de nosso Salvador, os judeus possuíam um rito de batismo, isto é, de lavagem com água, para todos aqueles que, sendo gentios, abraçavam o Deus de Israel.
São João Batista empregou esse rito na recepção de todos os que se declaravam seguidores do Cristo, que ele pregava já ter vindo ao mundo. E nosso Salvador instituiu o mesmo rito como sacramento a ser recebido por todos os que acreditassem nele.
A causa da qual procedeu originalmente o rito do batismo não é expressamente declarada nas Escrituras. Pode-se, contudo, considerar provável que fosse uma imitação da lei de Moisés acerca da lepra.
Segundo essa lei, o leproso devia ser mantido fora do acampamento de Israel durante certo tempo. Passado esse período, sendo julgado puro pelo sacerdote, era admitido novamente no acampamento depois de uma lavagem solene.
Isso pode, portanto, ser uma figura da lavagem no batismo, pela qual aqueles que são purificados da lepra do pecado mediante a fé são recebidos na Igreja com a solenidade do batismo.
Há outra conjectura, derivada das cerimônias dos gentios, acerca de certo caso que raramente ocorre.
Quando um homem considerado morto por acaso recobrava a vida, os demais tinham escrúpulo de conviver com ele, como teriam de conviver com um fantasma, a menos que fosse novamente recebido no número dos homens mediante uma lavagem, assim como as crianças recém-nascidas eram lavadas da impureza de seu nascimento, o que constituía uma espécie de novo nascimento.
Essa cerimônia dos gregos, durante o período em que a Judeia esteve sob o domínio de Alexandre e de seus sucessores gregos, pode muito provavelmente ter penetrado na religião dos judeus.
Mas, visto não ser provável que nosso Salvador aprovasse um rito pagão, é mais provável que ele procedesse da cerimônia legal da lavagem depois da lepra.
Quanto ao outro sacramento, o de comer o cordeiro pascal, é manifesto que foi imitado no sacramento da Ceia do Senhor.
Nela, o partir do pão e o derramar do vinho conservam a memória de nossa libertação da miséria do pecado pela paixão de Cristo, assim como o consumo do cordeiro pascal conservava a memória da libertação dos judeus da servidão do Egito.
Visto, portanto, que a autoridade de Moisés era apenas subordinada, e que ele era somente lugar-tenente de Deus, segue-se que Cristo, cuja autoridade como homem deveria ser semelhante à de Moisés, também não era mais do que subordinado à autoridade de seu Pai.
O mesmo é significado de maneira ainda mais expressa quando Ele nos ensina a orar:
“Pai nosso, venha o teu Reino”;
e:
“Pois teu é o Reino, o poder e a glória”;
e quando se diz que:
“Ele virá na glória de seu Pai”;
e pelo que São Paulo afirma em 1 Coríntios 15,24:
“Então virá o fim, quando Ele tiver entregado o Reino a Deus, o Pai”;
e por muitas outras passagens extremamente expressas.
Um só e o mesmo Deus é a pessoa representada por Moisés e por Cristo
Nosso Salvador, portanto, tanto ensinando como reinando, representa, assim como Moisés representava, a pessoa de Deus.
Esse Deus, daquele tempo em diante, mas não antes, é chamado Pai. E, permanecendo sempre uma só e mesma substância, é uma pessoa quando representado por Moisés e outra pessoa quando representado por seu Filho, o Cristo.
Pois, sendo a pessoa relativa a um representante, segue-se da pluralidade de representantes que haja uma pluralidade de pessoas, embora de uma só e mesma substância.