Capítulo XLIII - Do Que É Necessário Para Que Um Homem Seja Recebido No Reino Dos Céus
Capítulo XLIII - Do Que É Necessário Para Que Um Homem Seja Recebido No Reino Dos Céus
A dificuldade de obedecer ao mesmo tempo a Deus e aos homens
O pretexto mais frequente de sedição e guerra civil nas repúblicas cristãs procedeu, durante muito tempo, de uma dificuldade ainda não suficientemente resolvida: a de obedecer ao mesmo tempo a Deus e aos homens quando seus mandamentos são contrários uns aos outros. É bastante evidente que, quando um homem recebe duas ordens contrárias e sabe que uma delas vem de Deus, deve obedecer a esta, e não à outra, ainda que esta última seja a ordem de seu legítimo soberano, seja ele um monarca ou uma assembleia soberana, ou mesmo a ordem de seu pai. A dificuldade, portanto, consiste nisto: quando os homens recebem uma ordem em nome de Deus, em muitos casos não sabem se ela realmente vem de Deus ou se aquele que ordena apenas abusa do nome de Deus para algum fim particular. Pois, assim como na Igreja dos judeus houve muitos falsos profetas que procuravam conquistar reputação junto ao povo por meio de sonhos e visões fingidos, também houve, em todos os tempos da Igreja de Cristo, falsos mestres que buscavam reputação junto ao povo por meio de doutrinas fantásticas e falsas e, valendo-se dessa reputação, como é próprio da ambição, procuravam governá-lo em benefício próprio.
Essa dificuldade nada representa para os que distinguem o que é necessário do que não é necessário à salvação
Mas essa dificuldade de obedecer ao mesmo tempo a Deus e ao soberano civil na terra nada representa para aqueles que sabem distinguir entre o que é necessário e o que não é necessário para serem recebidos no Reino de Deus. Pois, se a ordem do soberano civil puder ser obedecida sem perda da vida eterna, desobedecer-lhe é injusto, e então se aplicam os preceitos do Apóstolo: “Servos, obedecei em tudo a vossos senhores”; e: “Filhos, obedecei em tudo a vossos pais”; bem como o preceito de nosso Salvador: “Os escribas e fariseus estão sentados na cadeira de Moisés; observai, pois, e fazei tudo quanto vos disserem.” Mas, se a ordem for tal que não possa ser obedecida sem condenação à morte eterna, obedecer-lhe seria loucura, e então se aplica o conselho de nosso Salvador, em Mateus 10,28: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma.” Todos os homens, portanto, que desejam evitar tanto os castigos que lhes podem ser infligidos neste mundo pela desobediência ao soberano terreno quanto os que lhes serão infligidos no mundo vindouro pela desobediência a Deus precisam ser ensinados a distinguir corretamente entre o que é e o que não é necessário à salvação eterna.
Tudo o que é necessário à salvação está contido na fé e na obediência
Tudo o que é necessário à salvação está contido em duas virtudes: a fé em Cristo e a obediência às leis. A segunda, se fosse perfeita, seria suficiente. Mas, como todos somos culpados de desobediência à lei de Deus, não apenas originalmente em Adão, mas também efetivamente por nossas próprias transgressões, exige-se de nós não só obediência pelo restante de nossa vida, mas também remissão dos pecados passados, remissão que é a recompensa de nossa fé em Cristo. Que nada mais seja necessariamente exigido para a salvação torna-se evidente pelo fato de que o Reino dos Céus não está fechado senão aos pecadores, isto é, aos desobedientes ou transgressores da lei, nem mesmo a estes, caso se arrependam e creiam em todos os artigos da fé cristã necessários à salvação.
Qual obediência é necessária
A obediência que Deus exige de nós, ele que em todas as nossas ações aceita a vontade pelo ato, consiste num esforço sério para obedecer-lhe, e é também designada por todos os nomes que exprimem esse esforço. Por isso, a obediência é por vezes chamada de caridade e amor, porque ambos implicam vontade de obedecer; e nosso próprio Salvador faz do amor a Deus e uns aos outros o cumprimento de toda a lei. Outras vezes, ela recebe o nome de justiça, pois a justiça nada mais é que a vontade de dar a cada um o que é seu, isto é, a vontade de obedecer às leis. E outras vezes recebe o nome de arrependimento, porque arrepender-se implica afastar-se do pecado, o que equivale ao retorno da vontade à obediência. Portanto, todo aquele que deseja sinceramente cumprir os mandamentos de Deus, que verdadeiramente se arrepende de suas transgressões ou que ama a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo possui toda a obediência necessária para ser recebido no Reino de Deus. Pois, se Deus exigisse inocência perfeita, nenhuma carne poderia ser salva.
E a quais leis
Mas quais são os mandamentos que Deus nos deu? São mandamentos de Deus todas as leis entregues aos judeus pelas mãos de Moisés? Se são, por que os cristãos não são ensinados a obedecê-las? Se não são, quais outras leis o são, além da lei de natureza? Nosso Salvador Cristo não nos deu novas leis, mas aconselhou-nos a observar aquelas às quais estamos sujeitos, isto é, as leis de natureza e as leis de nossos respectivos soberanos. Tampouco estabeleceu uma nova lei para os judeus em seu Sermão da Montanha, limitando-se a explicar as leis de Moisés, às quais eles já estavam sujeitos. Portanto, as leis de Deus não são outras senão as leis de natureza, das quais a principal é que não violemos nossa fé, isto é, o mandamento de obedecer aos soberanos civis que constituímos sobre nós por pacto mútuo uns com os outros.
E essa lei de Deus, que ordena obediência à lei civil, ordena consequentemente obediência a todos os preceitos da Bíblia, a qual, como demonstrei no capítulo precedente, só é lei onde o soberano civil a fez assim. Nos demais lugares, ela é apenas conselho, que um homem pode recusar-se a obedecer, sem injustiça, por sua própria conta e risco.
Na fé de um cristão, quem é a pessoa em quem se crê
Sabendo agora qual é a obediência necessária à salvação e a quem ela é devida, devemos considerar em seguida, a respeito da fé, em quem e por que cremos, e quais são os artigos ou pontos em que necessariamente devem crer os que serão salvos.
Primeiramente, quanto à pessoa em quem cremos, como é impossível crer em qualquer pessoa antes de sabermos o que ela diz, é necessário que seja alguém a quem tenhamos ouvido falar. A pessoa em quem Abraão, Isaac, Jacó, Moisés e os profetas creram foi o próprio Deus, que lhes falou de modo sobrenatural. E a pessoa em quem creram os apóstolos e discípulos que conviveram com Cristo foi o próprio Salvador.
Mas, daqueles a quem nem Deus Pai nem nosso Salvador jamais falaram, não se pode dizer que a pessoa em quem creram tenha sido Deus. Eles creram nos apóstolos e, depois deles, nos pastores e doutores da Igreja, que recomendaram à sua fé a história do Antigo e do Novo Testamento. Assim, a fé dos cristãos, desde o tempo de nosso Salvador, teve por fundamento, primeiramente, a reputação de seus pastores e, depois, a autoridade daqueles que fizeram o Antigo e o Novo Testamento serem recebidos como regra de fé. E isso só poderia ser feito pelos soberanos cristãos, que são, portanto, os pastores supremos e as únicas pessoas que os cristãos agora ouvem falar da parte de Deus, excetuados aqueles a quem Deus, ainda hoje, fale sobrenaturalmente.
Mas, como muitos falsos profetas “saíram pelo mundo”, os outros homens devem examinar esses espíritos, como nos aconselhou São João, na Primeira Epístola, capítulo 4, versículo 1, para saber “se são de Deus ou não”. Portanto, visto que o exame das doutrinas pertence ao pastor supremo, a pessoa em quem devem crer todos os que não possuem revelação especial é, em cada república, o pastor supremo, isto é, o soberano civil.
As causas da fé cristã
As causas pelas quais os homens creem em alguma doutrina cristã são diversas. Pois a fé é dom de Deus, e ele a opera em cada homem particular pelos caminhos que lhe parecem bons. A causa imediata mais comum de nossa crença em qualquer ponto da fé cristã é crermos que a Bíblia é a Palavra de Deus.
Mas a razão pela qual cremos que a Bíblia é a Palavra de Deus é muito discutida, como necessariamente acontece com todas as questões que não são corretamente formuladas. Pois a pergunta que se faz não é: “Por que cremos nisso?”, mas: “Como sabemos disso?”, como se crer e saber fossem a mesma coisa. E daí sucede que, enquanto uma das partes fundamenta seu conhecimento na infalibilidade da Igreja e a outra no testemunho do espírito particular, nenhuma delas conclui aquilo que pretende.
Pois como poderá um homem conhecer a infalibilidade da Igreja sem antes conhecer a infalibilidade das Escrituras? Ou como poderá saber que seu espírito particular é algo diferente de uma crença fundamentada na autoridade e nos argumentos de seus mestres, ou numa presunção acerca dos próprios dons? Além disso, nada há nas Escrituras de que se possa inferir a infalibilidade da Igreja, muito menos a de qualquer Igreja particular e, menos ainda, a infalibilidade de qualquer homem particular.
A fé vem pelo ouvir
É evidente, portanto, que os cristãos não sabem, mas apenas creem que as Escrituras são a Palavra de Deus, e que o meio pelo qual Deus ordinariamente se compraz em levá-los a crer é conforme ao caminho da natureza, isto é, por intermédio de seus mestres.
Esta é a doutrina de São Paulo a respeito da fé cristã em geral, em Romanos 10,17: “A fé vem pelo ouvir”, isto é, por ouvir nossos pastores legítimos. Ele também diz, nos versículos 14 e 15 do mesmo capítulo: “Como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão sem pregador? E como pregarão, se não forem enviados?”
Disso resulta evidente que a causa ordinária de se crer que as Escrituras são a Palavra de Deus é a mesma que produz a crença em todos os outros artigos de nossa fé, a saber, ouvir aqueles que são autorizados e designados pela lei para nos ensinar, como nossos pais em suas casas e nossos pastores nas igrejas.
Isso também se torna ainda mais evidente pela experiência. Pois que outra causa se pode atribuir ao fato de que, nas repúblicas cristãs, todos os homens creem, ou ao menos professam, que as Escrituras são a Palavra de Deus, ao passo que em outras repúblicas quase ninguém o faz, senão que nas repúblicas cristãs são ensinados assim desde a infância, enquanto em outros lugares recebem ensinamento diferente?
Mas, se o ensino é a causa da fé, por que nem todos creem? É certo, portanto, que a fé é dom de Deus, e ele a concede a quem quer. Contudo, como àqueles a quem a concede ele a dá por intermédio de mestres, a causa imediata da fé é o ouvir.
Numa escola em que muitos são ensinados, alguns progridem e outros não. A causa do aprendizado daqueles que progridem é o mestre, mas não se pode daí inferir que o aprendizado não seja dom de Deus. Todas as coisas boas procedem de Deus. Contudo, nem todos os que as possuem podem dizer que são inspirados, pois isso implica um dom sobrenatural e a ação imediata de Deus. Aquele que o reivindica apresenta-se como profeta e está sujeito ao exame da Igreja.
Mas, quer os homens saibam, creiam ou concedam que as Escrituras são a Palavra de Deus, se eu demonstrar, a partir das passagens que não são obscuras, quais artigos de fé são necessários, e unicamente necessários, à salvação, esses homens deverão necessariamente saber, crer ou conceder o mesmo.
O único artigo necessário da fé cristã, o unum necessarium
O único artigo de fé que as Escrituras tornam simplesmente necessário à salvação é este:
JESUS É O CRISTO.
Pelo nome de Cristo entende-se o rei que Deus prometera anteriormente, por intermédio dos profetas do Antigo Testamento, enviar ao mundo para reinar eternamente, sob a autoridade do próprio Deus, sobre os judeus e sobre os homens das outras nações que cressem nele, e para lhes dar a vida eterna perdida pelo pecado de Adão.
Depois de demonstrar isso pelas Escrituras, mostrarei também quando e em que sentido alguns outros artigos podem igualmente ser chamados necessários.
Demonstrado pelo propósito dos evangelistas
Para provar que a crença neste artigo, Jesus é o Cristo, constitui toda a fé exigida para a salvação, meu primeiro argumento será extraído do propósito dos evangelistas, que consistiu em estabelecer esse único artigo, Jesus é o Cristo, por meio da descrição da vida de nosso Salvador.
A síntese do Evangelho de São Mateus é a seguinte: Jesus era da linhagem de Davi e nasceu de uma virgem, sinais do verdadeiro Cristo; os magos vieram adorá-lo como rei dos judeus; Herodes, pela mesma razão, procurou matá-lo; João Batista o proclamou; ele pregou, pessoalmente e por meio de seus apóstolos, que era esse rei; ensinou a lei não como um escriba, mas como homem dotado de autoridade; curou doenças apenas por sua palavra e realizou muitos outros milagres que, segundo as profecias, o Cristo deveria realizar; foi saudado como rei ao entrar em Jerusalém; advertiu-os de que deveriam precaver-se contra todos os outros que pretendessem ser o Cristo; foi preso, acusado e morto por dizer que era rei; e a causa de sua condenação, escrita sobre a cruz, foi:
JESUS DE NAZARÉ, REI DOS JUDEUS.
Tudo isso não tende a outro fim senão fazer com que os homens creiam que Jesus é o Cristo. Esse foi, portanto, o propósito do Evangelho de São Mateus. Mas o propósito de todos os evangelistas, como se pode perceber pela leitura, foi o mesmo. Portanto, o propósito de todo o Evangelho foi estabelecer esse único artigo.
E São João faz dele expressamente sua conclusão, em João 20,31: “Estas coisas foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo.”
Demonstrado pelos sermões dos apóstolos
Meu segundo argumento é extraído do tema dos sermões dos apóstolos, tanto enquanto nosso Salvador viveu na terra quanto depois de sua ascensão.
No tempo de nosso Salvador, os apóstolos foram enviados, segundo Lucas 9,2, para pregar o Reino de Deus. Pois nem nessa passagem nem em Mateus 10,7 ele lhes concede outra missão além desta: “Indo, pregai, dizendo: O Reino dos Céus está próximo”, isto é, Jesus é o Messias, o Cristo, o rei que havia de vir.
Que a pregação deles depois da ascensão continuou a ser a mesma torna-se evidente em Atos 17,6:
“Arrastaram”, diz São Lucas, “Jasão e alguns irmãos diante das autoridades da cidade, gritando: Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui, e Jasão os recebeu. Todos eles procedem contra os decretos de César, dizendo que existe outro rei, chamado Jesus.”
Isso também se mostra nos versículos 2 e 3 do mesmo capítulo, onde se diz que São Paulo, “segundo seu costume, foi ter com eles e, durante três sábados, discutiu com eles com base nas Escrituras, explicando e demonstrando que o Cristo precisava sofrer e ressuscitar dentre os mortos, e que este Jesus, que eu vos anuncio, é o Cristo”.
Demonstrado pela facilidade da doutrina
O terceiro argumento provém das passagens das Escrituras em que toda a fé exigida para a salvação é declarada fácil. Pois, se fosse necessário à salvação o assentimento interior da mente a todas as doutrinas atualmente ensinadas acerca da fé cristã, a maior parte das quais é objeto de disputa, nada haveria no mundo mais difícil que ser cristão.
O ladrão na cruz, embora arrependido, não poderia ter sido salvo por dizer: “Senhor, lembra-te de mim quando entrares em teu Reino”, palavras pelas quais não testemunhou crença em nenhum artigo além deste: Jesus era o rei.
Tampouco se poderia dizer, como em Mateus 11,30, que “o jugo de Cristo é suave e seu fardo, leve”; nem que “as criancinhas creem nele”, como em Mateus 18,6.
Nem poderia São Paulo ter dito, em 1 Coríntios 1,21: “Aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação.”
Nem o próprio São Paulo poderia ter sido salvo, e muito menos tornar-se tão subitamente um grande doutor da Igreja, pois talvez jamais tivesse pensado na transubstanciação, no purgatório ou em muitos outros artigos que hoje são impostos.
Demonstrado por textos formais e claros
O quarto argumento é extraído de passagens expressas, que não admitem controvérsia de interpretação.
Primeiramente, João 5,39: “Examinai as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas que dão testemunho de mim.”
Nosso Salvador fala aqui apenas das Escrituras do Antigo Testamento, pois os judeus daquela época não poderiam examinar as Escrituras do Novo Testamento, que ainda não haviam sido escritas. Mas o Antigo Testamento nada contém acerca de Cristo senão os sinais pelos quais os homens poderiam reconhecê-lo quando viesse, como o fato de que descenderia de Davi, nasceria em Belém e de uma virgem, realizaria grandes milagres e coisas semelhantes. Portanto, crer que este Jesus era aquele de quem falavam as Escrituras bastava para a vida eterna. Mas aquilo que é mais que suficiente não é necessário e, consequentemente, nenhum outro artigo é exigido.
Novamente, em João 11,26: “Todo aquele que vive e crê em mim não morrerá eternamente.” Portanto, crer em Cristo é fé suficiente para a vida eterna e, consequentemente, nenhuma fé além dessa é necessária. Mas crer em Jesus e crer que Jesus é o Cristo são uma só e mesma coisa, como se vê nos versículos imediatamente seguintes. Pois, depois de nosso Salvador ter dito a Marta, no versículo 26: “Crês nisso?”, ela respondeu, no versículo 27: “Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo.” Portanto, esse artigo, por si só, constitui fé suficiente para a vida eterna, e aquilo que é mais que suficiente não é necessário.
Em terceiro lugar, João 20,31: “Estas coisas foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” Nessa passagem, crer que Jesus é o Cristo é fé suficiente para alcançar a vida e, portanto, nenhum outro artigo é necessário.
Em quarto lugar, 1 João 4,2: “Todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus.” E 1 João 5,1: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo nasceu de Deus.” E, no versículo 5: “Quem é aquele que vence o mundo, senão o que crê que Jesus é o Filho de Deus?”
Em quinto lugar, Atos 8,36-37: “Eis aqui água”, disse o eunuco, “o que impede que eu seja batizado?” E Filipe respondeu: “Se crês de todo o coração, é permitido.” E ele respondeu: “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.”
Portanto, a crença neste artigo, Jesus é o Cristo, basta para o batismo, isto é, para sermos recebidos no Reino de Deus e, consequentemente, é a única necessária. E, em geral, em todas as passagens em que nosso Salvador diz a algum homem: “Tua fé te salvou”, a razão pela qual o diz é alguma confissão que, direta ou consequentemente, implica a crença de que Jesus é o Cristo.
Demonstrado pelo fato de ser o fundamento de todos os outros artigos
O último argumento provém das passagens em que este artigo é apresentado como fundamento da fé, pois aquele que conserva o fundamento será salvo.
A primeira passagem é Mateus 24,23: “Se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo, ou: Ei-lo ali, não acrediteis, pois surgirão falsos Cristos e falsos profetas, e mostrarão grandes sinais e prodígios etc.” Vemos aqui que este artigo, Jesus é o Cristo, deve ser conservado, ainda que aquele que ensine o contrário realize grandes milagres.
A segunda passagem é Gálatas 1,8: “Ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregue outro Evangelho além daquele que vos pregamos, seja anátema.” Mas o Evangelho pregado por Paulo e pelos outros apóstolos consistia apenas neste artigo, Jesus é o Cristo. Portanto, em defesa da crença nesse artigo, devemos rejeitar a autoridade até mesmo de um anjo do céu, e muito mais a de qualquer homem mortal, caso ensine o contrário. Esse é, portanto, o artigo fundamental da fé cristã.
Uma terceira passagem é 1 João 4,1: “Amados, não creiais em todo espírito. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus.” Disso se torna evidente que este artigo é a medida e a regra pelas quais todos os outros artigos devem ser avaliados e examinados e é, portanto, o único fundamental.
Uma quarta passagem encontra-se em Mateus 16,18, onde, depois de São Pedro ter professado esse artigo, dizendo a nosso Salvador: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, nosso Salvador respondeu: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja.” Daí infiro que esse artigo é aquele sobre o qual todas as outras doutrinas da Igreja são edificadas como sobre seu fundamento.
Uma quinta passagem encontra-se em 1 Coríntios 3,11-15:
“Ninguém pode lançar outro fundamento além daquele que já foi lançado: Jesus é o Cristo. E, se alguém edificar sobre este fundamento ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a obra de cada um se tornará manifesta, pois o Dia a declarará, porque será revelada pelo fogo, e o fogo provará qual é a obra de cada um. Se permanecer a obra que alguém edificou sobre o fundamento, receberá recompensa. Se sua obra for consumida, sofrerá perda, mas ele mesmo será salvo, contudo como pelo fogo.”
Essas palavras são em parte claras e fáceis de compreender e, em parte, alegóricas e difíceis. Da parte que é clara pode-se inferir que os pastores que ensinam este fundamento, Jesus é o Cristo, embora extraiam dele consequências falsas, coisa a que todos os homens estão algumas vezes sujeitos, podem, não obstante, ser salvos. Com muito mais razão poderão ser salvos aqueles que, não sendo pastores, mas ouvintes, creem naquilo que lhes é ensinado por seus pastores legítimos. Portanto, a crença nesse artigo é suficiente e, consequentemente, nenhum outro artigo de fé é necessariamente exigido para a salvação.
Quanto à parte alegórica, isto é, “o fogo provará a obra de cada um” e “eles serão salvos, mas como pelo fogo”, ou “através do fogo”, pois o original é dia pyros, ela em nada se opõe à conclusão que extraí das outras palavras, que são claras.
Contudo, como dessa passagem foi retirado um argumento em favor do fogo do purgatório, apresentarei aqui também minha conjectura acerca do significado dessa prova das doutrinas e dessa salvação dos homens como pelo fogo.
O Apóstolo parece aqui aludir às palavras do profeta Zacarias, capítulo 13, versículos 8 e 9, que, falando da restauração do Reino de Deus, diz:
“Duas partes serão exterminadas e morrerão, mas a terceira será deixada nele. E farei passar essa terceira parte pelo fogo, e a refinarei como se refina a prata, e a provarei como se prova o ouro. Ela invocará o nome do Senhor, e eu a ouvirei.”
O Dia do Juízo é o dia da restauração do Reino de Deus, e nesse dia, segundo nos diz São Pedro em 2 Pedro 3,7, 10 e 12, ocorrerá a conflagração do mundo, na qual os ímpios perecerão. Mas o remanescente que Deus salvar passará ileso por esse fogo e nele será provado e refinado de sua idolatria, assim como a prata e o ouro são purificados de suas escórias pelo fogo, e será levado a invocar o nome do verdadeiro Deus.
Aludindo a isso, São Paulo diz aqui que o Dia, isto é, o Dia do Juízo, o grande dia da vinda de nosso Salvador para restaurar o Reino de Deus em Israel, provará a doutrina de cada homem, julgando quais são ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha. Então aqueles que edificaram falsas consequências sobre o verdadeiro fundamento verão suas doutrinas condenadas. Não obstante, eles mesmos serão salvos, passarão ilesos por esse fogo universal e viverão eternamente para invocar o nome do Deus verdadeiro e único.
Nesse sentido, nada há que não esteja de acordo com o restante das Sagradas Escrituras, nem qualquer vestígio do fogo do purgatório.
Em que sentido outros artigos podem ser chamados necessários
Mas alguém poderá perguntar se não é tão necessário à salvação crer que Deus é onipotente e criador do mundo, que Jesus Cristo ressuscitou e que todos os demais homens ressuscitarão dentre os mortos no último dia, quanto crer que Jesus é o Cristo.
Respondo que sim, esses artigos são necessários, assim como muitos outros. Mas são artigos contidos neste único e que dele podem ser deduzidos com maior ou menor dificuldade.
Pois quem não percebe que aqueles que creem que Jesus é o Filho do Deus de Israel, e que os israelitas tinham por Deus o criador onipotente de todas as coisas, creem também, por isso mesmo, que Deus é o criador onipotente de todas as coisas?
Ou como pode um homem crer que Jesus é o rei que reinará eternamente sem crer também que ele ressuscitou dentre os mortos? Pois um homem morto não pode exercer o ofício de rei.
Em suma, aquele que conserva este fundamento, Jesus é o Cristo, conserva expressamente tudo aquilo que vê corretamente deduzido dele e, implicitamente, tudo aquilo que dele decorre, ainda que não possua habilidade suficiente para discernir a consequência.
Portanto, continua válida a afirmação de que a crença nesse único artigo constitui fé suficiente para que os penitentes obtenham a remissão dos pecados e, consequentemente, sejam conduzidos ao Reino dos Céus.
A fé e a obediência são ambas necessárias à salvação
Agora que demonstrei que toda a obediência exigida para a salvação consiste na vontade de obedecer à lei de Deus, isto é, no arrependimento, e que toda a fé exigida para o mesmo fim está compreendida na crença neste artigo, Jesus é o Cristo, apresentarei ainda aquelas passagens do Evangelho que provam que tudo o que é necessário à salvação está contido na união dessas duas coisas.
Os homens a quem São Pedro pregou no dia de Pentecostes, imediatamente depois da ascensão de nosso Salvador, perguntaram-lhe e aos demais apóstolos, segundo Atos 2,37: “Homens e irmãos, que devemos fazer?” São Pedro respondeu-lhes no versículo seguinte: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado para a remissão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.”
Portanto, arrependimento e batismo, isto é, crer que Jesus é o Cristo, constituem tudo o que é necessário à salvação.
Novamente, quando certo governante perguntou a nosso Salvador, em Lucas 18,18: “Que farei para herdar a vida eterna?”, ele respondeu, no versículo 20: “Conheces os mandamentos: não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe.”
Quando o homem afirmou ter observado tudo isso, nosso Salvador acrescentou: “Vende tudo o que tens, dá aos pobres, vem e segue-me”, o que equivalia a dizer: confia em mim, que sou o rei.
Portanto, cumprir a lei e crer que Jesus é o rei é tudo o que se exige para conduzir um homem à vida eterna.
Em terceiro lugar, São Paulo diz em Romanos 1,17: “O justo viverá pela fé.” Não qualquer homem, mas o justo. Portanto, a fé e a justiça, isto é, a vontade de ser justo ou o arrependimento, constituem tudo o que é necessário à vida eterna.
E, em Marcos 1,15, nosso Salvador pregava, dizendo: “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no Evangelho”, isto é, na boa-nova de que o Cristo havia chegado.
Portanto, arrepender-se e crer que Jesus é o Cristo constituem tudo o que se exige para a salvação.
O que cada uma delas contribui para a salvação
Visto, portanto, ser necessário que a fé e a obediência, esta última implícita na palavra arrependimento, concorram ambas para nossa salvação, discute-se impropriamente por qual das duas somos justificados.
Não será, contudo, impróprio tornar manifesto de que maneira cada uma delas contribui para isso e em que sentido se diz que somos justificados por uma e pela outra.
Primeiramente, se por justiça se entende a justiça das próprias obras, nenhum homem pode ser salvo, pois não existe ninguém que não tenha transgredido a lei de Deus.
Quando, portanto, se diz que somos justificados pelas obras, isso deve ser entendido em relação à vontade, que Deus sempre aceita pelo próprio ato, tanto nos homens bons quanto nos maus. E somente nesse sentido um homem é chamado justo ou injusto, e sua justiça o justifica, isto é, confere-lhe, na aceitação de Deus, o título de justo e torna-o capaz de viver por sua fé, capacidade que antes não possuía.
Assim, a justiça justifica no sentido em que justificar é o mesmo que denominar um homem justo, e não no sentido de quitar a obrigação da lei, tornando injusta a punição de seus pecados.
Mas diz-se também que um homem é justificado quando sua defesa, embora insuficiente em si mesma, é aceita, como quando alegamos nossa vontade, nosso esforço para cumprir a lei e nosso arrependimento pelas faltas, e Deus os aceita como se fossem o próprio cumprimento.
E, como Deus não aceita a vontade pelo ato senão nos fiéis, é a fé que torna válida nossa defesa. É nesse sentido que somente a fé justifica.
Assim, a fé e a obediência são ambas necessárias à salvação, embora em sentidos diferentes se diga que cada uma delas justifica.
A obediência a Deus e ao soberano civil não é incompatível
Tendo assim demonstrado o que é necessário à salvação, não é difícil conciliar nossa obediência ao soberano civil, seja ele cristão ou infiel.
Se for cristão, ele admite a crença neste artigo, Jesus é o Cristo, e em todos os artigos nele contidos ou dele deduzidos como consequências evidentes, o que constitui toda a fé necessária à salvação. E, por ser soberano, exige de todos os seus súditos obediência às suas próprias leis, isto é, a todas as leis civis, nas quais também estão contidas todas as leis de natureza, ou seja, todas as leis de Deus.
Pois, além das leis de natureza e das leis da Igreja, que fazem parte da lei civil, uma vez que a Igreja capaz de fazer leis é a república, não existem outras leis divinas.
Portanto, quem obedece a seu soberano cristão não é por isso impedido nem de crer em Deus nem de obedecer-lhe.
Mas suponhamos que um rei cristão extraia deste fundamento, Jesus é o Cristo, algumas consequências falsas, isto é, edifique sobre ele algumas construções de feno ou palha, e ordene que sejam ensinadas. Ainda assim, visto que São Paulo diz que ele será salvo, com muito maior razão será salvo aquele que as ensina por ordem dele, e muito mais ainda aquele que não as ensina, mas apenas crê em seu mestre legítimo.
E, caso um súdito seja proibido pelo soberano civil de professar alguma dessas suas opiniões, com que fundamento poderá desobedecer?
Os reis cristãos podem errar ao deduzir uma consequência, mas quem julgará? Julgará um homem particular, quando a questão disser respeito à própria obediência? Ou julgará alguém que não aquele designado para isso pela Igreja, isto é, pelo soberano civil que a representa?
Ou, se o papa ou um apóstolo julgar, não poderá também ele errar ao deduzir uma consequência? Não errou um dos dois, São Pedro ou São Paulo, numa construção sobre o fundamento, quando São Paulo resistiu a São Pedro face a face?
Não pode, portanto, haver contradição entre as leis de Deus e as leis de uma república cristã.
Nem quando o soberano é infiel
E, quando o soberano civil é infiel, todo súdito seu que lhe resiste peca contra as leis de Deus, pois tais são as leis de natureza, e rejeita o conselho dos apóstolos, que admoesta todos os cristãos a obedecer a seus príncipes, e todos os filhos e servos a obedecer em tudo a seus pais e senhores.
Quanto à fé dos súditos, ela é interior e invisível. Eles possuem a licença que Naamã possuía e não precisam colocar-se em perigo por causa dela. Mas, se o fizerem, devem esperar sua recompensa no Céu, e não se queixar de seu legítimo soberano, muito menos fazer-lhe guerra.
Pois aquele que não se alegra diante de qualquer ocasião justa de martírio não possui a fé que professa, mas apenas a simula para conferir alguma aparência legítima à própria contumácia.
Mas que rei infiel seria tão irracional a ponto de matar ou perseguir um súdito por saber que ele aguarda a segunda vinda de Cristo, depois que o mundo presente for consumido pelo fogo, e que então pretende obedecer-lhe, pois esse é o sentido de crer que Jesus é o Cristo, enquanto, até lá, considera-se obrigado a obedecer às leis desse rei infiel, como todos os cristãos são obrigados em consciência a fazer?
E isso bastará a respeito do Reino de Deus e da política eclesiástica.
Nessa matéria, não pretendo apresentar nenhuma proposição própria, mas apenas mostrar quais são as consequências que me parecem dedutíveis dos princípios da política cristã, isto é, das Sagradas Escrituras, em confirmação do poder dos soberanos civis e do dever de seus súditos.
E, ao citar as Escrituras, procurei evitar os textos de interpretação obscura ou controvertida, e não citar nenhum que não fosse empregado no sentido mais claro e mais conforme à harmonia e ao propósito de toda a Bíblia, escrita para o restabelecimento do Reino de Deus em Cristo.
Pois não são as palavras isoladas, mas o propósito do autor que fornece a verdadeira luz pela qual qualquer escrito deve ser interpretado. Aqueles que insistem em textos particulares, sem considerar o desígnio principal, nada podem extrair deles com clareza. Antes, lançando átomos das Escrituras como poeira diante dos olhos dos homens, tornam todas as coisas mais obscuras do que são, artifício comum daqueles que não buscam a verdade, mas a própria vantagem.
PARTE IV
DO REINO DAS TREVAS