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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 1 · Lágrimas Abençoadas

Prefácio

QUE FELICIDADE É POSSÍVEL SOBRE A TERRA: tal é o pensamento deste romance.

QUE FELICIDADE, CONFESSADA PELA CONSCIÊNCIA, É A ÚNICA VERDADEIRA: quisera eu poder provar, assim como posso sentir.

QUE A FELICIDADE VEM A PREÇO DE LÁGRIMAS, COMO A CONSOLAÇÃO DO SALVAMENTO A PREÇO DAS AGONIAS DO NAUFRÁGIO: é um paradoxo, talvez, para os que não conhecem a verdadeira felicidade, nem choraram as lágrimas abençoadas da resignação.

Este romance é religioso na essência. Escreve-se aí muitas vezes a palavra DEUS. Evitam-se as imagens do deleite, o pasto de ociosos, gastos do coração, e falidos da alma. Os que buscam no romance qualquer coisa que não sirva de nada para o espírito, não leiam este.

Eu espero achar entendimentos que mo recebam, e corações que mo agradeçam.

Vereis aí uma mulher, que não é uma quimera. Imaginei-a, primeiro, e encontrei-a fora da imaginação, depois.

Maria, linda criatura da terra, é a rainha de dois diademas: um no céu: os anjos, seus irmãos, tecem-lho das flores, que ela rega no mundo com as suas lágrimas. Outro na terra: é a soberania da virtude, respeitada, embora não compreendida, pelos homens que lhe acurvam o joelho.

Eu sou um destes.

E o meu romance é uma palavra desse cântico de louvor, que o espírito não pode revelar aos que, no seu caminho, não parariam a compreender-lho.

Meditemos este assunto.

Há aí nesse mundo material uma decidida negação para acompanhar o espírito nas suas elevações. Eu sei-o.

Um ou outro homem encosta a face à mão, abraça os horizontes com uma vista cismadora, afina a harpa da sua alma pela toada sonorosa dos pinhais; compõe das notas lúgubres da tempestade a harmonia tétrica, e desfigura-se, e poetisa, e parece não querer nada de comum com a fraca natureza humana. É o sentimental.

O sentimentalismo, sem a religião, é uma mentira.

O que aí vai de fantástico e espiritualista nos afetos, é uma exigência da época, é um encargo que a mocidade se impôs, é a precisão de variar. Diga-se tudo: é a moda.

Não porque a vida seja feliz, e a natureza do homem precise inventar amarguras, para que a felicidade o não enjoe;

Não porque o espírito, extenuado em sensualidades procure, no ideal, respirar o elemento de vida, que lhe é próprio;

É porque as felicidades, saboreadas nestes tempos não deixam no coração motivo para um hino. O homem, que não pode apagar na mente a faísca do gênio, que lhe desceu ao berço, ou mata a inspiração na orgia, ou abisma-se com ela, por féretros e ossadas até materializá-la nas formas repugnantes de uma dor monstruosa.

E, se assim não fizer, o seu alaúde não tem sons, e o gênio falece-lhe de impotência. Mas o poeta quer este título; cantor quer a grinalda das flores em troca da coroa de espinhos; é preciso cantar.

Se lhe pedisseis, em vez de horrores, uma poesia banhada de luz celeste, em que os mil reflexos de cima fossem as virtudes possíveis no mundo...

Se lhe pedisseis, em vez da página sempre negra da sua vida, as alvíssimas alegrias de uma virgem, que, a fugir de um mundo, que se lhe pinta ingrato à sua alma Cândida, se refugia aos pés de Maria, Rainha das Virgens, a pedir-lhe o céu, como repouso inviolável da inocência...

Se lhe pedisseis a doçura das lágrimas da pobre, que aconchega seus filhos em um envoltório de andrajos, e ajoelha depois, entregando-os à Providência, para que, ao amanhecer, não sejam muito repetidos os seus gritos de fome...

Pedi.

O poeta há de dizer-vos que a luz do céu é esse oceano de luz, que banha a terra, quando as árvores florescem e as árvores saudam ao alvorecer um sol esplêndido.

Há de falar-vos da virgem, arfando esperanças no seio imaculado, mas esperanças todas daqui, todas embalsamadas pelo incensório das paixões terrenas.

O pobre, esse que vale bem a pena de uma poesia, de uma página de romance, é sempre a vítima da má organização social, e de uma mentirosa economia política. Vê-lo-eis invectivar o rico, com toda a iracúndia de uma inofensiva estrofe; mas o pobre que continua nas palhas da miséria, esse não recebe uma consolação em nome do futuro, do céu, e das promessas de Jesus Cristo. É sempre o pobre recrutado para as fileiras que guerreiam o rico.

Eu pensei, uma vez, na vastidão de assuntos sobre que o cetro do talento estende o seu império. Chamando à reminiscência o acervo de leituras recreativas, que fiz, durante alguns anos, entrevi nos meus tempos nebulosos o muito tempo consumido, os muitos volumes folheados, e não poderei classificar-vos, em sinopse de ideias, uma só que me prestasse ao espírito, ou ao coração, ou à cabeça.

Aprendi o desengano no romance, antes que a sociedade mo desse.

Libei na poesia do século a mentira, antes que o coração contaminado ma inspirasse.

Aborreci-me de mim e das minhas leituras, como se o livro e a poesia fossem um sarcasmo para quem nas más horas, lhe mendiga espairecimentos para o espírito.

Vislumbravam-me no escuro das minhas ideias religiosas uns clarões pálidos do que o romance e a poesia deveriam ser para adoçarem muitos infortúnios. Mas, que me pedissem a ideia formulada no livro! Faltava-me a convicção das virtudes do bálsamo para saber aplicá-lo à ferida.

Não tinha eu provado ainda as doçuras da religião para sentar-me com a taça do Evangelho, à borda do caminho, e dizer ao peregrino cansado:

Bebe!......................................

Dão-vos tédio estas minhas considerações? Não são vaidosas. Eu juro-vos que me doeria muito se uma verdade, esboçada com amplos contornos, não valesse mais que uma mentira, alinhada com o ouropel de um desusado estilo.

O que está dito é o prefacio do meu romance. Duas palavras resumem-me o laconicamente em uma ideia conceituosa.

Sei em que tempo escrevo, e contudo, ouso nos estreitos limites de que posso dispôr, ajustar em molde cristão um gênero, raras vezes assim tratado, quer pela costumeira da forma, quer pelo estilo, quer pelas leis da escola.

Escrevo um romance, ou antes descanto em prosa uma virtude, porque não desafinarei, em quanto possa, a lira em que fiz soar algumas poesias, únicas de que me não culpo, nem arrependo. As outras...

Se eu pudesse avaliar a vossa opinião, consolava-me de não ser enganado pela minha consciência de cristão e de artista.

Porto--em 1853.

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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