O Convite da Casa Aramã
Amália levou o envelope para casa entre o release de Solariana e a cópia do mapa. Dormiu pouco, com o notebook aberto no chão e a última busca ainda na tela: Solariana licença ambiental Brasília investidores.
Quando acordou, o cartão da Casa Aramã continuava sobre a mesa, limpo demais no meio dos papéis. O selo dourado trazia uma curva de água gravada na aba.
Ela passou café e leu o convite com duas canetas. Vermelha para linguagem institucional. Azul para o que sabia demais sobre ela.
O apartamento tinha dois quartos, azulejos antigos na cozinha e uma janela voltada para a copa de uma mangueira. Amália crescera ali. A porta do segundo quarto ainda conservava um risco de lápis que marcava sua altura aos onze anos. Depois da morte de Gilberto, Celina mudara os móveis, vendera o barco pequeno da família e guardara as fotografias de rio numa caixa. A casa continuara ocupada por coisas cuja utilidade terminara sem que ninguém aceitasse jogá-las fora.
Amália abriu a janela. A umidade da manhã amolecia o papel do jornal deixado na área de serviço. O cartão verde não curvava. Ela o molhou no canto com uma gota de café e esperou. O líquido formou uma esfera, escorreu e não deixou marca. Fotografou o teste antes de limpar a mesa.
A Casa Aramã oferecia transporte reservado, permanência de três dias e acesso a setores de apresentação. Exigia sigilo de rota, restrição de imagens e participação em atividades de orientação de Casa. Um código levava ao termo de visitante. Na quarta tela, a visita deixava de se comportar como recepção empresarial: a entrada poderia alterar sono, apetite, orientação espacial, necessidade de proximidade e urgência de afastamento.
Amália salvou cada página antes de avançar.
Ribeiro telefonou enquanto ela copiava as cláusulas.
— Você dormiu?
— Um pouco.
— Então já decidiu alguma coisa.
— Ainda estou lendo.
— Outros dois veículos receberam convite para depois da sua visita. Se você recusar, Solariana vira passeio de rico com foto de planta.
— Se eu aceitar, entro sob sigilo.
— Você entra como jornalista. Volte como uma.
Era a forma torta que Ribeiro tinha de autorizar riscos. Amália enviou o termo ao jurídico do jornal e abriu uma planilha. Numa coluna colocou empresas; em outra, parlamentares; na terceira, as expressões que se repetiam: Casa, abertura controlada, adaptação corporal, afastamento físico.
O material institucional de Caetano Aramã não informava idade, formação completa ou atividade anterior. Nas fotografias, ele ocupava portas, cais e corredores. Nunca o centro de uma paisagem. Estava sempre no lugar por onde alguém precisava passar.
Amália abriu as imagens em sequência e encontrou o mesmo cuidado em todas. Caetano aparecia diante de uma porta de madeira numa audiência em Brasília, junto a uma ponte interna durante a visita de um ministro e na extremidade de uma mesa onde investidores assinavam uma carta de intenções. As legendas mudavam. A função permanecia: representante, coordenador, anfitrião. Nenhuma explicava o que a Casa Aramã possuía, vendia ou administrava.
Ela pesquisou o sobrenome nos registros empresariais. Encontrou participações indiretas, institutos encerrados, procurações ligadas a terras e nomes repetidos em documentos separados por décadas. Não encontrou Caetano. A ausência seria comum se ele fosse apenas herdeiro protegido. Ficava estranha diante de um homem escolhido para falar em nome de uma cidade.
Na planilha, Amália acrescentou: porta sem currículo.
Celina entrou na cozinha carregando uma xícara.
— Que papel é esse?
— Convite de pauta. Solariana.
A xícara parou antes da boca.
— Quem mandou?
— Casa Aramã.
Celina pousou a porcelana no pires, abriu o armário errado e depois a gaveta dos panos. Dentro dela, entre guardanapos e uma caixa de fósforos, havia um caderno marrom preso por elástico.
Amália reconheceu a letra do pai na etiqueta: G.
Puxou o caderno antes que Celina fechasse a gaveta. Gilberto Torres desenhara rotas de rio, datas, curvas de margem e pontos sem legenda. Uma pergunta reaparecia em páginas diferentes:
Onde a cidade some?
Na última folha usada, três palavras estavam sublinhadas:
Voltar pela margem.
— Por que o caderno do meu pai estava escondido?
Celina encostou a mão na pia.
— Eu guardei.
— De quem?
— De pergunta feita cedo demais.
A versão familiar dizia que Gilberto morrera num acidente de barco. Chuva forte, busca difícil, corpo encontrado dias depois. Celina sempre encerrava a história antes das perguntas.
Amália folheou o caderno até encontrar datas legíveis. Gilberto anotara níveis de água, horas de partida e nomes riscados com tanta força que a caneta marcara a página seguinte. Em uma folha havia o desenho de três torres vistas de longe. Em outra, uma escadaria terminava no rio. Nenhum traço tinha acabamento de ilustração; eram registros de alguém com medo de esquecer o caminho.
Entre duas páginas, uma passagem de barco servia de marcador. A tinta térmica quase desaparecera. Ainda se liam o mês, dois passageiros e o nome abreviado do porto. Amália fotografou o bilhete sob luz lateral e aumentou o contraste. Gilberto viajara na semana anterior ao acidente.
— Quem estava com ele?
Celina esfregou o polegar na alça da xícara.
— Um piloto chamado Ari. Eu o conhecia do porto.
— Você foi ao embarque?
— Fui buscar seu pai na volta.
— Ele trouxe o caderno?
— Trouxe febre, barro na roupa e esse caderno enrolado numa sacola. Passou duas noites acordando quando a água da caixa enchia.
Amália conhecia a história da febre. Na versão contada durante anos, Gilberto adoecera após uma vistoria comum. A família comera sopa no quarto e esperara a temperatura baixar. Amália lembrava do pai sentado na cama, as mãos em torno de um copo, os olhos presos à janela. Lembrava também de uma frase que julgara parte de sonho.
— Ele disse que a cidade tinha ouvido o nome dele.
Celina baixou a cabeça.
— Você estava no corredor.
— Eu achei que ele falava da febre.
— Era o que eu precisava que você achasse.
— Ele esteve lá.
Celina recolheu os grãos de açúcar espalhados na bancada.
— Seu pai esteve em muitos lugares.
— Este tinha uma cidade que sumia.
— Tinha uma margem que ele não devia ter atravessado.
A resposta escapou inteira. Celina percebeu e fechou a mão sobre o açúcar.
— Quem disse isso a ele?
— Ninguém que ainda possa responder.
Amália virou a última página. Havia uma mancha circular, marca de copo ou frasco, e um cheiro mineral guardado no papel. A mãe conhecia o caderno, a rota e o nome Aramã. Negar a ligação já exigia mais esforço que admiti-la.
— Isso tem ligação com Solariana?
— Eu não sei.
— Ou não quer dizer?
— Sei que convite bonito cobra atenção dobrada.
O celular vibrou. Recepção Solariana.
Amália atendeu no viva-voz. Uma mulher chamada Laura confirmou o convite e ofereceu esclarecimentos sobre transporte, imagens e adaptação.
— Vocês me convidaram por causa do vídeo que recebi ontem?
Houve uma pausa curta.
— Não tenho registro de vídeo em seu cadastro.
— Vocês têm meu cadastro antes de eu aceitar.
Uma segunda voz entrou na chamada.
— Senhora Torres.
Amália reconheceu a economia das palavras.
— Caetano Aramã.
— Sim.
— A coordenação transfere perguntas difíceis para você?
— Quando envolvem a Casa que assinou o convite.
Amália olhou para Celina. A mãe fechara os olhos.
— Solariana aparece pronta no vídeo. Os documentos falam em implantação.
— A abertura exige controle de imagem.
— Abertura de uma cidade pronta?
— De uma cidade preparada para receber visitantes.
— O termo fala em alteração de sono, apetite e proximidade. É visita ou experimento?
— É entrada em território sensível.
— Sensível para quem?
— Para quem entra e para quem recebe.
Celina levou a xícara cheia até a pia. Amália manteve o viva-voz.
— Preciso de autorização para publicar o que eu vir?
— Precisa de responsabilidade sobre o que ainda não compreende.
— Você fala assim com todos os jornalistas?
— Não.
— Por que comigo?
— Porque a senhora já viu uma imagem que não deveria circular sem contexto.
— Então o vídeo existe.
— Eu disse que a imagem existe.
Amália circulou adaptação corporal e escreveu ao lado: corpo, rota, saída.
Caetano informou o horário do barco, proibiu drones e recomendou que ela recusasse qualquer bebida fora das áreas indicadas. Tontura, irritação, sono ou necessidade de distância deveriam ser comunicados à Casa responsável.
— Qual será a Casa responsável por mim?
— A que assinou o convite.
— Você.
— Aramã.
— Perguntei por uma pessoa.
— E eu respondi com a estrutura que terá responsabilidade formal.
— Estruturas não entram numa sala quando alguém pede ajuda.
A linha ficou silenciosa. Quando Caetano voltou a falar, a voz perdera parte do acabamento institucional.
— Eu entro.
Celina segurou a borda da pia. Amália anotou a frase sem desviar os olhos da mãe.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Deveria fazer a senhora terminar a leitura.
Havia uma fresta de ironia na voz dele. Amália odiou notar.
— Vou responder no fim da tarde.
— O prazo encerra às dezesseis.
— Eu disse fim da tarde.
— A cidade considera dezesseis o limite seguro.
— A cidade ou a Casa Aramã?
— Hoje, os dois.
Depois da ligação, Celina tocou a capa do caderno.
— Seu pai fazia perguntas demais quando alguém escondia caminho.
— E você escondia as perguntas dele.
— Eu escondia o que ainda podia machucar.
Às 15h20, o jurídico recomendou que Amália não aceitasse a limitação integral de publicação. O sistema não permitia ressalvas: aceite completo ou recusa.
Ribeiro voltou à ligação com o advogado ainda na linha. Queria mandar um fotógrafo até o ponto de embarque. O termo proibia equipe não credenciada. Queria instalar um rastreador na mochila. O aplicativo exigia declaração de transmissores. Ao final, combinaram um protocolo menor: Amália enviaria uma mensagem na chegada, outra depois da primeira orientação e uma terceira antes de dormir. Se o silêncio durasse seis horas fora da madrugada, o jornal procuraria a assessoria, o porto e duas fontes em Brasília ao mesmo tempo.
— Não deixa o lugar decidir que seu sumiço é atraso de agenda — disse Ribeiro.
Ela guardou a frase na mesma parte da cabeça onde ficavam instruções úteis.
Ela marcou as caixas uma a uma e salvou cada tela. No campo de observações, escreveu:
Visita aceita na condição de cobertura jornalística.
O sistema devolveu um protocolo: entrada preliminar aprovada.
Amália arrumou a mochila sobre a cama de Gilberto, que Celina transformara em quarto de costura. Levou duas mudas de roupa, capa de chuva, lanterna, gravador, caderno de papel, três cartões de memória e um estojo de primeiros socorros. Costurou uma cópia minúscula do número do protocolo na barra de uma camisa. Guardou outra sob a palmilha do tênis. O exagero lhe devolvia uma parcela de controle.
Celina trouxe um saco plástico grosso e mostrou a dobra usada por Gilberto para proteger documentos no barco. Duas voltas no papel, uma no sentido contrário, ar retirado antes do nó.
— Ele ensinou isso quando eu era pequena.
— Ensinou muita coisa para você voltar.
— E quase nada sobre onde esteve.
— Voltar também pode deixar alguém sem fala.
As duas terminaram a mochila sem conciliação. Celina testou o fecho, acrescentou um pacote de biscoitos salgados e anotou num papel os remédios aos quais a filha tinha reação. Amália guardou a lista junto do termo. A mãe conhecia cada risco do corpo dela e ainda assim escondia o nome da cidade.
Celina esperava no corredor.
— Você aceitou.
— Aceitei.
— Ele falou com você?
Amália guardou a pergunta. A mãe não precisava perguntar quem era ele.
— Caetano disse que Solariana reconhece entradas.
Celina tirou do bolso uma chave de latão gasto e colocou na mão da filha.
— Para quê?
— Para voltar para casa sem bater.
Às 23h, a rota inicial apareceu no telefone. Amália guardou a chave junto do cartão assinado por Caetano.
Antes de levá-la ao cais, Solariana já começara a decidir o que ela podia ver.