O Cais Branco
Às 23h, o aplicativo temporário exibiu a rota por dez segundos. Depois cobriu o mapa com uma advertência: precisão reduzida por segurança de área.
Amália salvou as telas. A linha azul seguia por um setor portuário e perdia nomes depois de uma curva do rio. Onde deveria haver margem, havia uma área cinza. A última instrução informava que recusas de orientação corporal seriam registradas como atraso.
Ela comparou o trajeto com o caderno de Gilberto. Uma curva coincidia.
Celina surgiu no corredor segurando água.
— Seu pai voltou de uma margem errada uma vez — disse.
— Voltou vivo?
— Voltou calado.
Amália esperou uma continuação. Celina bebeu a água e olhou para o portão fechado.
— Na manhã seguinte, ele levou você à escola — disse. — Errou duas ruas que conhecia havia anos. Parou o carro, pediu que você indicasse o caminho e seguiu cada palavra.
— Eu tinha nove anos.
— Você chegou no horário.
Amália guardou o telefone no bolso. Aquela lembrança existia para ela como uma aventura breve, o dia em que orientara o pai. Para Celina, fora prova de que Gilberto regressara sem confiar nos próprios sentidos.
Às cinco, o carro enviado pela Casa Aramã parou diante do portão.
Celina ajeitou a mochila da filha.
— Se pedirem seu telefone, diga que o jornal exige que fique com você.
— E se proibirem gravação?
— Grave a proibição.
O ponto de embarque ficava atrás de um galpão reformado. Uma mulher conferiu o documento de Amália e prendeu uma pulseira dourada em seu pulso. O objeto aqueceu por um segundo.
O galpão mantinha no alto uma placa antiga de comércio de motores. A tinta nova cobria as paredes até a metade; acima dela, fuligem e marcas de enchente registravam anos de uso. Dois seguranças fotografavam bagagens sobre uma mesa. Nenhum visitante recebia comprovante.
Amália pediu o nome da mulher.
— Rosa, recepção externa.
— Sobrenome e empresa?
— Meu vínculo aparece no termo.
— O termo registra função, não empregador.
Rosa puxou a pulseira para conferir o encaixe. Amália retirou o braço.
— Avise antes de tocar.
A mulher levantou as duas mãos, esperou autorização e examinou o fecho sem contato com a pele. A pequena correção não alterou o sistema. Alterou o primeiro registro que Amália faria dele.
Sete visitantes aguardavam: um empresário de linho, uma mulher de joias discretas, um advogado, duas influenciadoras e um homem de chapéu. Amália ocupou o canto perto da janela. O ponto azul do mapa tremia alguns metros dentro do rio.
O empresário falava de hectares sem mencionar árvores. A mulher que o acompanhava perguntou se as casas internas seriam vendidas ou concedidas por convite. Uma das influenciadoras ensaiava diante da tela apagada uma frase sobre conhecer o futuro da Amazônia. O homem de chapéu assistia a todos com a felicidade de quem já se julgava escolhido.
Amália abriu o gravador dentro da mochila. Registrou horário, quantidade de passageiros e o som metálico do portão se fechando atrás do grupo. A pulseira permanecia fria. No verso, onde tocava a pele, uma linha escura começava a se ajustar ao pulso.
Raul Itá entrou às 6h32. Pediu que todos desligassem drones e aparelhos de varredura. Deteve os olhos no crachá de Amália.
— A senhora é a jornalista.
— Isso está escrito aí.
— A Casa Aramã foi informada.
— Eu também.
O barco não tinha nome comercial. Dez minutos depois da partida, docas e balsas cederam lugar à vegetação. Às 6h51, o aplicativo perdeu o nome do rio. A bússola girou e apontou para trás.
O casco cortava uma água barrenta, carregada de folhas e pedaços de madeira. Casas sobre estacas diminuíram até sumir. Num porto estreito, uma mulher lavava panelas enquanto duas crianças observavam o barco fechado passar. Raul não anunciou o lugar. O mapa também não.
Amália marcou o horário e descreveu o telhado azul, a escada de seis degraus e uma antena inclinada. Se a rota apagava nomes, ela construiria referências. Uma torre de telefonia. Um banco de areia. Três samaumeiras próximas. Um afluente com espuma presa às raízes.
Quando levantou o telefone para fotografar a margem, a pulseira emitiu uma vibração curta.
— O que ela registrou? — perguntou.
— Movimento fora da orientação.
— Fotografia da margem é movimento?
— O sistema não interpreta intenção.
— Alguém interpreta depois.
Raul recolheu os cartões restantes e não respondeu.
Amália calculou a direção pelo sol e anotou a velocidade aproximada. Boias desapareceram. A margem se aproximou do vidro em folhas largas, cipós e raízes expostas. O motor reduziu sem ordem audível. O advogado tentou uma ligação e recebeu a própria voz devolvida pelo aparelho.
Raul distribuía cartões com instruções de desembarque. Ao chegar a Amália, cobriu com o polegar uma linha impressa na parte inferior.
— Posso ler antes de você esconder?
Ele entregou o cartão.
A orientação da Casa prevalece sobre estimativas individuais de direção.
— Estimativa individual é bússola?
— É qualquer tentativa de orientar o grupo fora da rota protegida.
— O rio também assinou o termo?
Raul seguiu para o banco seguinte.
— Trecho de ajuste — explicou Raul.
— De operadora? — perguntou Amália.
— De segurança.
— Segurança corta o sinal ou corrige o sinal?
— A senhora aceitou o termo.
— E trouxe perguntas junto.
O barco entrou numa curva estreita. Flores brancas pendiam dos galhos, fechadas em pequenas bolsas de água. Amália tentou fotografar. A imagem guardou uma faixa escura no canto.
Do lado de fora do vidro, um inseto miúdo inclinou a cabeça para o telefone e desapareceu.
O rio se abriu.
A luz apareceu antes das torres. Depois vieram cúpulas claras, telhados verdes, varandas de pedra e uma escadaria descendo até a água. Não havia terreno revolvido ou obra recente. Solariana inteira esperava o grupo.
Amália esqueceu o gravador por quatro respirações. A cidade ocupava a abertura entre as margens com escala suficiente para ferir qualquer explicação simples. O dourado vinha de placas altas, refletidas nos canais, e não de sol direto. Uma torre surgia atrás da outra conforme o barco avançava. Cada nova fachada aumentava o trabalho necessário para escondê-la.
Ela retomou o registro em voz baixa:
— Seis e cinquenta e oito. Entrada visual. Construções com desgaste. Árvores adultas dentro da área edificada. Nenhuma máquina de obra.
O empresário ouviu e riu sem tirar os olhos da janela.
— A senhora precisa aprender a admirar.
— Admirar não impede contar.
— Uma cidade dessas vale o segredo.
Amália olhou para as casas anônimas que haviam desaparecido atrás da curva. O segredo tinha preço diferente para quem chegava de pulseira e para quem vivia fora do mapa.
Pássaros cruzavam entre os telhados sem produzir a desordem de uma revoada. Canais estreitos devolviam a luz para fachadas cobertas por trepadeiras. Árvores antigas cresciam dentro de pátios que só poderiam ter sido construídos ao redor delas. Amália procurou módulos, emendas recentes, qualquer sinal de cenografia. Encontrou desgaste na pedra e musgo sob varandas altas.
A cidade não fora montada depressa. Fora escondida durante tempo suficiente para aprender a envelhecer.
Ninguém falou.
O empresário endireitou a postura. As influenciadoras esqueceram as câmeras no colo. Amália filmou pela borda da mochila.
O cais surgiu branco demais. A pintura recente cobria colunas marcadas por encaixes retirados e manchas antigas. Placas novas traziam o brasão da abertura. Junto à água, a pedra tinha cor de osso lavado.
— Bem-vindos à entrada fluvial de Solariana — Raul anunciou. — Mantenham as pulseiras visíveis e aguardem a Casa responsável.
— Qual Casa? — perguntou o advogado.
— Hoje, Aramã.
Quando Amália pisou na plataforma, a pulseira aqueceu. Ela abriu e fechou a mão.
— Reação comum de identificação — disse Raul.
— A pulseira lê a pele ou a pedra lê a pulseira?
Ele desviou o olhar.
Junto à base de uma coluna, uma criatura do tamanho de uma moeda saía de uma fresta. Tinha casco mole, cor de pedra molhada e antenas transparentes. Quando ninguém a encarava, raspava a tinta branca.
Uma linha escura apareceu sob a pintura. Depois, a curva de um número.
Raul colocou o sapato entre o animal e os visitantes.
— Cuidado — disse Amália.
— Área úmida.
— Você vai pisar nele.
Ela fotografou pelo reflexo da tela. A segunda imagem guardou parte de uma data antiga.
— Deixe o Casquinha trabalhar, Raul.
Caetano Aramã estava alguns degraus acima. Ao vivo, a fotografia institucional perdia a utilidade. Uma marca cortava sua sobrancelha. Havia cansaço ao lado da boca e atenção demais nas mãos de quem se aproximava.
O calor não tocava a roupa escura dele. Ainda assim, uma gota de água corria pelo punho esquerdo, saída de lugar nenhum, e desaparecia antes de alcançar a mão. Amália conferiu a coluna acima. Estava seca.
Caetano acompanhou o olhar dela e fechou os dedos.
— Algum problema? — perguntou.
— Ainda estou escolhendo qual.
Ele olhou para os dedos de Amália presos à mochila.
— Está machucando sua mão.
Ela soltou a alça e se irritou por obedecer.
— Bom dia para você também.
— Bom dia, senhora Torres.
— Vai me chamar assim durante três dias?
— Enquanto preferir distância.
— Seu guia tentou esconder a data.
— Tentou piorar a pintura.
— Essa é a preocupação?
— É a que posso registrar em voz alta.
O Casquinha continuou raspando. Caetano ordenou a Raul que pedisse um relatório, sem remover o animal.
— A cidade foi construída rápido — disse Amália.
— A abertura foi preparada rápido.
— Você troca palavras quando chego perto da pedra.
— Nem toda pedra obedece à assessoria.
— Posso citar?
— Não.
Entre as colunas, uma faixa de metal formava o primeiro limite. A pulseira de Amália aquecia sempre que ela se aproximava.
— O que acontece quando eu cruzo?
— Sua identificação entra no registro interno.
— Só isso?
— Nesta primeira entrada.
— Você sempre deixa espaço para arrependimento.
— E a senhora sempre escuta o espaço.
Amália olhou a cidade. A beleza era ofensiva. Perfume úmido, pedras claras, canais estreitos, jardins que conduziam os olhos antes das pessoas.
— Meu pai desenhou uma curva igual à rota de vocês.
Caetano não fingiu surpresa.
— Gilberto Torres fazia bons desenhos?
O nome do pai na boca dele abriu um frio no estômago de Amália. Ela tocou a chave de Celina dentro do bolso.
— Você o conheceu?
— Sei que a senhora trouxe o caderno.
— Revistaram minha mochila?
— Não pela Casa Aramã.
— Isso melhora alguma coisa?
— Avisa que a entrada começa antes do cais.
— Quem mais sabe que eu trouxe?
— Valcárcel recebeu a lista de objetos declarados. Itá recebeu o peso da bagagem. Doural recebeu suas restrições alimentares.
— E Aramã recebeu o quê?
— Seu nome antes do convite.
— De quem?
Caetano olhou para a data sob a pintura.
— Essa resposta não pertence ao cais.
— Porque alguém pode ouvir?
— Porque o cais registra entradas. Perguntas feitas aqui também entram.
Amália olhou para as colunas, câmeras e pulseiras. O lugar inteiro podia funcionar como livro de presença.
Amália recuou. A pulseira esfriou.
— Posso voltar ao barco?
— Pode. O transporte sai em trinta minutos.
— E se eu entrar?
— Registro de visitante, orientação e café da manhã.
— Só isso?
— A senhora não acreditaria.
Na coluna, o Casquinha desaparecera. A data permanecia incompleta. Amália pensou em Celina no portão, em Gilberto voltando sem palavras e no release descrevendo implantação.
Retirou o telefone do modo de gravação, abriu uma mensagem para Ribeiro e digitou: Cheguei. Cidade antiga. Cais repintado. Meu pai esteve aqui. O aparelho recusou o envio. Ela deixou a mensagem na fila, tirou uma captura com o horário e guardou o telefone.
Depois soltou o fecho da pulseira apenas o suficiente para testar se podia removê-la. Um ponto vermelho acendeu no metal.
— A retirada cancela sua identificação — avisou Raul.
— Cancela minha entrada ou registra minha recusa?
— Gera ocorrência.
— Ocorrência tem cópia para o visitante?
Raul procurou Caetano com os olhos. Caetano respondeu sem sair do lugar:
— A partir de agora, terá.
— A partir de agora não é garantia.
— É uma resposta que posso sustentar diante destas pessoas.
O empresário desviou a atenção. A mulher de joias tocou a própria pulseira. Amália apertou o fecho novamente. Ainda não era hora de perder acesso ao registro.
Cruzou a linha.
A pulseira aqueceu. O celular perdeu operadora, internet e localização. Uma rede surgiu sem senha: SOLARIANA VISITANTE.
Ela não conectou.
— Agora eu entrei.
— Agora a cidade registrou que entrou.
— Existe diferença?
Caetano abriu passagem para a escadaria.
— Em Solariana, quase sempre.
Amália passou por ele sem tocar. Uma lasca de tinta caiu da coluna e sumiu na água.