O Jogo das Casas Solariana: Amazônica · Capítulo 4 de 44
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O Jogo das Casas

O salão norte ocupava o alto da escadaria. Mesas formavam ilhas marcadas por símbolos, copos de água, mapas dobrados e fichas sem assinatura.

Amália entrou com a fotografia da data antiga na memória. A rede SOLARIANA VISITANTE continuava aberta no telefone. Ela recusou a conexão.

Havia seis portas. Três visíveis, duas misturadas à parede e uma que se abria apenas diante de pulseiras específicas.

Uma mulher de vestido azul recebeu o grupo. O crachá dizia Isadora Doural. Ela oferecia água, corrigia cadeiras e mantinha cada visitante dentro de linhas quase invisíveis no piso.

Antes da apresentação, Isadora pediu que cada pessoa escolhesse uma ficha de madeira. Havia quatro cores num tabuleiro raso. O empresário tomou a dourada. As influenciadoras escolheram prata. O advogado virou duas peças para ler o verso. Amália manteve as mãos sobre o caderno.

— A ficha indica preferência de convivência — explicou Isadora.

— O que cada cor significa?

— A orientação revela durante a atividade.

— Então a escolha acontece sem informação.

— A resposta espontânea também produz informação.

Amália escreveu a frase. Isadora colocou uma peça verde diante dela.

— Não escolhi.

— Esta é a opção de observação.

— Quem decidiu que observar tem cor?

Isadora recolheu a ficha. No tabuleiro, o espaço vazio permaneceu diante de Amália. A atividade já medira obediência, impulso e recusa antes de receber o nome de jogo.

Os funcionários usavam cores discretas junto ao pulso: pedra para Itá, prata para Valcárcel, azul para Doural, verde para uma Casa que ninguém apresentara. Amália não viu a marca de Aramã em nenhum deles. Caetano era a marca.

Uma influenciadora arrastou a cadeira para perto da janela.

— A senhora pode ficar confortável daqui — disse Isadora, recolocando-a no lugar.

— Eu estava confortável ali.

— Ali é rota de serviço.

A doçura escondia a ordem apenas durante um segundo.

Raul Itá permaneceu junto à entrada. No cais, controlava a passagem. No salão, perdia autoridade. Itá respondia pela pedra. Doural governava cadeira, água e ritmo.

Caetano indicou a Amália uma mesa com a parede às costas e visão de duas portas.

— A senhora prefere ver a sala inteira.

— Isso é pergunta?

— Oferta com justificativa.

Ela aceitou o lugar. Caetano pôs um copo diante dela sem tocar em seus dedos e recuou.

Amália cheirou a água antes de beber.

— O contrato ensinou a desconfiar — disse ao advogado do barco.

Ele já segurava uma caneta sobre a ficha de Casa provisória. Nome, documento, anfitrião, rotas aceitas e comportamento de convivência.

Uma criatura branca deslizou pelo mapa e parou sobre a linha de assinatura.

— Que lindo — disse uma das jovens, levantando o telefone.

Isadora bloqueou a câmera com a mão.

— Espécie em registro de patente.

— É de verdade?

— Grão Claro. Mensageiro de protocolo.

O advogado tentou afastá-lo com a tampa da caneta. Um funcionário surgiu imediatamente.

— Não toque no mensageiro.

— Ele está sobre o meu contrato.

— Está sobre a confirmação de leitura.

O Grão Claro caminhou até essa linha e ficou ali. O funcionário trocou a ficha por outra com uma fita prateada.

Às 7h43, as portas do fundo se abriram.

Teobaldo Valcárcel entrou acompanhado de dois assistentes. A postura dos funcionários mudou antes da apresentação.

— Solariana foi apresentada ao país como projeto privado de alta complexidade — disse ele. — Aqui, os visitantes conhecerão o jogo das Casas.

O empresário de linho sorriu. Os funcionários não.

— Cada visitante recebe uma Casa provisória para deslocamento, convivência e responsabilidade. Ela orienta rotas, repouso, mesa e participação nos atos da abertura.

Uma das influenciadoras murmurou:

— RPG de bilionário.

Isadora trocou a água dela por um copo com uma rodela de fruta clara. A jovem bebeu e endireitou a postura.

Caetano percebeu. Deu um passo na direção da mesa. Isadora retirou a jarra aromatizada e devolveu água comum.

Os tablets acenderam. Rotas permitidas em dourado, restritas em cinza, dependentes de anfitrião em branco. O mapa de Amália tinha menos dourado que o do empresário.

Teobaldo pediu que cada visitante escolhesse no mapa três lugares: um jardim, uma sala de arquivo e uma área de repouso. As rotas se rearranjaram a cada toque. O empresário recebeu acesso à torre de investimento. A mulher de joias ganhou passagem para duas estufas. Uma das jovens escolheu o jardim de flores claras; a sala de arquivo desapareceu de seu mapa.

Amália marcou primeiro o arquivo. O jardim mudou para cinza. Marcou a saída fluvial. A área de repouso ficou condicionada a anfitrião.

— Isso é escolha ou classificação? — perguntou.

— Prioridades geram trajetos — respondeu Teobaldo.

— Quem procura documento perde acesso a jardim. Quem procura saída perde autonomia para repousar.

— Recursos são organizados segundo interesse declarado.

— A cidade transforma curiosidade em restrição.

Teobaldo abriu as mãos diante do grupo.

— Todo ingresso em área privada exige seleção.

— A diferença é que vocês chamam a seleção de personalidade.

O advogado apagou uma escolha. O tablet não devolveu a rota anterior.

Ao lado do nome dela:

Imprensa. Acesso condicionado pela Casa Aramã.

— Quem define a Casa provisória? — perguntou.

Teobaldo voltou-se para ela.

— Finalidade da visita, protocolo e Casa anfitriã.

— Quem define o protocolo?

— O Conselho.

— Valcárcel?

— Valcárcel preside a orientação.

— Aramã recebe, Itá mantém o cais, Doural controla o conforto e Valcárcel controla as regras.

— A senhora observa rápido.

— Vocês escondem devagar.

Uma bandeja tocou a mesa com força contida. Caetano não interferiu.

— Ninguém é obrigado a permanecer no jogo — disse Teobaldo. — A recusa produz rota reduzida e retorno programado.

— Quem perde se recusar?

— Perder é uma palavra externa.

— Quem perde?

— A pessoa deixa de receber garantias de circulação.

— Garantia ou permissão?

— Em território privado, os termos se encontram.

O empresário pediu a ficha.

— Eu acredito — disse, sem ler.

— A confiança precisa de forma — respondeu Isadora.

Ele assinou. O Grão Claro avançou sobre a tinta e começou a tremer. O sobrenome ficou borrado.

— A ficha será refeita — determinou Teobaldo.

— O mensageiro acusa pressa depois que vocês recebem a assinatura? — perguntou Amália.

Teobaldo sorriu sem mostrar os dentes.

O jogo não precisava de violência aberta. Cadeira, copo, pulseira, porta, mapa, inseto e vergonha faziam o trabalho.

Uma porta lateral bateu. O homem de chapéu se levantara para atender ao telefone. A maçaneta não girou. A pulseira dele apagou.

— Só preciso falar com meu escritório.

Um funcionário Aramã apareceu no corredor.

— Há uma cabine depois da orientação.

— Eu paguei para entrar.

— O senhor aceitou uma rota.

O homem procurou Teobaldo. Valcárcel apenas inclinou a cabeça. O visitante voltou à cadeira com a nuca vermelha. Quando colocou os pés dentro da marca dourada do piso, a pulseira reacendeu.

Amália observou o salão em silêncio. Ninguém fora agarrado. Nenhuma voz subira. A porta, o mapa e o constrangimento haviam corrigido o corpo do homem.

Ela se levantou e moveu um pé para fora de sua linha. A pulseira vibrou. Isadora se aproximou com o copo comum.

— Precisa de alguma coisa?

— Saber se posso ficar aqui.

— Sua cadeira oferece a posição indicada.

— Perguntei sobre o chão.

Isadora consultou o tablet.

— A área está livre durante a orientação.

— Então a pulseira vibrou por quê?

— Para reconhecer mudança de posição.

— Reconhecer não é palavra neutra quando o sistema guarda o movimento.

Amália permaneceu fora da marca. Ninguém a obrigou a voltar. Duas pessoas ajustaram os próprios pés. O advogado se levantou para alcançar água e esperou a pulseira reagir. O jogo perdia uma parte da elegância quando os jogadores comparavam respostas.

Caetano aproximou-se da mesa de Amália e colocou outro copo ao lado do primeiro.

— Esta água é comum.

— E a outra?

— Era segura.

— Isadora alterou o copo da menina. A postura dela mudou.

— Vou retirar o serviço dessa mesa.

— Porque eu vi?

— Porque aconteceu.

— Precisou de testemunha externa para fazer o certo?

— Preciso dela para impedir que neguem depois.

— Você viu isso acontecer antes?

— Vi versões suficientes desaparecerem quando não havia pessoa de fora na sala.

— E guardou alguma?

— Algumas.

— Onde?

— A senhora ainda não decidiu permanecer até o fim da manhã.

— Permanecer é condição para a verdade?

— Aqui, permanecer costuma ser o preço que colocam nela.

Caetano olhou para o copo comum. Uma gota se formou do lado de fora do vidro e correu até a mesa. O salão estava frio. Nenhum outro copo suava.

Amália não tocou a água.

Um funcionário passou com uma bandeja. Caetano deslocou o próprio corpo e manteve livre a saída atrás da cadeira de Amália.

— Você está dando espaço de propósito.

— Sim.

— Está no contrato?

— A senhora registra o próprio corpo desde o cais.

Ela apertou a caneta. Ninguém deveria saber disso apenas olhando.

— Você lê pessoas para Aramã?

— Recebo pessoas para a cidade.

— E corrige distância, portas e copos.

— Quando há risco.

— Para elas ou para Solariana?

— Para as duas.

Teobaldo pediu que todos abrissem a última página. Amália virou sua ficha.

Casa provisória: Aramã.

Anfitrião: Caetano Aramã.

Visitante com histórico familiar pendente.

Ela leu a última linha novamente.

Sob a frase havia um código: 417-M. Amália copiou-o no bloco. O Grão Claro acompanhou a caneta e parou ao lado do número.

O formato não seguia o padrão dos protocolos apresentados naquela manhã. Amália verificou o convite, a pulseira e o cartão do barco. Todos traziam data, Casa e sequência numérica. O código 417-M não indicava dia ou visitante. Podia ser sala, registro ou classificação de família.

Amália anotou: identificar origem do código. Solariana apostava na pressa para impedir perguntas cruzadas. Ela não lhe daria uma resposta inventada apenas para aliviar a falta de informação.

— Que histórico?

Caetano viu a frase. O corpo dele perdeu a neutralidade por um instante.

Teobaldo se aproximou.

— Registro incompleto.

— Eu não entreguei histórico familiar.

— A abertura cruza informações públicas e registros internos.

— Registros internos de uma cidade recém-apresentada?

— A senhora confunde apresentação pública com data de origem.

O salão ficou imóvel ao redor da admissão.

— Qual é a data de origem?

— Existem datas diferentes para a pedra, para as Casas e para o nome Solariana.

— Qual delas está sob a tinta do cais?

Teobaldo não respondeu. O Grão Claro abriu as pernas transparentes e cobriu parte do código 417-M. O movimento não possuía valor de leitura. Caetano continuava perto da saída, sem olhar para Valcárcel.

Amália consultou o campo de estado na ficha. O procedimento registrava falha antes da assinatura.

— Posso citar? — perguntou Amália.

— Considere uma advertência de contexto.

O Grão Claro caminhou até a ficha dela e parou ao lado de Aramã. Não tremeu.

Caetano recuou um passo e deixou livre o caminho até a saída. Teobaldo permaneceu entre Amália e as demais mesas.

Ali estava a diferença possível entre os dois: um cobria a grade com linguagem elegante; o outro, naquele minuto, não fechava a passagem.

Amália leu tudo. Restrições de imagem, aviso obrigatório de desconforto, saída mediante comunicação, rotas condicionadas.

Assinou devagar.

A pulseira aqueceu. O Grão Claro deixou a assinatura e caminhou até o mapa.

O código 417-M permaneceu na ficha que Teobaldo recolheu. Amália fotografou o papel durante o movimento, sem conferir o resultado. A imagem podia sair borrada. O gesto bastava para avisar ao salão que aquela linha já não existia apenas dentro dos arquivos de Solariana.

Uma linha dourada abriu-se até uma porta antes branca.

Caetano colocou o cartão da próxima rota ao alcance dela.

— Jardim interno da Casa Aramã.

— Mais protocolo?

— Menos gente.

Na mesa do empresário, o Grão Claro continuava sobre a assinatura borrada. Isadora recolhia a água aromatizada. O homem do chapéu mantinha os pés dentro da marca dourada. Teobaldo transformava cada desconforto em parte da cerimônia.

Amália atravessou a porta autorizada.

Atrás dela, Teobaldo recolheu a ficha 417-M antes que o salão seguinte pudesse vê-la.

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