A Herança Adiada Solariana: Amazônica · Capítulo 22 de 44
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A Herança Adiada

Helena encontrou Amália no corredor de serviço com uma pasta Silar presa ao peito.

— O Conselho antecipou a votação. Dezessete visitantes entram amanhã. Cinco por contrato digital, doze por convite.

— Depois de Noemi e da leitura Aramã?

— Antes que os registros cheguem à mesa.

A pasta continha pedidos de Vazão, respostas de Cheia induzida e três laudos de envelhecimento acelerado. Silar recomendava suspender novas permanências por noventa dias.

Cada laudo separava idade civil, idade aparente e idade de água. A terceira não pretendia medir anos vividos. Registrava desgaste acumulado do sistema interno por exposição, contenção e comando.

— A expressão cinquenta e nove anos vai virar manchete errada — disse Amália.

— Então registre a escala — respondeu Helena. — Não é certidão nem previsão de morte.

Amália copiou a definição antes dos números.

O Conselho votava em movimento. Cada Casa levava uma pedra até o próprio pedestal. Um Grão Claro suspenso sobre o canal central recebia nome, justificativa e decisão. Atrás do vidro, investidores bebiam água diante da maquete.

Zaira Silar carimbou a pasta antes da chamada. Amália colocou ao lado dela a leitura assinada por Augusto.

Teobaldo tentou dividir a pauta: a abertura continuaria; o desgaste seguiria para uma comissão de sucessão e herança.

— Adiar idade para herança permite esperar a pessoa enfraquecer antes da discussão — disse Helena.

Zaira pediu leitura integral da recomendação. Teobaldo concedeu dois minutos. O documento exigia pausa nas entradas, reavaliação das pulseiras e consulta individual a herdeiros já expostos. Quando o tempo terminou, Zaira ainda lia os riscos.

— O prazo da mesa é menor que o prazo clínico — disse Amália.

Teobaldo registrou manifestação parcialmente lida.

Isadora Benvira, coordenadora da abertura, defendeu os contratos, a proteção política e a narrativa pública.

— Se pararmos agora, Solariana vira boato caro.

— Noemi é cidade? — perguntou Amália.

— É um caso de acompanhamento incompleto.

Teobaldo iniciou a chamada.

Valcárcel votou pela nova rodada, pela separação do desgaste e contra a auditoria Aramã. Augusto repetiu os três votos. Benvira fez o mesmo. Doural e Acará escolheram manter as entradas. Silar votou contra. Mairu, representada por Lídia, também.

A segunda rodada passou por margem estreita. O envelhecimento foi enviado à comissão de herança. A auditoria Aramã perdeu por dois votos.

Amália anotou cada Casa. Os relatos separados agora formavam uma lista de quem conhecia o risco e escolhera continuar.

Jana desenhou três colunas: acesso a visitantes, desgaste de herdeiros e auditoria Aramã. As mesmas Casas formavam maioria nos três temas, com justificativas diferentes. O quadro demonstrava coordenação política; não provava acordo secreto.

Lídia solicitou que os votos nominais acompanhassem qualquer contrato assinado no dia seguinte. Teobaldo recusou por não haver previsão no rito. Helena registrou a recusa.

Zaira alcançou as três na saída.

— Um herdeiro pediu para falar. Sem nome.

O rapaz aguardava numa sala baixa. Tinha trinta e um anos e o rosto de alguém mais jovem. Uma pulseira brilhava sob a manga. Quando ele demorava a responder a uma chamada, o fecho aquecia e cortava a pele.

Caetano parou na porta. O rapaz fechou os ombros.

— Ele fica fora.

Caetano saiu. Turi escolheu a soleira e recebeu permissão para permanecer.

O laudo do rapaz registrava idade de água de cinquenta e nove anos, em progressão irregular. Exposição pública, contenção, pulseira e uso de herdeiros em contratos aceleravam o desgaste.

— Minha Casa precisa que eu apareça saudável amanhã — disse ele. — Se a comissão receber meu laudo, viro reserva de assinatura.

Ele mostrou fotografias de quatro recepções. Em cada uma, a maquiagem cobria um ponto novo, a manga subia menos e o horário de descanso desaparecia da programação. A primeira imagem tinha sido escolhida por ele. As seguintes chegaram prontas.

— Quando percebi o desgaste, pedi uma função sem público. Disseram que meu rosto tranquilizava investidores.

— Você quer interromper a recepção de amanhã?

— Quero não aparecer. Ainda não decidi se abandono minha Casa.

Amália separou as duas decisões no caderno.

De dentro da manga, retirou uma lista preparada antes da votação. Havia horários da recepção, códigos de Casas e a coluna aparência pública. Três nomes seriam afastados. Outros compareceriam de manga longa.

Zaira conferiu o código do documento no sistema interno. O arquivo existia havia seis horas e recebera uma alteração depois da votação. Helena guardou a versão mostrada pelo rapaz e o histórico de horário. A lista tinha procedência verificável sem revelar a fonte.

— Eles não adiaram para estudar — disse o rapaz. — Adiaram para separar quem pode aparecer de quem precisa sumir.

A pulseira fechou com mais força. Zaira tocou o pulso dele.

— Respira.

— Não fale isso.

Ela soltou na mesma hora.

— Desculpe.

O recuo foi pequeno e inteiro. Amália registrou também.

Caetano falou do corredor:

— Use meu nome no lugar do dele.

— Não — respondeu Amália. — Você sustenta o que fez, sofreu, omitiu e decidiu revelar. Não servirá de cobertura para outra pessoa.

O rapaz estudou o rosto dela.

— Um nome conhecido resolveria parte do problema.

— Sua Casa chamaria você de boato, Caetano de vingança e meu texto de romance contrariado.

Amália ofereceu um acordo: publicar mecanismo, pré-lista e recomendação Silar sem identificar a fonte; guardar o nome verdadeiro em envelope testemunhado por Zaira e Helena; revelar apenas se a Casa negasse sua existência ou tentasse apagá-lo.

— Como quer ser chamado?

— Herdeiro da segunda rodada.

— Esse nome também pode identificar você para quem estava na sala.

— Eu sei. Quero que eles saibam que alguém da rodada falou. Não quero que o público saiba qual.

Amália escreveu o risco e pediu confirmação depois de dez minutos, sem pulseira aquecida. O rapaz repetiu a escolha no corredor Silar.

Ele voltou para a varanda de manga longa.

O aviso luminoso junto à maquete confirmou a recepção para as nove da manhã. Solariana adiara a própria velhice para vender futuro. Um dos rostos desse futuro acabava de mostrar a conta escondida no pulso.

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