O Baile de Fundação Solariana: Amazônica · Capítulo 16 de 44
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O Baile de Fundação

A Casa Doural enviou vestido, sapatos e uma bolsa onde o caderno de Gilberto não cabia.

— O baile tem registro oficial — explicou a funcionária.

— Então preciso tomar duas vezes mais notas.

Amália escondeu a cópia do relatório no forro da bolsa e levou o celular. O salão das águas altas exibia fotografias de uma cidade em construção. Numa delas, operários de botas limpas posavam diante de degraus gastos por anos de uso.

A legenda datava a implantação seis anos antes. Amália ampliou o degrau: a borda arredondada vinha de passagem repetida, não de acabamento novo. Ao fundo, uma árvore adulta atravessava o arco que a fotografia chamava de módulo recém-instalado.

Um guia explicou construção avançada e reaproveitamento de materiais.

— Reaproveitados de onde?

— De estruturas internas do próprio projeto.

— Então havia estruturas antes da implantação.

O guia indicou a equipe técnica e pediu que ela seguisse. Amália fotografou legenda, desgaste e árvore no mesmo quadro.

Na entrada do salão, uma mesa lateral trazia cartões dos convidados. O de Beatriz estava virado para baixo. Isadora recolheu-o quando percebeu Amália.

— Ela recusou o baile ou vocês retiraram a presença?

— Visitantes em adaptação podem ser dispensados.

— Quem dispensou?

Isadora respondeu com um convite à pista. A ausência de autoria entrou nas notas de Amália.

Isadora subiu ao palco.

— Celebramos o encontro entre investimento, floresta protegida, arquitetura avançada e tradição escolhida.

A maquete acendeu por Casas: jardins Verdan, salões Doural, adaptação Silar, registros Valcárcel e fronteiras Aramã.

Cada luz escondia as áreas de sobreposição. Sala 3 não aparecia em Verdan, Doural, Silar ou Valcárcel. O quarto sem janela surgia apenas como hospedagem técnica. A biblioteca Mairu estava ausente.

Amália fotografou a maquete antes da dança. A apresentação pública distribuía méritos por Casa e apagava os lugares onde a responsabilidade era compartilhada.

Uma funcionária entregou a Amália o cartão da dança de abertura. O par designado era Caetano.

Ele parou diante dela sem oferecer a mão.

— Você não precisa aceitar.

— A recusa entra como quebra de condução?

— Entra. Eu assino a quebra.

— E o que aparece no registro oficial?

— Imprensa recusou condução de abertura.

— Sem dizer que a condução escolheu roupa e par.

— Sem dizer.

Amália escreveu a frase no verso do cartão antes de aceitar. A decisão de dançar não apagaria a condição preparada.

Amália olhou para as flores de Cheia suspensas sobre a pista.

— Se eu aceitar, pergunte antes de tocar. Sem giro fechado. Se eu disser parar, termina.

— Termina.

Ela colocou a mão sobre a dele. Na pista, Caetano indicou o alto das costas.

— Aqui?

— Pode.

A mão permaneceu no lugar autorizado. Ele acompanhou o tempo dela, não a música. As flores abriram uma a uma, espalhando cheiro doce sobre os casais.

Amália percebeu marcas discretas no piso. Cada casal ocupava o ângulo que entregava à câmera interna um enquadramento completo. Quando ela se deslocou meio passo para fora, a funcionária Doural sinalizou correção. Caetano não a corrigiu.

— A imagem vale mais que a dança.

— A imagem será usada para mostrar adesão entre Casas e imprensa.

— Mesmo sem autorização de publicação?

— O convite inclui registro interno. Uso externo exige confirmação.

Amália guardou o horário. Já aprendera o valor das confirmações exibidas depois.

— Isso é Cheia coletiva?

— É ambiente preparado para celebração.

— Resposta Doural.

— É a única que posso dar no meio da pista.

Amália viu Isadora observando. A dança oferecia outra versão para a noite: jornalista e herdeiro sob flores, romance no lugar de Beatriz.

— Querem esta imagem.

— Querem.

— Por que veio?

— Outro Aramã tocaria sem perguntar.

— Hoje essa é sua medida de virtude?

— É minha medida de dano.

O compasso exigia aproximação. Caetano deixou um palmo entre os corpos e quebrou a estética da sequência.

— Errou de propósito.

— Acertei porque você perguntou sobre a flor.

A música terminou com espaço para recusa entre os dois. Amália retirou a mão e seguiu para a maquete.

Perto de uma ponte em miniatura, encontrou um canal curvo com três entradas. Abriu no celular o desenho de Gilberto: mesma dobra, mesmas águas, mesma margem ligada à passagem de Celina.

Na maquete, a rua chamava-se Alameda dos Pioneiros.

Helena apareceu com uma taça vazia.

— Essa curva tinha outro nome? — perguntou Amália.

— Iracema.

— Iracema Mairu?

Helena cobriu a placa nova com a taça.

— Procure quem perdeu o nome antes de procurar a Casa.

Amália comparou os dois desenhos por pontos fixos: ponte, três entradas, curva maior e distância até o cais. A correspondência não dependia de reação vegetal ou da memória de Helena. Estava na geometria.

Isadora aproximou-se com dois funcionários quando Amália fotografou a rua.

— A peça será recolhida.

— No meio da apresentação?

— Há risco de fluxo.

Caetano permaneceu do outro lado da maquete.

— Retirar peça central durante circulação cria risco de registro — disse.

Isadora não podia levar a miniatura sem confirmar que a forma antiga importava. Deixou-a.

Um técnico apagou a luz sobre a Alameda dos Pioneiros. Helena colocou a taça vazia diante do sensor, fazendo a iluminação retornar por segurança de circulação. Amália fotografou a placa, a curva e a mão do técnico ainda próxima ao painel.

— Quem autorizou o nome novo?

— Conselho de abertura — respondeu Helena.

— Em qual ata?

— Na que usa mapa sem habitantes.

Era indicação, não prova. Amália anotou a ata como próxima busca.

Amália salvou a fotografia em dois lugares e saiu antes da segunda apresentação. Num corredor de água, comparou maquete e caderno.

Turi subiu pelo corrimão. Caetano apareceu depois e ficou junto à porta do salão.

— Helena disse Iracema.

O nome atingiu o rosto dele.

— Sei que Iracema Mairu existiu. Sei que a rua dela virou prova perigosa quando Celina apareceu no caderno.

— Qual mentira sua ainda falta?

Caetano olhou para as flores fechadas.

— Minha Casa ensinou fronteira como cerimônia. No corpo, é fome.

— Fome de quê?

— De presença. De água marcada. De manter perto o que responde.

Uma flor de Cheia abriu. Depois outra. O cheiro concentrou-se entre eles.

— A flor abriu — disse Amália.

— Eu sei.

— E se eu pedir que fique?

— Pergunto de novo fora deste corredor.

Ela deu um passo. A vontade não vinha apenas das flores. Essa certeza não a tornava livre do ambiente.

— Pode chegar.

Caetano avançou um passo e parou.

— Mais um?

— Sim.

Amália tocou a manga dele. A mão de Caetano pousou aberta na cintura, sem puxar. As flores abriram por inteiro.

O beijo ficou a uma respiração de acontecer.

Caetano retirou a mão e recuou.

— Cheia subiu demais.

— Para mim ou para você?

— Para os dois. Em mim, pior.

— Eu autorizei.

— Autorizou cercada por flor, baile, fome e uma cidade tentando transformar você em cena.

Amália olhou para a porta de serviço, contou a distância e percebeu a posição das câmeras do salão. Mesmo fora da pista, continuavam dentro da narrativa que Doural preparara. O recuo de Caetano preservava um limite e também impedia que a cidade obtivesse a imagem final.

— Você não faz parte dessa cidade?

— Faço.

A resposta encerrou o beijo antes do toque. Amália sentiu raiva, desejo e alívio sem escolher um deles.

Turi tentou segui-la quando ela pegou a bolsa. Caetano ofereceu o punho e esperou o companheiro decidir voltar.

— Não apareça na mesma rota — disse Amália.

— Não vou.

Ela alcançou a porta de serviço e virou uma vez.

— Parar foi certo. Certo ainda não basta para eu querer ficar perto.

— Eu sei.

Jana aguardava no fim do corredor com uma caixa de ferramentas.

— O baile acabou cedo?

Amália conferiu no próprio corpo se a distância já permitia resposta.

— Mostre uma porta que não faça visita guiada.

Atrás dela, Solariana dançava sobre uma rua antiga e chamava a própria memória de fundação.

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