O Baile de Fundação
A Casa Doural enviou vestido, sapatos e uma bolsa onde o caderno de Gilberto não cabia.
— O baile tem registro oficial — explicou a funcionária.
— Então preciso tomar duas vezes mais notas.
Amália escondeu a cópia do relatório no forro da bolsa e levou o celular. O salão das águas altas exibia fotografias de uma cidade em construção. Numa delas, operários de botas limpas posavam diante de degraus gastos por anos de uso.
A legenda datava a implantação seis anos antes. Amália ampliou o degrau: a borda arredondada vinha de passagem repetida, não de acabamento novo. Ao fundo, uma árvore adulta atravessava o arco que a fotografia chamava de módulo recém-instalado.
Um guia explicou construção avançada e reaproveitamento de materiais.
— Reaproveitados de onde?
— De estruturas internas do próprio projeto.
— Então havia estruturas antes da implantação.
O guia indicou a equipe técnica e pediu que ela seguisse. Amália fotografou legenda, desgaste e árvore no mesmo quadro.
Na entrada do salão, uma mesa lateral trazia cartões dos convidados. O de Beatriz estava virado para baixo. Isadora recolheu-o quando percebeu Amália.
— Ela recusou o baile ou vocês retiraram a presença?
— Visitantes em adaptação podem ser dispensados.
— Quem dispensou?
Isadora respondeu com um convite à pista. A ausência de autoria entrou nas notas de Amália.
Isadora subiu ao palco.
— Celebramos o encontro entre investimento, floresta protegida, arquitetura avançada e tradição escolhida.
A maquete acendeu por Casas: jardins Verdan, salões Doural, adaptação Silar, registros Valcárcel e fronteiras Aramã.
Cada luz escondia as áreas de sobreposição. Sala 3 não aparecia em Verdan, Doural, Silar ou Valcárcel. O quarto sem janela surgia apenas como hospedagem técnica. A biblioteca Mairu estava ausente.
Amália fotografou a maquete antes da dança. A apresentação pública distribuía méritos por Casa e apagava os lugares onde a responsabilidade era compartilhada.
Uma funcionária entregou a Amália o cartão da dança de abertura. O par designado era Caetano.
Ele parou diante dela sem oferecer a mão.
— Você não precisa aceitar.
— A recusa entra como quebra de condução?
— Entra. Eu assino a quebra.
— E o que aparece no registro oficial?
— Imprensa recusou condução de abertura.
— Sem dizer que a condução escolheu roupa e par.
— Sem dizer.
Amália escreveu a frase no verso do cartão antes de aceitar. A decisão de dançar não apagaria a condição preparada.
Amália olhou para as flores de Cheia suspensas sobre a pista.
— Se eu aceitar, pergunte antes de tocar. Sem giro fechado. Se eu disser parar, termina.
— Termina.
Ela colocou a mão sobre a dele. Na pista, Caetano indicou o alto das costas.
— Aqui?
— Pode.
A mão permaneceu no lugar autorizado. Ele acompanhou o tempo dela, não a música. As flores abriram uma a uma, espalhando cheiro doce sobre os casais.
Amália percebeu marcas discretas no piso. Cada casal ocupava o ângulo que entregava à câmera interna um enquadramento completo. Quando ela se deslocou meio passo para fora, a funcionária Doural sinalizou correção. Caetano não a corrigiu.
— A imagem vale mais que a dança.
— A imagem será usada para mostrar adesão entre Casas e imprensa.
— Mesmo sem autorização de publicação?
— O convite inclui registro interno. Uso externo exige confirmação.
Amália guardou o horário. Já aprendera o valor das confirmações exibidas depois.
— Isso é Cheia coletiva?
— É ambiente preparado para celebração.
— Resposta Doural.
— É a única que posso dar no meio da pista.
Amália viu Isadora observando. A dança oferecia outra versão para a noite: jornalista e herdeiro sob flores, romance no lugar de Beatriz.
— Querem esta imagem.
— Querem.
— Por que veio?
— Outro Aramã tocaria sem perguntar.
— Hoje essa é sua medida de virtude?
— É minha medida de dano.
O compasso exigia aproximação. Caetano deixou um palmo entre os corpos e quebrou a estética da sequência.
— Errou de propósito.
— Acertei porque você perguntou sobre a flor.
A música terminou com espaço para recusa entre os dois. Amália retirou a mão e seguiu para a maquete.
Perto de uma ponte em miniatura, encontrou um canal curvo com três entradas. Abriu no celular o desenho de Gilberto: mesma dobra, mesmas águas, mesma margem ligada à passagem de Celina.
Na maquete, a rua chamava-se Alameda dos Pioneiros.
Helena apareceu com uma taça vazia.
— Essa curva tinha outro nome? — perguntou Amália.
— Iracema.
— Iracema Mairu?
Helena cobriu a placa nova com a taça.
— Procure quem perdeu o nome antes de procurar a Casa.
Amália comparou os dois desenhos por pontos fixos: ponte, três entradas, curva maior e distância até o cais. A correspondência não dependia de reação vegetal ou da memória de Helena. Estava na geometria.
Isadora aproximou-se com dois funcionários quando Amália fotografou a rua.
— A peça será recolhida.
— No meio da apresentação?
— Há risco de fluxo.
Caetano permaneceu do outro lado da maquete.
— Retirar peça central durante circulação cria risco de registro — disse.
Isadora não podia levar a miniatura sem confirmar que a forma antiga importava. Deixou-a.
Um técnico apagou a luz sobre a Alameda dos Pioneiros. Helena colocou a taça vazia diante do sensor, fazendo a iluminação retornar por segurança de circulação. Amália fotografou a placa, a curva e a mão do técnico ainda próxima ao painel.
— Quem autorizou o nome novo?
— Conselho de abertura — respondeu Helena.
— Em qual ata?
— Na que usa mapa sem habitantes.
Era indicação, não prova. Amália anotou a ata como próxima busca.
Amália salvou a fotografia em dois lugares e saiu antes da segunda apresentação. Num corredor de água, comparou maquete e caderno.
Turi subiu pelo corrimão. Caetano apareceu depois e ficou junto à porta do salão.
— Helena disse Iracema.
O nome atingiu o rosto dele.
— Sei que Iracema Mairu existiu. Sei que a rua dela virou prova perigosa quando Celina apareceu no caderno.
— Qual mentira sua ainda falta?
Caetano olhou para as flores fechadas.
— Minha Casa ensinou fronteira como cerimônia. No corpo, é fome.
— Fome de quê?
— De presença. De água marcada. De manter perto o que responde.
Uma flor de Cheia abriu. Depois outra. O cheiro concentrou-se entre eles.
— A flor abriu — disse Amália.
— Eu sei.
— E se eu pedir que fique?
— Pergunto de novo fora deste corredor.
Ela deu um passo. A vontade não vinha apenas das flores. Essa certeza não a tornava livre do ambiente.
— Pode chegar.
Caetano avançou um passo e parou.
— Mais um?
— Sim.
Amália tocou a manga dele. A mão de Caetano pousou aberta na cintura, sem puxar. As flores abriram por inteiro.
O beijo ficou a uma respiração de acontecer.
Caetano retirou a mão e recuou.
— Cheia subiu demais.
— Para mim ou para você?
— Para os dois. Em mim, pior.
— Eu autorizei.
— Autorizou cercada por flor, baile, fome e uma cidade tentando transformar você em cena.
Amália olhou para a porta de serviço, contou a distância e percebeu a posição das câmeras do salão. Mesmo fora da pista, continuavam dentro da narrativa que Doural preparara. O recuo de Caetano preservava um limite e também impedia que a cidade obtivesse a imagem final.
— Você não faz parte dessa cidade?
— Faço.
A resposta encerrou o beijo antes do toque. Amália sentiu raiva, desejo e alívio sem escolher um deles.
Turi tentou segui-la quando ela pegou a bolsa. Caetano ofereceu o punho e esperou o companheiro decidir voltar.
— Não apareça na mesma rota — disse Amália.
— Não vou.
Ela alcançou a porta de serviço e virou uma vez.
— Parar foi certo. Certo ainda não basta para eu querer ficar perto.
— Eu sei.
Jana aguardava no fim do corredor com uma caixa de ferramentas.
— O baile acabou cedo?
Amália conferiu no próprio corpo se a distância já permitia resposta.
— Mostre uma porta que não faça visita guiada.
Atrás dela, Solariana dançava sobre uma rua antiga e chamava a própria memória de fundação.