A Dívida de Fundação
A folha foi lida na praça com campos íntimos cobertos. Cada linha reunia nome, Casa cobradora, Casa beneficiada, bem transferido, voto retirado e estado corporal.
Sabina Rios perdera a herança para manutenção de muro. Olavo Itá fora convertido em pedra de contenção. Marta Benvira financiara abastecimento de jardim. Jonas de Baixo permanecera útil nos canais depois de ser declarado morto.
No caso de Sabina, a transferência trazia valor, obra e assinatura Valcárcel, sem documento de morte. O muro ainda existia e possuía placa de doação voluntária. Jana fotografara a placa naquela manhã.
Olavo aparecia em folha de serviço Itá durante seis anos posteriores ao encerramento. A expressão convertido em pedra designava transferência de salário e voto para a obra de contenção; o texto não provava transformação corporal.
Amália corrigiu a leitura antes que a praça transformasse linguagem contábil em lenda.
Nair apresentou a própria ficha:
— Eu limpava o salão onde decidiam que eu não tinha cadeira.
O total antigo registrava quarenta e três nomes sem corpo, dezessete contas vivas, vinte e nove votos suspensos e cento e seis transferências de herança. Nove movimentações ocorreram depois do anúncio da abertura.
Jana separou pessoas, atos e valores para impedir soma enganosa. Um mesmo nome podia aparecer em mais de uma transferência; uma conta viva não equivalia a pessoa livre; voto suspenso não informava duração.
Amália publicou apenas os totais cuja base podia ser mostrada. Os demais ficaram marcados para perícia.
O cálculo não distribuía inocência por Casa. Valcárcel validava ausência e convertia herança; Aramã guardava canais, fome e retornos; Itá removia datas e fechava pedra; Verdan fornecia insumos; Doural administrava permanência e imagem. Registros Mairu mostravam proteção e correção em algumas linhas, silêncio e participação em outras.
Representantes das Casas receberam cópias dos lançamentos ligados a suas funções. Verdan contestou dois lotes; Itá pediu perícia nas datas; Mairu reconheceu três silêncios administrativos. As contestações entraram sem suspender proteção imediata.
Iracema tentara retirar Celina da cobrança. Amália impediu Teobaldo de convertê-la em devedora:
— Sou testemunha do desvio, não instrumento de pagamento.
Nair acrescentou que proteção praticada por Iracema não transferia função a Celina ou Amália. O ato deveria ser reconhecido sem recriar a cobrança que tentara interromper.
Jana organizou cópia pública e arquivo protegido. Nome, Casa, cobrança e consequência poderiam ser divulgados; cartas pessoais, endereços, crianças e detalhes clínicos exigiriam consentimento.
A praça exigiu julgamento conjunto. Helena declarou inválida qualquer sessão transferida ao salão alto enquanto pessoas encerradas permanecessem diante da prova.
Uma moradora da Casa de Baixo pediu que a praça não fosse chamada de unidade popular. Havia disputas entre famílias baixas, participação em cobranças e pessoas que temiam exposição.
Nair concordou:
— Comparecer dá o direito de falar e responder. Pureza nunca esteve em questão.
Três pontos no chão formaram o Conselho Sem Mesa:
vítimas e representantes;
documentos e perícia;
defesa identificada e registrada.
Cada ponto recebeu duas pessoas responsáveis por preservar ordem e cópias. Nenhuma delas podia ocupar simultaneamente prova e defesa no mesmo caso.
Nair assinou pela Casa de Baixo. Davi, Salma, Teresa e Beatriz organizaram grupos de testemunhas. Um auxiliar Valcárcel tentou enviar a parceiros externos uma mensagem sobre neutralizar liderança local antes de efeito dominó. A tela foi fotografada e entrou como tentativa de interferência.
O auxiliar informou que copiara texto recebido de um superior. Seu nome entrou na cadeia de envio, sem ser apresentado como autor da ordem. Helena solicitou preservação do aparelho e dos registros externos.
Caetano registrou presença de Aramã sem título e sem pedido de sigilo. Augusto recusou assinar ao lado dele. Teobaldo recusou reconhecer o Conselho; Helena registrou a recusa.
— Se a cidade cair, cada morte será responsabilidade de vocês — ameaçou Teobaldo.
A fala entrou no bloco de risco às testemunhas.
Amália propôs as primeiras medidas:
— Nair recebe proteção. A dívida será pública com dados íntimos cobertos. Nenhuma pessoa deixa a praça com nomes de vítimas sem registrar destino e finalidade.
Nair corrigiu:
— Proteção escolhida por mim. Não guarda Aramã disfarçada.
O Conselho aprovou a redação com a correção e designou duas pessoas da Casa de Baixo e uma observadora Silar escolhida por Nair.
Também aprovou cópia externa diária, lista pública de acessos e proibição de retirada unilateral de documentos. A medida valeria até o primeiro julgamento formal.
O Conselho Sem Mesa abriu três frentes: proteção imediata, crimes recentes da abertura e responsabilização pela fundação.
Amália permaneceu como testemunha e responsável por seu material jornalístico. Não recebeu voto, cargo ou poder de ordenar a cidade.
A Casa de Baixo estava encerrada somente nos arquivos das Casas altas. Entre seus moradores havia conflitos, responsabilidades e versões diferentes, agora sustentadas por pessoas presentes e documentos que contradiziam o encerramento.