A Assinatura Anulada
Helena impediu a abertura imediata da estufa. Uma mesa limitada pediria o laudo de Nara antes da entrada; a recusa ou o documento precisavam existir em ata.
A audiência ocorreu numa sala sem difusor, flores ou canal de Cheia. Tomás escolheu cadeira próxima à saída e recusou água oferecida por Doural. Uma técnica Silar não ligada ao contrato mediu o ar antes da leitura.
Jana e Mirtes guardaram a E-7. Amália levou a ficha de Pino, a amostra e o lote de Tomás Vieira.
Na sala de audiência, o Grão Claro ligado ao contrato de Tomás conservava uma faixa opaca sobre o nome. O registro ótico datava a alteração na hora da assinatura. A aferição Silar confirmou Cheia ambiental acima do limite ornamental no mesmo período.
Teobaldo contestou a mesa e tentou invalidar Amália por seu vínculo com Caetano.
— Registre a objeção inteira — exigiu ela. — Teobaldo Doural questiona meu testemunho por vínculo pessoal e não contesta o filtro, o lote, a ficha de Pino nem a alteração do Grão Claro.
Helena acrescentou que a faixa do Grão era registro de protocolo, não avaliação da vontade de Tomás. A anulação dependeria do Código de Cheia, da medição ambiental e da ausência de confirmação neutra.
Caetano confirmou o vínculo. Acrescentou que a exposição ambiental também obrigava os dois a reverem lembranças e decisões. Não pediu que a cidade tratasse sentimento como prova de consentimento.
Tomás bateu o contrato na mesa.
— Eu assinei taxas e cláusulas. Não autorizei uma flor a escolher meu horário.
Ele continuava comprador de privilégio e parte interessada na abertura, além de ter sido submetido a uma condição ocultada. As duas posições entraram no registro.
O Código de Cheia exigia confirmação posterior em ambiente neutro. Sem examinador independente das Casas envolvidas, a assinatura ficou anulada até nova manifestação de vontade. Teobaldo recusou assinar a ata; a recusa foi registrada.
Tomás pediu cópia sem compromisso de renovar o contrato.
— Posso querer o cais e ainda recusar o método usado para obter minha assinatura.
Amália registrou as duas posições sem chamá-lo de aliado.
Helena produziu três cópias antes que o assistente Doural recolhesse o original.
Quando voltaram à E-7, uma mulher batia do outro lado.
Beatriz estava no chão da estufa, com vergões nos braços e uma pulseira de retorno arrancada. Acordara em ambiente perfumado e fugira de uma nova avaliação. Pediu que todo anfitrião se mantivesse longe.
Caetano obedeceu e ficou no corredor externo. Não transformou o recuo em virtude; comprou tempo diante dos guardas enquanto Jana conduzia Beatriz por uma passagem sem perfume.
As etiquetas da estufa ligavam Flor de Cheia às câmaras de assinatura, Erva de Vazão aos quartos de avaliação e Raiz de Estada aos termos de permanência. Numa caixa de descarte, restos de filtros reuniam os códigos do setor Benvira, do jardim Doural e da sala de Tomás.
Favo escolheu os corredores de pouca luz. Perto do fundo, uma haste de Raiz de Estada tocou a roupa de Beatriz e deixou seiva transparente. Jana cortou a ponta sem alcançar a pele.
Liana indicara o trajeto que Favo conhecia pelas rondas. Jana seguia o mapa e mantinha a porta de retorno marcada. O companheiro não escolhia a rota de saída de Beatriz.
— Não deixe isso perto de mim.
— Não deixarei.
Guardas exigiram entrada.
— Tragam a ordem assinada — respondeu Caetano, do lado de fora.
Num armário antigo, Amália encontrou caixas anteriores ao anúncio de Solariana. As etiquetas traziam nomes de famílias, sem códigos de visitantes. Uma ficha presa à Flor de Cheia conservava apenas parte de uma linha:
Celina: retirada da cobrança por solicitação Mairu
O sobrenome e o destino tinham sido rasgados.
Amália fotografou ficha, caixa, presilha e selo. Não retirou o papel. A prova de Celina não podia interromper a saída de Beatriz.
Anotou apenas setor, posição e horário. A leitura integral esperaria área neutra e autorização de Celina, se ela pudesse ser localizada.
Jana abriu um túnel de irrigação. Favo foi à frente; Beatriz escolheu cada apoio e saiu atrás da lavanderia, onde funcionárias esperavam com roupa neutra e água lacrada.
— Não me devolvam.
— Hoje, ninguém devolve você — disse Amália.
Beatriz escolheu permanecer na lavanderia durante duas horas, com telefone externo e uma funcionária indicada por ela. Recusou Casa anfitriã, avaliação imediata e fotografia dos vergões. Jana registrou cada condição.
Acima delas, Caetano assinou a responsabilidade pelo atraso. Helena reteve os guardas usando a ata de Tomás. A anulação de um contrato não reparava Pino, Beatriz ou os demais expostos. Criava um precedente: riqueza, linhagem e desejo deixavam de bastar quando o ar fora manipulado.
Amália guardou três cópias da foto de Celina.
Antes de avançar para a Casa de Baixo, precisava ouvir a mulher cujo nome Solariana tentara reduzir a uma ficha rasgada.